A SOCIOLOGIA DAS CIDADES

Alfredo Meia

A SOCIOLOGIA
DAS CIDADES

EDITORIALESTAmPA

FICHA TCNICA

Titulo original: Sociologia delle citt Traduo: Eduardo Sal Capa: 
Jos Antunes Fotocomposio: b&f Grficos - Corroios Impresso e 
acabamento: Rolo & Filhos - Artes Grficas, Lda.
1.* edio: Janeiro de 1999 Depsito legal n.* 130874199 ISBN 972-33-
1390-1 Copyright: 0 La Nuova Italia Scientifica, Roma, 1996

Representada pela Agncia Literria Eulama
0 Editorial Estampa, Lda., Lisboa, 1999

para a lngua portuguesa

NDICE

PREFCIO         
.....................................................................
.......................... 11

1. A SOCIOLOGIA, O ESPAO, A CIDADE                         
...................................................  13

1. 1.    Sociologia urbana: o objectivo e os limites                          
............................  13

1. 1. 1. O estranho tema da sociologia urbana                               
.....................  13
1. 1. 2. Uma disciplina de limites atenuados                           
......... ................  16
1.2.     As mltiplas tradies da sociologia urbana                           
...........................  20

1. 2. 1. Clssicas, correntes, tradies nacionais ..                             
...............  20
1. 2. 2. O filo ecolgico                
........................................ ...............  22
1. 2. 3. A abordagem crtica e conflitualista                           
.........................  26
1. 2. 4. O debate sobre cidade e modernidade                               
......................  30
1. 2. 5. Perspectivas de uma sociologia espacialista                                 
............  33
1. 3. Os campos de pesquisa da sociologia urbana                                 
.........................  35

1. 3. 1. Os focos de interesse                   
.................................................  35
1. 3. 2. A pesquisa emprica                   
..................................................  38

2. O URBANISMO, A ECONOMIA, O DESENVOLVIMENTO                                       
............................  43

2. 1.    A cidade, fenmeno econmico                        
.............................................  43

2. 1. 1. Urbanismo e revolues econmicas                               
........................  43
2. 1. 2. Cidade, desenvolvimento, subdesenvolvimento                                    
.........  46
2.2.     O urbanismo no Sul do mundo                       
...............................................  50

2. 2. 1. As abordagens interpretativas                        
...................................  50
2. 2. 2. Os factores do crescimento urbano                             
...........................  56
2. 2. 3. O duplo circuito da economia urbana                              
.......................  59
2.3.     O urbanismo fordista e a sua crise                     
..........................................  60

2. 3. 1. As ondas longas do desenvolvimento industrial                                     
....  60
2. 3. 2. Os ciclos do crescimento urbano                          
...............................  64
2. 3. 3. O perodo fordista e o papel da cidade                             
.....................  67
2. 3. 4. A crise do modelo fordista                     
.........................................  71

2.4.    O novo papel econmico da cidade                   
........................................ 74
2. 4. 1. O espao econmico ps-fordista                     
.............................. 74
2. 4. 2. Redes globais e sistema econmico urbano                          
.............. 79
2. 4. 3. Redes econmicas, redes urbanas                      
............................. 81
2. 4. 4. Os factores de concentrao das actividades                          
............ 84
2. 4. 5. Sistemas urbanos e milieux inovadores                       
.................... 88

3. A CIDADE, OS CONFLITOS, O GOVERNO                      
............................................... 91

3. 1.   A crise do governo urbano              
...................................................... 91

3. 1. 1. A cidade, local de governo                
........................................ 91
3. 1. 2. O pacto fordista e o welfare state                  
.............................. 93
3. 1. 3. O welfare state e a cidade                
......................................... 96
3. 1. 4. Crise do welfare state, neoliberalismo

e governo urbano           
...................................................... 98
3.2.    Velhos e novos desequilbrios sociais                 
..................................... 102

3. 2. 1. O esgotamento do pacto fordista                   
............................... 102
3. 2. 2. A estrutura social urbana                 
.......................................... 104
3. 2. 3. As novas pobrezas urbanas                 
....................................... 108
3. 2. 4. O dualismo urbano               
................................................... 111
3.3.    Competio e participao na poltica urbana                      
....................... 114

3. 3. 1. Coligaes de interesses e o governo urbano                         
.......... 114
3. 3. 2. Sentido cvico, participao, conflito                  
....................... 117
3. 3. 3. Planificao e polticas urbanas                  
............................... 121
4. A CIDADE, OS SMBOLOS, AS CULTURAS                      
.............................................. 127

4.1.    A condio ps-moderna e a cidade                  
....................................... 127

4. 1. 1. As dimenses da cultura                
............................................ 127
4. 1. 2. O esprito do ps-moderno                 
........................................ 129
4. 1. 3. Ps-moderno e cidade                
............................................... 130
4. 1. 4. A experincia quotidiana da cidade contempornea                         
..... 134
4.2.    Diferenas, culturas, movimentos                   
........................................... 137

4. 2. 1. A exploso das diferenas                 
......................................... 137
4. 2. 2. A cidade e as diferenas de gnero                    
........................... 141
4.3.    Smbolos urbanos e identidade                
............................................... 144

4. 3. 1. Identidade e sentimentos de pertena                    
........................ 144
4. 3. 2. A construo social do patrimnio simblico                         
........... 147
4.4.    O espao pblico e a esttica da cidade                 
.................................. 150

4. 4. 1. Espaos pblicos e comunicao                     
.............................. 150
4. 4. 2. A cidade como texto              
.................................................. 153
4. 4. 3. A esttica da cidade ps-moderna                    
............................. 155
4.5.    As polticas culturais urbanas             
................................................. 157

4. 5. 1. As fases da interveno pblica                  
................................ 157
4. 5. 2. Cultura e regenerao urbana                   
.................................. 160

5. O TERRITRIO URBANO                
.....................................................................
. 163
5. 1.   A cidade, fenmeno ecolgico                 
............................................... 163

5.  1. 1.   Perspectivas da anlise ecolgica                
............................. 163
5.  1.2.    Desurbanizao e reurbanizao                  
.............................. 165
5.  1.3.    Suburbanizao e gentrification                
................................ 168
5.  1.4.    As novas correntes migratrias                
................................. 172
5.  1.5.    Dinmicas e medidas da segregao                     
........................ 174
5.  1.6.    As populaes urbanas             
.............................................. 180
5.  1. 7.   Esquemas ecolgicos da cidade ps-industrial                       
......... 183
5.2.    Novas abordagens  ecologia urbana                    
..................................... 187

5. 2. 1. Os modelos das dinmicas ecolgicas                       
...................... 187
5. 2. 2. A cidade como sistema auto-organizado                        
................... 190
5.3.    A cidade e o seu ambiente              
...................................................... 192

5. 3. 1. Ambiente exterior e ambiente interior                     
....................... 192
5. 3. 2. Qualidade de vida e sustentabilidade da cidade                          
....... 197
5. 3. 3. Cidade e comportamentos                  
......................................... 200

6. PARA UMA SOCIOLOGIA ESPACIALISTA                     
................................................. 205

6.1.    O nvel micro: o espao da aco social                   
............................. 205

6. 1. 1. A estratgia terica espacialista                 
............................... 205
6. 1. 2. A aco situada, o corpo e o espao                     
......................... 208
6. 1. 3. O comportamento em pblico                     
................................... 212
6. 1. 4. As molduras espaciais da aco                    
............................... 214
6.2.    O nvel meso: a interaco social no espao                      
....................... 217

6. 2. 1. Interaces em co-presena e  distncia                       
................. 217
6. 2. 2. A coordenao das interaces                    
................................. 220
6. 2. 3. mbitos locais e regionalizao                  
................................ 223
6.3.    O nvel macro: redes sociais e sociedades locais                       
................ 226

6. 3. 1. As redes sociais e o seu espao                 
................................. 226
6. 3. 2. As sociedades locais             
.................................................. 230
6. 3. 3. Integrao horizontal e vertical                 
................................ 233

BIBLIOGRAFIA         
.....................................................................
.................... 237

NDICE REMISSIVO         
.....................................................................
.............. 251

PREFCIO

Este livro prope-se oferecer uma introduo - em forma de manual aos 
principais temas de debate da sociologia urbana, procurando definir 
os campos de pesquisa que, na opinio de quem escreve, se apresentam 
dotados de maior interesse e actualidade. Dado que se decidiu manter 
o texto dentro de dimenses relativamente limitadas, a sua redaco 
comportou opes nada fceis na seleco dos argumentos e contributos 
para ilustrar. Torna-se, pois, oportuno referir agora, rapidamente, 
essas opes, para que o leitor saiba desde o incio o que encontrar 
e, sobretudo, o que no encontrar nos prximos captulos.

Os principais critrios adoptados para a estruturao do livro so, 
portanto, os seguintes:

1. Prestou-se predominantemente ateno aos problemas provocados pelo 
urbanismo contemporneo, com aluso especial ao mundo mais 
desenvolvido. As referncias histricas so, por conseguinte, muito 
reduzidas e, na maioria dos casos, limitam-se aos aspectos 
estritamente relacionados com as temticas da fase actual. As 
prprias problemticas das cidades do Sul do mundo esto concentradas 
em poucas pginas, cuja insuficincia  declarada abertamente.

2. Embora no faltem referncias a autores e escolas especficas, a 
tnica incide mais nos contedos da anlise sociolgica do que nas 
alternativas tericas ou nas questes de mtodo. , em particular, 
assaz reduzida (quase exclusivamente limitada ao captulo inicial) a 
aluso  histria da disciplina e aos seus autores clssicos.

3. Embora esteja sublinhada a dificuldade de definir teoricamente a 
cidade como alvo de estudo num mbito rgido, o desenvolvimento 
debrua-se de preferncia sobre problemas dos centros urbanos, com 
referncia implcita sobretudo aos de dimenso mdia-grande. Esto, 
portanto, ausentes ou apenas mencionados temas como a relao cidade-
campo ou as questes tpicas das pequenas cidades.

11

A linha que liga entre si esses critrios selectivos  a inteno de 
oferecer um texto compacto, focalizado em temas da relao que se 
instaura, no actual perodo, entre as grandes transformaes sociais 
que acompanham a transio para a sociedade ps-industrial e as 
modificaes igualmente essenciais do fenmeno urbano.

Na fase de preparao e redaco do livro, tive oportunidade de 
discutir com vrios colegas e amigos, dos quais recebi indicaes e 
estmulos que me foram de grande ajuda, ainda que - como  bvio - a 
responsabilidade do resultado final me pertena inteiramente. Desejo, 
pois, agradecer, a esse respeito, a Antonio Tosi, Arnaldo Bagnasco, 
Carmen Belloni, Nicola Negri e os amigos do SERC, todo o pessoal da 
redaco de Appunti di politica territorial, Angelo Detragiache, 
Giorgio Preto, Max Pellegrini, Ester Chicco, Antida Gazzola e 
numerosas outras pessoas (entre elas, os meus alunos da Faculdade de 
Arquitectura) que no me  possvel enumerar aqui, as quais, sem o 
saber, me forneceram indicaes teis.

Agradeo de uma forma muito particular a Luca Davico, que, alm de 
ter escrito o texto dos quadros, me acompanhou passo a passo em todo 
o trabalho, discutindo comigo em vrios momentos, fornecendo-me 
indicaes bibliogrficas e revendo a redaco final dos captulos e 
da bibliografia com grande ateno e sentido prtico.

12

1. A SOCIOLOGIA, O ESPAO, A CIDADE

1. 1. Sociologia urbana: o objectivo e os limites

1. 1. 1. O estranho tema da sociologia urbana

Quem abre um manual, qualquer que seja a disciplina abordada, espera 
encontrar nas primeiras pginas algumas indicaes claras que o 
ajudem a

orientar-se no percurso que se prepara para empreender. Conta, em 
particular, ler imediatamente uma definio sinttica do tema do 
estudo da disciplina em causa e encontrar depois algumas 
consideraes sobre os limites do campo disciplinar, as afinidades e 
interseces que acontecem com

outras cincias. Se, por conseguinte, como  o caso do presente 
texto, o manual enfrenta um campo de pesquisa que recai no mbito das 
cincias sociais, o leitor j possuidor de alguma familiaridade com 
estas ltimas esperar encontrar tambm algumas aluses  histria da 
disciplina, aos

seus clssicos,  sua articulao em escolas, correntes ou 
aproximaes paradigmticas - na realidade, como se sabe, a histria 
de todas as cincias sociais est articulada em correntes que tiveram 
um desenvolvimento paralelo, estabelecendo com frequncia relaes de 
competio, ocupando-se de temas no comparveis ou abordando o mesmo 
tema segundo perspectivas concorrentes.

Este texto, dedicado  sociologia urbana, tenta igualmente no 
desiludir por completo essas razoveis expectativas, pelo que se abre 
um captulo que aborda, de algum modo, os argumentos atrs referidos. 
Todavia, como se poder verificar dentro em pouco, este captulo no 
contm definies demasiado rgidas, nem delimitaes excessivamente 
esquemticas dos files analticos e dos campos de estudo. Isto deve-
se ao carcter um pouco atpico da sociologia urbana: a sua tradio, 
assim como a sua actual condio, caracterizam-se pela compreenso de 
interpretaes e orientaes dis-

13

formes, que, se nos esforssemos por fornecer respostas demasiado 
unvocas s perguntas iniciais do leitor, correramos o risco de 
oferecer uma imagem parcial ou mesmo deformada.

Comecemos, antes de mais, por raciocinar sobre a definio do tema de 
estudo.  primeira vista, no apresenta dificuldades: a sociologia 
urbana  urna linha de pesquisa situada no mbito das disciplinas 
sociolgicas e

tem como elemento de particularidade interessar-se pelas cidades nos 
seus

aspectos sociais. E esses aspectos referem-se ao comportamento dos 
indivduos que compem a populao urbana, s relaes que instauram 
entre si e com indivduos externos,  formao de grupos sociais, 
movimentos, instituies, organizaes, s ligaes de 
complementaridade ou de competio existentes entre todas estas 
entidades, at  configurao da prpria cidade como sistema social.

Tudo isto  verdade, mas ainda insuficiente para esclarecer a
natureza do tema de estudo e os contedos da disciplina.

Que , na realidade, uma cidade? O mnimo que se pode dizer  que se

trata de um tema assaz singular e difcil de definir ou mesmo de 
explicar claramente em termos sintticos, mas tambm (para empregar o 
termo definir no seu significado etimolgico) de delimitar dentro 
de certos parmetros que o distinguem de outros temas. Embora se tome 
apenas o aspecto imediatamente perceptvel da cidade, ou mesmo se se 
considera como uma localizao de populao que vive e actua num 
ambiente construdo, j no se revela cmodo separar com nitidez a 
cidade do seu oposto. Com efeito, se isso ainda era possvel no caso 
da cidade antiga ou medieval, separada do campo por muralhas e obras 
de fortificao, no aparece qualquer critrio de delimitao por si 
evidente no caso do aglomerado urbano contemporneo, que, em alguns 
casos, se estende num raio de dezenas de quilmetros, incluindo 
parques, reas de agricultura intensa, zonas de habitao de fraca 
densidade, at se confundir por vezes com a pertena a outros 
aglomerados.

No entanto,  ainda mais difcil a delimitao da cidade de um ponto 
de vista sociolgico, ou seja, se se considerar um sistema social. 
Nesta perspectiva levanta-se imediatamente um problema: em que 
consiste o sistema-cidade e quais so os seus elementos distintivos 
em relao a outros sistemas? No se pode certamente responder  
pergunta falando da cidade como de um subsistema de um sistema 
social mais amplo, como, por exemplo, a economia ou a poltica, pois 
esses correspondem a partes da sociedade que desenvolvem uma funo 
especializada e complementar em

relao  de outras partes. Tambm no se pode dizer que a cidade 
corresponde a um campo particular de actividade social, como, por 
exemplo, a arte ou a literatura. Como sistema social, a cidade 
caracteriza-se, sobretudo, pelo facto de ser um sistema inteiro 
(Della Pergola, 1990), completo

14

em todas as suas partes, tal como o so os macrossistemas que 
constituem o tema de interesse privilegiado da teoria sociolgica 
geral. Inclui, portanto,

o seu prprio sistema intrnseco e os diversos subsistemas 
especializados: na cidade, podem definir-se subsistemas de relaes 
econmicas ou polticas, tal como h possibilidade de reconhecer a 
presena de mbitos de actividade diferenciados - pode falar-se, por 
exemplo, de manifestaes artsticas tipicamente urbanas ou mesmo 
ligadas a um contexto urbano especfico.

Numa palavra, a cidade  um sistema social global. Mas, se  assim,

como se distingue a sociologia que se ocupa dos sistemas urbanos da 
que estuda, em termos gerais, os sistemas sociais de grandes 
dimenses, como os nacionais ou internacionais? Qual a diferena de 
contedos entre a disciplina especializada (a sociologia urbana) e 
a mais geral (a sociologia tout-COUrt)? Posta nestes termos, a 
pergunta corre o risco de resultar embaraosa: se se tenta compilar 
um elenco dos ternas de interesse potenciais da pesquisa sociolgica 
sobre a cidade, cedo se descobre que ele se sobrepe quase 
completamente ao elenco anlogo que compreende os temas de interesse 
de toda a cincia sociolgica. Alis, isso no nos deve surpreender: 
a partir do momento em que uma cidade  uma totalidade (e no uma

parte), trata-se de uma realidade polidrica e rica de facetas. 
Portanto, ao

menos como princpio, no existe um tema de relevo sociolgico que 
no seja tambm relevante para o socilogo urbano.

Estando, pois, as coisas neste p, a resposta  pergunta precedente 
deve tentar enveredar por outro caminho. Na realidade, o sinal 
caracterstico da sociedade urbana - em toda a sua histria, mas 
ainda mais nas suas actuais perspectivas -  a concentrao selectiva 
da ateno no num aspecto em particular da vida social mas na 
dimenso espcio-temporal, ou ambiental, de todos os aspectos que ela 
apresenta. Deste ponto de vista, a sociologia urbana tem uma vocao 
especfica: no deve jamais esquecer que, quando se fala de sociedade 
ou mesmo da actuao social, da interaco, do conflito, etc., se 
alude a fenmenos que ocorrem em pontos bem definidos do espao e do 
tempo, que so condies dos recursos e dos vnculos presentes no 
ambiente e, ao mesmo tempo, contribuem para transformar continuamente 
o mbito destes ltimos.

Naturalmente, esta ateno pela dimenso espacial dos factos 
sociais no equivale imediatamente a uma ateno exclusiva pela 
cidade: o mbito urbano no  o nico espao significativo para a 
sociedade moderna. Contudo, no subsistem dvidas de que ele ocupa um 
papel de primeiro plano, por uma dupla ordem de motivos. Por um lado, 
uma grande parte do mundo contemporneo tem efectivamente as 
conotaes especiais do mundo urbanizado; por outro, muitos dos 
fenmenos sociais, cuja difuso j est desligada do espao fsico da 
cidade, so influenciados por factores que tm uma origem urbana, sob 
o perfil material ou simblico.

15

Portanto, se  verdade que a ateno pelo espao no , nem pode ser, 
monoplio exclusivo da sociedade urbana,  igualmente exacto que 
constitui um seu trao fortemente caracterizador. Alm disso, se  
correcto afirmar - como se fez h pouco - que a cidade constitui um 
tema de definio difcil,  tambm oportuno acrescentar que 
representa um ponto de observao privilegiado, de que  possvel 
estudar, com o particular interesse que suscitam os factos concretos 
vistos no seu contexto peculiar, fenmenos e processos que ocupam um 
lugar de primeiro plano nas sociedades actuais. Todas estas 
consideraes talvez no equivalham a uma definio clara e distinta 
do papel da sociologia urbana, mas podem bastar para explicar o 
sentido da tarefa cientfica em que est empenhada a disciplina a que 
este livro  dedicado.

1. 1. 2. Uma disciplina de limites atenuados

Precisamente porque tem um objectivo polidrico e difcil de encerrar 
dentro de limites certos, a sociologia urbana possui limites 
atenuados e o

destino de compartilhar, pelo menos parcialmente, o seu tema com 
muitas outras disciplinas, ligadas a ela em maiores ou menores graus 
de afinidade. Em poucas palavras,  chamada quase obrigatoriamente  
colaborao interdisciplinar. Com efeito, ao contrrio do que se 
poderia afirmar de outras regies do continente cientfico, a 
sociologia urbana no possui um ncleo duro prprio, ou seja, um 
quadro de problemas e teorias interpretativas de sua pertena 
exclusiva, em tomo do qual se possam dispor, mais para o

exterior, reas de limites. Compe-se, por assim dizer, quase 
inteiramente de reas de fronteira - para empregar uma metfora 
geogrfica, assemelha-se a certos pases cuja forma alongada e 
irregular faz com que a maior parte das regies esteja mais prxima 
de capitais de pases estrangeiros do que da sua.

Como facilmente se depreende, esta condio representa, sem dvida, 
um elemento de fraqueza - no por acaso, do interior da comunidade 
cientfica dos socilogos urbanos ergueram-se vozes de crtica que 
sustentaram a necessidade de refutar a legitimidade da disciplina 
como ramo autnomo da sociologia, ou mesmo de a superar na direco 
de vrias orientaes de pesquisa. No entanto, sob outros perfis, 
essa mesma fraqueza pode ser interpretada como um motivo de interesse 
- compor-se de reas de fronteira significa igualmente ter acesso 
fcil a um variegado patrimnio cientfico externo e ser obrigada a 
enfrentar isso quase permanentemente. E o que acontece (para retomar 
a comparao atrs abordada) em muitos pases que, embora 
politicamente fracos e difceis de governar, so com
frequncia ricos de fermentos culturais e abertos a influncias 
mltiplas.

16

Com a condio, evidentemente, de que nenhuma forma anacrnica de 
chauvinismo os conduza a um encerramento estril nos seus prprios 
limites.

Fora de metforas, tentaremos agora oferecer uma classificao 
simples das relaes que a sociologia urbana estabelece com outras 
disciplinas, utilizando um esquema que parte dos sectores cientficos 
dotados de maiores afinidades para chegar aos idealmente mais 
distantes. Deste modo, pretende-se propor - por via indirecta - uma 
indicao esquemtica do campo de pesquisa da sociologia urbana.

1. Outras disciplinas sociolgicas de carcter territorial. Entre 
elas, devemos citar em primeiro lugar a sociologia rural, que tem 
origens em

grande parte coincidentes com as da sociologia urbana e ocupa um 
espao, por assim dizer, complementar. Interessa-se pelas posies 
que tm na agricultura a base econmica principal - a sua evoluo 
recente , pois, de tal ordem que a torna numa sociologia virada para 
o estudo no s de um tipo particular de contexto territorial, mas 
tambm de um sector de actividade especfico, o qual, embora tendo 
reduzido fortemente a sua dimenso ocupacional nos pases mais 
desenvolvidos, mantm um papel econmico muito mais do que marginal.

Uma grande ateno pelas posies de pequena dimenso, ou mdio-
pequena,  tambm tpica da sociologia das comunidades locais (ou dos 
estudos de comunidades), que se concentra, porm, na sua maior parte, 
nos

aspectos socioculturais, estilos de vida e formas de organizao 
social.

A sociologia da habitao tem uma origem relativamente recente e

ocupa-se em particular das relaes entre os indivduos que compem 
as

unidades residenciais (de tipo familiar ou outro) e entre estas 
ltimas e as

estruturas fsicas que do resposta s necessidades habitacionais.

Por conseguinte, a sociologia do ambiente ocupa um lugar  parte. 
Trata-se de uma disciplina de estatuto ainda relativamente incerto, 
embora de perspectivas particularmente interessantes, em funo do 
relevo crescente que as questes ambientais possuem no mundo 
contemporneo. Relaciona-se com o territrio e tambm com a cidade, 
entendida como sistema em que se estabelece um equilbrio frgil 
entre actividades sociais e

recursos naturais.

Alm disto, podem referir-se alguns campos de estudo mais 
especficos, centrados em torno de fenmenos ou actividades 
particulares - a esse respeito existe, por exemplo, a sociologia das 
migraes ou do turismo.

No seu conjunto, todos estes ramos da sociologia (e outros que 
poderamos enumerar, como, por exemplo, a sociologia regional) formam 
o

que por vezes se designa como sociologias do territrio (Guidicini, 
Scid,
1993-1994).

17

2. Disciplinas no sociolgicas de carcter territorial. Verificam-se 
grandes interseces entre a sociologia urbana e a geografia e, em 
particular, a geografia urbana e regional - abrangem muitos temas de 
pesquisa, sobretudo os relativos  distribuio dos grupos sociais e 
das actividades no espao urbano. Em referncia a algumas orientaes 
actuais, sobretudo no mbito da geografia americana de inspirao 
radical, a distino entre os dois campos disciplinares parece 
reduzir-se quase completamente.

D-se tambm uma grande proximidade com a antropologia cultural, a 
etnologia, as disciplinas que estudam caracteres do folclore e da 
tradio dos vrios contextos. No seu interior, consolidam-se files 
de pesquisa dedicados ao estudo da cidade, com particular aluso aos 
aspectos culturais, anlises de comportamento, rituais e 
interpretao das estruturas relacionais de rede. Para definir esta 
linha de pesquisa (que partilha com a sociologia urbana algumas 
referncias fundamentais a textos clssicos), emprega-se com 
frequncia o rtulo de antropologia urbana.

No campo econmico, convm assinalar a presena de duas importantes 
subdisciplinas (de resto, intimamente ligadas entre si): a economia 
do espao e a economia urbana. Neste caso, as regies de fronteira 
com a sociologia dizem essencialmente respeito  teoria do 
rendimento, s teorias da localizao das actividades industriais e 
de servio no espao urbano, s teorias interpretativas da 
distribuio hierrquica dos centros urbanos do territrio e aos 
modelos de anlise dos processos migratrios e da mobilidade 
quotidiana da populao.

Para a interpretao sociolgica da cidade tem, tambm, grande relevo 
a pesquisa historiogrfica, com particular ateno pela histria 
urbana. Assim, uma base essencial para compreenso dos fenmenos 
relativos aos caracteres basilares da populao urbana e a sua 
dinmica  representada por mtodos analticos prprios da 
demografia. Por fim, tambm a psicologia desenvolveu recentemente 
linhas de estudo que oferecem elementos de interesse para o socilogo 
urbano. Referem-se aos processos de interaco entre os indivduos e 
o ambiente construdo - a apropriao cognitiva e emotiva dos 
ambientes urbanos por parte do cidado, as reaces deste ltimo aos 
estmulos provenientes das multides, do trfego, etc. Para designar 
estes campos de pesquisa, emprega-se muitas vezes o rtulo de 
psicologia ambiental (Stokols, Altman, 1987).

3. Disciplinas de carcter normativo e projectual. Alm das 
disciplinas de orientao essencialmente analtica, a sociologia 
urbana colabora frequentemente (embora em modalidades variveis em 
funo dos contextos e das alternncias sociais e polticas) com as 
cincias e tcnicas que se configuram como instrumentos para a 
resoluo de determinados problemas da cidade, para a normalizao e 
controlo dos seus processos de transformao e incentivao do seu 
desenvolvimento.

18

No tocante a estes ltimos, podemos traar uma classificao sumria 
em trs grandes subconjuntos.

O primeiro diz respeito a teorias e tcnicas pertencentes ao campo 
das cincias econmicas, polticas e da administrao, as quais so 
interessantes para as anlises sociolgicas sobre a cidade com vista 
 predisposio de polticas de interveno no sistema das 
actividades econmicas, na distribuio do rendimento e na 
organizao dos servios sociais e outros sectores, ainda que tomem 
em considerao a dimenso socioeconmica e funcional da cidade.

O segundo compreende disciplinas de orientao projectual, que 
derivam essencialmente da matriz cultural  politcnica da 
engenharia e da urbanstica. O seu campo de interveno  o das 
estruturas da construo civil, das infra-estruturas pontuais e 
globais, dos transportes e comunicaes e de outros sectores, ainda 
que se refiram  dimenso fsica da cidade, sem descurar os 
caracteres estticos.

O terceiro e ltimo compe-se de disciplinas de vrias extraces 
(econmica, arquitectnica, de engenharia, geolgica, biolgica, 
mdico-epiderrolgica) interessadas na qualidade do ambiente urbano 
e na sua

influncia na qualidade da vida e sade dos cidados. Ao contrrio 
dos dois subconjuntos atrs analisados, este ainda no se apresenta 
como uma entidade orgnica e consolidada cientificamente e mantm 
relaes predominantemente ocasionais com a sociologia urbana. No 
entanto,  convico unnime de que a sua relevncia est destinada a 
crescer num futuro prximo.

Como se v, a rede das relaes interdisciplinares em que a 
sociologia urbana est envolvida  particularmente complexa e 
articulada. Por outro lado, o mesmo se pode dizer acerca de muitas 
das disciplinas citadas um

pouco atrs: no , pois, por acaso, que, neste terreno, se 
formulassem com maior ou menor xito diversas propostas de 
institucionalizao de campos de pesquisa multidisciplinares. Entre 
eles, um dos mais importantes  a

Regional Science [em portugus, cincia regional], um campo de 
pesquisa que compreende, como subconjunto, o relativo aos estudos 
sobre a cidade. As cincias regionais so organizadas numa associao 
de nvel mundial (a Regional Science Association International), com 
numerosas seces continentais e nacionais que contam com a 
contribuio de economistas espaciais, peritos de modelstica 
matemtica aplicada aos sistemas espaciais, gegrafos e a 
participao mais ocasional de socilogos urbanos e
regionais, urbanistas e outros estudiosos. Apesar da relativa 
consolidao, no faltam as consideraes crticas sobre o estatuto 
cientfico deste mbito
- uma das mais frequentes diz respeito  falta de um aprofundamento 
suficiente, no seu seio, das dimenses sociais das estruturas 
espaciais (Bailly, Coffey, 1994).

19

1. 2. As mltiplas tradies da sociologia urbana

1.2.1. Clssicas, correntes, tradies nacionais

Precisamente em virtude das caractersticas ilustradas nas pginas 
precedent&s-@",podemos retomar falando de um estatuto epistemolgico 
fraco da disciplina -, a sociologia urbana no apresenta uma 
estrutura cientfica unitria, nem a sua histria pode ser 
representada como uma acumulao progressiva de teorias e anlises 
empricas que convergem para formar um corpo orgnico. E to pouco  
possvel simplificar a sua articulao interna dizendo que est 
presente nela um nmero definido de paradigmas alternativos, cada um 
dos quais prope uma interpretao diferente em relao aos outros, 
mas voltada para um conjunto de fenmenos sociais alvo de uma 
definio unvoca. Ao invs, a sociologia urbana apresenta-se como um 
agregado heterogneo de conceitos e resultados de pesquisa, 
relacionados com questes e problemas formulados de maneira 
diferente, surgidos, no decurso de debates, em momentos 
historicamente distintos, assim como em contextos nacionais com 
problemas sociais e territoriais nem sempre comparveis.

Para recorrer mais uma vez a uma metfora, poder-se-ia dizer que 
seria intil pensar encontrar na biblioteca de qualquer universidade 
uma sala em que os textos de referncia para a sociologia urbana 
estivessem organizados segundo uma ordem facilmente legvel. , pelo 
contrrio, mais provvel que esses livros se encontram em diversas 
salas, organizados segundo critrios que dependem fortemente dos 
pases em que a biblioteca se encontra. Com efeito, nos vrios 
pases, no s existem tradies diferenciadas no que se refere aos 
estudos sociolgicos sobre a cidade como h tambm vrios modos de 
representar a histria da disciplina e atribuir-lhe pais-fundadores 
ou autores clssicos.

A esse respeito, poder-se-ia efectuar uma distino sumria entre 
duas tradies, pelo menos parcialmente diferentes: uma  a americana 
- partilhada, com acentuaes especficas, pelos socilogos ingleses 
e os dos outros pases anglfonos - e a outra a que poderemos definir 
como europeia-continental, dentro da qual se devem, todavia, 
reconhecer perfis especficos para as sociologias francesa, alem e 
italiana.

1. Segundo a primeira tradio, testemunhada por uma multiplicidade 
de textos, sobretudo americanos, o momento de fundao da sociologia 
urbana coincide com a formao, junto da Universidade de Chicago, de 
uma escola que prope uma abordagem baseada na aplicao ao estudo da 
cidade de conceitos e princpios deduzidos das economias animal e 
vegetal.

20

A partir desta escola, reconhece-se a constituio de uma mainstream, 
ou corrente principal, da sociologia urbana, identificada com os 
desenvolvimentos da abordagem ecolgica, nas suas vrias ramificaes 
e na multiplicidade das suas aplicaes empricas: o elemento 
caracterstico  representado pelo interesse prevalecente para o 
estudo da articulao social do espao urbano e para as suas 
transformaes no tempo.

A par desta mainstream, reconhece-se, obviamente, a existncia de 
outros pontos de vista: por exemplo, a abordagem que concentra a 
ateno nos aspectos culturais do modo de vida urbano e a abordagem 
crtica (hoje, na maioria das vezes, designada pela expresso 
political economy) que privilegia as anlises da estrutura econmica, 
das desigualdades sociais e conflitos polticos. Se, porm, 
excluirmos livros e revistas inspirados explicitamente neste ltimo 
paradigma, o trao especfico da sociologia urbana continua 
fundamentalmente identificado com a anlise ecolgica, em que se 
baseiam muitos dos estudos sobre o campo que poderemos considerar de 
rotina.

2. Na tradio da Europa continental, ao contrrio, embora sem 
ignorar o papel da escola de Chicago, as origens da sociologia urbana 
reportam-

-se com frequncia a alguns decnios de antecedncia. Com efeito, -
lhe atribudo o discutido oitocentista-tardio sobre as antteses 
entre a sociedade tradicional e a moderna e sobre a anttese paralela 
entre as respectivas manifestaes espaciais, a comunidade rural e a 
cidade industrial. Nesse debate, traa-se um conjunto de conceitos e 
anlises que, embora na sua heterogeneidade, permite definir uma 
interpretao da cidade como o lugar em que se apresentam na sua 
forma mais pura os caracteres sociais e culturais considerados 
tpicos da modernidade. Alm disso, pode-se sublinhar como, no nosso 
continente, a anlise sociolgica da cidade mantm, no sculo XX, um 
contacto mais estreito com a reflexo filosfica, nas suas vrias 
correntes, do historicismo ao marxismo, do estruturalismo  
fenomenologia.

Por outro lado, como j se referiu, para alm de alguns traos 
comuns, a sociologia urbana europeia apresenta grandes distines com 
base em contextos nacionais - tm origem nas diferenas do substrato 
cultural e so acentuados pelas atitudes polticas contrastantes dos 
vrios pases, das diversas formas que os problemas territoriais e 
urbanos apresentam em qualquer contexto e, tambm, no facto de a 
literatura especializada se fragmentar em funo dos mbitos 
lingusticos.

Particularmente rica em histria  a sociologia urbana francfona, a 
qual, nos anos 60 e 70, teve um papel essencial ao consolidar-se a 
nvel internacional o filo crtico de origem marxista, mais tarde 
influente na

political economy. A sociologia urbana alem apresenta-se ligada a 
uma aluso frequente a temas de interesse filosfico, mas tambm a um

21

empenhamento concreto na programao social e territorial. A 
italiana, em contrapartida, concentrou-se com frequncia em temas 
propostos pela realidade social do pas, com a sua presena 
especfica de equilbrios entre a dinmica urbana do Norte, a do 
Meio-Dia e a das reas de industrializao difusa (a chamada Terceira 
Itlia).

Vale a pena j observar que o ponto de vista adoptado neste livro se 
aproxima mais da tradio europeia-continental do que da anglo-
americana, tal como foram agora esquematizadas sinteticamente. Na 
verdade, no se

conceder aqui qualquer prioridade especfica ao ponto de vista 
ecolgico e procurar-se- antes evidenciar como os resultados mais 
significativos das anlises dos socilogos urbanos esto, na sua 
maioria, ligados a perspectivas analticas distantes daquela, mas 
antes entre si heterogneas.

Com esta premissa, tentaremos agora propor - todavia - uma 
articulao da disciplina em correntes e aproximaes, com uma rpida 
anlise destas ltimas, na tentativa de oferecer pontos de referncia 
que conjuguem estudos clssicos e linhas de reflexo actuais. No 
tocante s posies mais distantes no tempo, apenas trataremos de 
referncias rpidas e, claro, insuficientes para uma compreenso 
aprofundada. De qualquer modo, convm salientar que existe uma 
abundante literatura (mesmo em lngua italiana) sobre clssicos da 
sociologia urbana - alguns textos essenciais encontram-se citados na 
bibliografia do presente volume.

1. 2. 2. O filo ecolgico

Comecemos o nosso percurso com algumas breves referncias  histria 
e desenvolvimentos do filo ecolgico da sociologia urbana. J se

disse que, no mbito anglo-americano, , na maioria das vezes, 
apresentado como um paradigma original e fundador da disciplina. No 
entanto, em sede de avaliao historiogrfica, poder-se-ia 
acrescentar que essa apresentao se reveste, pelo menos, de um 
aspecto paradoxal. Com efeito, os autores da escola de Chicago e, em 
particular, o seu fundador, Robert E. Park, embora revelando algumas 
oscilaes de pensamento, no entenderam dar vida a um ramo da 
sociologia especializado no estudo da cidade, mas antes

a uma ecologia humana acordada como disciplina separada, ou seja, 
como a teoria da adaptao das sociedades humanas ao ambiente e, como 
tal, premissa e base das disciplinas sociais verdadeiras e prprias 
(Bagnasco,
1992a). O seu papel de pais-fundadores da sociologia urbana (ou, pelo 
menos, de uma sua corrente), portanto, embora representando um dado 
de facto, se se observa a histria de uma perspectiva actual, no 
corresponde a um projecto cientfico declarado.

22

De resto, esta situao encontra um interessante paralelismo no que 
se verifica, num perodo de tempo no muito distante no passado, na 
sociologia francesa. Tambm aqui, na verdade, por obra de Durkheim,  
apresentada uma proposta terica que coloca no centro das reflexes a 
relao entre as

sociedades humanas e o ambiente. E, mesmo nesta proposta, a ideia 
guia  a

de fundar uma teoria (a morfologia social) que se coloca fora da 
sociologia e

representa antes um mbito de estudo interdisciplinar. A ideia 
central  a de unificar e sintetizar os saberes de diversas 
disciplinas (sociologia, geografia, histria, etc.) em volta do 
estudo do comum substrato em que  repousa a vida social - o que  
determinado por factores como a dimenso geogrfica de um territrio, 
a configurao das fronteiras, a massa e densidade de uma populao e 
a tipologia dos aglomerados populacionais.

Ao contrrio da escola de Chicago, a durkheimiana no exerceu - pelo 
menos no que se refere a esta ideia especfica - uma influncia 
duradoura na sociologia urbana, embora trabalhos e estudos de 
particular interesse se inspirassem na morfologia social (por 
exemplo, os de Mauss). Mantm-se, todavia, significativo o facto de 
as duas propostas apresentadas nos primeiros decnios do sculo 
actual para favorecer a reflexo sobre os aspectos ambientais e 
espaciais da organizao social no advogarem a causa de

uma nova sociologia especializada, mas as sementes de uma nova 
disciplina pr-sociolgica.

Voltando ao contexto dos Estados Unidos, a evoluo do filo 
ecolgico da sociologia urbana poderia ser esquematizada aludindo a 
trs fases essenciais.

1. A primeira compreende os estudos dos mesmos autores que aparecem 
como fundadores da escola ecolgica clssica (em particular, Park, 
Burgess e McKenzie), mas tambm um complexo de pesquisas, muitas das 
quais de carcter monogrfico, efectuadas nos anos 20 e 30 por 
socilogos influenciados directamente pela abordagem de 
investigadores de Chicago (como, entre outros, Anderson, Thrashert, 
Wirth, Zorbaugh, Cressey). Alguns conceitos, elaborados no seio desta 
perspectiva, so mencionados no ESQUEMA 1. 1. Em termos cronolgicos, 
esta fase abarca um perodo, aproximadamente, entre 1914 e 1940.

2. A segunda fase corresponde aos anos 40 e caracteriza-se por uma
orientao crtica nos confrontos das ideias originrias da ecologia 
humana. Em alguns trabalhos, a crtica assume tons mais radicais -  
o caso de um importante texto de Alihan (1938) que coloca em 
confronto os fundamentos tericos da escola de Chicago. Ao invs, 
noutros emergem sobretudo contributos destinados a salientar factores 
explicativos da forma social da cidade, descurados pelos fundadores 
daquela escola - verifica-se, por exemplo, nos trabalhos de Firev 
(1946, 1947), em que se salienta a importncia dos valores simblicos 
e afectivos na determinao do comportamento

23

residencial dos grupos sociais e, por conseguinte, na sua 
distribuio nas vrias partes da cidade.

3. A terceira inicia-se anos 50 e prossegue, talvez com menor vigor, 
at hoje. No seu momento inicial, colocam-se os trabalhos de Quinn 
(1950) e sobretudo de Hawley (1950), os quais, segundo alguns, 
poderiam ser considerados a base terica de uma escola ecolgica 
neo-ortodoxa. Mais ou menos no mesmo perodo, surgem alguns 
contributos importantes sob o perfil do aperfeioamento dos mtodos 
de investigao estatstica, com o objectivo de definir e descrever 
as desigualdades scio-residenciais entre os bairros urbanos. 
Revestem-se de particular relevo a social area analysis (Shevky, 
Wlliams, 1949; Shevky, BelI, 1955), a utilizao da cluster 
analysis, inaugurada por Tryon (1955) e a aplicao das anlises 
factoriais, que do lugar a uma abordagem ainda hoje seguida, 
rotulada com frequncia com a expresso ecologia factorial.

A propsito dos desenvolvimentos mais recentes do filo ecolgico, 
pode observar-se que, sobretudo a partir de fins dos anos 70, se 
registou uma larga difuso de instrumentos informticos para a 
elaborao estatstica dos dados que permitiram o acesso a mtodos 
complexos sob o perfil matemtico a investigadores no 
especializados. Os efeitos desta difuso podem ser considerados mais 
ou menos positivamente segundo o ponto de vista de observao. Com 
efeito, se se privilegiam os aspectos quantitativos, pode concluir-se 
que isso produziu uma elevada quantidade de estudos, em vrios 
contextos nacionais (incluindo o italiano, onde, porm, este tipo de 
estudos  praticado por poucos autores, fornecendo assim a matria-
prima para tentativas de comparao dos resultados. Ao contrrio, se 
se considera o relevo terico desses estudos, conclui-se que, na 
maioria dos casos,  assaz escasso - os trabalhos tm com frequncia 
um carcter repetitivo e estandardizado ou, ento, se contm 
elementos de originalidade, colocam-se essencialmente a nvel 
metodolgico e no consideram a compreenso sociolgica do fenmeno 
urbano.

ESQUEMA 1. 1. A ecologia humana

Na histria do pensamento sociolgico - mas, ainda mais, filosfico -
, est presente um filo de reflexes sobre a relao intercorrente 
entre sociedades humanas e ambiente natural em que vivem.

A perspectiva analtica de autores como Park, Burgess e McKenzie 
(pertencentes  considerada Escola Ecolgica de Chicago) consiste em 
interpretar a cidade atravs de ideias assumidas a propsito da 
biologia evolucionista - a aco e a deslocao no territrio das 
diversas populaes so interpretadas  luz de conceitos como luta 
pela vida ou conflito.

24

Os xitos desses conflitos podem gerar domnio (de um grupo social 
sobre outro) ou uma assimilao progressiva.

Na obra fundamental dos autores de Chicago (Park, Burgess, McKenzie, 
1925), foi introduzida a expresso reas naturais- ou seja, no 
planificadas e derivadas de processos selectivos entre os grupos 
humanos -, zonas urbanas em que somente os indivduos mais 
apropriados se salientam e afirmam. Nessas reas, verifica-se, 
segundo esta interpretao, a repetio peridica de fenmenos de 
invaso (por exemplo, em perodos de vagas migratrias) e de 
sucesso, ou mesmo de troca de populaes em alguns bairros urbanos.

A presena de reas naturais faz com que, alm disso, o territrio 
urbano possa ser representado atravs de modelos espaciais: Burgess, 
por exemplo, pretende poder ler o crescimento urbano em obedincia a 
um esquema de crculos concntricos, desde o mais central (o Central 
Business District) s periferias dos pendulares. Segundo Hoyt, a 
cidade desenvolver-se-ia de preferncia por sectores (caracterizados 
por diversos usos do solo e de nveis desiguais do rendimento 
urbano), enquanto para Harris e Uliman se verificaria a presena de 
muitos ncleos diferentes e especializados,, (com uma actividade 
econmica ou um grupo tnico predominante, etc.).

Por conseguinte, Park define na aco humana um nvel bitico (devido 
ao qual os indivduos entram em competio e em luta pela mera 
existncia) e outro cultural (em que os actores sociais 
compartilham ideais e mantm, apesar do impulso natural contrrio, 
uma disciplina e ordem moral que os torna capazes de ultrapassar 
aquilo a que ns costumamos chamar Natureza) - a componente bitica 
apresenta-se, por assim dizer, como uma espcie de base em que se 
insere a cultural.

Alis, este tipo de argumentao crtica aparece assaz difusa junto 
de uma notvel parte dos socilogos urbanos contemporneos. A par 
dessa, apresenta-se por vezes outra, que acusa o mainstream ecolgico 
de oferecer uma imagem tranquilizadora da realidade urbana, 
utilizvel com facilidade com objectivos politicamente conservadores. 
No entanto, a respeito dessa crtica, convm adiantar uma observao. 
Por um lado,  sem dvida verdade que muitos dos que hoje praticam a 
pesquisa ecolgica de forma estandardizada oferecem uma imagem da 
cidade predominantemente descritiva e, por assim dizer, assptica, em 
que desequilbrios sociais e desigualdades perante o poder esbarram 
na tentativa de enaltecer a objectividade dos indicadores 
estatsticos. Por outro, contudo, como refere Flanagan (1993), no 
existem motivos intrnsecos pelos quais o aparelho metodolgico da 
ecologia factorial no se possa utilizar para salientar causas 
potenciais de conflito ou solicitar intervenes de reequilbrio. Por 
conseguinte, a eventual caracterizao conservadora de muitas 
pesquisas pertencentes ao filo ecolgico no  uma resultante 
necessria da abordagem seguida, mas deve estar ligada s escolhas de 
valor dos investigadores individuais.

25

1. 2. 3. A abordagem crtica e conflitualista

No panorama internacional da sociologia urbana contempornea, a 
corrente que mais robusteceu a sua consistncia nos ltimos 20 anos, 
quase a

discutir a primazia ao mainstream ecolgico,  a que assume uma 
posio crtica nos confrontos da cidade, que procura documentar a 
presena de factores de conflito e indicar alternativas de 
desenvolvimento possveis.

Esta abordagem crtica acha-se hoje empenhada numa actividade de 
anlise e denncia dos problemas levantados pelo urbanismo ps-
industrial. Todavia, isso insere-se sobre um filo de reflexo 
crtica acerca da cidade que apresenta uma longa tradio e tem 
origens porventura mais antigas que as da ecologia humana. Na 
verdade, o eixo principal em que esta corrente se move  o do 
pensamento marxista e socialista, e, portanto, as suas origens 
remontam a meados do sculo XIX, aos pensamentos de Marx e Engels 
sobre o significado social do urbanismo na

primeira fase industrial e at s apreciaes paralelas exprimidas, 
sobre o

mesmo fenmeno, pelas vrias formas oitocentistas de pensamento 
utpico e socialista. Em volta deste eixo colocaram-se, nos vrios 
perodos da histria subsequente, contributos de natureza 
heterognea, que reflectem as vrias articulaes que o marxismo 
assumiu depois de Marx. Assim, em todas as pocas, mas sobretudo no 
perodo mais recente, juntam-se tambm contributos de derivaes no 
marxistas, que revelam atitudes de crtica com frequncia radical nos 
confrontos da cidade capitalista (cf. ESQUEMA 1. 2).

Podemos agora tentar definir alguns momentos salientes dos assuntos 
deste filo.

1. Em Marx, o juzo sobre a cidade est ligado intimamente aos temas 
de fundo do materialismo dialctico - por conseguinte, ela  
examinada sobretudo como lugar de mxima concentrao dos efeitos e 
contradies do modo de produo capitalista e lugar de incubao de 
processos que conduziro  sua superao. Alguns trabalhos de Engels 
chamam, porm, a

ateno para as modalidades concretas que, no ambiente urbano, assume 
a vida da classe operria e das camadas mais pobres da populao. Por 
outro lado, os seus escritos constituem importantes exemplos de um 
esforo de documentao sobre as condies de vida nas cidades 
industriais - em especial, nos seus aspectos mais problemticos -, 
que encontram expresso nas prprias pesquisas de grande envergadura, 
conduzidas por autores de diferentes orientaes idealistas, como a 
promovida em Inglaterra por Booth (1892).

2. Nos primeiros decnios do sculo xX, o pensamento marxista no 
concede uma ateno prioritria ao fenmeno urbano. No obstante, 
alguns

26

contributos importantes sobre temas referidos, directa ou 
indirectamente,  cidade provm de autores de inspirao marxista - 
trata-se, contudo, sobretudo de figuras que se situam fora do ramo 
mais ortodoxo. Ao contrrio do que acontecia no sculo XIX, j no  
apenas a dimenso socioeconmica da cidade que atrai a aten o 
crtica - os aspectos relativos s transformaes culturais,  
esttica e ao desenvolvimento de novos instrumentos de comunicao e 
novos estilos de vida impem-se como temas centrais de reflexo para 
autores como Benjamin, Horkheimer, Adorno e Froram. Paralelamente, 
formaram-se outras tradies de crtica urbana de orientao no 
marxista em vrios pases - por exemplo, nos Estados Unidos, tem um 
grande peso a anlise precoce do fenmeno do consumismo nos estudos 
de Veblen ou nos dos Lynd, ou mesmo a interpretao histrico-crtica 
do urbanismo, desenvolvida por Murnford.

3. At este ponto, porm, as posies citadas movem-se 
substancialmente fora do mbito da sociologia urbana, entendida como 
disciplina especfica, e no intervm nela de forma significativa.

ESQUEMA 1. 2. Conflito e crtica social

Karl Marx e Friedrich Engels colocam a tnica nos elementos 
antagnicos e conflituais presentes no interior das cidades e das 
sociedades industriais.

A histria da Humanidade - como sustentam os dois autores alemes no 
Manifesto do Partido Comunista (1848) - constituiu sempre um estendal 
de dutas e confrontaes entre classes de opressores e classes de 
oprimidos. Nas sociedades modernas - industriais e capitalistas -, o 
contraste de classe simplificou-se, reduzindo-se no fundamental entre 
burgueses (detentores dos meios de produo) e proletrios (os 
modernos operrios, possuidores unicamente da sua fora de trabalho).

Na cidade, os contrastes de classe concentram-se e tornam-se mais 
evidentes e agudos, pois o proletariado multiplica-se e adensa-se em 
massas cada vez maiores,,. O ponto de vista dialctico com que Marx e 
Engels interpretam a realidade social condu-los a supor uma superao 
do modo de produo capitalista atravs de uma sublevao 
revolucionria do proletariado (depois de este tomar conscincia da 
sua fora), que deveria conduzir  construo de novas formas sociais 
inspiradas em princpios do socialismo e depois do comunismo.

Uma perspectiva crtica (em verso no marxista) nos confrontos das 
sociedades industriais modernas conota tambm um filo da sociologia 
norte-americana ao longo de todo o sculo xx.

Muitos dos mitos culturais dos Estados Unidos so postos duramente em 
causa, por exemplo, por autores como Thorstein Veblen (1899), crtico 
nos confrontos da sociedade de consumo e das metrpoles modernas, 
habitadas por indivduos em emulao contnua, obsecados por possuir 
e consumir bens mais vistosos (ou seja, para poder mostrar,> aos 
outros), mais do que efectivamente teis.

27

Segundo Robert e Helen Lynd (1929), as pesquisas empricas no campo 
(como as conduzidas por eles prprios em Muncie, pequena cidade 
americana designada nos seus trabalhos com o nome convencional de 
Middietown) demonstrariam o carcter ideolgico da democracia dos 
Estados Unidos: para alm das declaraes de princpio, a estrutura 
social daquele pas emerge fortemente classista, enquanto a cultura, 
religio, poltica e mass media se apresentam como instrumentos de 
manipulao funcionais para os interesses dos grupos socioeconmicos 
dominantes. Manipulao dos indivduos com que tambm concorda 
Charles Wright Milis (1951), particularmente atento a evidenciar o 
carcter sem personalidade de uma classe mdia americana (os 
colarinhos brancos), cada vez mais aptica, embora no destituda 
de princpios ticos e de defesas morais.

As condies para um encontro-desencontro entre a abordagem marxista 
e a sociologia urbana amadureceram no incio dos anos 70, num cenrio 
que abarca as cidades de muitos pases investidos de grandes 
movimentos de protesto, que, em certa medida, indicam a presena de 
um novo movimento de rotura na evoluo das sociedades industriais. 
Desenvolve-se um renovado interesse dos marxistas pela cidade em 
Frana, sobretudo na escola sociolgica influenciada pelo pensamento 
do filsofo Louis Althusser. Neste aspecto,  uma figura de primeiro 
plano a de Castells, socilogo de origem catal, que actuou primeiro 
em Frana e depois nos

Estados Unidos, o qual, na sua anlise do fenmeno urbano (Castells, 
1972) 1, tenta colocar em evidncia a ligao que se instala entre a 
dimenso econmica (considerada determinante, pelo menos em ltima 
instncia), a poltica e a das prticas ideolgicas.

4. Alguns anos mais tarde, graas  traduo inglesa dos trabalhos 
dos socilogos althusserianos, a influncia destes ltimos (de resto, 
j em declnio na Europa Ocidental) estende-se ao campo anglo-saxo 
e, em particular, ao americano. A combina~se com outras modalidades 
do pensamento crtico, como, por exemplo, com as que emergem dos 
movimentos sociais de fins dos anos sessenta. O resultado  o 
nascimento de um novo (e compsito) paradigma interpretativo, hoje 
designado pela expresso political economy, ou urban political 
economy. Trata-se, alis, de uma expresso empregada somente em 
ingls (e nem sempre com um significado unvoco), no directamente 
traduzvel na nossa lngua, porque esta corrente no se deve 
confundir com  economia poltica ou com poltica econ-

1 Nas citaes de textos estrangeiros, traduzidos em italiano, a data 
refere-se ao ano da edio na lngua de origem. No caso em que se 
trate de uma citao pontual, em contrapartida, a pgina diz respeito 
 edio italiana. Tratando-se de citaes de textos estrangeiros sem 
a

respectiva edio italiana, a traduo  nossa.

28

mica. O principal objectivo da anlise crtica  constitudo pela 
relao que se instaura nas sociedades capitalistas contemporneas 
entre polticas pblicas e interesses privados. A political economy 
urbana coloca, pois, no

centro da ateno os mecanismos econmicos de desenvolvimento das 
cidades e os desequilbrios sociais relativos, e no apenas o tema 
das relaes de poder entre o governo urbano e as diversas categorias 
de temas sociais, portadores de necessidades e exigncias com 
frequncia conflituais com os

interesses dominantes.

5. Por conseguinte, no seio desta abordagem, poder-se-o reconhecer 
ulteriormente vrias orientaes, protagonistas de vivos confrontos 
entre as publicaes especializadas:

- um deles  mais directamente dependente das categorias do marxismo 
clssico ou das correntes neomarxistas dos anos 70. E, por exemplo, o 
caso da chamada escola regulacionista, que coloca a tnica nos 
mecanismos institucionais e nas polticas predispostas pelo Estado 
para regular os

conflitos que se geram nas diversas fases do desenvolvimento 
capitalista (ou seja, em funo dos vrios regimes de acumulao) e 
garantir a estabilidade do sistema (Lipietz, 1993). Nesta anlise, 
assume particular peso o

estudo dos processos de consumo colectivos, organizados pelo momento 
pblico;

- uma segunda orientao, embora colocando-se fundamentalmente no 
sulco marxista, tem maiores contactos com um filo humanstico e 
crtico. , por exemplo, um expoente o francs Lefebvre, o qual 
assume a

cidade e o urbanismo como princpios quase ideais de vida social 
participada, mostrando a sua conflitualidade nos confrontos das 
manifestaes do capitalismo contemporneo; - h, pois, tendncias 
crticas de vrias camadas ideolgicas que tm

em comum a inteno de retomar e teorizar as anlises do fenmeno 
urbano desenvolvido no mbito de movimentos sociais que exprimem - de 
vrios pontos de vista - a oposio ao poder e aos modos de vida 
dominantes na cidade. Entre estes, h o movimento feminista, as 
manifestaes heterogneas do ecologismo, os movimentos de tutela das 
especificidades culturais de etnias ou minorias lingusticas, as 
organizaes dos gay e das lsbicas, as variegadas expresses da 
contracultura juvenil, os agregados de ancios, de deficientes, e 
assim sucessivamente.
No seu conjunto, podemos dizer que este filo da sociologia urbana
- embora apoiada em parte numa base terica slida e at rgida, como 
 a marxista - se apresenta, hoje, cada vez mais como um arquiplago 
de posies associadas a uma inteno crtica, mas ricas de 
contrastes internos. Este pluralismo representa o principal elemento 
de interesse: a cidade  encarada de muitos pontos de vista que 
reivindicam com frequncia,

29

polemicamente, a prioridade da sua perspectiva. O limite situa-se na 
dificuldade de uma consolidao terica: a par das categorias do 
pensamento marxista (que, hoje, est, de resto, empenhado numa tarefa 
rdua de renovao), acumulam-se propostas tericas muitas vezes 
sugestivas, embora distantes, at agora, de terem encontrado um 
momento de sntese satisfatrio.

1. 2. 4. O debate sobre cidade e modernidade

O filo que agora examinaremos corresponde a um debate clssico do 
pensamento sociolgico, j iniciado pela sociologia oitocentista, que 
influenciou longamente as ideias dominantes a propsito da cidade e 
do campo, mas que, pelo menos na sua forma originria, se pode 
considerar agora concludo. Nele, o juzo sobre a cidade  entendido 
como uma espcie de termo de comparao para exprimir apreciaes 
sobre a modernidade

e seus possveis desenvolvimentos. Tanto em fins do sculo XIX como 
no incio do sculo xx, este debate exprimiu-se com frequncia 
atravs do emprego de categorias opostas, ou seja, pares de conceitos 
ou tipos ideais construdos com a finalidade de descrever a anttese 
entre a organizao social e as modalidades culturais das sociedades 
pr-industriais, por um

lado, e as prprias das sociedades industriais, por outro. 
Precisamente devido a este uso de dois conceitos opostos (diferentes 
nos vrios autores, mas

com a mesma funo analtica), esta posio terica tem sido 
designada como modelo dicotmico (Mela, 1994).

A mais clebre destas dicotomias  a distino traada por Tnnies 
(1887) entre a comunidade (Gemeinschaft) e a sociedade 
(Geselischaft) (cf. ESQUEMA 1. 3), a qual constri uma imagem em 
muitos aspectos idealizada pela comunidade tradicional, baseada em 
relaes de sangue e laos de solidariedade ligados  presena 
simultnea estvel no territrio, e essa imagem  colocada em 
anttese com a da sociedade moderna, baseada em relaes de troca 
plasmadas do modelo da economia monetria. Ao mesmo tempo, esta 
dicotomia entre formas de organizao social faz-se corresponder a 
uma

outra paralela entre formas de estabelecimento espacial. A expresso 
espacial da comunidade  tanto a aldeia rural como a cidade 
tradicional de dimenses limitadas ( semelhana da polis grega ou da 
cidade comunal medieval). Em contrapartida, a expresso espacial da 
sociedade  a metrpole industrial moderna ou, ainda mais, a cidade 
mundial.

De uma maneira diferente - e com uma apreciao mais positiva da 
modernidade e da cidade -, aparecem conceitos dicotmicos noutros 
clssicos do pensamento sociolgico europeu, como Durkheim e mais 
tarde Weber, o qual, de resto, conduz uma anlise muito mais rica do 
fenmeno

30

urbano, cujos conceitos reconduzveis aos esquemas dicotmicos se 
utilizaram como instrumentos para uma interpretao totalmente 
original. Ao contrrio, a polmica de Tnnies contra a metrpole 
encontra um eco ainda mais acentuado noutras obras de ambiente 
germnico, como em Spengler ou Nietzsche.

Enquanto, no mbito europeu, a discusso sobre cidade e modernidade 
assume frequentemente tons pomposos e  conduzida amide sob as 
formas da argumentao filosfica, nos Estados Unidos reveste-se de 
um carcter assaz pragmtico - os conceitos dicotmicos, retomados e 
reelaborados por muitos socilogos, servem sobretudo como 
instrumentos para a compreenso emprica dos modos de vida prprios 
de diferentes tipos de aglomerados populacionais. No  por acaso que 
prevalece a ideia do continuum urbano-rural, ou seja, de uma 
variedade de formas de disposio populacional situada ao longo de 
uma linha ideal que vai da aldeia rural  grande metrpole, mas de 
tal modo que os traos culturais urbanos e rurais se encontram 
sempre mesclados indissoluvelmente, ainda que em diferentes dosagens.

ESQUEMA 1. 3. Modernizao e contexto urbano

Entre fins do sculo xix e incio do sculo xx, gera-se na sociologia 
europeia um debate sobre os percursos de modernizao em aco nas 
sociedades ocidentais, que aborda em particular a questo da 
transio da civilizao rural para as sociedades urbanizadas.

Ferdinand Tnnies (1887) interpreta esta passagem, na sua opinio 
cheia de armadilhas, como o advento de um modelo societrio 
(Gesellschaft), que adquire progressivamente vantagem sobre um modelo 
comunitrio (Gemeinschaft). O primeiro  tpico das metrpoles 
modernas, lugares de racionalidade, clculo econmico, domnio do 
mercado em todas as relaes sociais, anonimato dos indivduos. Ao 
invs, o tipo comunitrio  caracterstico do campo, das aldeias 
rurais, em que uma pessoa se encontra com os seus desde o 
nascimento, ligada a eles para o bem e para o mal, (num) estado 
originrio e individual - a tradio, a pertena  estirpe, falar a 
sua lngua materna so os pilares em que assenta o sentido de 
identidade tpico da Gemeinschaft.

Esta perspectiva  completamente rebatida por Emile Durkheim (1893), 
que acolhe favoravelmente o advento da modernidade, nos termos de 
urna transio do domnio de uma solidariedade do tipo mecnico (em 
que prevalece a homogeneidade dos indivduos, a que no corresponde 
um desenvolvimento real da personalidade) para outra do tipo 
orgnico, baseada numa forte diviso social do trabalho - as 
sociedades industriais modernas, fundamentadas na solidariedade 
orgnica, configuram-se aos olhos de Durkheim como dominadas 
tendencialmente por um ,acordo perfeito entre as partes da 
sociedade, ou mesmo por uma maior autonomia de todos os seus 
membros.

31

Segundo Max Weber, a cidade  um aglomerado de mercado estvel,, - 
na sua obra Economia e Sociedade (1922), o socilogo alemo mostra 
que a dimenso que caracteriza o contexto urbano  a econmico-
comercial. Com efeito, no comportamento dos cidados prevalecem 
aces de tipo racional em relao a um objectivo (aquelas em que o 
indivduo compara racionalmente meios e fins) que tm predomnio 
sobreformas de agir tradicionais ou afectivas, caractersticas das 
sociedades pr-modernas. As cidades modernas urbanizadas parecem a 
Weber conotadas com uma organizao racional, uma economia fundada no 
mercado e na produo industrial e na secularizao e burocratizao 
das funes pblicas.

Na sociologia americana, estas problemticas afloram, pois, sobretudo 
numa discusso que envolveu urna pluralidade de socilogos (de 
Recfield a Abu. Lughod e de Gans a Dewey) do final dos anos 30 at 
meados dos anos 60, centrada em tomo da caracterizao do modo de 
vida urbano.  inaugurada por um clebre artigo de Wirth (1938) que 
coloca a tnica no papel da densidade e heterogeneidade urbanas como 
factores de cosmopolitismo e snteses culturais. Seguem-se a isto 
rplicas de vrios tipos, que realam a impossibilidade de 
estabelecer uma correlao estreita entre a dimenso dos aglomerados 
e a qualidade urbana dos modos de vida.  importante a esse 
respeito sobretudo o realce operado por Gans (1968) sobre a 
existncia de estilos de vida camponeses mesmo na cidade, assim 
como o estudo do estilo de vida suburbano peculiar, nos subrbios 
caracterizados pela cultura das classes mdias.

Este modo de formular o problema da relao entre cidade e 
modernidade j no encontra espao na sociologia urbana dos ltimos 
20 anos. Isto no impede que a hereditariedade do modelo dicotmico 
se volte a propor por vezes nos tempos actuais, em aspectos cruciais 
da anlise sociolgica sobre a cidade.

Neste mbito, podemos referir pelo menos dois campos problemticos.
O primeiro  representado pelo debate a vrias vozes sobre o tema da 
transio para uma condio ps-moderna e o papel que tem nela o

fenmeno urbano (cf. 4. 1). De vrias formas, participou nesta 
discusso a maior parte dos socilogos que hoje melhor contribuem 
para o desenvolvimento terico da sociologia, de Habermas a Touraine 
e de Gicidens a Lash. Acontece com frequncia neste debate 
representar-se uma distino dicotmica entre modos de organizao 
social e expresses culturais modernas e ps-modernas que no pode 
deixar de recordar (pelo menos, no tocante ao modelo de pensamento) a 
tradio tardio-oitocentista de que falmos um pouco atrs. E, em 
muitos casos, surgem igualmente antteses relativas a diversos modos 
de ser da cidade e que, por exemplo, contrapem a organizao 
espacial concentrada no perodo industrial  difuso urbana da poca 
ps-industrial, ou ento a monodimensionalidade

32

da cultura urbana moderna ao exasperado pluralismo cultural da cidade 
ps-moderna.

O segundo mbito de discusso (que encontra maior eco em Itlia, por 
exemplo, nas anlises sobre as regies de economia de pequena 
empresa) refere-se  importncia que fenmenos considerados tpicos 
da cultura co-

munitria tiveram, e tm, no desenvolvimento socioeconmico de alguns 
sistemas contemporneos com caractersticas especificamente urbanas. 
Queremos referir aqui, por exemplo, a relevncia persistente de 
factores como a confiana recproca entre indivduos empenhados em 
relaes interpessoais: esta confiana desempenha um papel de 
primeiro plano num campo como o econmico, o qual, apesar de regulado 
por normas precisas e impessoais, exige mecanismos capazes de reduzir 
a incerteza e garantir a

obteno de transaces satisfatrias.

So vlidas concluses anlogas a propsito da persistncia, nas 
sociedades contemporneas, de mbitos de relaes em que predominam 
relaes de reciprocidade, ou seja, formas de intercmbio no 
concentradas no lucro mas reguladas por normas e valores 
profundamente sinceros - pense-se, por exemplo, nas relaes nos 
crculos familiares, nas redes de amigos,

ou nas organizadas por associaes de voluntariado ou de self help, e 
assim sucessivamente.

1. 2. 5. Perspectivas de uma sociologia espacialista

A ltima alnea de pesquisa que aqui se refere tem uma natureza 
diferente das trs precedentes - na verdade, no se trata de uma 
corrente ou de um filo analtico da sociologia urbana, mas de uma 
nova perspectiva que parece abrir-se para toda a teoria sociolgica. 
Deriva de uma apreciao crtica sobre a tradio sociolgica - 
expressa por socilogos contemporneos, como Giddens e Dickens, mas 
tambm compartilhada por gegrafos, como Harvey, Pred e os autores 
pertencentes ao filo da time geography -

e de um esforo de renovao conceptual intenso para revalorizar a 
importncia do espao (ou, ainda melhor, do espao-tempo) como 
dimenso constitutiva do comportamento e dos sistemas sociais. Todo o 
captulo 6  dedicado a este tema, pelo que de momento nos limitamos 
a uma breve antecipao de algumas argumentaes.

1. A teoria sociolgica, em especial no sculo xx, sofreu uma 
evoluo que a levou a assumir uma atitude de cada vez maior 
indiferena perante os espaos e tempos concretos em que os fenmenos 
sociais se

manifestam. A teoria sociolgica pura apresenta-se como um conjunto 
d teorias que parecem referir-se a fenmenos que ocorrem fora de 
contextos espaciais e temporais especficos. Na maioria dos casos, os 
soci -
*/*
33

logos ocupam-se de espao e tempo somente quando                            
lise pura se passa ao da investigao emprica, referi                        
especfic as. Mas este segundo nvel  encarado como men                          
nto de vista terico, menos determinante no desenvol                           
onhecimento.

2. O antdoto a esta tendncia no pode consi                           
te no

desenvolvimento de uma ou mais disciplin@s espec                          
anlise

sc sociolgica do territrio. Trata-se, antes, de rem erir                 
1 espao e tempo no prprio corao da sociologia. Convm                         
quernas mentais atrs mencionados - no  verdade que as                        
o reguladas por leis abstractas, que, acidentalmente, se 
podem~festar neste ou naquele sistema espacial; na realidade, todo o 
fenmen<>,Bocial constitui o resultado da repetio de prticas 
desenvolvidas por actores, que actuam dentro de condies 
particulares de espao e tempo e se relacionam com um ambiente 
material. Para definir esta viragem de perspectiva, pode dizer-se - 
retomando urna expresso de Ledrut (1987) - que  necessrio encarar 
os fenmenos sociais numa ptica espacialista (e, poder-se-ia acres-

centar, temporalista).

3. Esta transformao de ponto de vista no se refere, como  bvio, 
apenas  pesquisa sociolgica que tem como objectivo a cidade e o 
territrio, mas a toda a sociologia. Com efeito, esta ltima abarca 
todos os nveis

da anlise sociolgica - desde aquele que se interessa pela aco 
social dos indivduos singulares (o nvel microssociolgico) ao que 
se ocupa da interaco e das relaes intersubjectivas (o nvel 
mesossociolgico) e ao

que estuda os sistemas sociais de grandes dimenses e forte 
complexidade (o nvel macrossociolgico). Isto no impede que a nova 
ptica permita tambm salientar, de forma diferente do passado, 
alguns temas que foram, e ainda so, objectivos tpicos de reflexo 
da sociologia urbana, dos relativos ao comportamento dos indivduos 
no ambiente urbano queles que encaram o estudo de cidades 
especficas, entendidas como sociedades locais.

4. Por esse motivo, a perspectiva especialista, apesar do seu 
carcter de novidade, pode legitimamente relacionar-se com alguns 
contributos clssicos da anlise sociolgica, que, embora concebidos 
num quadro terico diferente, se abrem hoje a novas interpretaes. 
Entre os contributos clssicos, podem citar-se em primeiro lugar as 
reflexes de Simmel sobre a personalidade do cidado e a natureza da 
interaco em carripo urbano, e, alm disso, a concepo weberiana 
segundo a qual a cidade pode ser entendida

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como uma forma de sociedade local, em que se interceptam de modo coe-

rente formas econmicas, instituies polticas e organizaes da 
sociedade civil (cf. ESQUEMA 1. 4). Passando a uma poca mais prxima 
da nossa, podemos tomar em considerao, ainda, as anlises agora 
quase to clssicas

34

de Goffman dedicadas aos comportamentos ritualizados das relaes em 
pblico, ao uso do espao na vida quotidiana e s normas codificadas 
da boa educao, a que, no por acaso, chamamos maneiras urbanas.

1. 3. Os campos de pesquisa da sociologia urbana

1. 3. 1. Os focos de interesse

No presente capftulo, concentramos a ateno na sociologia urbana 
corno disciplina. Ao invs, o resto do livro dirige o foco de 
interesse para a prpria cidade e seus problemas, embora, obviamente, 
para os enfrentar se recorra sobretudo s anlises e ideias expressas 
por socilogos urbanos.

ESQUEMA 1. 4. A abordagem espacialista ao estudo da cidade

Alguns conceitos importantes da sociologia urbana contempornea (que 
tm a ver com a dimenso espcio-temporal da aco humana e da 
interaco entre indivduos) encontram importantes referncias 
tericas em autores ,clssicos,, do pensamento sociolgico, atentos 
aos aspectos espaciais o s formas da interaco no contexto urbano.

Georg Smmel (1909), por exemplo, salienta a relevncia do espao 
para a sociologia como lugar que fornece um significado  realidade. 
Segundo ele, a cidade , precisamente, um facto sociolgico que se 
forma espacialmente. O socilogo alemo aprofunda, pois, a anlise da 
metrpole moderna como mbito de vida caracterizado pelo domnio da 
economia monetria e de uma despersonalizante filosofia do dinheiro. 
Acresce a isto que os cidados modernos vivem segundo tempos rpidos, 
ritmos intensos e solicitaes com uma frequncia jamais 
experimentada pelos seres humanos, ao ponto de plasmar personalidades 
marcadas por intensificao e agitao nevrtica, resultantes da 
rpida e ininterrupta modificao dos estmulos externos e internos. 
O habitante metropolitano tpico, segundo Simmel, acaba assim por 
exprimir atitudes bias (afectadas, estereotipadas, apticas, 
enfastiadas de tudo) porque  obrigado a agitar os nervos at ao 
limite da sua maior reactividade durante um perodo de tempo to 
longo que acabam por parar de reagir totalmente,

Em Max Weber, como foi dito, a cidade emerge essencialmente como 
lugar do mercado, no qual clculos racionais dominam as relaes 
interindividuais. Isso no impede que aquele socilogo saliente a 
complexidade da <formao social,, urbana como causa e resultante da 
interaco de processos polticos, econmicos e culturais. A cidade 
no centro da anlise weberiana (a europeia, originada pelas Comunas 
medievais) resulta, portanto, num grupo, num conjunto de cdados. 
, pois, possvel, no seio do contexto urbano, segundo Weber, definir 
espaos e

35

mbitos relacionais significativos e envolventes no plano emotivo, Um 
exemplo neste sentido  fornecido pelas comunidades de vizinhos, em 
que a contiguidade local de habitao,, se traduz com frequncia 
pelos habitantes numa comunho de interesses, unia ajuda recproca, 
uma fraternidade econmica em caso de necessidade,, - essas 
comunidades, caractersticas das aldeias rurais, ainda se encontram 
de modo significativo nas estradaq citadinas ou'nos agregados 
humanos? metropolitanos,, .

A cidade ser analisada tomando em considerao, nos vrios captulos 
e pargrafos, diferentes dimenes e aspectos, como a economia, a 
poltica, a cultura e a morfologia social. Aparentemente, semelhante 
organiza o dos argumentos no necessita de explicaes especiais. 
Na realidade, porm, a simples distino entre as dimenses agora 
evocadas da realidade urbana deve ser vista  luz apropriada. De 
facto, como se procurou evidenciar desde o incio, o ngulo visual da 
sociologia urbana no  especialista, mas, por assim dizer, 
generalista - conduz, por conseguinte, a interpretar o sistema 
urbano mais como uma entidade complexa e dotada de fortes relaes 
entre os elementos singulares do que como um agregado de partes que 
se podem considerar separadamente. Assim, os vrios aspectos ou 
dimenses da cidade (e os problemas que eles levantam) remetem 
necessariamente de um para o outro - no  por acaso que em toda a 
histria da sociologia urbana as pesquisas mais importantes so menos 
as que aprofundam nos mnimos pormenores um

fenmeno isolado do que as que conseguem mostrar a coerncia (e, 
quando necessrio, a incoerncia e a conflitualidade) entre os 
mltiplos fenmenos interactivos no mbito urbano.

A esta luz, os blocos temticos que aparecero nos prximos captulos 
devem ser considerados no como compartimentos fechados mas como 
reas de estudo organizadas em tomo de focos de interesse distintos, 
embora no contrapostos. Cada um desses focos determina  sua volta - 
poder-se-ia dizer - um campo magntico que atrai os programas de 
pesquisa individuais, mas de tal modo que a atraco que deriva de um 
no exclui a resultante dos outros. Assim, acontece com frequncia os 
programas de estudo concretos ressentirem-se da influncia combinada 
de mais centros temticos.

Para simplificar, os focos mencionados reduziram-se aqui a quatro.
1. O Primeiro refere-se  dimenso econmica da cidade. Toda a cidade 
se apresenta como sede de uma multiplicidade de actividades econn-
cas destinada a produzir bens e fornecer servios. Essas actividades 
apresentam numerosas interaces recprocas, quer no interior dos 
centros urbanos individuais, quer entre eles. Desse modo, a rede da 
cidade representa o
36

esqueleto fundamental da estrutura econmica de cada pas, 
especialmente dos de elevado grau de desenvolvimento, e participa 
numa diviso internacional do trabalho que influi de forma relevante 
no papel que o pas desempenha no contexto mundial.

2. O segundo diz respeito  dimenso poltica e  estrutura social da 
cidade. Com efeito, os centros urbanos s o lugares em que se 
articulam classes e camadas sociais, e se organizam os interesses 
colectivos que do vida a partidos, sindicatos, grupos profissionais, 
associaes de categoria, etc. Atravs de processos de seleco das 
representaes e de participao poltica, formao de alianas e 
conciliao de conflitos, definem-se na cidade linhas de interveno 
poltica que incidem essencialmente (embora no de modo exclusivo) 
nas pr prias caractersticas sociais e econmicas da cidade e na sua 
ordem espacial.

3. O terceiro abarca mais directamente a dimenso cultural da vida 
urbana. Por um lado, a cidade  a sede de um confronto contnuo entre 
culturas e subculturas, entendidas no sentido antropolgico dos 
termos, ou seja, como conjuntos estruturais de normas, valores, 
smbolos, esquemas de comportamento prprios de grupos sociais, 
tnicos ou religiosos, e assim sucessivamente. Esse confronto pode 
gerar snteses, mas por vezes tambm contraposio, marginalizao de 
culturas minoritrias, segregao. Por outro, a cidade  lugar de 
elaborao contnua de smbolos e sede de manifestaes da vida 
cultural, desta vez entendida no sentido corrente do termo - por 
conseguinte, um lugar em que se desenvolvem actividades artsticas, 
literrias, musicais, teatrais, etc.

4. O quarto, finalmente, envolve a dimenso ecolgica da cidade. No 
sentido introduzido pelos textos clssicos do filo ecolgico refere-
se  forma que o aglomerado urbano tem do ponto de vista social - 
por conseguinte, a distribuio dos vrios grupos e actividades nos 
diversos espaos que compem a cidade. Todavia, na linguagem actual, 
o adjectivo ecolgico remete para os problemas da relao entre a 
cidade, como sistema artificial, e o ambiente natural e biolgico, 
incluindo neste ltimo o prprio homem, como organismo vivo, dotado 
de uma estrutura psquica particular. Por conseguinte, isto conduz  
questo da sustentabilidade ambiental na cidade e  questo relativa 
 influncia que o ambiente urbano exerce sobre a personalidade dos 
habitantes.

A atraco cruzada dos quatro focos define um campo estruturado, 
dentro do qual se podem colocar os vrios temas de estudo da 
sociologia urbana. A figura 1. 1. corresponde a uma classificao 
possvel, na qual a maior ou menor vizinhana de um tema de estudo de 
um foco indica a intensidade com que se exprime o interesse por uma 
determinada dimenso da cidade.

Neste esquema, esto indicados muitos dos temas que sero 
desenvolvidos nos prximos capitulos; a sua posio no espao 
definido pelas

37

quatro polaridades no tem, sem dvida, um valor absoluto, mas serve 
sobretudo para fins explicativos. Assim, pode abarcar-se 
imediatamente o facto de que, a par de temas com contedos mais 
estreitamente sectoriais, h outros que remetem ao mesmo tempo para 
mais de uma dimenso. Depreende-se, por exemplo, que o tema da 
segregao social tem ao mesmo tempo aspectos ecolgicos (relativos  
colocao dos grupos segregados no interior da cidade), culturais 
(com frequncia os grupos segregados desenvolvem subculturas 
especficas), polticos (so temas polticos e alvo de intervenes 
assistenciais) e econmicos (a segregao tem como causa as 
desigualdades na distribuio do poder e dos recursos econrnicos e 
concorre, por sua vez, para as reproduzir).

1. 3. 2. A pesquisa emprica

A sociologia urbana estuda os prprios assuntos quer atravs da 
reflexo terica quer da anlise emprica. A primeira absorve no 
poucos esforos dos estudiosos - reflecte sobre conceitos 
fundamentais da disciplina, sob o perfil da sua lgica interna e das 
relaes que os unem reciprocamente, e tenta orden-los segundo uma 
textura coerente at constituir verdadeiros modelos explicativos da 
realidade. A importncia da discusso sobre con-

ceitos  notvel, tanto na sociologia urbana como em todo o mbito 
das disciplinas sociolgicas, motivada sobretudo pelo facto de no 
existir em sociologia um quadro conceptual de referncia que se possa 
considerar indiscutvel e, portanto, constituir assunto 
implicitamente de todos os

estudiosos, sem exigirjustificaes especficas (Alexander, 1988). 
No existindo (ou melhor, no sendo unvoco) esse quadro, o aparelho 
conceptual assumido nas vrias pesquisas necessita sempre de 
explicaes, assim como requer ser revisto periodicamente, 
interpretado historicamente e reconsiderado  luz de novas 
transformaes sociais.

O que se acaba de expor no impede que a vocao especfica da 
sociologia urbana seja predominantemente emprica - o seu papel, 
antes de mais, consiste em interpretar com eficcia fenmenos urbanos 
particulares, de relevo social, analisando-os com o emprego de 
metodologia de pesquisa apropriada.

Os objectivos da pesquisa emprica podem ser de diferentes naturezas 
-

vai-se da desenvolvida com fins de puro conhecimento at  que se 
prope produzir conhecimentos teis para a predisposio de planos e 
linhas de intervenO, em terreno pblico ou, mais raramente, 
privado. Em funo dos Objectivos, tambm variam a origem, a 
composio e a importncia dos recursos necessrios ao 
desenvolvimento das anlises. No caso da pesquisa de fins puramente 
cientficos, os recursos devem ser quase sempre encontrados no

38

mbito das universidades ou de outras organizaes de pesquisa. 
Quando, porm, existe uma inteno projectual (de qualquer tipo), 
toma-se um rumo concreto que ajusta a distribuio de recursos s 
suas finalidades. Ora, em muitos casos, a pesquisa sociolgica em 
terreno urbano entra nesta segunda situao e depende, portanto, de 
aces provenientes, em larga medida, de entidades empenhadas no 
governo local, metropolitano, regional ou de nvel ainda superior. 
Isto expe a actividade de estudo a influncias ligadas s oscilaes 
das orientaes das entidades em causa. Houve e h, por conseguinte, 
nos vrios contextos nacionais, momentos e perodos mais favorveis 
ao desenvolvimento de pesquisas concludas e outros mais 
desfavorveis.
O perodo mais recente no apresentou, a esse respeito, um quadro 
particularmente positivo - a difuso em muitos pases de orientaes 
polticas neoliberais implicou em geral uma reduo das aces 
pblicas, contrariando sobretudo a actuao de programas de estudo 
coordenados e de aco larga. Trata-se de um factor de carcter 
prtico que, a par de outros de ordem cultural, concorre para 
explicar uma certa fragmentao dos temas de anlise nos ltimos 15 
anos, observveis em quase toda a parte.

No que se refere aos instrumentos de investigao utilizados nas 
pesquisas empricas, a sociologia urbana n o se caracteriza tanto 
pela presena de instrumentos que lhe so prprios em termos 
exclusivos como pelo emprego de mtodos de natureza assaz 
heterognea, s vezes resultantes de outras cincias sociais, 
escolhidos em funo do tema enfrentado. No sendo possvel, nessa 
sede, entrar no mrito das metedologias especficas, limitamo-nos a 
propor uma simples tipologia de abordagem  anlise emprica, 
acrescentando, todavia, que, por vezes, os estudos mais ricos e 
densos de resultados so aqueles em que essas abordagens se combinam 
entre si com um certo eclectismo e chegam a oferecer uma imagem da 
cidade de muitos pontos de vista contemporaneamente.

1. Em muitos estudos, a anlise baseia-se essencialmente em 
informaes de fonte indirecta, ou seja, no emprego de dados 
existentes de diferentes origens (censitria, anagrfica, etc.), 
recolhidos com fins estatsticos. Essas informaes podem ser 
utilizadas de forma cruzada (por exemplo, comparando dados sobre a 
popula o, as actividades econmicas, o rendimento, e assim 
sucessivamente), ou ser objecto de simples elaboraes, com a 
finalidade de construir indicadores, teis para descrever o fenmeno 
estudado e sugerir hipteses interpretativas. Por vezes, usam-se 
mtodos de elaborao mais complexos e apurados, como, por exemplo, 
os que recorrem a tcnicas de anlise multivariada (cluster analysis, 
anlises factoriais, etc.). Mais raramente, e em campos de pesquisa 
especializados, recorre-se  construo e aco operativa de 
verdadeiros e apropriados modelos matemticos, para simular em 
laboratrio o funcionamento de sistemas complexos e prever a sua 
dinn-ca.

2. Num nmero elevado de estudos, est prevista no tanto a 
elaborao de dados existentes mas a produo de nova informao. A 
respeito destes ltimos, poderemos ulteriormente distinguir entre as 
pesquisas que se servem de mtodos de carcter predominantemente 
quantitativo ou qualitativo.

Os mtodos quantitativos destinam-se a fornecer informaces claras e 
rigorosas sobre um fenmeno - embora, por vezes, adn-tam pagar o 
preo de uma certa esquematizao -, sobretudo com vista a um 
tratamento estatstico dos dados. A survey com o uso de questionrios 
de perguntas predominantemente hermticas , sem dvida, o mais 
clebre desses mtodos.

Os mtodos qualitativos, ao invs, propem-se recolher informaes 
qualitativamente mais ricas sobre um fenmeno, obtendo um acesso mais 
pleno  subjectividade dos indivduos estudados. Neste caso, o 
tratamento estatstico dos dados  excludo e emprega-se uma 
linguagem interpretativa mais prxima da da vida quotidiana, por 
vezes apoiada em tcnicas baseadas na imagem ou na elaborao 
grfica. Entre os mtodos qualitativos, podem citar-se as entrevistas 
no directivas, a recolha de histrias de vida, a observao 
participativa, as tcnicas da sociologia visual e a utilizao dos 
mapas mentais.

41

2. O URBANISMO, A ECONOMIA, O DESENVOLVIMENTO

2. 1. A cidade, fenmeno econmico

2. 1. 1. Urbanismo e revolues econmicas

Como tentaremos esclarecer nos prximos captulos, a cidade  um 
sistema social de grande complexidade que, por assim dizer, apresenta 
no seu interior, de forma concentrada, a quase totalidade dos 
fenmenos tpicos de sistemas de dimenses mais amplas, como as 
sociedades nacionais ou mesmo os sistemas internacionais. Por 
conseguinte, no se presta a ser interpretada por meio de uma nica 
chave de leitura, nem se pode dizer que existe uma dimenso 
prioritria do fenmeno urbano, ou seja, uma dimenso que determina 
todas as outras e est em condies de as explicar. Pode, pois, 
afirmar-se (ou deve mesmo afirmar-se) que a cidade  simultaneamente 
um fenmeno econmico, poltico, cultural, etc., e acrescentar que 
todo o aspecto est ligado indissoluvelmente aos outros, por isso,  
influenciado por eles e, ao mesmo tempo, contribui para os definir.

Se, portanto,  verdade que nenhuma ordem de prioridades se impe 
necessariamente, com que temas convm iniciar uma anlise do fenmeno 
urbano?

Como j se referiu no ponto 1. 3. L, no presente texto preferiu-se 
principiar com um captulo dedicado, de preferncia,  cidade como 
fenmeno econmico. Em face do que se acaba de referir, essa escolha 
no implica certamente a ideia (presente nas verses mais banalizadas 
do marxismo) segundo a qual a economia representa a estrutura de toda 
a sociedade e, portanto, a chave explicativa fundamental da sua 
interpretao. No entanto,

43

falando da cidade, existe pelo menos um motivo essencial - e 
reconhecido por muitos socilogos, historiadores e economistas - que 
leva a evidenciar a relao entre esta e a dinmica da economia, 
considerada numa ampla perspectiva histrica. Com efeito, podem 
citar-se pelo menos dois grandes momentos revolucionrios na 
histria do desenvolvimento das sociedades humanas, que correspondem 
a fases de importncia decisiva para a histria do fenmeno urbano.

O primeiro corresponde  chamada Revoluo Neoltica e ao 
desenvolvimento da agricultura, iniciado pelo menos 8000 ou 9000 anos 
antes de Cristo. Segundo muitos autores, este importante processo de 
transforma o da base econmica - que, das colheitas, da caa e da 
pesca passa a concentrar-se na produo agrcola e na pastorcia - 
impe as bases para o nascimento da cidade. Bairoch (1985) insiste em 
particular na relevncia de trs factores, ligados entre si - o 
grande aumento da produo alimentar por unidade de superfcie, a 
disponibilidade de um surplus alimentar que possa ser objecto de 
troca, o aumento da densidade da populao e sua sedentarizao, ou 
seja, a estabilizao no territrio e o fim do nomadismo. No seio de 
uma popula o mais densa e estvel que dispe de bens alimentares 
excedentes das necessidades imediatas, desenvolve-se uma diviso do 
trabalho maior, e, em particular, uma parte da populao pode 
dedicar-se a diversas actividades - ao artesanato, actividades 
mercantis, funes administrativas, polticas, militares ou 
religiosas. Criam-se, portanto, as condies para o desenvolvimento 
de uma sociedade local articulada, de tipo urbano.

O segundo momento de grande transformao histrica sucedeu no sculo 
xviii, com a Revoluo Industrial. A partir da Inglaterra, para 
passar depois progressivamente a um nmero mais largo de pases da 
Europa e da Amrica do Norte, assistiu-se nessa poca a um aumento, 
quer da populao, quer da produtividade do trabalho, tanto nos 
sectores industriais emergentes como na prpria agricultura. Graas a 
esse aumento de produtividade, houve menos necessidade de a maior 
parte da populao se dedicar  produo de bens agrcolas e, por 
outro lado, tornou-se conveniente o desenvolvimento da produo de 
bens e sua troca num cen rio nacional e internacional. Nessas 
condies, a populao dedicada a actividades extra-agrcolas, que, 
durante sculos, se mantivera numa quota quase nunca superior a 10%, 
pde fazer aumentar a sua incidncia a ritmos acelerados (no incio 
do sculo XIX, j superava os 30% em Inglaterra). Criaram-se assim as 
bases para uma grande expanso do fenmeno urbano
- a cidade, que, desde o seu nascimento, representara um cenrio de 
vida para uma parte limitada da popula o (embora, com frequncia, 
tivesse albergado as castas mais ricas, cultas e poderosas), 
convertia-se no quadro destinado a alojar quotas de populao cada 
vez mais consistentes,

44

pertencentes a classes e castas totalmente heterogneas. A partir 
daquele momento, o crescimento urbano tornou-se cada vez mais geral, 
ao ponto de, hoje, nos pases mais desenvolvidos, cerca de dois 
teros da populao viverem nas cidades e, entre os habitantes 
destas, perto de metade residir em aglomerados populacionais 
superiores a 500 000 habitantes (Bairoch, 1985).

Os dois momentos revolucionrios agora mencionados so, portanto, 
aqueles em que a transformao da economia estabeleceu os 
pressupostos, respectivamente, para o nascimento da cidade e para um 
enorme crescimento da incidncia do fenmeno urbano. Obviamente, a 
criao desses pressupostos no equivale, de forma automtica, a uma 
provocaao directa dos fenmenos atrs salientados. Juntamente com as 
causas econ micas, intervm com no menos fora as de natureza 
poltica ou cultural - por exemplo, para o nascimento da cidade 
reveste-se de importncia fundamental a formao das grandes 
estruturas estatais da era antiga (no Egipto, na Mesopotmia, na 
China, etc.), tal como  essencial a transmisso da cultura pela 
forma escrita, a qual, de resto, origina motivaes indiscutveis das 
exigncias da permuta econmica (Godart, 1992). No entanto, tambm  
verdade que - quaisquer que fossem as principais razes do surgimento 
dos primeiros centros urbanos - o desenvolvimento da agricultura e 
dos comrcios constituiu o seu indispensvel apoio econmico. Por 
conseguinte, no se pode minimizar a importncia das revoluoes 
atrs citadas, que, alis, pressupem por seu turno evolues 
fundamentais da tecnologia e dos conhecimentos aplicados  soluo de 
problemas prticos.

Segundo alguns estudiosos, encontrar-nos-amos hoje no curso de um 
terceiro momento no menos essencial de transio econmica e 
tecnolgica, determinada pelo desenvolvimento das tecnologias de base 
microelectrnica e das comunicaes, o que teria como consequncia 
uma ulterior mutao do fenmeno urbano, at  sua gradual extino, 
em direco a um continuum de aglomerados populacionais, unidos por 
formas de comunicao  distncia. No decurso deste e dos captulos 
subsequentes, tomar-se-o vrias vezes em considerao, sob 
diferentes pticas, teses deste tipo. No entanto, embora admitindo 
que os impactes no fenmeno urbano so de enorme alcance, insistir-
se- sobretudo na importncia permanente da cidade, na poca que se 
inaugurou, com os anos 80 do sculo XX.

No seguimento deste captulo, falar-se- acima de tudo do alargamento 
entre as modalidades com que o urbanismo se manifesta@nos pases mais 
avanados e nos pases em vias de desenvolvimento. A cidade do Sul 
do mundo (como hoje, cada vez com mais frequncia, se convencionou 
dizer, para designar o conjunto dos pases de menor desen-

45

volvimento) 1  dedicado, em particular, o ponto 2. 2. Voltando aos 
pases de desenvolvimento econmico elevado (o Norte do mundo), no 
ponto
2. 3., procurar-se- sublinhar os termos da discusso sobre a actual 
fase de transio, com aluso tanto ao sistema econmico como  
cidade. Finalmente, no ponto 7. 4. abordar-se- o problema do novo 
papel econmico que a cidade est a assumir na fase actual.

2. 1. 2. Cidade, desenvolvimento, subdesenvolvimento

H pouco, citou-se a Revoluo Industrial como uma linha divisria na 
histria do urbanismo e, especificamente, como o processo de 
transformao que toma possvel uma inverso dos pesos relativos da 
populao urbana e no urbana. Todavia, como se frisou largamente, a 
industrializao e a modernizao - embora alargando os seus efeitos 
indirectos  totalidade das sociedades mundiais - envolveram 
directamente, at hoje, um nmero relativamente limitado de pases, 
que agrupam uma quota largamente minoritria da populao mundial. Em 
contrapartida, o processo de urbanizao, sobretudo no sculo xx, no 
se limitou a envolver os pa ses industrializados, mas estendeu-se 
progressivamente, e sempre com fora crescente, aos que se encontram 
em condies de desvantagem econmica ou vem mesmo afastar-se cada 
vez mais os seus modelos sociais, e os padres de vida, dos do mundo 
desenvolvido.

Assim, devido a um conjunto de motivos a que nos referiremos nos 
pontos 2. 2. 1. e 2. 2. 2., o crescimento urbano, no perodo mais 
recente, manifesta-se a ritmos particularmente acelerados em pases 
de menor desenvolvimento e em algumas reas, como as da frica 
Central, em que se torna mais evidente a sndrome do 
subdesenvolvimento. Isto verifica-se, em contrapartida, numa fase 
histrica em que, como veremos, se regista um abrandamento do 
crescimento das cidades no mundo desenvolvido, o que configura um 
fenmeno de estabilizao substancial do urbanismo. Com efeito, mesmo 
limitando a anlise da dinn-ca do urbanismo  considerao de 
indicadores quantitativos, podemos observar facilmente que, enquanto 
no Sul do mundo a populao urbana aumenta e, sobretudo, cresce 
desmesuradamente a concentrada nas cidades de maiores dimenses, no 
Norte essas populaes, no seu conjunto, encontram-se em cres-

cimento lento, enquanto se determina um processo de redistribuio

1 A expresso Sul do mundo@>  motivada pelo facto, em parte 
consistente, de que os pases mais pobres se encontram, 
efectivamente, no hemisfrio austral, enquanto os de desenvolvimento 
elevado se situam, na sua maioria, no hemisfrio boreal.

46

demogrfica que penaliza as reas centrais, com vantagem das 
suburbanas (Cf. ESQUEMA 2. 1).

Hoje, portanto, encontra-se em actividade um processo que tende a

tomar reciprocamente independentes,  escala planetria, o fenmeno 
do crescimento urbano e o do desenvolvimento econn-co. Em algumas 
partes do mundo (os pases mais avanados) o urbanismo abranda, 
enquanto o

desenvolvimento prossegue, ainda que@seja de modo diferente do 
passado. Noutras partes (uma grande rea de Africa e nos pases mais 
pobres da sia e Amrica Latina) o crescimento urbano acelera, embora 
em presena de uma estagnao econmica ou de processos recessivos. 
Em algumas regies do mundo assiste-se, pois (por exemplo, nos pases 
da sia Oriental), ao entrelaamento entre processos de crescimento 
econmico, expanso urbana e aumento dos desequilbrios sociais, que, 
no sculo Xix, caracterizava o cenrio europeu.

Estas simples consideraes servem para colocar de sobreaviso contra 
a tentao de afirmaes demasiado simplificadas sobre a relao 
intercorrente entre urbanismo e desenvolvimento econn-co. Na 
verdade, se  exacto que a Revoluo Industrial, como vimos atrs, 
criou as bases para uma expanso das cidades sem precedentes, tambm 
 certo que o

conjunto das relaes econmicas e polticas de sinal capitalista, 
associadas a essa Revoluo, colocaram em movimento um entrelaamento 
complexo de desequilbrios  escala mundial, que incidiu 
profundamente, de modo diferenciado, nas diversas partes do nosso 
planeta, em factores de crescimento urbano.

Mrri disso, as mesmas consideraes induzem-nos a uma ulterior 
reflexo sobre a natureza do fenmeno urbano. A expanso urbana , 
sem dvida, compatvel com dinn-cas econmicas de sinal diferente e 
contrno. Isto, todavia, indica tambm que, nas vrias reas 
mundiais, a cidade apresenta caracteres econmicos, sociais e 
espaciais nitidamente diferenciados. Para exemplificar da maneira 
mais significativa, as grandes concentraes urbanas nos pases mais 
pobres (que hoje j representam em absoluto as maiores concentraes 
da populao sobre a Terra e s-lo-o de modo mais acentuado num 
futuro prximo) em muitos casos to-pouco se podem considerar 
cidades, no sentido tradicional do termo. Como observa Knight (1993), 
no se trata propriamente de cidades, porque o seu crescimento no  
auto-induzido e no so autogeridas. O seu crescimento representa a

rotura da tradicional sociedade de aldeia e no a extenso ordenada e 
o desenvolvimento industrial das estruturas da cidade ou uma ampla 
transformao social e cultural (p. 109). Em resumo, quando se fala 
do fenmeno urbano a uma escala de observao internacional, o 
prprio termo cidade oculta uma variedade extrema de condies 
econmicas, modos de vida, formas de organizao social e morfologias 
instaladas.

47

ESQUEMA 2. 1. Urbanizao: um processo  escala mundial

No incio dos anos 90, cerca de metade dos habitantes do planeta 
residia numa cidade. Apenas 30 anos antes, a quota de urbanizao 
compreendia apenas um tero da populao mundial. O grande 
crescimento das cidades, em particular das metrpoles, diz respeito, 
sobretudo - em termos absolutos -, aos pases doTerceiro Mundo; aqui, 
o fenmeno depende essencialmente de duas ordens de factores: por um 
lado, o aumento demogrfico interno, por outro, o poder de atraco 
que as grandes cidades (em especial as capitais) exercem sobre as 
populaes rurais (UNDP,
1993; Massiah, 1993).

No que se refere aos pases do Norte do planeta, porm, assistiu-se a 
um abrandamento dos processos de expanso urbana, com uma tendncia, 
registada em muitas reas desenvolvidas j a partir dos anos 70, para 
o xodo de populaes urbanas em direco s cinturas, aos subrbios, 
aos pequenos e mdios centros situados na proximidade das reas 
metropolitanas ou, por vezes, mesmo  distncia.

Segundo as previses da ONU, a populaco urbanizada dever aumentar, 
 escala mundial, cerca de mais de 700 milhes de unidades no prximo 
decnio e dois milhes e meio no primeiro quartel do sculo xxi. Uma 
expanso urbana que dever dizer respeito, mais uma vez, na sua 
maioria, aos pases do Terceiro Mundo, robustecendo assim as 
tendncias manifestadas nos ltimos decnios.

Prevem-se igualmente diferenas continentais considerveis entre os 
pases terceiro-mundistas: a Amrica Latina, em particular, dever 
tornar-se o continente absolutamente mais urbanizado (com cerca de 
85% de populaes residentes em cidades), enquanto em frica e na 
sia ser apenas cerca de metade da populao a habitar nas cidades.

A tendncia para concentraes elevadas de populaes urbanizadas, em 
especial no Terceiro Mundo, est a determinar um crescimento 
considervel das cidades com mais de um milho de habitantes: prev-
se que esses centros - que eram
114 em 1960 - aumentaro para 640 por volta do ano 2025. Deles, os 25 
maiores tero uma populao de 7 a 24 milhes de habitantes - trs em 
cada quatro casos pertencero ao Terceiro Mundo.

Do ponto de vista da ocupao do solo, tambm se prev que a 
continuao do grande desenvolvimento urbano produzir efeitos mais 
do que proporcionais em relao ao puro aumento da populao. Os 
caracteres tpicos da urbanizao nos pases do Sul do planeta so de 
tal ordem que permitem prever que, onde a populao de uma metrpole 
duplicar (processo que requer cerca de um decnio, mantendo-se os 
actuais ritmos de crescimento), a superfcie do solo ocupado pela 
construo urbana aumentar trs vezes.

Taxa anual de      Taxa anual de     Populao urbana crescimento 
popul. crescimento popul.  (em % do total) total (1960-1991) urbana 
(196011991)    1960      1991

Comunidade Europeia  +0,5%        +0,9%           70%      79% Pases 
industrializados +0,8%     +1,4%           61%      73% Terceiro 
Mundo       +2,3%        +4,0%           22%      37% Mundo                
+1,9%        +2,9%           34%      45%

48

De qualquer modo, se se quisesse tentar dar conta da diferena dos 
tipos de cidade hoje presentes nos cinco continentes, haveria que ter 
presentes - e cruzar entre eles - pelo menos duas ordens de factores.

O primeiro tefere-se  profundidade histrica do urbanismo. Com 
efeito, a cidade actual  o produto de uma longa sedimentao de 
caracteres niorfolgicos e culturais, acumulados ao longo dos 
sculos. Se tomarmos isto em linha de conta, no podemos esquecer que 
h reas mundiais nas quais existe urna continuidade do fenmeno 
urbano durante muitos sculos, ou mesmo milniosi enquanto noutras a 
cidade constitui um fenrneno relativamente recente, produto da 
colonizao europeia. Entre s primeiras figuram, por exemplo, a 
Mesopotmia, o Egipto, a China, a Europa Mediterrnica e a ndia; 
entre as segundas, grande parte do continchte americano e da frica 
subsariana. Nas reas de urbanizao mais recente, induzida pela 
penetrao europeia, revestem-se obviamente de grande importncia as 
modalidades com que se desenrolou a colonizao
-  enorme a diferena entre a instalao dos colonos ingleses e 
franceses tia Amrica do Norte, a conquista da Amrica do Sul pelos 
espanhis e

portugueses (que, entre outras coisas, teve o efeito de eliminar 
totalmente civilizaes urbanas autctones precedentes, como as 
surgdas no actual Mxico e nos Andes peruvianos) e a penetrao 
colonial de muitos pases da frica Ocidental e Central, precedida da 
aco devastadora da escravatura.

O segundo factor refere-se aos diversos papis que as reas mundiais 
assumiram, na poca industrial e, de forma particular, na sua fase 
mais recente, por efeito do que se define como diviso internacional 
do trabalho. Como veremos no ponto 2. 2., essa expresso alude ao 
conjunto dos factores econmicos e polticos, ligados s 
modalidadades de funciona- mento do sistema capitalista mundial, as 
quais determinam a posio que cada pas ou regio econmica ocupa 
numa estrutura de relaes intemacionais fortemente desequilibradas. 
A esta luz, com respeito  atitude assumida pela diviso 
internacional do trabalho, costuma-se classificar os pases ao longo 
de um eixo centro-periferia (amplamente sobreponvel  distino 
Norte-Sul); em particular, se pudssemos distinguir os seguintes 
tipos de contextos,  escala mundial:

a) as reasfortes do centro da economia internacional, como os 
Estados Unidos, Japo e Europa centro-setentrional;

b) as reas fracas do centro, como as correspondentes ao Meio-Dia 
italiano, s regies meridionais e atlnticas da Espanha,  Grcia, a 
Portugal,  Irlanda, etc.;
c) as novas reas industriais, como as do Extremo Oriente (Coreia do 
Sul, Taiwan, Hong-Kong, Singapura e algumas regies da China) e, 
parcialmente, algumas regies da Amrica Latina e da ndia;

49

d) as reas da Europa Oriental em transformao aps a extino do 
modelo do socialismo real;

e) as reas semiperifricas do Sul, ou seja, os pases menos 
desfavorecidos do Terceiro Mundo, como alguns rabes, latino-
americanos e asiticos;

J) as reas perifricas do Sul, ou seja, as mais directamente 
ameaadas pela fome e pobreza, como uma grande parte da frica 
subsariana.

Em cada um destes contextos, o desenvolvimento urbano apresenta 
caracteres e problemas peculiares, no reconduzveis unicamente a um 
perfil quantitativo. Se, conjuntamente, se tomarem tambm em 
considerao as diferentes estratificaes da histria urbana, com 
base no critrio atrs referido, poder-se- ficar com uma ideia da 
natureza polidrica e fortemente desigual do urbanismo que se 
manifesta no final do sculo XX.

2.2. O urbanismo no Sul do mundo

2. 2. 1. As abordagens interpretativas

Este ponto tem o objectivo de oferecer uma anlise muito rpida sobre 
alguns temas relativos  interpretao sociolgica da cidade dos 
pases do Sul do mundo. Embora o resto do volume seja dedicado 
essencialmente ao urbanismo nos pases desenvolvidos (nos quais, 
presumvelmente, vive e trabalha a esmagadora maioria dos leitores), 
parece-nos indispensvel no descurar, pelo menos, uma breve aluso  
outra face da problemtica urbana, que abarca milhares de milhes, 
numa larga parte do planeta. Subentende-se que essa aluso se reveste 
de um carcter puramente introdutivo na abordagem de uma questo 
complexa, cada vez mais destinada a impor-se  ateno do mundo com 
evidncia dramtica.

Antes de salientar algumas questes especficas, merece a pena 
dedicar algumas consideraes ao modo como a sociologia tentou, at 
hoje, construir esquemas conceptuais para compreender as causas do 
crescimento urbano no Sul do mundo e prever as suas consequncias na 
dinmica do desenvolvimento. Por outro lado, cabe evidenciar 
imediatamente que esses esquemas se devem colocar em estreita relao 
com os files mais gerais de interpretao que as cincias sociais 
elaboraram para explicar os desequilbrios existentes entre os 
diversos pases e regies do cenrio internacional.

A esse respeito, a sociologia apresenta essencialmente duas grandes 
tradies tericas, que formularam hip teses entre as suas 
alternativas, enquanto uma terceira comea a definir-se em tempos 
mais recentes.
50

A primeira - que, at h poucos anos, parecia don-nante nas cincias 
sociais -  a tradio respeitante aos modelos funcionalistas e  
teoria da modernizao. Os pressupostos desta ltima devem procurai-
bt em ltima instncia na viso do desenvolvimento proposta pelo 
liberalismo e pela teoria econmica clssica e neoclssica: a ideia 
guia (que se salienta at Smith e Ricardo)  que os diversos pases, 
embora encontrando-se na origem em diferentes nveis de 
desenvolvimento, proporcionam uma vantagem recproca do intercmbio 
econmico, porque cada um deles tem convenincia em especializar o 
seu sector produtivo na oferta de bens que, em relao  sua dotao 
de factores produtivos, possam ser produzidos de forma mais eficaz e 
por menor preo. Graas a esta troca livre no mercado internacional, 
todos os pases - mesmo os inicialmente em desvantagem - podero 
percorrer os passos necessrios no caminho do desenvolvimento. Alm 
disso, segundo muitos autores, entre os quais Rostow (1960), uma vez 
superado o limiar crtico da descolagem industrial, o processo de 
crescimento econmico e social tende a tornar-se irreversvel.

Alm disso, a troca livre, alm dos efeitos econmicos, serve para 
difundir esquemas culturais, atitudes, aspiraes de carcter 
moderno, mesmo nos contextos que se mantiveram firmes no estado da 
sociedade tradicional. Por outro lado, esta nova orientao 
sociocultural retroactua na esfera econmica desses contextos e 
acelera-lhes o crescimento.

Na linha terica considerada revestem-se, portanto, de uma funo 
essencial os processos de transferncia do Norte para o Sul do mundo, 
em todos os sentidos possveis - transferncia de tecnologias de 
conhecimentos, de modelos de consumo, de atitudes nos confrontos do 
trabalho, e assim sucessivamente. Nestes processos situa-se o papel 
da cidade, encarada como o mbito que, pela sua natureza,  
maioritariamente permevel s influncias provenientes do mundo j 
desenvolvido e modernizado e que, por seu turno, est em condies de 
fazer penetrar essas influncias no resto do pas. Deste ponto de 
vista, o forte crescimento urbano nos pases subdesenvolvidos tende a 
ser avaliado positivamente - as migraes do campo para a cidade 
fazem afluir a populao a um lugar em que entra mais facilmente em 
contacto com novos valores e esquemas de comportamento inovadores.

Esta viso optimista encontrou repetidos desmentidos na dinmica 
econn-ca real - apesar da efectiva globalizao da economia e o 
aumento das trocas, somente um nmero limitado de pases consegue dar 
o salto decisivo para a industrializao, e alguns esto mesmo 
investidos de um processo de regresso econmica. Alm disso, em 
particular, apresenta-se largamente desmentida a hiptese de que a 
cidade esteja destinada espontaneamente a ser veculo de inovao - 
como afirma Detragiache (1991),

51

a cidade  escola de modernizao [ ... ] se constitui aparelho 
produtivo em expanso capaz de acolher a nova populao, formando-a 
no trabalho e, por conseguinte, na sociedade (p. 47). De contrrio, 
 apenas um lugar de desenraizamento cultural da populao e de 
acumulao de problemas sociais, que, ultrapassado um determinado 
limiar dimensional, se tomam quase insolveis.

 teoria da modernizao contrape-se uma segunda tradio histrica, 
que tem os seus pontos de referncia na anlise marxista e noutros 
modelos analticos que, seja como for, salientam o carcter desigual 
do desenvolvimento econmico, nas condies tpicas do capitalismo 
industrial. Nesta tradio tem uma funo central a ideia da diviso 
internacional do trabalho: o desenvolvimento das sociedades 
ocidentais, baseado nas rela es de produo capitalistas, ps em 
aco - por meio do alargamento dos merca-

dos e da competio entre estados nacionais - um processo que 
comporta a atribuio a vrios pases e regies do mundo de uma 
especializao produtiva que os coloca em posies desiguais, no 
mbito de uma hierarquia internacional. Nessa hierarquia, como j se 
referiu, h reas que se situam no centro, porque tm um papel 
hegeinnico e imprimem aos processos de desenvolvimento  escala 
internacional um rumo favorvel aos seus interesses. Ao invs, outras 
encontram-se na periferia, pelo facto de desenvolverem papis 
subordinados e dependerem das modalidades do desenvolvimento 
econmico, oriundos dos pases centrais. Outras ainda encontram-se em 
posio intermdia e podem caracterizar-se como reas da 
semiperiferia (Arrighi, Drangel, 1986).

Nas vrias fases do desenvolvimento econmico mundial - a partir do 
dealbar da era moderna na segunda metade do sculo XV, at ao 
desenvolvimento do capitalismo industrial de trs sculos mais tarde, 
para chegar  actual fase de globalizao da economia -, variam os 
pases que ocupam os papis centrais no sistema internacional - da 
Espanha dos conquistadores  Inglaterra imperial, aos Estados Unidos 
do segundo ps-guerra (Shannon, 1989). No entanto, no muda o 
carcter substancialmente dualista daquilo a que Wallerstein (1974) 
chama economia-mundo capitalista. Esse carcter deve-se ao facto de 
que, uma vez posto em movimento o processo auto-reprodutivo do 
desenvolvimento capitalista em alguns pases, estes tendem 
imediatamente a ampliar os seus mercados, estabelecendo com os outros 
relaes de explorao econmica, baseadas na troca desigual 
(Emmanuel, 1969), ou seja, num intercmbio comercial com o efeito de 
transferir riquezas da periferia para o centro da economia mundial.

Nesta perspectiva, a cidade do Sul , no fundo, um elo intermedirio 
da cadeia que une os pases don-nantes - e os seus sistemas urbanos 
- s vastas reas rurais perifricas. Com efeito, depois de ter sido 
a sede do

52

domnio pblico europeu durante a fase colonial, na poca ps-
colonial tomou-se no lugar em que se concentram as actividades 
econmicas dependentes do capitalismo internacional - as filiais 
nacionais de bancos, seguros, sociedades financeiras e, em alguns 
casos, estabelecimentos industriais de empresas multinacionais, 
atradas pelos baixos custos da mo-de-obra. Alm disso,  o lugar de 
penetrao de modelos de consumo impostos pelos interesses do 
aparelho produtivo dos pases centrais e sede de um poder poltico 
por vezes controlado mais ou menos directamente por esses pases.

Por conseguinte, a tradio marxista abala, de certo modo, a 
avaliao do papel do urbanismo formulada pela teoria da modernizao 
- a ligao entre a cidade do Norte e do Sul no  encarada como 
veculo de generalizao do desenvolvimento, mas antes como 
instrumento de reproduo da hegemonia dos pases desenvolvidos em 
prejuzo dos subdesenvolvidos.

A par destas duas tradies fundamentais, comea a definir-se, a par- 
tir dos anos 70, outra concepo que, sob muitos perfis, se pode 
considerar alternativa nas comparaes de ambas, embora a crtica se 
volte mais frequentemente contra a teoria da modernizao. Esta tende 
a pr em dvida a prpria imagem, at aqui dominante, do 
desenvolvimento e os indicadores com que geralmente se mede (Cf. 
ESQUEMA 2. 2). Alm disso, baseia-se, com frequncia, em aquilo que  
definido como uma abordagem normativista do desenvolvimento 
(Tarozzi, 1990) - mais do que insistir na anlise interpretativa dos 
processos que conduziram ao desenvolvimento de uma grande parte do 
mundo, coloca-se a tnica no dever ser e tenta-se determinar 
percursos capazes de inverter o sinal desses processos. A ideia guia 
 aquela segundo a qual s se pode sair da actual situao de 
desequilbrio imprimindo ao desenvolvimento um rumo diferente, e isto 
tanto no Sul como no Norte do planeta - o princpio a ter sempre 
presente  aquele que considera o desenvolvimento uma resposta a 
exigncias fundamentais do homem e da sociedade, mais do que uma 
necessidade econmica imposta por fortes interesses (CEPAUR, 1986). 
Este princpio, porm, no pode dar origem a solues iguais para 
todos. Pelo contrrio,  essencial que cada sociedade local esteja em 
condies de encontrar o modelo de desenvolvimento mais conforme com 
as suas especificidades.  esta a concepo self reliance, a 
capacidade de confiar nos seus prprios meios e valorizar, acima de 
tudo, os recursos locais, entendendo-se com isto n o s os materiais 
e econmicos mas, ainda mais, os humanos e culturais.

A insistncia na necessidade de fundar as bases do desenvolvimento no 
substrato cultural e material de cada sociedade local no equivale, 
decerto, a propugnar o encerramento nos confrontos do sistema inter-
53

nacional. Apoiar o isolamento no s se revelaria irrealista, na fase 
actual, como significaria esquecer a comunidade objectiva de destino 
entre todos os pases do mundo, determinada pela natureza planetria 
de muitos problemas, com realce para os ambientais. O realce da 
questo ecolgica, em contrapartida, constitui outro carcter 
essencial da abordagem em mente - cada sociedade deve procurar um 
modelo de desenvolvimento compatvel com os seus recursos, porm 
todos os modelos (tanto no Norte como no Sul) tm de se revelar 
compatveis com os vnculos impostos pelas exigncias de conservao 
e reproduo do ambiente natural.  esta a ideia do 
ecodesenvolvimento, teorizada na Europa sobretudo pelo economista e 
socilogo de origem polaca Sachs (1980).

Na perspectiva agora referida, a cidade  considerada no tanto pela 
sua funo de ligao entre a sociedade nacional e a internacional 
como pelo facto de ser um tipo particular de sociedade local, que 
apresenta problemas especficos e possui recursos peculiares. A esta 
luz, no estudo das cidades do Sul atribui-se particular ateno no 
tanto aos centros direccionais mas, de preferncia, s largas 
periferias, onde vive a esma-

gadora maioria da populao que obtm sustento sobretudo da economia 
informal. A sobrevivncia dessa populao est ligada, em parte no 
marginal, a uma rede de laos de solidariedade familiar, tnica, de 
vizinhana e a relaes de reciprocidade - essa rede pode ser 
encarada como um recurso urbano essencial, que, se tivesse  
disposio o apoio de tecnologias modernas, mas adequadas s 
exigncias do contexto, poderia representar uma base eficaz para a 
raiz de processos de crescimento econmico.

ESQUEMA2.2. Novos indicadores para definir o desenvolvimento 
humano,,

A partir de 1930,  publicado anualmente pela ONU um relatrio sobre 
o estado do desenvolvimento nos pases industrializados e no do Sul 
do mundo. A redaco desse documento (a cargo do UNDP, United Nations 
Developrnent Programme) obedece a uma redefinio dos indicadores 
utilizveis para redefinir o desenvolvimento das naes e dos povos.

Em relao a uma tradio de pesquisa que, substancialmente, esgotava 
as anlises sobre o desenvolvimento tomando em considerao apenas 
indicadores de tipo econmico (produto interno bruto, taxa de 
inflao, rendimento mdio per capita, etc.), os relatrios UNDIP 
abrem, ao invs, espao a indicadores novos, para estimar o nvel 
global da qualidade de vida de cada Estado - relativos  esfera 
cultural, formativa, aos nveis de instruo da populao,  
liberdade poltica e de opinio, s discriminaes tnicas ou de 
gnero. Restam, pois, ainda alguns indicadores de carcter econmico, 
relativos s barreiras comerciais ou aos nveis do

54

dbito internacional de um pas, mas interpretados  luz dos reflexos 
que estes produzem no nvel de qualidade de vida da populao - por 
exemplo, de que modo a dvida externa produz como consequncia cortes 
no sistema de welfare interno (sade, educao, assistncia).

Com referncia especfica aos contextos territoriais, e, em 
particular, urbanos, os relatrios UNDP estudam sobretudo os 
processos de crescimento da urbanizao, nos pases do Norte e do Sul 
do mundo, atravs de indicadores relativos  percentagem de populao 
urbana no total da populao, ao crescimento relativo nos ltimos 
decnios da populao urbana,  densidade de populao nas cidades, 
ao crescimento das metrpoles com mais de um milho de habitantes e a 
fenmenos de superpopulao urbana.

Uma anlise das variaes entre contextos urbanos e rurais efectua-
se, pois, recorrendo a indicadores mais especficos de qualidade de 
vida, entre os quais a presena de infra-estruturas higinicas e de 
saneamento bsico, a disponibilidade de gua potvel, mas tambm a 
possibilidade de aceder aos servios do sistema sanitrio, a 
qualidade da alimentao infantil, ou mesmo indicadores de qualidade 
do ambiente natural (por exemplo, a quota de populao local exposta 
a rudos de trfego superiores aos limites de aceitabil idade). Este 
conjunto de indicadores permite, entre outras coisas, estabelecer 
todos os anos uma lista de todas as naes mundiais que, tendo em 
conta o nvel global da qualidade de vida, no corresponde a uma 
relao da pura riqueza econmica dos diferentes Estados. Assim, por 
exemplo, como se pode observar na tabela seguinte, pases como a 
Noruega ou a Sucia precedem os Estados Unidos, ou mesmo a Itlia ou 
a Espanha figuram aps alguns pases do Sul do mundo.

Posies de alguns Estados na lista de 1994, elaborada segundo o 
ndice de desenvolvimento humano (IDH) (UNDP, 1994)

1
2

Japo Canad

36
37

Chile Rssia

3
4
5

Noruega Sua Sucia
41
46
48

Portugal Argentina Polnia

6

EUA

70

Brasil

7
8
9

Austrlia Frana Holanda

73
75
85

Turquia Cuba frica do Sul

10

Gr-Bretanha

101

China

11
12

Islndia Alemanha

107
119

Arglia Marrocos

1...1

143

ndia

20
21
22

Barbados Irlanda Itlia

1...1
169
170

Nger Burkina Faso

25
30
33

Espanha Uruguai Coreia do Sul

171
172
173

Afeganisto Serra Leoa Guin

55

2. 2. 2. Os factores do crescimento urbano

Depois de passar em revista as principais linhas interpretativas do 
urbanismo nos contextos de baixo desenvolvimento, toma-se agora 
necessrio fazer algumas referncias aos caracteres que este 
apresenta, com a tnica sobretudo nos aspectos que - embora com 
inmeras variantes - se

acham presentes em quase todos os continentes e subcontinntes que 
for mam o Sul do mundo.

A esta luz, o primeiro aspecto que convm salientar  a dinn-a 
aparentemente imparvel do crescimento urbano. Para nos limitarmos 4 
alguns dados, relativos ao sculo xx, a taxa de crescimento anual da 
populao urbana passou de O,9% do perodo 1900-1920 para 3,4% no 
vintnio 1920-1940, atingiu 4,5% entre 1940 e 1950 e 5% (ou seja, uma 
taxa de crescimento que produziu a reduplicao da populao urbana 
em 14 anos) entre 1950 e 1970 (Bonnafous, Puel, 1983). Tambm no se 
pode afirmar que estes valores tenham baixado no perodo mais recente 
ou estejam destinados a diminuir no futuro imediato - em resumo, 
portanto, os pases de menor desenvolvimento so assinalados por uma 
expanso urbana que, segundo muitos, ultrapassa toda a possibilidade 
efectiva de controlo.

Alm de prosseguir (at este momento) de forma acelerada, o urbanismo 
nas reas de baixo desenvolvimento tende a privilegiar os centros 
urbanos de grandes dimenses e no as cidades intermdias. Entre 1950 
e 1980, nesses pases, o nmero das cidades com populao superior a 
5 milhes de habitantes passou de 1 para 15, enquanto nos de maior 
desenvolvimento o incremento foi de 5 para 11. Nos do Sul do mundo, o 
peso percentual da populao das cidades de mais de 5 milhes de 
habitantes no total da populao urbana subiu, no mesmo lapso de 
tempo, de 3,3 para 12,3%; nos do Norte, ao mesmo tempo, a variao de 
peso idntico revelou-se de propores quase irrelevantes - de 9,4 
para 10,0% (Brun, Williams, 1983). Por conseguinte, determinou-se nos 
primeiros uma superconcentrao da populao num nmero relativamente 
reduzido de cidades de dimenses gigantescas - trata-se de um 
fenmeno de macrocefalia urbana que, de resto, se acentua nos anos 
mais recentes, quando (como veremos no Cap@ tulo 5) os pases de 
desenvolvimento mais elevado se caracterizam por urna relativa 
desconcentrao da populao e, em alguns casos, por um

relanamento das cidades de mdia dimenso.

Quais so as causas desse impulso para o crescimento urbano? Uma 
resposta a esta pergunta no se reveste de simplicidade, tanto mais 
que, 4 variedade dos contextos que, sumariamente, se podem 
classificar como pertencentes ao Sul  de tal ordem que requer 
numerosos cambiantes na avaliao.

56

No entanto, em linhas gerais, pode afirmar-se razoavelmente que o 
conjunto dos factores que produzem a urbanizao  constitudo por 
uma mescla - variavelmente equilibrada - de causas de dois tipos 
distintos:

a) processos que incidem na desestruturao das reas rurais; b) 
processos que incidem na atractividade dos centros urbanos. Trata-se, 
em ambos os casos, de fenmenos em que a componente econmica exerce 
um peso acentuado, embora intervenham simultaneamente elementos de 
natureza demogrfica, social, poltica e cultural.

Os factores de crise e desestruturao das reas rurais representam, 
por assim dizer, uma mola que actua no sentido de impelir a 
populao para fora dos campos. O que se pode resumir dizendo que 
esto ligados  rotura de um equilbrio que, tradicionalmente, 
existia entre a populao e os recursos necessrios ao sustento desta 
ltima,  escala local. Com efeito, o contacto com o mundo ocidental 
favoreceu quase por toda a parte a difuso de meios teraputicos, de 
condies higinicas e alimentares tais que diminuem a mortalidade 
(sobretudo a infantil) e determinou, portanto, a presena de taxas de 
crescimento demogrfico elevadas, Entretanto, porm, quer o 
colonialismo poltico quer as vrias formas de subordinao econmica 
do Sul do mundo dentro de esferas de influncia dos pases 
desenvolvidos encaminharam a agricultura dos pases fracos para 
modalidades de organizao coerentes com os interesses dos pases 
europeus e norte-americanos, mas imprprios para manter o incremento 
da populao local (por exemplo, modalidades baseadas na cultivao 
intensiva de um nico produto destinado ao mercado internacional - as 
chamadas monoculturas). O resultado consiste em que uma parte da 
populao rural j no encontra nos campos meios de subsistncia, nem 
ao menos perspectivas de mobilidade social, e v-se obrigada a 
procur-los noutros lugares e, portanto, a emigrar para as reas 
urbanas do seu pas (e mesmo, em medida crescente, para os pases 
mais ricos da Europa e da Amrica).

Por seu turno, as grandes cidades dos pases de baixo desenvolvimento 
apresentam - em especial, se as comparam aos respectivos campos - 
motivos de atraco que representam um segundo estmulo dos processos 
de urbanizao - um estmulo que actua puxando a populao para si. 
Estes factores esto ligados aos recursos de que as cidades dispem 
(embora, por vezes, uma medida totalmente insuficiente) e permitm 
que a populao urbana resolva - ou, pelo menos, enfrente com maiores 
chances do que as presentes nos contextos rurais - alguns problemas 
vitais da vida quotidana, a comear pelo da sobrevivncia. Entre os 
recursos mencionados, situam-se sobretudo aqueles que dependem das 
actividades econmicas presentes nas cidades ou, de um modo mais 
geral, da presena de um mercado do trabalho e de mecanismos de 
distri-

57

buio do rendimento. Esses mecanismos nem sempre garantem a todos os 
indivduos rendimentos suficientes para sobreviver. Em todo o caso, 
bastam para estimular um afluxo de populao contnuo, a qual tenta 
de vrios modos obter deles o sustento. Por outro lado, convm no 
esquecer que a cidade , tambm - ainda que a nveis pouco mais do 
que elementares -, um lugar em que esto presentes servios, 
garantidos pelo Estado ou mais raramente da iniciativa privada e por 
vezes apoiados nas iniciativas de cooperao promovidas pelos pases 
desenvolvidos. Assim, a populao do campo  levada a transferir-se 
para a cidade para encontrar servios sanitrios ou para usufruir de 
instruo superior ou universitria. Nestes casos, a transferncia 
pode revestir-se, por vezes, apenas de um carcter irregular, ou 
sazonal, mas  de tal ordem que determina uma

ulterior congesto da cidade e uma sobrecarga das suas frgeis 
infraestruturas. Finalmente, os centros urbanos so atraentes pelo 
estilo de vida, que os caracteriza, pelos modelos de consumo que 
propem (por sua vez influenciados pelos modelos dominantes nos 
pases mais ricos), pelo facto de que favorecem a possibilidade de 
escapar ao controlo social sobre o comportamento individual, tpico 
dos contextos rurais. Estes factores de atraco cultural so tanto 
mais fortes quanto maior  o intercmbio entre cidade e campo e 
quanto mais profunda a penetrao dos meios de comunicao de massa. 
De qualquer modo, estes contribuem para difundir uma imagem positiva 
e, por vezes, idealizada da cidade, que exalta as suas 
potencialidades efectivas aos olhos de quem se prepara para emigrar.

O jogo cruzado dos factores de repulsa (dos campos) e de atraco 
(para as cidades) faz com que o impulso para o gigantismo urbano se 
crie tanto nas reas mais pobres como naquelas em que actuam 
processos de desenvolvimento, por vezes acelerados. No primeiro caso 
- como, por exemplo, na frica subsariana - tendem a predominar os 
impulsos para a fuga dos campos: os centros urbanos crescem, mas a 
chegada  cidade comporta, para muitos, apenas a transferncia para 
reas desprovidas de todos os servios e um difcil trabalho de 
bricolage para obter, de vrias fontes, um rendimento de 
subsistncia. No segundo caso - como na faixa costeira chinesa ou 
nalgumas zonas da Amrica Latina - encontram-se fortemente presentes 
factores atractivos ligados ao desenvolvimento de compartimentos 
econmicos e produtivos. Por conseguinte, a chegada  cidade 
significa a participao numa competio, por vezes rdua, para a 
insero em actividades modernas e remunerativas. Quem chega em

primeiro lugar consegue elevar rapidamente a sua condio social, 
enquanto quem fica excludo encontra na sua frente um destino no 
forosamente melhor do que o que se depara aos habitantes das cidades 
mais pobres.
58

2. 2. 3. O duplo circuito da economia urbana

O que se acaba de referirj evidencia um aspecto essencial da econon-
iia urbana nos pases do Sul do mundo - o seu carcter fragmentrio 
e, em particular, a grande fractura que separa o sector modemo das 
actividades industriais e tercirias (onde ele existe) dos restantes 
sectores. Alm disso, esta separao sobrepe-se  distino entre as 
actividades formais, ou seja, sujeitas de algum modo  regulao de 
parte das leis e ao controlo do Estado,

e as informais, s quais esse controlo no se aplica e, ao invs, se 
desenvolvem com base em regras no escritas, de tipo consuetudinrio. 
Portanto, do ponto de vista econmico, as cidades dos pases de baixo 
desenvolvimento apresentam duas faces muito diferentes entre si, 
aproximadas no espao, mas no integradas de modo algum - a primeira 
 constituda por actividades que se desenvolvem no seio de 
organizaes pblicas e privadas mais ou menos eficientes, mas 
substancialmente similares s organizaes homlogas dos pases 
desenvolvidos, e a segunda (de dimenses com frequncia muito 
maiores)  formada, na sua maior parte, por actividades de servio, 
desenvolvidas por particulares ou pequenas unidades no formalizadas, 
por vezes estruturadas em bases familiares, de bairro ou tnicas. 
Esta dupla realidade econn-iica determina, para retomar uma clebre 
anlise de Santos (1977), um duplo circuito urbano nos pases do Sul 
- por um lado, o que liga as actividades modernas e de nvel superior 
do prprio pas e est aberto aos contactos com os pases do Norte, 
por outro, um segundo circuito (ou melhor, uma multiplicidade de 
circuitos locais) de natureza informal e dotado de escassa abertura 
para o exterior.

No que se refere ao sector moderno da economia,  constitudo 
essencialmente por unidades que dependem de empresas multinacionais 
(indstrias quase sempre de carcter no inovativo, ou ento bancos, 
seguradoras, sociedades financeiras, etc.). Nos pases mais pobres, 
este sector est ausente, ou  de entidade exgua, a representar o 
sector formal esto exclusivamente as actividades dependentes da 
administrao pblica (por exemplo, no campo dos transportes), as 
quais, por outro lado, so caracterizadas por baixa eficincia e 
qualidade inferior.

O sector informal, por seu turno, compe-se de diversos 
compartimentos cujos limites se esfumam e que so estabelecidos em 
diferentes modos por socilogos e economistas que procuram oferecer 
uma classificao.

De qualquer modo, podemos dizer que um primeiro compartimento  
constitudo por um conjunto de actividades organizadas fora de 
qualquer tipo de mercado, com base numa permuta de favores, como, por 
exemplo, entre famlias aparentadas, entre vizinhos ou no seio de 
grupos da mesma origem tnico-regional. Esta forma de econon-a 
moral (Friedmann, 1989) tambm existe, em vrias formas, nas cidades 
de desenvolvimento elevado.

59

Todavia, nos pases mais pobres, reveste-se por vezes de um papel 
essencial para a sobrevivncia de grande parte da populao. Neste 
tipo de economia, as mulheres desempenham uma funo essencial.

Um segundo compartimento  representado por actividades que produzem 
bens e, sobretudo, servios para os quais h um mercado. Actividades 
de servio domstico, de comrcio ambulante, de pequenas restaura 
es (tambm desenrolada na rua ou, s vezes, nas prprias 
residncias), grande parte do artesanato tradicional ou dos 
transportes urbanos, actividades do sector da construo, e assim 
sucessivamente. Em algumas situa es (na Amrica Latina, por 
exemplo), uma parte destas actividades tende a organizar-se de forma 
cooperativa e a assumir posies intermdias entre o sector formal e 
o moderno. No interior deste compartimento tambm existem funes que 
so atribudas de preferncia s mulheres (por exemplo, o pequeno 
comrcio em muitas cidades africanas), enquanto noutras - como os 
transportes ou a actividade da construo civil - so 
predominantemente excludas.

De um modo geral, convm distinguir com ateno o sector informal da 
economia do abertamente ilegal. Embora exista uma rea de 
sobreposio entre os dois fenmenos, deve salientar-se que - nas 
cidades do Sul do mundo, como nas do Norte - as actividades ilegais 
mais rendveis (como a produo e trfico de droga, a prostituio 
organizada, as apostas e os jogos de azar clandestinos, o trfico de 
armamento, a tributao e a usura) so, em larga medida, controladas 
por organizaes dotadas de meios poderosos e larga cumplicidade no 
sistema poltico e no aparelho administrativo, judicial e policial. 
Em alguns aspectos, assemelham-se mais s actividades do circuito 
modemo (e, em certos casos, trata-se de verdadeiras empresas 
multinacionais, embora, obviamente, no formalizadas) do que s dos 
circuitos locais.

2. 3. O urbanismo fordista e a sua crise

2. 3. 1. As ondas longas do desenvolvimento industrial

Voltemos agora a concentrar a ateno no Norte do mundo. Nesta rea, 
como j referimos, a Revoluo Industrial e as profundas 
transformaes da estrutura social e poltica que a acompanharam 
criaram os pressupostos para uma mudana no menos radical do 
fenmeno urbano, que se evidenciou sobretudo na sua enorme expanso 
quantitativa. Embora os processos em causa, observados com uma 
ateno microscpica atravs das especifi-

60

cidades dos contextos e das fases, revelem caracteres variegados e 
por vezes contraditrios, no seu conjunto evidenciam sem dvida uma 
forte correlao entre o crescimento industrial e o das cidades.

O xito global destes processos pode observar-se, por exemplo, nos 
dados contidos na tabela 2. 1, que, aludindo a toda a Europa, avalia 
o andamento dos fenmenos de urbanizao, estimando, em datas 
sucessivas, o incremento da populao total, o da populao urbana, a 
taxa de urbanizao (ou seja, a relao entre a populao urbana e a 
populao total) e a taxa anual de variao da populao urbana.

Estes dados evidenciam que j no sculo XVIII se verificava no nosso 
continente um incremento - em termos absolutos - tanto da populao 
total como da populao urbana. Durante aquele sculo, porm, as 
popula es cresceram paralelamente, pelo que a taxa de urbanizao 
no sofreu variaes no seu conjunto (na realidade, o primeiro pas 
industrial, a Inglaterra, assistiu a um grande aumento da populao 
urbana, o que, todavia, foi contrabalanado pela diminuio do peso 
demogrfico das cidades de pases como a Blgica, Holanda e Portugal.

Ao invs, a partir do sculo XIX, as taxas de urbanizao revelaram 
uma rpida ascenso - em 100 anos, esse indicador, que, no incio 
superava pouco os 12%, triplicou, e o incremento prosseguiu a ritmos 
acelerados no sculo xx, at 1970 (com um abrandamento no vintnio de 
1930-1950). Em contrapartida, no perodo mais recente, o crescimento 
urbano parece

TABELA 2. 1.

Evoluo da populao urbana* da Europa (sem a Rssia) e da taxa de 
urbanizao - 1700-1980

Ano     Populao total     Populao urbana Taxa de urbanizao      
Taxa mdia anual (em milhes)         (em milhes)       (pop. 
urb/pop. tot.  de var. pop. urbana

x 100)         no perodo considerado

1700

102

12,6

12,3

1750
120

14,7

12,2

O,3

1800

154

18,6

12,1

O,5

1850

203

38,3

18,9

1,5

1880

243

71,4

29,3

2,1

1900

285

108,3

37,9

2,1

1910

312

127,1

40,8

1,6

1930

333

159,7

47,9

1,1

1950

367

186,O

50,7

O,8

1970

427

271,8

63,7

1,9

1980

456

304,1

66,7

1,1

* Populao que vive em centros oonn mais de 5000 habitantes. Fonte: 
Bairoch (1985), p. 282.
61

em fase de estabilizao - em todos os casos, a populao das 
cidades, no continente europeu, representa pouco mais de 2/3 da 
populao total.

Se opusermos  Europa outra grande rea do mundo desenvolvido, a 
Amrica do Norte, o andamento dos processos de urbanizao regista 
uma trajectria anloga, com algumas ligeiras variantes. Aqui, na 
realidade, a incidncia da populao urbana no sculo xvIlI situa-se 
em nveis inferiores aos europeus, mas, durante 100 anos sucessivos, 
a recuperao no confronto com o Velho Continente  particularmente 
rpida. Assim, no decurso do sculo xX, as taxas de urbanizao 
americanas superam as europeias, mas, nos anos mais recentes, o seu 
abrandamento  mais notvel, embora, actualmente, se situem em 
valores anlogos.

Com base nos dados acabados de citar, parece poder-se formar a imagem 
de um desenvolvimento paralelo e contnuo (se no mesmo linear) tanto 
do crescimento econmico como do das cidades. Seria, contudo, errado 
deduzir deste paralelismo, evidenciado em termos puramente 
quantitativos, a existncia de uma simples causalidade directa entre 
industrializao e urbanizao. Com efeito, a natureza das relaes 
entre os dois processos no se mantm inalterada durante a poca 
industrial, mas modifica-se em funo das caractersticas assumidas 
nos vrios perodos em que aquela poca se possa dividir.

Para explicar esta afirmao, convm, antes de mais, esclarecer o 
significado desta subdiviso em perodos. A esse respeito,  til 
salientar a interpretao da histria econn-ca dos ltimos 200 
anos, proposta por numerosos economistas, os quais sustentam que o 
desenvolvimento se realizou atravs de um andamento cclico, em que 
surgem vagas sucessivas. Os pontos de referncia tericos mais 
importantes, nesse sentido, so as hipteses de Kondratiev (1926), 
Schumpeter (1939) e, com diferenas de relevo, as de Kuznets; (1930). 
T m em comum o facto de reconhecer que, no andamento dos processos 
de desenvolvimento econmico  escala internacional - determinados 
por uma variedade quase catica de eventos e diferenciados de 
desfasamento entre os casos de contestaes singulares -,  possvel 
determinar ciclos de longo perodo de expanso e declnio, 
acompanhados de outros anlogos de crescimento e contraco dos 
preos dos bens produzidos (Berry, 199 1). Segundo a teoria de 
Kondratiev, a durao mdia desses ciclos (a que se alude por vezes 
falando de ondas longas do desenvolvimento)  de cerca de 50 anos 2.

Um dos factores que acompanham os ciclos da economia mundial e, em 
parte, contribuem para os interpretar  a dinmica, tambm cclica,

20S  ciclos de longo perodo das ondas longas do desenvolvimento 
no se devem confundir com os conjunturais, de perodo muito mais 
breve.

62

da inovao tecnolgica. Com efeito, as invenes que contribuem 
para a evoluo dos sectores produtores de bens e servios no se 
sucedem com continuidade no tempo, mas produzem-se essas mesmas 
segundas vagas, ou seja, fazem registar momentos de intensificao e 
de estagnao.

O ciclo da inovao tecnolgica e as suas consequncias no ciclo 
econmico podem ser descritos dividindo cada onda longa em quatro 
fases, do seguinte modo:

1. A fase inovadora  aquela em que a inovao aparece pela primeira 
vez e coincide frequentemente com um perodo de relativa estagnao 
econmica. Nestas condies, algumas empresas, para reagir  crise 
depressiva, investem mais intensamente na pesquisa e procuram 
introduzir inovaes relativas aos bens produzidos (esta inovao 
denomina-se de produto) e/ou respeitantes s tecnologias e 
modalidades organizativas empregadas na produo (inovao de 
processo). Entre essas empresas, algumas conseguem obter xito - 
quando isso acontece, a inovao proporciona lucros elevados e 
contribui para o seu relanamento.

2. A fase expansiva assiste a uma adopo crescente da inovao por 
parte de outras empresas. Esta renova o tecnolgica contribui para 
revitalizar os mercados, e toda a economia se repe em movimento a 
ritmo acelerado.

3. A fase da maturidade  aquela em que a vaga tecnolgica em vista 
apresenta a mais ampla difuso e influencia em profundidade a econon-
fia das regies mais desenvolvidas. O ciclo encontra-se no seu 
apogeu, e o ritmo do crescimento j no  to firme como na fase 
precedente.

4. A fase da estagnao faz assistir a uma nova inverso de 
tendncia. A tecnologia que constituiu o eixo motor de todo o ciclo 
parece agora obsoleta e a sua adopo universal faz baixar os 
produtos. Consegue primeiro um abrandamento mais pronunciado do 
crescimento econmico e depois uma verdadeira recesso. Esta ltima 
coloca em perigo as empresas e leva algumas a reagir, criando as 
condies para o incio de um novo ciclo.

Uma vez que, como se referiu, a durao dos ciclos econmicos  
aproximadamente de 50 anos, a histria da  poca industrial contm 
quatro ciclos inteiros (cada um dos quais j passou atravs de todas 
as fases acabadas de descrever), enquanto um quinto poderia ser 
considerado nos seus incios. Segundo a classificao de Freeman 
(1989), podemos enumerar os ciclos j completados da seguinte 
maneira:

a) ciclo da primeira mecanizao, baseado na indstria txtil (cerca 
de
1770-1840);

b) ciclo baseado no emprego do vapor como fora motriz e no 
desenvolvimento das vias frreas (1840-1890);

c) ciclo baseado na introduo da energia elctrica e na engenharia 
pesada (1890-1940);

63

d) ciclo caracterizado pela produo de massa de tipo fordita 
(1940-1990).

As datas aqui mencionadas devem entender-se apenas como unia 
indicao temporal sumria - na realidade, a parte final de cada 
ciclo sobrepe-se  inicial do ciclo precedente. Isto torna-se 
particularmente evidente na poca actual -j a partir de metade dos 
anos 70, na verdade, se define a superao do 4.? ciclo e comeam a 
delinear-se os caracteres de um ciclo sucessivo, que, todavia, ainda 
no parece ter encontrado uma caracterizao estvel. Como no 
tardaremos a verificar, porm, os aspectos salientes deste 5.? ciclo 
esto ligados  centralidade que nele assumem as tecnologias de base 
microelectrnica e os processos de elaborao da informao e 
comunicao  distncia.

2. 3. 2. Os ciclos do crescimento urbano

Em que sentido as ondas longas do desenvolvimento industrial 
influenciam o fenmeno do urbanismo?

Em primeiro lugar, pode-se responder afirmando que, atravs d media@ 
o de numerosas variveis, a sucesso das vagas e a altemncia de 
fases de inovao e de estagnao incidem na capacidade atractiva das 
cidades, aumentando-as ou din-nuindo-as segundo um ritmo tambm 
cclico. Por efeito disso, pode observar-se uma relao entre a 
dinmica do desenvolvimento industrial  escala mundial 
(caracterizada pela sucesso das vagas atrs referidas) e as 
flutuaes das taxas de crescimento da populao urbana - isto  
demonstrado, por exemplo, por Berry (1988), o qual, com referncia 
aos Estados Unidos no perodo de 1790-1980, revela cortio as taxas de 
urbanizao, apesar de sempre positivas, permitem reconhecer momentos 
de acelera o e de abrandamento em sintonia com as fases cclicas da 
econon-a.

No entanto, esta primeira resposta  ainda fraca e limitada aos 
aspectos demogrficos do urbanismo. Na verdade, so muito mais 
importantes os efeitos que as especificidades de cada vaga tm sobre 
os caracteres qualitativos do fenmeno urbano, ou seja, sobre a 
estrutura ocupacional, a estratificao social, os modos de vida, os 
conflitos e a prpria forma fsica da cidade. Cada ciclo econmico de 
perodo longo reflecte de forma radical o rosto da cidade e 
transforma-lhe os traos sociais - aumenta o peso de algumas camadas 
sociais e diminui o de outras, faz emergir algumas categorias de 
operadores econmicos e declinar outras, atenua ou aprofunda as 
distncias entre os bairros habitados por diferentes grupos, premeia 
quem possui determinadas competncias e pune quem as no possui, e 
assim sucessivamente. Estas alteraes, como as que se

64

referem ao ambiente construdo da cidade e ao sistema das infra-
estruturas, sucedem-se com intensidade descontnua - de um modo 
geral, so rpidas nas fases iniciais de cada ciclo, contudo abrandam 
o passo nos momentos da maturidade e da estagnao. Dessa forma, 
portanto, tambm a histria urbana da poca industrial, se a 
observarmos de uma perspectiva muito ampla, parece poder subdividir-
se em perodos de longa dura o e, se se comparar a sua 
periodicidade com a relativa  dinmica do desenvolvimento econmico, 
pode concluir-se que, mesmo com algum desfasamento, so 
substancialmente coerentes entre si.

Naturalmente, isto no significa que todas as variaes relevantes no

campo econmico se traduzem mecanicamente numa no menos relevante 
modificao da cidade. Para empregar uma metfora biolgica, podemos 
dizer que a cidade actua como um organismo complexo, certamente 
sensvel aos estmulos que recebe do exterior, mas, como estes conse-

guem influir na sua estrutura, so metabolizados e tornados 
compatveis com as exigncias do prprio organismo. Alm disso, todo 
o novo estmulo deve contar com os caracteres sociais, econmicos, 
culturais e fsicos que o sistema urbano herda do passado. Esto, por 
assim dizer, estratificados e sedimentados no decurso de uma histria 
por vezes

milenria e, mesmo quando configuram um campo receptivo nos con-

frontos da inovao, actuam de forma selectiva, Por outras palavras, 
esto dispostos a acolher apenas alguns elementos do processo 
inovador, mas resistem nos confrontos de outros (Cavallaro et al., 
1993). Em suma, a inovao, para incidir profundamente na estrutura 
urbana, deve integrar-se nela e interactuar com os elementos que no 
mudam, ou que se transformam a um ritmo mais lento. Por outro lado, 
com esta interaco tambm a inovao se modifica - o processo tem 
uma natureza adaptativa e pressupe um certo grau de flexibilidade de 
ambas as partes.

Com base no que se referiu at aqui, , pois, lcito falar de amplos 
ciclos do desenvolvimento urbano, colocando-os em relao com as cor-

respondentes ondas longas da dinn-ca econmica. Por esse motivo, 
nos trabalhos de muitos socilogos urbanos,  hoje frequente o uso de 
expresses como, por exemplo, a cidade da primeira mecanizao ou  
a cidade fordista., para aludir, em abstracto, aos caracteres 
tpicos que o urbanismo assume, respectivamente, na primeira metade 
do sculo XIX ou nos anos

sucessivos  Segunda Guerra Mundial. Neste contexto, recorre-se ento 
a expressM-s desse tipo e, em particular,  segunda, para salientar 
os caracteres da cidade predominantes durante o 4.? ciclo. Empregam-
se tambm rtulos anlogos (a cidade ps-fordista) para aludir aos 
sinais que se defi-

nem no perodo contemporneo (cf. ponto 2. 4. l.).

Este uso, porm, corre o risco de gerar equvocos, se no se est 
ciente do nvel de abstraco a que se referem todas estas 
expressoes.

65

Com efeito, referir de modo abstracto a fisionomia predominante das 
cidades de um dado perodo  muito diferente do que atribuir essa 
fisionornia indistintamente a todas as cidades do perodo 
considerado, independentemente do contexto em que se colocam e da sua 
histria individual. Na realidade, em qualquer poca, apenas um 
nmero relativamente reduzido de centros urbanos corresponde muito de 
perto  imagem abstracta e tpica exigida pela etiqueta, enquanto 
outros lhe correspondem apenas parcialmente e alguns em nada. A 
ttulo de exemplo, na poca da primeira mecanizao, dominada pela 
indstria txtil, nem todas as cidades se tornavam sedes importantes 
desta actividade - a

par das cidades industriais emergentes (por exemplo, em referncia  
Inglaterra, Manchester e Liverpool), mantiveram um papel relevante 
outros centros (como Bristol e Newcastle) que exerceram grande 
influncia em pocas anteriores  Revoluo Industrial (Bairoch, 
1985). O mesmo se aplica a propsito da fase fordista, para dar outro 
exemplo, em referncia  Itlia, os traos que podemos considerar 
caractersticos desse perodo respeitantes a uma cidade como Turim 
(sobretudo dos anos 50 aos 70) adaptam-se parcialmente a Milo, mas 
no correspondem minimamente s peculiaridades de  Roma e Palermo.

Os exemplos poderiam multiplicar-se - de um modo geral, serviriam 
para mostrar que, em cada perodo, existem centros fortemente 
permeveis aos caracteres tpicos da vaga econmica e outros ainda 
quase impermeveis. Entre estes ltimos, situam-se particularmente 
cidades que figuram nalgumas categorias facilmente determinadas, como 
as seguintes:

a) as cidades administrativas, cuja base ocupacional  representada 
de forma predominante por actividades da administrao pblica, como 
no caso de muitas capitais de Estado (Bonnet, 1994);

b) as cidades de especializao permanente, sobretudo as que so 
sedes de instituies culturais dotadas de histria secular, como as 
religiosas (Meca, Jerusalm, etc.) ou universitrias (Oxford, 
Heidelberga, etc.);

c) as capitais regionais marginais, ou seja, cidades em regies 
excludas dos principais eixos do desenvolvimento e com a funo de 
centro principal de servio da rea (muitas cidades de mdia dimenso 
no Sul italiano).

De qualquer modo, depois de nos precavermos contra todos os possveis 
mal-entendidos, pode revelar-se  til prosseguir as anlises

do urbanismo contemporneo, usando a chave interpretativa das teorias 
dos ciclos econmicos e urbanos e, portanto, focando a ateno nos 
processos de transio de um perodo fordista a um ps-jordista.

66

2. 3. 3. O perodo fordista e o papel da cidade

Retomando uma expresso que remonta a Grarrisci                       
inuitos socilogos concordaram em definir como fordista o perodo de 
desenvolvimento mundial que vai de cerca dos anos 30 aos 70. O incio 
situa-se, pois, nos anos que precedem a Segunda Guerra Mundial, e com 
as sociedades ocidentais empenhadas em reagir  crise econmica 
mundial iniciada com o crash da bolsa de Wall Street de 1929. O termo 
final, por outro lado, localiza-se na poca actual e define-se 
atravs de um conjunto de transformaes tecnolgicas e econmicas 
ainda hoje no totalmente concludas.

Alis, no tocante ao comeo deste perodo, convm observar que os 
seus pressupostos econmicos e tecriol gicosj se definem nos anos 
de 1910, em que - como demonstra o termo com que  designado - um 
papel essencial foi desempenhado por uma empresa especfica e o seu 
proprietrio: Henry Ford. Neste sentido, pode-se, pois, afirmar que o 
incio das inovaes que mais tarde tomaram possvel a afirmao do 
modelo fordista tem uma data simblica: 1914, ano em que ele 
introduziu o dia de trabalho de oito horas a cinco dlares para os 
operrios da cadeia de montagem [     ... 1 inaugurada no ano 
anterior em Dearbom, Michigan (Harvey, 1990, p. 157).

Por conseguinte, como se pode depreender desta citao, o modelo 
inovador do modelo proposto por Ford tem como primeiro fundamento uma 
transformao tecnolgica e uma reorganizao da empresa, em que uma 
arte decisiva  desenvolvida pela aplicao dos princpios 
propugnados, naqueles anos, por um texto clebre de Taylor (1911). A 
introduo dos mtodos tayloristas implica a decomposio do processo 
produtivo de uni bem numa srie de operaes elementares e a sua 
recomposio por meio de uma soluo tcnica inovadora - a cadeia de 
montagem mvel, que transporta o pedao a trabalhar, 
sucessivamente, diante das posies ocupadas por cada operrio. Esta 
transformao da fbrica tem como efeito imediato a ntida diminuio 
do tempo necessrio para produzir um bem, contanto que este seja 
produzido a uma escala suficientemente grande para amortizar os 
custos da implantao inicial da cadeia. Um segundo efeito, porm, 
diz respeito  composio da fora-trabalho - como as qualificaes 
exigidas aos operrios so elementares (como poder fazer em poucas 
horas ou, quanto muito, em poucos dias de trabalho), passa a ser 
drasticamente redimensionado na fbrica o papel dos trabalhadores de 
alta qualificao, enquanto cresce o peso numrico dos operrios 
genricos. Alm disso, estes ltimos executam um trabalho repetitivo 
e no se encontram em condies de exercer algum controlo sobre os 
modos e ritmos de produo. Por isso, nos primeiros anos de aplicao 
destes mtodos, o tipo de competncias de trabalho
67

exigido pela Ford foi encarado pelos trabalhadores como 
desqualificativo e destitudo de interesse. A consequncia foi uma 
fuga impressionante de mo-de-obra, a qual abandonou a empresd em 
busca de ocupaes operrias mais tradicionais.

Da surgiu, para a Ford, a exigncia de introduzir um novo sistema de 
relaes entre a empresa e os seus dependentes, inserindo incentivos 
e

actos para contrabalanar os aspectos negativos. Nesta perspectiva, 
foram introduzidas formas de apoio s farnflias operrias, com a 
interveno de operadores sociais apropriadamente adestrados. De 
resto, essas iniciativas, alm de terem um objectivo social, 
ocultavam uma finalidade de controlo sobre estilos de vida do 
trabalhador na prpria esfera privada. Por seu

turno, a tentativa de instaurar relaes no apenas econmicas entre 
a

empresa e os trabalhadores inseria-se numa concepo mais ampla, 
apoiada por Ford, segundo a qual, nas sociedades industriais 
modernas, a empresa no devia ser encarada apenas como uma 
instituio produtiva, mas como o verdadeiro e prprio corao da 
organizao social. Por outro lado, as consequncias do novo modo de 
produzir no se limitavam s fbricas, mas abarcavam toda a 
sociedade. Com efeito, como se salientava, o fordismo s era 
eficiente se os bens se produzissem em grande escala e

fortemente estandardizada. Por conseguinte, isso no se podia aplicar 
a

mercadorias destinadas somente a uma elite restrita. Ao invs, o 
mercado devia ser acessvel a grandes massas, de que fizessem parte 
os prprios trabalhadores que produziam esses bens. Os operrios 
deviam gozar de rendimentos suficientes para tornar possveis 
poupanas que depois seriam utilizadas para adquirir produtos 
industriais e sobretudo bens de consumo durveis, como o automvel e 
os electrodomsticos. Mas, para que esse

ciclo produo-poupana-consumo fosse possvel, tornava-se necessrio 
que a empresa exercesse, ainda que indirectamente (por exemplo, 
atravs da publicidade e do uso dos mass media), um largo controlo 
sobre os modelos de consumo, de utilizao dos rendimentos e do tempo 
livre, prprios das grandes massas.

O projecto fordista, no tocante  organizao produtiva e  ampliao 
do mercado, estava destinado a um xito crescente, primeiro na

Amrica do Norte (j nos anos 20 e 30) e, mais tarde, na Europa - 
depois da Segunda Guerra Mundial generalizou-se e, como se referiu, 
definiu o modelo dominante durante cerca de 30 anos. Por outro lado, 
no que se

refere aos elementos relativos ao papel da empresa na sociedade, 
enfrentou uma quebra parcial, pelo que estava destinado a 
redimensionar-se. Na verdade, perante a crise econmica dos anos 30, 
as empresas - mesmo

as grandes corporations - no se mostravam preparadas para executar a

tarefa de conduzir a economia e a sociedade para fora da fase 
depressiva. Ao invs, revelou-se essencial a interveno 
regularizadora do Estado,

68

que se preocupava sobretudo em evitar que a crise recasse sobre si 
prpria, e, para inverter o sinal da conjuntura econmica, ps em 
aco actos polticos de expanso da despesa pblica e apoio  
procura. Apesar de tudo isto, no ps-guerra realizou-se parte do 
projecto original - embora a grande empresa no pudesse ficar atrs 
do Estado, tornou-se na protagonista indiscutvel no s da cena 
econmica mas tambm da social.
O bem-estar econmico dos pases mais avanados dependia, com efeito, 
sobretudo da expanso dos mercados dos bens produzidos pelas grandes 
empresas; ligavam-se-lhe intimamente as perspectivas ocupacionais de 
grande parte da populao activa e as possibilidades de esta aceder a

nveis de consumo mais elevados. Na realidade, este percurso entre 
cres-

cimento da produo e crescimento dos consumos (favorecido pela 
difuso de uma propenso cultural para ver no aumento dos consumos o 
smbolo de uma posio social em ascenso) actuou de uma forma quase 
contnua durante cerca de 30 anos, da reconstruo do ps-guerra at 
metade dos anos 70, e tomou-se possvel pelo impulso propulsivo de 
empresas de grandes dimenses e dotadas de um raio de aco cada vez

mais internacional. A prpria possibilidade, por parte do Estado e 
das administraes locais, de intervir no campo econmico e reforar 
o quadro dos servios pblicos apoiava, em ltima instncia, o xito 
da grande empresa, a qual, graas a lucros elevados, estava em 
condies de distribuir salrios e lucros mais elevados aos seus 
dependentes e aumentava assim os rendimentos sobre os quais incidiam 
os impostos que, por sua

vez, permitiam o financiamento das polticas pblicas.

No perodo fordista, a cidade - sobretudo se caracterizada pela 
grande empresa - assumiu uma funo muito importante, mas, ao mesmo 
tempo, sofria transformaes que lhe alteravam a estrutura e a 
submetiam a tenses arriscadas para a sua identidade.

Por um lado, de facto, ela era o principal foco de irradiao do 
modelo fordista. Dados os princpios de organizao industrial, 
salientados atrs, a grande empresa, para se revelar eficiente, 
necessitava de ter concentradas as suas unidades de produo e as 
sedes administrativas e de direco. A indstria apresentava-se, 
pois, como um conjunto de actividades espacialmente no divisveis, o 
qual, devido precisamente s suas

grandes dimenses, tinha a necessidade de se apoiar a uma grande 
cidade. Com efeito, a indstria encontrava nela, alm de uma 
importante reserva de mo-de-obra e um primeiro mercado de escoamento 
dos seus bens, uma rede de servios e infra-estruturas (dos servios 
financeiros aos

sociais, das escolas profissionais s universidades tcnicas, da rede 
de transportes aos hdricos, esgotos, elctricos, e assim 
sucessivamente). Tudo isto permitia-lhe realizar as poupanas que, na 
linguagem dos economistas do espao, obedecem  designao de 
economias de urbanizao

69

(Hoover, 1937; Isard, 1956). Alm disso, nas reas urbanizadas, as 
grandes empresas favoreciam o desenvolvimento de um conjunto de 
indstrias menores que se configuravam como empresas complementares 
e se especializavam na produo de elementos ou bens subtrabalhados, 
que entravam no ciclo de produo da empresa principal (por exemplo, 
no caso de reas concentradas na produo automobilstica, as 
empresas complementares produziam os carburadores, as partes de 
plstico do automvel, ou ento projectavam carroarias fora de 
srie, etc.). Por estes motivos, o desenvolvimento industrial de tipo 
fordista revestia-se de um carcter inevitavelmente polarizado 
(Perroux, 1961; Remy, 1966), ou seja, actuava-se por meio do 
crescimento de grandes conjuntos econmicos, hegemonizados poi- uma 
ou mais grandes indstrias, que representavam as empresas motrizes do 
plo e estabeleciam com as outras empresas relaes de dominao, no 
determinadas pelo princpio do mercado concorrencial. Alm disso, do 
ponto de vista de localizao, pressupunha a expanso de um nmero 
relativamente reduzido de plos de desenvolvimento, ou seja, de reas 
metropolitanas em crescimento demogrfico contnuo.

Por outro lado, todavia, essa expanso constante da indstria e da 
cidade no podia actuar seno pelo preo de elevados custos sociais. 
Estes derivavam do facto de o crescimento dos postos de trabalho nos 
plos de desenvolvimento gerar grandes fluxos migratrios no 
provenientes apenas dos campos circunvizinhos, mas tambm de outras 
regies do prprio pas (como acontecia com as migraes do Meio-Dia 
italiano para as cidades do Norte, nos anos 50 e 70) ou mesmo de 
outros pases (como sucede em muitos da Europa Central e 
Setentrional, onde, nos mesmos anos, chegam, em vrias vagas, 
trabalhadores de Itlia, Espanha, Turquia, Arglia, etc.). Estas 
correntes migratrias, alm de fazerem surgir problemas de integrao 
de recm-chegados e agudizarem os conflitos sociais, tinham o efeito 
de expandir as cidades para um crescimento impetuoso, que produzia 
com frequncia um alargamento do tipo mancha de leo, com a 
construo apressada de novos bairros de baixa qualidade ambienta], 
escassamente ligados ao centro citadino e mal dotados de servios. 
Perante isto, em alguns pases, como a Itlia, privados de 
instrumentos normativos adequados e de uma forte cultura da 
programao urbanstica, as administraes urbanas estavam, por assim 
dizer, coagidas a colmatar os rombos, investindo todos os seus 
recursos para resolver os problemas mais urgentes, sem conseguirem 
pr de acordo indstria e formas de desenvolvimento menos caticas. 
Ao invs, noutros pases, a expanso era refreada por meio de 
intervenes sociais e urbansticas macias e programadas, que 
previam a construo de bairros satlites, servios sociais de todos 
os tipos, no mbito de um aumento macio da despesa pblica, a nvel 
estatal e

70

local. Nesses pases, porm, embora estivessem conjuntamente 
presentes condies mais favorveis, registava-se uma notvel 
disparidade social entre os trabalhadores autctones e os 
estrangeiros imigrados - recaam nas costas destes ltimos, pelo 
menos num primeiro tempo, muitos dos sacrifcios que tornavam 
possvel o  xito da cidade fordista.

2. 3. 4. A crise do modelo fordista

O fordismo representou, durante cerca de 25-30 anos, um modelo de 
desenvolvimento econn-co e social assaz forte e coerente. No 
entanto -

como s depois se tomou evidente, quando a sua coerncia comeou a 
oscilar -, o seu xito apoiava-se num conjunto de condies ento 
efectivamente presentes, mas no destinadas a reproduzir-se num 
perodo muito prolongado.

No temos aqui espao para um exame aprofundado dessas condies e 
causas que as produziram. Limitar- nos-emos a referir que, a nvel 
macroeconmico, figurava o quadro de estabilidade internacional, 
formado no final do segundo conflito armado mundial, com a hegemonia 
poltica e econmica dos Estados Unidos sobre o mundo ocidental e a 
centralidade do dlar num regime de cmbios estabelecidos entre as 
moedas. Esse quadro favorecia igualmente a conteno dos custos das 
matrias-primas (a partir do petrleo, recurso sempre essencial para 
cobrir uma necessidade energtica crescente) e criou condies 
favorveis a um alargamento dos mercados nos pases industrializados.

Tornou-se, assim, possvel a instaurao de um processo cumulativo do 
desenvolvimento que, especialmente nos anos 60 e princpio dos 70, se 
traduziu em taxas de crescimento econmico anual particularmente 
elevadas (mas destinadas a diminuir no decnio seguinte: cf. tabela 
2. 2).

TABELA 2.2. Taxas de crescimento anual (percentual) em alguns pases 
avanados e no conjunto dos pases da OCSE (1960-1985)

1960-1968      1968-1973      1973-1979      1979-1981

EUA                         4,4            3,2            2,4           
2,5 Japo                       10,4           8,4            3,6           
4,O Alemanha Ocidental          4,1            4,9            2,3           
1,3 Frana                      5,4            5,9            3,1           
1,1 Gr-Bretanha                3,1            3,2            1,5           
1,2 Mdia OCSE                  5,1            4,7            2,6           
2,2

Fonte: OCSE, cit. in Harvey (1990), p. 164.
71

Este processo cumulativo, por seu turno, pode interpretar-se como o 
efeito de um mecanismo de desenvolvimento que assumia a forma de um 
crculo virtuoso, ou seja, de um fenmeno que se reproduzia de um 
modo cada vez mais amplificado, com resultados positivos.

Os anis fundamentais desse crculo podem descrever-se do seguinte 
modo:

1. O sector industrial - proveniente da grande empresa - desenvolvia-
se a ritmos moderados e, graas  introduo contnua de inovaes 
tecnolgicas, aumentava a sua produtividade.

2. O aumento da produtividade permitia reduzir os custos do produto 
no mercado e tomava assim possvel um grande alargamento dos mercados 
(quanto aos bens disponveis apenas para uma populao de rendimento 
elevado, como a automvel, podiam agora ser tambm adquiridos por 
quem dispunha de rendimentos mais baixos).

3. Para enfrentar o alargamento dos mercados, as empresas tinham de 
aumentar a produo, o que provocava um aumento da ocupao e, 
portanto, um incremento do rendimento distribudo atravs dos 
salrios dos trabalhadores.

4. Por sua vez, este rendimento permitia s famlias dos 
trabalhadores o aumento dos consumos, o que provocava, em resposta, 
um aumento global da procura de bens industriais.

5. Alm disso, a maior riqueza presente nos pases permitia que o 
Estado aumentasse as receitas fiscais e, desse modo, potenciasse os 
servios sociais, criando igualmente novos postos de trabalho no 
sector pblico.

Como se pode depreender, o alargamento constante dos mercados 
internos dos pases desenvolvidos desempenhava uma funo essencial. 
Com efeito, apenas isto fazia com que a ocupao industrial crescesse

em presena de uma inovao tecnolgica que, por si, exercia o efeito 
de tornar o trabalho mais produ+ivo e, portanto, reduzia o nmero de 
horas de trabalho necessrias para produzir um bem. Para dar uma 
ideia da ordem de grandeza dos processos agora referidos, podemos 
citar alguns dados revelados por Gallino (1994-95), relativos  
produo da Olivetti no perodo de 1946-1958. Nesse lapso de tempo, a 
quantidade de bens produzidos (mquinas de escrever e material de 
escritrio) cresceu cerca de 13 vezes. Ao mesmo tempo, a 
produtividade do trabalho cresceu quase 6 vezes - o que significa 
que, no final do perodo, para obter a mesma quantidade de 
mercadorias, era necessrio recorrer apenas a um sexto dos 
trabalhadores presentes no incio. Contudo, o balano  favorvel ao 
aumento da ocupao - em virtude do alargamento do mercado, ela pde 
aumentar em cerca de 2,3 vezes em todo o perodo.

No entanto, todo o conjunto de circunstncias favorveis descritas 
at aqui comeou a enfraquecer no incio dos anos 70, o que provocou

72

um primeiro efeito de desestabilizao do modelo fordista, embora se

pudesse falar de um comeo do processo de transio para um modelo 
ps-fordista somente alguns anos mais tarde. Tambm nesse momento de 
crises de modelo - como j no momento da sua consolidao - 
intervieram numerosas circunstncias  escala internacional, que se 
cruzaram

com eventos relativos a cada pas. Entre as primeiras, podemos citar 
o

compromisso do preo do petrleo (e depois de outras matrias-primas) 
subsequente ao conflito israelo-rabe de 1973. De um modo mais geral, 
surgiam menos as condies de estabilidade do quadro econmico mun-

dial e do regime de cmbios monetrios, sancionados no final da 
Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, j no final dos anos 60, assistia-se 
em muitos pases a um aumento dos conflitos sociais e  recusa, por 
parte dos trabalhadores, das condies de trabalho tpicas da fbrica 
organizada com base na cadeia de montagem. O conjunto destes 
fenmenos incidiu negativamente no rendimento econmico das empresas 
e impeliu os grandes grupos industriais a introduzir estratgias de 
reestruturao produtiva, com vista a diminuir o custo geral do 
trabalho e a aumentar a sua produtividade.

No mbito dessas estratgias figurava tambm a intensificao da 
pesquisa, que favoreceu o incio de uma nova vaga de inovaes, 
baseadas em

primeiro lugar nas aplicaes da tecnologia microelectrnica, que iam 
da automatizao de fases inteiras dos ciclos produtivos ao 
desenvolvimento dos instrumentos de clculo e ao incremento dos meios 
para a comunicao  distncia.

Contudo, esta fase inovadora, se, por um lado, criava os pressupostos 
para uma nova configurao da economia mundial (e um consequente novo 
impulso para o desenvolvimento, nos anos 80), por outro no conseguia 
garantir o funcionamento do crculo virtuoso atrs mencionado, nem 
produzir novos mecanismos, como tornar o crescimento econmico e 
social estvel.

Ficava, em particular, comprometida a circularidade dos processos que 
ligavam o aumento da produo industrial ao da ocupao e alargamento 
dos mercados, no seio dos pases desenvolvidos. Na fase inovadora 
baseada na microelectrnica, o que@prevalecia era a inovao de 
processo, mais que a de alguns produtos. E certo que criava um 
mercado macio para alguns produtos anteriormente inexistentes (em 
primeiro lugar, entre todos, o computador pessoal), mas introduzia 
sobretudo novos modos de produzir bens j presentes no mercado com 
fortes redues de custos. Esta forma de inovao j transformara 
rapidamente o rosto

de muitas fbricas - no caso da indstria automobilstica, por 
exemplo, a substituio de operrios por robots industriais permitiu 
manter os mes-

mos nveis quantitativos da produo (e aumentar a qualidade) com um

73

nmero mais reduzido de trabalhadores. Menos radicalmente 
transformado, de momento, era o sector tercirio, mas mesmo neste 
caso previa-se que, no futuro imediato, interviria um processo de 
automatizao de muitas funes, que conduziria a uma contraco 
drstica dos intervenientes. Juntava-se a tudo isto que uma parte das 
actividades produtivas, que continuavam a exigir uma forte incidncia 
do trabalho humano, tendia a ser transferida dos pases de 
desenvolvimento mais elevado para os emergentes, onde o custo do 
trabalho era nitidamente mais baixo.

Nestas condies, nos pases economicamente avanados, o crescimento 
da produo j no significava o aumento da ocupao industrial
- os novos mercados que se abriam j no eram suficientes para 
contrabalanar a perda de postos de trabalho devida  automatizao. 
Em resumo, a expanso econmica j no implicava necessariamente um 
processo voltado para condies de bem-estar difundido por toda a 
sociedade. Pelo contrrio, podia coexistir com a presena de uma 
quota de desocupao estvel ou de ocupao em sectores de 
actividades marginais e mal remuneradas.

2. 4. O novo papel econmico da cidade

2. 4. 1. O espao econmico ps-fordista

A maior parte dos estudiosos est hoje de acordo em afirmar que a 
crise do fordismo operou uma rotura substancial de continuidade nos 
processos de desenvolvimento; por outro lado, existe um grande 
desacordo sobre a natureza do novo modelo socioeconmico, que comeou 
a definir-se nos anos 80, e at sobre a terminologia empregada para o 
designar.

Predominam, em geral, as definies por diferena, construdas 
mediante o uso do prefixo ps. Assim, por exemplo, o perodo que 
hoje atravessamos  por vezes denon-iinado ps-fordista (como j 
comemos a fazer aqui) e noutros casos ps-industrial. Esta ltima 
expresso (j proposta por alguns socilogos em finais dos anos 60) 
dir-se-ia implicar uma opinio mais radical sobre o alcance da rotura 
de continuidade do que se afirmou - com efeito, decretaria a 
superao no s do perodo fordista, mas de toda a poca iniciada 
com a Revoluo Industrial (Bell, 1973; Touraine, 1969). 
Concretamente, porm, acontece com frequncia que o adjectivo ps-
industrial  empregado pelos cientistas sociais numa

74

acepo muito genrica, ao ponto de no o tomarem substancialmente 
diferente do termo ps-fordista (acepo que adoptaremos no 
presente trabalho). Alguns socilogos optam por falar de uma poca 
ps-moderna -

neste caso, porm, a tnica costuma ser colocada (como veremos no 
captulo 4) mais na dimenso cultural que na socioeconmica. Convm 
salientar, por fim, que outros preferem recorrer a expressoes que 
evidenciam positivamente as caractersticas do novo modelo econmico 
e social - assim, por exemplo, com intenes diferentes, Castells 
(1989), Lyon (1988) e Detragiache (1988) falam de sociedade de 
informao, para salientar a centralidade que tm nela as actividades 
ligadas  troca e elaborao de informaes.

Como  fcil depreender, a variedade terminolgica reala como a 
sociologia ainda no conseguiu formular avaliaes unnimes, nem, ao 
menos, previses partilhadas. Apesar disso, comeam a manifestar-se 
com uma certa evidncia alguns pontos firmes do debate. Referem-se, 
em primeiro lugar, aos caracteres gerais do modelo socioeconmico 
emergente e, em segundo, aos factores que condicionam as 
manifestaes espaciais e as formas estabelecidas.

1. Como j se referiu, a inovao tecnolgica at aqui decisiva para 
o desenvolvimento de um novo modelo baseia-se nas tecnologias 
microelectrnicas e na comunicao  distncia. Nestes anos, est a 
desenvolver-se um processo de integrao entre vrias tecnologias j 
em funcionamento e, mais adiante, define-se uma nova vaga inovadora 
baseada em diversas linhas de avano tecnolgico (por exemplo, o 
desenvolvimento da engenharia gentica e das biotecnologias). As 
consequncias da inovao referem-se quer  natureza dos bens e 
servios oferecidos, quer (ainda mais)  transformao nas 
modalidades organizativas da actividade econ mica. Alm disso, dizem 
respeito  diviso do trabalho entre pases desenvolvidos e outros em 
vias de desenvolvimento e, no seio de cada tipo de pas, entre 
regies e cidades diferentes.

2. No que se refere s caractersticas dos produtos, diminui a 
centralidade relativa da produo de bens de consumo durveis, pelo 
menos nos pases mais desenvolvidos. Isto, porm, no significa que o 
mercado desses bens se restringe (quando muito, pode afirmar-se que, 
pelo menos no tocante a produtos maduros, como o automvel, se 
torna essencialmente num mercado de substituio: os carros vendidos 
servem para substituir os abatidos; quer antes dizer que a indstria 
produtora destes bens ocupa uma quota decrescente de mo-de-obra e 
transfere fases de laborao inteiras para os pases de 
industrializao recente. Entretanto, nas reas fortes do 
desenvolvimento,  desempenhado um papel cada vez maior pela oferta 
de bens e servi os de vrias naturezas, os quais tm em comum o 
facto de consistirem essencialmente em activi-

75

dades de recolha e elaborao de informaes. Passa-se dos servios 
informticos aos financeiros, da consulta tecnolgica ao marketing, 
das telecomunicaes  informao televisiva e ao espectculo. Trata-
se, portanto, por assim dizer, de bens e servios em que o elemento 
decisivo  de natureza imaterial (a informao), embora se torne 
indispensvel uma grande utilizao de recursos materiais e 
energticos. Alm disso, bens e servios esto voltados para um 
mercado que no se compe apenas de consumidores finais, mas tambm, 
em medida relevante, de outras unidades econmicas. Para este tipo de 
produtos, a incidncia de tecnologias avanadas  muito grande e 
elevado o ritmo a que se sucedem as inovaes. No to consistente , 
pelo contrrio, o impacte ocupacional e, no entanto, de modo algum 
compensa a perda de postos de trabalho na indstria.

3. No respeitante s modalidades organizativas do processo produtivo, 
o aspecto essencial  constitudo pela tentativa, por parte das 
empresas, de superar as rigidezas tpicas do modelo fordista e 
desenvolver ao mximo a flexibilidade e capacidades de responder em 
tempo real s exigncias mutveis do mercado (Swyngedouw, 1986) 
atravs do recurso

macio  robotizao e ao uso de mquinas controladas pelo 
computador. Trata-se, pois, de produzir bens relativamente 
tradicionais, ou

ento inovadores, e o imperativo fundamental  realizar uma produo 
diversificada (de modo a responder a um mercado que, agora, tende a

rejeitar os produtos excessivamente estandardizados) e elevar a 
qualidade do produto, mediante controlos contnuos ao longo de todo o 
ciclo de laborao, e no apenas no fim, sobre o produto acabado 
(como acon-

tecia na fbrica fordista). Esta modalidade produtiva, 
denominadafbrica integrada, implica um maior envolvimento da mo-de-
obra na verificao da qualidade do trabalho e, em geral, um maior 
envolvimento por parte dos trabalhadores, das finalidades da empresa 
(Cf. ESQUEMA 2. 3.).

A propsito dos efeitos do novo modelo econmico ps-fordista sobre a 
articulao do espao econmico, parecem definir-se alguns pontos 
firmes.

4. Convm, sobretudo, salientar que, enquanto os principais agentes 
do desenvolvimento na fase fordista eram grandes empresas que 
efectuavam a produo em grandes estabelecimentos de localizao 
predominantemente urbana, na epoca ps-fordista os principais 
intervenientes so empresas que, do ponto de vista financeiro, tm 
dimenses ainda maiores, mas, do ponto de vista produtivo, recorrem a 
estabelecimentos mais pequenos e territorialmente descentrados. Para 
retomar os termos empregados na linguagem da economia, na estratgia 
localizativa da poca fordista eram no s preponderantes as 
economias de escala - ou seja, as vantagens derivadas das redues de 
custo ligadas  ampla dimenso

76

das unidades produtivas - como as economias de localizao - as 
vantagens recprocas, dependentes da vizinhana espacial de uma 
multiplicidade de actividades econmicas. Hoje, ao invs, o primeiro 
tipo de economia perde decididamente importncia, enquanto ao segundo 
(que mantm parcialmente o seu peso) se apoia um terceiro, 
representado pelas economias de diversificao (scope economies). 
Estas ltimas referem-se s vantagens relacionadas com a capacidade 
de uma empresa de produzir no seu seio uma gama diversificada de bens 
e servios ou coorden-los de forma eficaz, independentemente da 
localizao das unidades produtivas (Goldstein, Gronberg, 1984). Esta 
situao favorece as empresas multinacionais capazes de escolher a 
localizao das suas unidades no xadrez internacional e, por 
conseguinte, usufruir, simultaneamente, das oportunidades ligadas a 
todo o tipo de instalao, em funo das exigncias das prprias 
unidades.

ESQUEMA 2.3. Para a nova fbrica integrada

os anos 80, no Ocidente, caracterizaram-se por uma automatizaao 
macia dos processos produtivos, sobretudo no sector industrial, 
graas  robotizao de grande parte das fases de produo. Entre 
fins do decnio e incio do seguinte, afirmou-se um novo modelo 
produtivo, de importao, baseado em pressupostos tericos da 
fbrica integrada idealizada no Japo (Cerruti, Rieser, 1991; 
Bonazzi,
1993; AA. W., 1993a).

A passagem para este modelo produtivo implica duas novidades 
fundamentais. A primeira  representada por um objectivo de 
valorizao dos recursos (materiais e humanos), com base no critrio 
da mxima qualidade. Trata-se de um modelo de fbrica mais 
participado% caracterizado por maior autonomia em grande parte das 
decises e opes, funes profissionais individuais polivalentes e 
intermutveis, numa flexibilidade (numrica e organizativa) das 
brigadas de trabalho, que devem saber-se adaptar s alteraes dos 
fluxos produtivos. Para tal, torna-se tambm necessria uma fora de 
trabalho mais qualificada, o que levanta a questo da formao 
permanente.

A segunda inovao fundamental da fbrica integrada consiste numa 
reestruturao interna com base em critrios de ligeireza e 
flexibilidade. Isto significa, por exemplo, reduzir o material em 
armazm, ou mesmo assegurar contactos e relaes estveis e 
constantes entre a empresa produtora e a rede de distribuio dos 
produtos. So estes os princpios do chamado modelo just in time, que 
se prope garantir, em qualquer momento do cicio produtivo, uma 
perfeita simetria entre a oferta de bens produzidos e a procura 
proveniente do mercado. A chamada fbrica integrada representa um 
modelo produtivo de tipo ps-fordista, no sentido de que supera 
algumas das rigidezas prprias do fordismo, em nome de uma maior 
flexibilidade; e porque necessita de mo-de-obra qualificada, 
responsvel e em condies de comparticipar em opes de estratgia 
produtiva de carcter

77

sistemtico. Os princpios organizativos da fbrica integrada, que 
constituram o fulcro do chamado modelo Toyota, aplicados em anos 
recentes nos pases ocidentais, proporcionaram at agora resultados 
muito contraditrios e incertos. No  claro, em particular, em que 
medida resulta aplicvel com xito um modelo nascido e afirmado com 
base em princpios - entre os quais, por exemplo, a dedicao 
empenhadssima  empresa - praticamente desconhecidos nas culturas 
ocidentais. Algumas investigaes recentes conduzidas em Itlia em 
estabelecimentos integrados do grupo FIAT revelam realidades 
contraditrias ou distantes de todo o teorizado
- pouca transparncia nos processos, um resduo de centralismo de 
decises com reduzido ou nenhum envolvimento dos trabalhadores, 
escassa flexibilidade e rotao dos trabalhadores permanecem, o que 
leva alguns a afirmar que se trata de modelos incompletos de fbrica 
integrada,> (Cerruti, 1995).

5. Em consequncia disto, enquanto a poca fordista se mostrava 
dominada por uma tendncia geral para a concentrao das actividades 
produtivas em grandes plos urbanos, o perodo mais recente assiste a 
uma presena simultnea de impulsos centrfugos e centrpetos. Os 
primeiros dizem respeito s actividades industriais e, sobretudo, s 
que produzem bens de largo consumo - tendem a desenrolar-se em 
estabelecimentos de menores dimenses, que se dispem no exterior das 
reas metropolitanas (ou mesmo em reas de baixo desenvolvimento), em 
busca de custos do trabalho inferiores e condies de baixa 
conflitualidade sindical. Esta tendncia centrfuga  reforada por 
uma reorganizao das actividades que produzem os produtos 
semifabricados: em vez de serem executados (como anteriormente) por 
empresas complementares situadas nas proximidades de alguma empresa 
motriz, provm de indstrias descentralizadas, dispersas pelo mundo e 
operando num mercado internacional, enquanto as principais se limitam 
 montagem do produto final. Os impulsos centrpetos, em 
contrapartida, referem-se sobretudo s actividades tercirias mais 
qualificadas - da finana aos centros de consulta e de marketng, da 
pesquisa  actividade ligada  cultura e  informao. Para estas 
unidades econmicas, a localizao nos grandes centros metropolitanos 
e, em particular, nos centros direccionais apresenta-se ainda mais 
importante que no passado, assim como  determinante a vizinhana com 
os lugares da pesquisa tecnolgica e da deciso poltica. Por outro 
lado, para elas,  mais relevante a vizinhana com os ns do sistema 
dos transportes (sobretudo o areo), dada a grande mobilidade dos 
seus adeptos, enquanto, no que se refere ao trabalho, torna-se 
essencial a disponibilidade de mo-de-obra de alta qualificao, a 
qual se pode encontrar sobretudo nas reas metropolitanas.

6. Conio esta ltima observao j evidencia, no panorama econmico 
ps-fordista, se, por um lado, aumenta o nmero de alternativas 
situadas em lugares aceitveis para a maior parte das actividades (e, 
por consequncia,

78

diminuem os laos ligados  especificidade dos lugares da produo), 
por outro tomam-se mais importantes as relaes entre esses lugares, 
onde quer que se encontrem. Em suma, o espao caracteriza-se menos do 
que no passado como um conjunto de postos, para se configurar, de 
forma crescente, como um conjunto defluxos (Castells, 1989). A menor 
relevncia do peso localizativo, por outro lado, no se pode 
afirmar a propsito de qualquer tipo de actividade - corno j se 
referiu, as inovadoras e qualificadas so extremamente sensveis s 
propriedades dos lugares, e, por diversos motivos, h actividades que 
continuam a ressentir-se negativamente do factor distncia (por 
exemplo, muitas empresas ligadas ao sector das construes). Tudo o 
que at agora se citou tambm no significa que, entre as vrias 
partes do territrio e entre as vrias cidades, haja uma estrutura 
hierquica menor.  igualmente verdade que a hierarquia e o sistema 
das desigualdades entre os centros assume uma estrutura diferente da 
do passado, e, na definio do papel hierrquico de uma rea, tem 
maior importncia a presena de actividades tercirias inovadoras e 
infra-estruturas que favorecem a comunicao e a troca de informao.

No seu conjunto, os pontos atrs ilustrados definem esquematicamente 
as

propriedades que o sistema econmico e o espao correspondente tendem 
a assumir nos ltimos anos do sculo xx. A ttulo de comentrio, 
porm, convm acrescentar que, embora cada uma das tendncias 
indicadas esteja de algum modoj presente na cena internacional, nem 
todas esto forosamente destinadas a afirmar-se exclusivamente, nem 
com a mesma rapidez. Com efeito, algumas j hoje se manifestam por 
completo, e outras apresentam-se somente na forma inicial, apesar de, 
provavelmente, caracterizarem com maior intensidade os cenrios do 
prximo futuro (Capello, 1994). S uma anlise pormenorizada - no 
possvel aqui - nos permitiria aprofundar o mrito dessas distines.

2. 4. 2. Redes globais e sistema econmico urbano

Tentaremos agora esclarecer melhor um dos pontos examinados apenas de 
passagem - o que diz respeito  importncia crescente do espao dos 
fluxos no panorama socioeconmico da poca ps-fordista. Foi 
considerado como um dos pontos firmes do debate sociolgico e no 
quadro das disciplinas urbanas. Isto no impede que, para alm de um 
reconhecimento comum da cada vez maior interligao entre as 
actividades econn- cas  escala mundial, se tenha assistido, nestes 
anos,  multiplicao de interpretaes diametralmente opostas, 
algumas das quais pem profundamente em causa a identidade econmica 
da cidade (juntando-se a posies de problematizao ainda mais ampla 
da realidade urbana - cf. o ponto 4.4. 1).

79

Os aspectos essenciais desses debates podem resunr-se do seguinte 
modo.

Na sociologia urbana clssica e na econon-a do espao, tende-se a 
considerar a cidade como sede de um conjunto de actividades econn-
cas, cujos participantes so, em grande parte, fornecidos pelo 
mercado do trabalho local (ou seja, so residentes da prpria cidade 
ou das cinturas suburbanas adjacentes). Os econon-istas classificam 
as actividades econmicas urbanas em dois tipos: por um lado, h as 
actividades de base, ou seja, as que produzem bens e servios 
destinados no s ao mercado local mas sobretudo a serem exportados 
para fora da cidade. Por outro, temos as actividades de servio, que 
produzem bens e servios destinados essencialmente ao mercado local, 
representado pelos residentes (Hoyt, 1954).
O conjunto das actividades econrrcas urbanas - nesta perspectiva - 
 considerado fundamentalmente integrado a partir do momento em que 
as diversas empresas esto ligadas por laos de complementaridade 
(recorde-se o que se referiu no ponto 2. 3. sobre a relao entre 
empresas motrizes e empresas complementares nos plos de 
desenvolvimento) e do momento em que atingem o prprio mercado do 
trabalho, usufruindo de infra-estruturas comuns, voltando-se, ao 
menos parcialmente, para o mercado urbano como para um mercado de 
escoamento dos seus produtos. Por conseguinte, pode dizer-se que as 
actividades urbanas formam um sistema econmico que tem, todavia, o 
carcter de um sistema aberto ao estrangeiro, abertura para a qual 
contribuem essencialmente as actividades de base, pela sua natureza 
voltadas para um mercado supralocal.

No entanto, a intemacionalizao da economia, acentuada em particular 
a partir dos anos 80, parece hoje ter-se desenvolvido ao ponto de pr 
em causa as anlises agora referidas, sobretudo no tocante ao 
carcter sistemtico do conjunto das actividades urbanas. Cornoj se 
comentou, os laos de complementaridade, no caso de muitas 
actividades produtivas (por exem-

plo, entre as que fabricam produtos semifabricados e as que montam o 
produto final), constituem-se muito mais  escala mundial que  
urbana ou  metropolitana, e ainda mais propensas s relaes a nvel 
internacional so as actividades que elaboram informao e produzem 
comunicao. Desse modo, o panorama econmico global, mais do que 
configurar-se como um conjunto de sistemas econmicos urbanos, ainda 
que apenas interagentes, parece manifestar-se como um entrelaamento 
de redes econmicas (produtivas, financeiras, de servio), que 
colocam nas diversas cidades ns de maior ou menor importncia, mas 
que funcionam substancialmente como entidades globais que operam com 
base em lgicas independentes das caractersticas dos contextos 
urbanos singulares.
Quais so os efeitos dessa reticularizao da economia 
internacional sobre a cidade?

80

So, sem dvida, de tal natureza que transformam nitidamente o 
significado econmico e social das relaes espaciais entre 
actividades. No conjunto, pode dizer-se que - pelo menos no que se 
refere s actividades pertencentes  base urbana - a importncia da 
proxin-dade espacial com outras actividades urbanas diminui, 
enquanto aumenta a da ligao a redes com funes complementares, 
onde quer que se situem. Para dar um exemplo, como afirma Dematteis 
(1995), hoje, os operadores de bolsa de Nova lorque, Tquio, Londres 
e Paris esto muito mais prximos? entre si do que em relao aos 
de outros sectores presentes nas respectivas cidades (p. 85).

Segundo alguns autores, isto basta para afirmar que a cidade 
contempornea j no temo carcter de um sistema economico, por ja 
no representar uma unidade territorialmente significativa - reduz-se 
a ser uma coleco de ns pertencentes a redes distintas, justapostas 
no espao, mas no efectivamente integradas. Trata-se de uma linha de 
raciocnio hoje sustentada, em particular, por socilogos e gegrafos 
dos processos em aco (embora, na realidade, se possa afirmar que 
esta linha se situa na continuao da ideia do declnio gradual dos 
laos espaciais, j perfilhada por Durkheim). Por outro lado, 
contudo, embora sem minimizar o alcance dos processes de crescimento 
das interligaes em larga escala, afirma-se que o carcter 
sistemtico da economia urbana no diminuiu, mas assistiu-se  
modificao da natureza das relaes que o determinam. Quem escreve 
est convencido de que esta segunda tese  dotada de maior 
plausibilidade,  luz dos processos efectivamente documentveis, at 
este momento. De qualquer modo, a dupla natureza da cidade como lugar 
da presena simultnea de ns pertencentes a redes globais e como 
sistema econmico local representa, hoje, um elemento de interesse 
crucial para as cincias sociais. Para tentar ilustrar melhor o 
assunto, dedicaremos os pontos seguintes a este problema, onde 
tomaremos em considerao em primeiro lugar os aspectos relativos  
interligao a redes entre actividades, a nvel global, e depois os 
que favorecem a concentrao de uma parte deles nas reas mais 
urbanizadas e sua integrao num sistema econmico local.

2. 4. 3. Redes econmicas, redes urbanas

Como Gottmann salienta (1991), o facto de a cidade ser um lugar em 
que se adensam. ns significativos de redes de largo raio de aco 
no constitui um fenmeno apenas tpico do perodo actual, nem to-
pouco da era

industrial. Com efeito, desde a Antiguidade podem citar-se exemplos 
de redes de cidades e de cidades nodais no mbito de redes 
internacionais. Basta recordar o sistema das colnias gregas no 
Mediterrneo, o papel
81

desempenhado por Veneza e Gnova ao longo de toda a Idade Mdia at 
aos incios da era moderna, ou ento a funo anloga no Norte da 
Europa das cidades da Liga Hansetica.

No entanto, no  menos exacto que, durante os sculos xix e xx, a 
inovao contnua nos meios de transporte e de comunicaes favoreceu 
a difuso de redes internacionais cada vez mais interligadas e 
especializadas. E tambm  verdade que este processo sofreu uma 
acelerao ulterior a partir dos anos 80, por efeito da revoluo 
microelectrnica.

No que se refere  natureza das redes, j atrs se aludiu  
integrao mundial do sistema financeiro e da Bolsa. Isso actua, 
agora, como um nico sistema  escala planetria, que, como tal, no 
sofre as interrupes quotidianas devidas ao ciclo das horas 
nocturnas - quando uma Bolsa encerra, outras, situadas em fusos 
horrios diferentes, esto em plena actividade e concentram os fluxos 
financeiros. A par disto, todavia, podem citar-se muitos outros casos 
de redes mundiais especializadas - pensemos, por exemplo, na 
integrao das telecomunicaes e, em particular, das redes 
televisivas - um fenmeno que se, por um lado, abre perspectivas de 
grande interesse rumo a um intercmbio crescente entre os contextos e 
as culturas, por outro, levanta riscos inditos, ligados 
principalmente s tendncias da concentrao monopolista e ao 
controlo da informao por parte de um nmero restrito de centros de 
poder. Outros exemplos podem ser extrados do mundo da investigao 
cientfica e das profisses
- como recorda o mesmo Gottinann (1991), a actividade mdica e 
cirrgica assiste hoje  proliferao de momentos extremamente 
especializados de encontro e troca de experincias  escala 
internacional, e o mesmo acontece com a constituio de associaes 
nos campos mais variados: cincia, tecnologia, arte, administrao 
dos negcios, etc. Cada uma destas associaes organiza congressos, 
comisses, colquios nacionais e depois internacionais, para se 
informar, comunicar, coordenar (p. 11). Costumam ser sedes desses 
encontros as grandes cidades, dotadas de infra-estruturas adequadas e 
ligaes areas eficazes, mas tambm centros de menores dimenses, 
particularmente atraentes do ponto de vista turstico
- as cidades de arte italianas, os Alpes Suos, a Costa Azul, 
Atlantic City e a Florida, etc. Em qualquer dos locais em que essas 
actividades se realizam tende a formar-se uma economia local de apoio 
(hotis, restaurantes, bancos, sociedades especializadas em 
tradues, relaes pblicas, etc.). Se  verdade que em algumas 
cidades esta microeconon-a pode representar o sector impulsionador 
do desenvolvimento local (e, portanto, um elemento de integrao do 
sistema urbano), no o  menos que, por outro lado, se pode 
constituir como um compartimento econmico distinto em si, no 
integrado com os destinados a satisfazer o mercado local.
82

No tocante ao papel das novas tecnologias, numerosos estudos 
evidenciaram o seu contributo essencial para o desenvolvimento das 
redes. Ao mesmo tempo, porm, salientaram que nem em todos os 
sceiores economicamente relevantes tiveram at aqui a mesma difuso 
e, sobretudo, que os seus efeitos nem sempre consistiram numa reduo 
do peso das relaes baseadas na proximidade fsica. Por exemplo, 
Bertuglia e Occelli (1995), procedendo a uma anlise comparada da 
literatura apropriada, mostram que as novas tecnologias de base 
informtica fizeram reconhecer processos de adopo rpidos no campo 
dos transportes (com o controlo do trfego, por exemplo), das 
comunicaes (desenvolvimento do correio electrnico) e da indstria 
(desenvolvimento dos sistemas de produo just-ffi-time). No entanto, 
apesar das grandes potencialidades da tecnologia nos campos 
correspondentes, no se assistiu a um igual desenvolvimento rpido no 
mbito das actividades laborais em que a tecnologia das comunicaes 
substitui as deslocaes fsicas (Nilles, 1995) ou nos sectores dos 
servios (os adquiridos  distncia, as operaoes bancrias  
distncia). Em muitos casos, a resistncia  inovao de uma 
tecnologia que permita substituir o contacto directo por um contacto 
telemtico deve-se ao facto de este ltimo nem sempre garantir um 
nvel qualitativamente satisfatrio da interaco.  um facto que, 
por exemplo, as teleconferncias parecerem, at agora, substituir as 
relaes directas somente no caso de interaces especializadas, em 
que est envolvido um nmero limitado de actores durante um lapso de 
tempo reduzido. No que se refere ao teletrabalho, embora os 
indivduos potencialmente interessados sejam muito mais numerosos, as 
estimativas mais recentes evidenciam que envolve uma quota que, nos 
Estados Unidos, no excede os 6,5% da fora de trabalho (percentagem 
que se reduz a metade, se se considerar apenas o trabalho 
dependente), enquanto nos pases mais avanados da Europa, como a 
Alemanha e a Holanda, se aproxima de 1 % e na Itlia se fixa em O,1% 
(van Reisen, Tacken, 1995). Alm disso,  previsvel que o trabalho  
distncia se aplicar sobretudo a funes fortemente especializadas 
ou mesmo a actividades que comportam a elaborao de grandes 
quantidades de informao, em vez de substituir integralmente toda a 
forma de trabalho de escritrio centralizado.

Estes laos, porventura destinados a modificar-se por efeito de fases 
inovadoras sucessivas, no impediram a economia mundial de acentuar 
fortemente o seu carcter reticular. Por outro lado, esta rede 
internacional no deve ser imaginada como um entrelaamento 
indistinto e equipotencial de fluxos (de capital, fora de trabalho, 
conhecimento) que se podem dirigir indiferentemente a qualquer parte 
do mundo. Ao contrrio do que alguns tinham aventurado, em especial 
no incio dos anos 80, o espao reticular no  privado de 
hierarquias ou de desequilbrios. Ao invs, apresenta eixos 
privilegiados e espaos marginais; esses eixos no reproduzem a

83

mesma configurao geogrfica nem as mesmas modalidades de 
organizao dos que caracterizavam o perodQ fordista, mas no menos 
definem condies vantajosas e desvantajosas para os contextos 
urbanos singulares, favorecendo a emergncia de alguns grupos de 
cidades e o declnio de outros.

Na determinao desses eixos, tm um peso forte tanto a 
especializao das cidades como a sua dotao de infra-estruturas 
para o transporte e as comunicaes. Nesse sentido, foram 
introduzidos recentemente na linguagem das cincias urbanas e 
regionais novos conceitos para designar as

directrizes provenientes da economia ps-fordista: auto-estradas 
infonnticas ou cyberroutes (Sassen, 1934), cidades-redes ou network 
cities (Batten, 1995), macrocorredores (Andersson, 1995). Alm disso, 
do ponto de vista geogrfico, essas directrizes so identificadas em 
pelo menos trs nveis:

a) macrorregionais; eixos principais da economia e dos intercmbios 
de comunicaes, numa regio de desenvolvimento elevado (por exemplo: 
Londres-Carribridge-Oxford; Francoforte-Mainz-Giessen; Boria-
Dusseldrfia-Colnia), redes de cidades complementares (Amesterdo-
Roterdo-Haia; Quioto-Osaca-Kobe);

b) continentais (por exemplo, para a Europa, fala-se de um corredor 
que se estende de Milo, atravs da Alemanha e Holanda, at ao sueste 
ingls);

c) intercontinentais (por exemplo, a rede das cidades situadas no 
Pacfico, que liga Tquio e Hong Kong s cidades costeiras da Amrica 
do Norte, de Vancver a Los Angeles).

2. 4. 4. Os factores de concentrao das actividades

Como se viu, falar de um espao dos fluxos ou afirmar o carcter 
reticular do espao econmico no equivale a sustentar que a 
estrutura territorial  equipotencial e privada de desequilbrios. 
Esta concluso provisria abre, porm, o caminho para um problema 
ulterior - sendo assim, que factores contribuem para tornar alguns 
ns territoriais particularmente importantes e, portanto, dotados de 
uma funo hierrquica proeminente? E ainda: esses ns continuam a 
coincidir principalmente com as concen-

traes urbanas? Em caso afirmativo (como parece poder concluir-se 
dos exemplos referentes aos eixos privilegiados do desenvolvimento h 
pouco citados), porqu?

Todas estas interrogaes levam a fazer convergir a ateno sobre 
alguns factores determinantes no desenvolvimento econmico das 
sociedades ps-fordistas e, em particular, aquelas que - apesar do 
enorme

desenvolvimento das comunicaes  distncia - continuam a manter 
van-

84

tajosa e, em certos casos, inderrogvel uma localizao concentrada 
das actividades econn-ficas. Esses factores podem subdividir-se em 
dois grandes grupos - os que se referem  natureza das comunicaoes 
sociais nos processos produtivos e os relativos s infra-estruturas e 
tecnologias. Por conseguinte, nas suas interac es, os factores 
considerados configuram novas formas de interdependncia -  escala 
urbana e metropolitana - entre as actividades e contribuem para a sua 
organizao como um sistema econmico coerente.

1. Segundo uma distino terminolgica proposta por Berry e Kasarda 
(1977), as relaes sociais podem classificar-se em trs tipos: as 
primrias caracterizam-se pelo facto de que os indivduos se conhecem 
reciprocamente como personagens que desenvolvem mais funes; as 
secundrias so as relaes em que cada um conhece o outro como autor 
de uma nica funo; e as tercirias colocam em ligao as prprias 
funes, independentemente de quem as desenvolve. Frisbie e Kasarda 
(1988) sustentam que o aumento de importncia das telecomunicaes 
fez crescer o peso relativo das relaes tercirias - quando as 
pessoas interactuam  distncia (por exemplo, trocando mensagens via 
fax ou correio electrnico), o aspecto, a idade, o sexo e a 
personalidade de um indivduo contam pouco. O que influi unicamente  
a funo que executa naquele momento.

No entanto, esta observao, embora se possa considerar verdadeira de 
um modo geral, apenas reflecte um aspecto parcial da situao. Se o 
que se acaba de referir se aplica s relaes de rotina, fortemente 
repetitivas, que caracterizam uma grande parte da prtica quotidiana 
das organizaes econmicas, no serve, por m, para as mais 
qualificadas, decisivas para as organizaes que desenvolvem funes 
raras e especializadas e tm uma orientao inovadora. No mbito 
deste tipo de organizaes - que, como se disse, hoje so 
particularmente atradas pelas reas metropolitanas de maiores 
dimenses -  insubstituvel o papel da pessoa singular, pois conta a 
sua assinatura e experincia e especializao peculiares. Para 
citar um exemplo, as empresas que recorrem a consultas financeiras de 
alto nvel e escolhem um estdio de arquitectura para construir o seu 
centro directivo no tencionam valer-se de um profissional qualquer. 
Confiam a tarefa de consulta ou de projectos a indivduos 
especficos, em funo das competncias insubstituveis de que 
dispem, assim como do seu prestgio pessoal (que depois se 
transferir para o prestgio da empresa que se serve dos seus 
servios). E, com todas as probabilidades, os profissionais 
escolhidos tm a sede numa grande cidade (ou dispem mesmo de sedes 
em vrias grandes cidades) e intervm pessoalmente nos contactos com 
os clientes. Nestes casos, a proximidade entre dois operadores 
econmicos num mbito urbano continua a ter um papel essencial, quer 
porque somente nele a empresa se
85

pode valer de servios to raros e qualificados, quer porque, na 
organizao desses servios, a comunicao  distncia nunca pode 
substituir a

comunicao directa. Outro exemplo, de cunho idntico,  o que se 
refere  actividade inovadora. Embora a inovao intervenha por 
efeito de grandes investimentos na investigao e, portanto, seja de 
algum modo programada pelas empresas, existe uma margem consistente 
de imprevisibilidade no

processo inovador. Em particular, na sua fase inicial, a propriamente 
inventiva, depende sempre da capacidade criativa de grupos 
restritos de indivduos (cientistas, tecrilogos, peritos em vrios 
sectores) que actuam em ligao constante entre si (Mela, 1995). No 
seio do grupo, exige-se uma interaco directa e em proxin-dade. Em 
alguns aspectos, podemos dizer que nestes casos  reavaliada a 
relao primria entre os indivduos. Alm disso, s se podem 
formar grupos deste tipo nas cidades onde existem centros de 
investiga o e um ambiente cultural favorvel  sua actividade.

Em resumo, pois, para todas as actividades em que tem um grande peso 
a comunicao directa entre o pessoal e a alta qualificao, a 
localizao urbana produz vantagens de natureza econmica 
insubstituveis (Sivitanidou, Sivitadines, 1995; Mun, Hutchinson, 
1995), o que se traduz num novo impulso centrpeto das empresas desse 
tipo e numa reorganizao dos espaos urbanos em funo das suas 
exigncias.

2. Uma segunda ordem de factores motiva a concentrao urbana de um 
conjunto significativo de actividades econnu"cas,  o que diz 
respeito  presena, na cidade, de infra-estruturas no divisveis e 
funes, por vezes

interactuantes entre si, aptas para criar condies favorveis ao 
desenvolvimento industrial e tercirio.

No tocante s infra-estruturas, como j se referiu, revestem-se de 
particular importncia as dotaes relativas ao sistema dos 
transportes e das comunicaes. A presena de aeroportos, ns do 
sistema rodovirio e ferrovirio, estaes de televiso, ns da rede 
telefnica e informtica, alm de determinar de per si uma 
concentrao de postos de trabalho e alimentar um sector local 
(actividades de servio no aeroporto, de produo televisiva, etc.), 
representa um poderoso factor de atraco para as empresas, qualquer 
que seja a rea a que pertenam. , pois, essencial que essas 
dotaes infra-estruturais estejam ligadas intimamente entre si. Para 
transporte de mercadorias,  necessrio que haja oportunidades de 
intercmbio nodal, ou seja, de passagem de um meio de transporte para 
outro (por exemplo, estruturas que permitam que as mercadorias 
passem, o mais rapidamente possvel, de um vago ferrovirio para um 
camio). No menos importante, para as empresas,  que os prprios 
gerentes possam passar rapidamente do transporte areo para o 
ferrovirio, encontrar agncias para o aluguer de automveis e outras 
coisas que tais, com a possibilidade, ao mesmo tempo, de permanecer 
em contacto por via telemtica com o centro de deciso. Todas estas 
condies esto pre-

86

sentes, na sua globalidade, somente nas regies que apresentam uma 
infra-estruturao mais perfeita e consolidada e, portanto, nas de 
urbanizao mais elevada. Alm disso, convm no esquecer o papel das 
infra-estruturas tcnicas de rede, como as relativas  distribuio 
da energia (condutores elctricos, condutas de metano, etc.), ao 
escoamento dos resduos slidos e lquidos, ao fornecimento de gua 
potvel (Dupuy, 1991) - embora as reas servidas no se identifiquem 
unicamente com as cidades, no  menos verdade que a ligao a todas 
estas redes  particularmente fcil nas regies de maior densidade de 
populao e de actividade econmica.

No que se refere s funes, economistas e gegrafos econn-cos 
salientaram com frequncia, no perodo mais recente, o papel crucial 
desempenhado pelas funes ligadas  investigao cientfica e 
tecnolgica e com a

actividade cultural. Por conseguinte, a possibilidade de interactuar 
facilmente com centros de pesquisa, laboratrios experimentais, 
universidades, bibliotecas especializadas, centros de clculo, etc., 
constitui um ponto de fora essencial para o sistema econmico e, 
sobretudo, para os sectores de forte orientao inovadora. Com 
efeito, para eles,  determinante poderem tratar directamente com as 
organizaes em que se formam os tcnicos de alto nvel e se 
desenvolve a investigao de base e aplicada. Para alm destas 
relaes de carcter estritamente econmico, para as actividades 
econmicas mais valiosas - com uma composio da fora de trabalho em

que predon-nam funes dirigentes e tcnicas de alto rendimento -, 
no  de modo algum indiferente a proximidade a oportunidades 
culturais e

recreativas. A par de outras condies,  mais fcil para uma empresa 
capturar o gerente e os peritos mais qualificados, se os postos de 
trabalho oferecidos se situam numa rea onde se desenvolvem 
manifestaes culturais e de espectculo a alto nvel e o ambiente 
social possui uma tonalidade atractiva e sofisticada que facilite as 
relaes sociais e intercmbio entre os diversos membros da elite. 
Sob o perfil considerado,  fcil reconhecer que os mbitos espaciais 
que possuem este tipo de dotao funcional e de caracterizao 
sociocultural tendem a coincidir principalmente com as reas 
metropolitanas e, sobretudo, com as mais dinmicas e cosmopolitas.

Em concluso, pode dizer-se que - pelo menos no tocante  localizao 
das actividades qualificadas e inovadoras - o conjunto dos factores 
examinados beneficia um nmero no elevado de concentraes urbanas 
em que essas actividades se podem encontrar presentes e operar de 
forma sinrgica. Com uma frmula sugestiva, Andersson (1995) refere-
se a estas reas chamando-lhes regies C (aqui, o termo regio 
designa uma grande rea metropolitana ou um eixo urbano de nvel 
macrorregional, segundo a

acepo introduzida no ponto 2. 4. 3). O C indica que essas reas 
altamente urbanizadas concentram instituies que criam conhecimento 
e formam

87

pessoal qualificado, atraem organizaes com uma orientao criativa, 
oferecem oportunidades culturais e instrumentos inovadores para a 
comunicao. Essas reas destinam-se a uma funo hierrquica 
privilegiada na poca ps-fordista.

2. 4. 5. Sistemas urbanos e milieux inovadores

A propsito dos factores de concentrao atrs considerados, h mais 
um aspecto que merece ser salientado: o referente s modalidades que 
concorrem para estabelecer inter-relaes entre as unidades 
econmicas localizadas numa rea urbana.

Simplificando, podemos distinguir duas modalidades. A primeira  
aquela que - para empregar um termo tpico do filo ecolgico da 
sociologia urbana - se pode definir como comensalismo. Neste caso, as 
relaes entre actividades econn-ficas urbanas so de tipo indirecto 
- determinam-se quando vrias empresas se apoiam s prprias infra-
estruturas, utilizando os mesmos servios e instrumentos de 
comunicao. A fora de coeso que se gera por efeito do comensalismo 
 relativamente fraca, mas define um primeiro grau de integrao  
escala local das actividades.

A segunda modalidade, desta vez directa,  a que, em termos 
ecolgicos, se denon-na simbiose e na linguagem econmica equivale 
aproximadamente  complementaridade. Neste caso, as empresas tm 
vantagem numa localizao no mesmo mbito urbano porque abrevia as 
suas relaes de intercmbio econmico. Trata-se de uma fora de 
coeso mais forte que a anterior, cuja natureza, em muitos aspectos, 
 similar  que promoveu a formao dos plos de desenvolvimento 
industrial, que, como vimos, desempenharam um papel decisivo na 
economia espacial durante a poca fordista. Todavia, no perodo 
actual, as actividades entre as quais se estabelecem nexos de 
complementaridade j no so - pelo menos no que se refere s reas 
urbanas dos pases mais desenvolvidos - as que cooperam para a 
produo de mercadorias altamente estandardizadas, mas aquelas para 
as quais  determinante a inovao tecnolgica contnua.

A aco conjunta de relaes indirectas e directas, de laos de 
comensalismo e simbioses, faz com que muitas reas urbanas e 
metropolitanas possam ser consideradas sistemas econmicos locais 
dotados de um elevado grau de integrao interna e, podemos 
acrescentar, de identidade individual, de modo a operar na cena 
intem. acional como entidade claramente reconhecvel, embora dotada 
de abertura recproca e de fortes ligaes  rede.

Para dar conta dos caracteres de atractividade, criatividade e 
relaes de sinergia que so prprios desses contextos, introduziram-
se recentemente

88

diversos conceitos, que enriqueceram o vocabulrio das cincias 
territoriais e urbanas.

Um deles  o de milieu innovateur ou seja, ambiente inovador, ou, 
melhor, criador de inovao (Aydalot, 1986; Camagni, 1991). Segundo 
Castells e Hall (1994), esta expresso refere-se s estruturas 
sociais, institucionais, organizativas, econmicas e territoriais que 
renem as condies para a criao contnua de sinergia (p. 9). Alm 
disso, estes autores frisam que a presena de relaes sinrgicas se 
utiliza para incrementar as potencialidades produtivas, quer das 
empresas singulares situadas numa rea, quer da prpria rea como 
totalidade. Foi desenvolvida, no final dos anos 80, por um grupo de 
estudiosos europeus, com a sigla GREMI, na tentativa de 
aprofundamento das condies para o desenvolvimento do milieu 
innovateur e de classificao das reas que correspondem a esse tipo 
ideal.

Um segundo conceito  o de plo tecnolgico ou tecnopolo (ou, ainda, 
com uma ligeira variao semntica, tecnoplos). Tambm surgiu nos 
anos
80 (Planque, 1986) e evoca a presena de uma nova forma de 
polarizao, baseada essencialmente na complementaridade entre 
centros de pesquisa e actividades produtivas que aplicam com rapidez 
os resultados dessa pesquisa. Entretanto, exige tambm a ideia de um 
projecto ou de uma planificao pblica apta para potenciar efeitos 
de complementaridade j em aco ou cri-los ex novo.

Castells e Hall (1994) distinguem entre vrios tipos de plos 
tecnolgicos. Os mais importantes so:

a) os tecnoplos centrados num conjunto de actividades industriais de 
alta tecnologia, com uma forte presen a de laboratrios de pesquisa 
e desenvolvimento (como Silicon Valley, na Califrnia, ou Route 128, 
nas cercanias de Boston);

b) as chamadas cidades da cincia, nas quais o aglomerado originrio 
 o de um conjunto de actividades de investigao cientfica (como  
o caso da Tsukuba, no Japo);

c) os parques tecnolgicos, resultantes, na maioria das vezes, de 
iniciativas pblicas - por parte do governo e/ou de instituies 
universitrias -, voltados para constituir reas equipadas, capazes 
de atrair a instalao de indstrias de tipo inovador (como Sfia 
Antpolis, no Sul da Frana, ou em Cambridge, Inglaterra) 1.

1 A terminologia empregada no texto acha-se ainda hoje pouco 
consolidada. Por exem-

plo, Elia e Bartolornei (199 1), no seu livro sobre Sfia Antpolis, 
preferem definir esta ltima como uma cidade da cincia.

89

3. A CIDADE, OS CONFLITOS, O GOVERNO

3. 1. A crise do governo urbano

3. 1. 1. A cidade, local de governo

Na perspectiva sociolgica, a cidade no pode ser considerada 
unicamente como um lugar de actividades econmicas e produtivas. Com 
efeito, a par da dimenso econmica, h pelo menos mais duas que, na 
sua

interaco recproca, constituem a cidade como um sistema social 
complexo e - em presena de determinadas condies - coerente: as 
dimenses poltica e sociocultural (Bagnasco, 1994). No presente 
captulo, ocupar-

-nos-emos em particular da primeira, enquanto a segunda constituir o 
tema do Captulo 4.

Por conseguinte, a cidade  um fenmeno poltico, uma entidade social 
que, apesar de includa (como em geral acontece no mundo 
contemporneo) em sistemas polticos nacionais e internacionais de 
dimenses mais amplas, est em condies de exercer formas de 
autogoverno. Noutros termos, a cidade  uma expresso local da 
sociedade, na qual se exerce um poder entendendo-se este ltimo como 
a capacidade social para tomar decises vinculativas, que tm 
consequncias fundamentais nas

direces para onde uma cidade se move (Orum, 1988). Essa capacidade 
de autogoverno representa um aspecto constitutivo do sistema urbano, 
a tal ponto que, segundo Weber, se pode falar de cidade, no

pleno sentido do termo, somente em relao aos centros em que os 
cidados formam uma unidade social apta para se governar a si 
prpria. Como muitas vezes se observou, o modelo de cidade que Weber 
privilegia nessa

sua clebre anlise  o da cidade ocidental e, em particular o da 
polis grega ou da cidade comunal medieval. Assim, a sua definio 
pode con-

siderar-se excessivamente restritiva, se se pretender aplic-la a 
todo o

91

3. A CIDADE, OS CONFLITOS, O GOVERNO

3. 1. A crise do governo urbano

3. 1. 1. A cidade, local de govemo

Na perspectiva sociolgica, a cidade no pode ser considerada 
unicamente como um lugar de actividades econmicas e produtivas. Com 
efeito, a par da dimenso econmica, h pelo menos mais duas que, na 
sua interaco recproca, constituem a cidade como um sistema social 
complexo e - em presena de determinadas condies - coerente: as 
dimenses poltica e sociocultural (Bagnasco, 1994). No presente 
captulo, ocupar-nos-emos em particular da primeira, enquanto a 
segunda constituir o tema do Captulo 4.

Por conseguinte, a cidade  um fenmeno poltico, uma entidade social 
que, apesar de includa (como em geral acontece no mundo 
contemporneo) em sistemas polticos nacionais e internacionais de 
dimenses mais amplas, est em condies de exercer formas de 
autogoverno. Noutros termos, a cidade  uma expresso local da 
sociedade, na qual se exerce um poder, entendendo-se este ltimo como 
a capacidade social para tomar decises vinculativas, que tm 
consequncias fundamentais nas direces para onde uma cidade se 
move (Orum, 1988). Essa capacidade de autogoverno representa um 
aspecto constitutivo do sistema urbano, a tal ponto que, segundo 
Weber, se pode falar de cidade, no pleno sentido do termo, somente 
em relao aos centros em que os cidados formam uma unidade social 
apta para se governar a si prpria. Como muitas vezes se observou, o 
modelo de cidade que Weber privilegia nessa sua clebre anlise  o 
da cidade ocidental e, em particular o da polis grega ou da cidade 
comunal medieval. Assim, a sua definio pode considerar-se 
excessivamente restritiva, se se pretender aplic-la a todo o

91

quadro do urbanismo contemporneo. Apesar disso, resta o facto de que 
o exerccio auto-reflexivo do poder (ainda que nem sempre em formas 
to autnomas como as previstas pelo modelo weberiano)  um elemento 
que caracteriza a grande maioria das sociedades urbanas, em qualquer 
parte do mundo. Nos pases de urbanizao mais antiga e tradio 
democrtica radicada, este elemento reproduz-se com continuidade de 
sculos, se bem que com variao dos modelos estatais e dos regimes 
polticos, enquanto noutros constitui uma conquista mais recente e 
apenas parcial. Parece, todavia, possvel afirmar que, hoje, mesmo 
nos contextos atravessados por uma crise poltica profunda (como, por 
exemplo, em muitos Estados africanos), a tendncia para o autogoverno 
em formas descentralizadas e  escala urbana, se manifesta claramente 
e, por vezes, representa uma das poucas oportunidades realistas para 
a reorganizao de um modelo poltico operativo.

Falando de autogoverno (ou de exerccio auto-reflexivo do poder) 
 escala urbana, emprega-se uma expresso sinttica que assume 
diversos aspectos.

Diz-se, acima de tudo, que a cidade  um local especfico da 
actividade de governo. Isto significa que, embora ela faa parte de 
uma sociedade mais ampla, se tomam decises em condies que nunca 
reflectem apenas as mdias presentes nessa sociedade. Com efeito, 
todo o centro urbano  caracterizado por uma estrutura social 
prpria, tem uma composio diversa de grupos privilegiados e 
marginais, modalidades peculiares de expresso do conflito e de 
alianas polticas e selecciona especificamente a sua elite de 
governo. Tudo isto determina uma tonalidade particular da vida 
poltica urbana, que por vezes se reproduz - mesmo com as 
transformaes inevitveis - durante longos perodos de tempo.

Por outro lado, a cidade representa um sujeito especfico da 
actividade poltica. Tem quase sempre institui es de governo 
dotadas de alguma autonomia, e em muitos casos essas instituies 
produzem consenso e legitimao pelo facto de serem eleitas pela 
populao urbana.

Finalmente, a cidade  tambm objecto da actividade do governo 
urbano. Este prope-se, com efeito, em primeiro lagar, favorecer e 
regular o desenvolvimento econmico local, garantir aos cidados (e 
tambm aos  utentes da cidade, no residentes nela) a presena de 
um conjunto de infra-estruturas e servios, assim como de condies 
de segurana, confrontando-se com os outros nveis do governo que 
operam no territrio. O facto de a cidade ser o objectivo 
predominante das polticas empreendidas pelas instituies de governo 
no impede que, em algumas circunstncias, estas ltimas possam 
assumir decises influentes no destino de colectividades diferentes 
da urbana, nem que possam operar opes de poltica externa. Assim, 
um trao tpico do perodo mais

92

recente parece consistir num crescimento do raio da aco poltica 
das instituies urbanas.

Abordar-se-o neste captulo os pontos de maior interesse do debate 
sociolgico sobre a dimenso sociopoltica da cidade. Nos pontos 3. 1 
e

3. 2, estudar-se- a mudana da estrutura social urbana na cidade 
ps-industrial, salientando como isso modifica o governo urbano. No 
ponto
3. 3, citar-se-o as mudanas nas modalidades com que se desenvolve a 
actividade de decises a nvel urbano. No ponto 3. 4, finalmente, 
concentrar-se- a ateno nalgumas orientaes das polticas urbanas, 
concedendo particular interesse ao actual debate sobre a 
planificao.

3. 1. 2. O pacto fordista e o welfare state

O fordismo representou indiscutivelmente algo mais do que um

modelo de desenvolvimento econmico. Na verdade, a natureza desse 
modelo de desenvolvimento favoreceu a emergncia de um conjunto bem 
definido de actores sociais e reuniu as condies para a criao de 
esquemas tpicos de regulao das relaes entre eles. Desse modo, 
tambm influiu nas modalidades de exerccio do governo, tanto a nvel 
nacional como a nvel urbano. Isto no significa, obviamente, que, na 
fase fordista, se determinasse uma tendncia para rumos polticos 
comuns nos vrios Estados. Uma afirmao desse tipo seria facilmente 
refutvel, embora se faa aluso exclusiva (como veremos a seguir) ao 
perodo subsequente  Segunda Guerra Mundial e aos paises mais 
avanados do Ocidente. Significa mais que, em cada um desses 
contextos, a actividade de governo teve de enfrentar actores sociais 
dotados de caracteres e estratgias repetitivos, mesmo ao variar de 
situaes nacionais e locais. Desse confronto, e da tentativa para 
encontrar solues capazes de evitar os conflitos mais agudos, 
emergiram modelos de governo diferenciados, mas tambm dotados de 
analogias significativas.

Iniciamos o percurso analtico considerando os actores fundamentais 
no modelo fordista.

Como j resulta, pelo menos em parte, das anlises desenvolvidas no

captulo precedente, o principal protagonista do desenvolvimento, nas 
reas fortes da economia mundial,  a grande empresa. Isto implica, 
sobretudo, que no governo de todos os pases influi largamente a 
grande burguesia industrial e financeira, quer a nacional (ou seja, 
originria do prprio pas), quer - em crescente medida ao longo dos 
anos - a internacional, que controla os fluxos financeiros e as 
empresas multinacionais. Esta classe tem uma extenso mais ou menos 
ampla ao variar a importncia econmica do pas (por exemplo,  
particularmente restrita

93

e diferenciada no papel hegemnico de alguns grupos de famlias no 
caso italiano). Em todo o caso, exerce uma forte influncia na 
orientao das exigncias e tarefas polticas do resto da classe 
burguesa (os pequenos e mdios empresrios industriais, os 
profissionais, os titulares das grandes empresas comerciais, etc.).

A funo central da grande empresa no implica apenas a influncia da 
grande burguesia mas tambm a forte presena social dos outros 
indivduos que operaram na empresa: dirigentes, quadros intermdios 
com fun es tcnicas e administrativas, empregados e, sobretudo, 
operrios. O modelo de reorganizao produtiva fordista comporta a 
expanso quantitativa de operrios de baixa qualificao, com 
escassas perspectivas de mobilidade, concentrados principalmente em 
estabelecimentos de grandes dimenses situados nas zonas perif ricas 
das reas metropolitanas.  esta a figura que se definiu do operrio-
massa, expresso que evoca tanto a imagem de uma multido cada vez 
mais imponente de trabalhadores como a de uma classe que compartilha, 
na fbrica, condies de trabalho fortemente estandardizadas e, na 
cidade, modos de vida e esquemas de comportamento tambm 
tendencialmente homogneos.

Esta condio de homogeneidade e concentrao da classe operria 
contribui, por um lado, para lhes conferir uma elevada potencialidade 
conflitual e, por outro, favorecer o desenvolvimento de formas 
centralizadas de organizao colectiva dos interesses. Entre elas, 
convm salientar o papel dos sindicatos e dos partidos de extraco 
operria. Apesar das grandes diferenas que os distinguem no tocante 
s tradies, s modalidades organizativas e s orientaes 
ideolgicas (pense-se, sobretudo, na diviso entre os partidos social 
-democratas e os comunistas), essas organizaes tm representado - 
nos planos social e poltico - um importante instrumento de expresso 
dos interesses dos operrios e constituram uma eficiente parte 
contrria nos confrontos da empresa, criando, em alguns casos, largas 
redes de alianas sociais, capazes de englobar outras categorias de 
trabalhadores e camadas sociais.

A par destas duas partes contrrias sociais, em muitos pases assumiu 
um papel de importncia fundamental um terceiro protagonista: o 
Estado e, de um modo mais geral, o conjunto dos aparelhos pblicos. 
J a partir da  poca de transio entre os sculos XIX e xx, alguns 
pases industrializados, como a Alemanha, o Reino Unido e os pases 
escandinavos, tinham introduzido medidas de interveno assistencial, 
de garantia das faixas da populao mais fracas. A partir dos anos 
40, porm, essa interveno generalizou-se e difundiu-se, embora em 
medida diferente e com diversas modalidades, em quase todos os pases 
desenvolvidos. Desde a publicao em Inglaterra do relatrio 
13everidge, em 1942, tornou-se popular o uso

94

da expresso welfare state (Estado do bem-estar) para indicar esse 
tipo de orientao da poltica estatal 1.

Segundo a definio de Briggs (1961, p. 228):

... um welfare state  um estado em que o poder organizado se emprega 
deliberadamente (atravs da poltica e da administrao) para 
modificar o movimento das foras de mer-

cado em pelo menos trs direces: acima de tudo, garantindo aos 
indivduos e s famlias um rendimento mnimo [  ... ]; em segundo 
lugar, reduzindo o grau de insegurana e colocando os indivduos e as 
famlias em condies de enfrentar determinadas contingncias 
sociais (por exemplo, a doena, a velhice, o desemprego), que, de 
contrrio, conduziriam a crises individuais e familiares; em 
terceiro, assegurando que sejam oferecidos a todos os cidados     os 
melhores padres possveis a uma gama moderada dos servios sociais.

Por conseguinte, a finalidade do welfare state consiste em garantir 
condies de vida pelo menos mnimas a todos os cidados, evitando ao 
mesmo tempo contragolpes sociais e polticos resultantes da crise dos 
grupos mais pobres, em correspondncia especialmente aos momentos de 
estagnao da econon-a. No que se refere aos instrumentos da 
interveno pblica, tm-se demonstrado muito variveis, em funo 
no s da diversidade dos contextos nacionais mas tambm das linhas 
polticas dos governos que se sucederam nos vrios pases. De 
qualquer modo, existem em toda a parte, embora com um oramento 
diferente, as duas modalidades seguintes:

a) a organizao dos servios pblicos (escolas, universidades, 
sade, transportes, etc.), oferecidos gratuitamente ou, pelo menos, a 
custos inferiores aos do mercado;

b) a transferncia directa de fundos aos indivduos singulares ou s 
fanulias, por exemplo, mediante o sistema de previdncia, os cheques 
fan-iiliares, de desemprego, invalidez, etc.

A expanso dos servios e o desenvolvimento de um aparelho 
burocrtico para gesto das polticas do welfare state produz um 
acrscimo da despesa pblica, que deve ser compensado aumentando os 
impostos: calcula-se que, por volta de 1975, os pases da Europa 
Ocidental destinaram s despesas sociais cerca de um quarto dos seus 
recursos nacionais, enquanto os da Amrica do Norte (onde, no seu 
conjunto, a despesa pblica conhe-

1 Na realidade, j dez anos antes, a palavra alem equivalente a 
Estado do bem-estar, WoNfhrstaat, se empregava, de forma 
depreciativa, na propaganda filonazi: tentava carimbar uma orientao 
poltica que se julgava ter provocado o esgotamento moral da 
populao germnica e sobrecarregado o Estado com obrigaes 
superiores s suas possibilidades. A propsito, cf. Flora 
Heidenheimer (1981, p. 28).

95

ceu um desenvolvimento inferior) despenderam pouco mais da quinta 
parte. Por outro lado, isto tambm comporta um incremento dos postos 
de trabalho no sector pblico, pelo que comeou a definir-se uma 
categoria de indivduos sociais protagonistas da fase fordista, os 
dependentes pblicos, que, por serem internamente estratificados, se 
caracterizavam - pelo menos em alguns contextos - por interesses 
especficos e formas peculiares de comportamento social.

Do final da Segunda Guerra Mundial at finais dos anos 60, o con~ 
fronto entre os actores sociais e institucionais agora citados 
desenrolou-se sob a forma de discusso constante e, por vezes, mesmo 
de conflito aberto. No entanto, graas  interveno do Estado e ao 
persistente cres-

cimento econmico, a tendncia dominante  a de compromisso entre as

partes sociais - um compromisso que, reproduzindo-se no tempo, parece 
quase configurar um pacto social implcito (ou, por vezes, 
explcito). Esse pacto poderia ser descrito sumariamente dizendo que 
as organiza es da classe operria e, mais em geral, dos 
trabalhadores, tendem a renunciar - pelo menos na sua ala maioritria 
- a programas revolucionrios e aceitam assumir o capitalismo e a 
propriedade privada como um

horizonte insupervel, no seio do qual se desenvolve a sua actividade 
poltica e sindical. Em contrapartida, conseguem que as suas 
reivindicaes - cada vez mais dirigidas para aumentar as garantias 
sociais e os

servios pblicos - encontrem ampla correspondncia nas polticas dos 
governos nacionais e locais. O resultado  de um aumento do nvel de 
vida geral da maioria dos trabalhadores, embora no faltem as figuras 
sociais que, devido ao pacto em questo, so excludas ou tm de 
suportar custos sociais particularmente elevados (os trabalhadores 
estrangeiros ou empregados irregulares, os trabalhadores no 
domiclio, etc.). Em todo o caso, o pacto em causa garante no seu 
conjunto uma condio de relativa estabilidade social ou, pelo menos, 
faz com que os conflitos no tendam para desestabilizar o sistema 
econmico e poltico e, ao invs, em muitas circunstncias, impelem-
no para manter nos mais altos nveis possveis o ritmo do 
desenvolvimento, com o objectivo de produzir os recursos necessrios 
para alimentar a mquina do welfare state.

3. 1. 3. O welfare state e a cidade

No esquema das relaes entre os protagonistas fundamentais do 
pacto, fordista, como se configura o papel da cidade?
Para responder a esta pergunta, convm, antes de mais, referir que o

esquema em causa - at aqui definido sumariamente nos seus aspectos 
mais gerais - se prope numa multiplicidade de variantes especficas 
em cada

96

sistema urbano. Com efeito, a cidade ou, ainda melhor, a rea 
metropolitana que compreende o conjunto dos subrbios onde vivem os 
trabalhadores pendulares ocupados no sector industrial representa o 
principal lugar de enraizamento e evoluo do modelo social fordista, 
e no s o cenrio em que a eficcia do welfare state  posta  
prova.

De resto, h que ter em conta o facto de que, no perodo considerado, 
a grande empresa, mesmo quando assumiu um carcter nacional ou 
multinacional, conserva uma relao estreita com a cidade em que se 
situa e na qual, na maioria dos casos, se encontram os seus centros 
directivos. Isto toma-se ainda mais evidente nas situaes em que 
existe uma ligao ntima entre os destinos da cidade e os de uma 
empresa fordista singular. Nestas situaes, os caracteres da 
variante urbana do modelo dependem directamente do xito da interac 
o entre o governo da cidade, as iniciativas da empresa no campo 
econmico e tambm no campo social (por exemplo, no caso emblemtico 
de Turim, as polticas assistenciais e previdenciais para os 
dependentes da FIAT, organizadas pela prpria empresa nos anos 50 e
60, sob a direco de Valletta), as presses dos sindicatos e das 
organizaes dos trabalhadores  escala urbana.

Mas, mesmo alargando o exame a um conjunto de cidades mais vasto 
(compreendendo as no correspondentes ao tipo ideal da cidade 
fordista), pode observar-se que, no perodo em causa, o conjunto dos 
principais agentes sociais de todos os centros urbanos  chamado a 
participar na manuteno do equilbrio dinmico de que depende o 
xito do modelo de desenvolvimento. E, neste mbito, assumem 
particular relevo o governo e a administrao citadina, embora, como 
veremos em seguida, o seu papel no esteja isento de ambival ncia.

De facto, por um lado, os poderes pblicos da cidade esto plenamente 
investidos da tarefa de participar na organizao do welfare state, 
tomando-se assim protagonistas locais do pacto de que se falou. 
Isto  facilmente compreensvel se se pensar que, nas condies 
prprias da poca, as polticas de interveno social estavam 
destinadas a concentrar-te sobretudo nas grandes cidades e, em 
particular, nas reas perifricas em r pida expanso -

onde  necessrio criar em pouco tempo as infra-estruturas e servios 
bsicos fundamentais para a populao. Ao darem expresso a estas 
polticas, os governos urbanos encontram-se em contacto mais directo 
- em relao aos nacionais - com as instncias provenientes da 
populao. Devem providenciar com intervenes adequadas  satisfao 
de necessidades diferentes, expondo-se mais imediatamente ao risco de 
serem atingidos pelo descontentamento provocado por exigncias 
insatisfeitas.
Por outro lado, todavia, as margens de manobra de que gozam as 
administraes comunais no desenvolvimento destas tarefas so, em 
muitos casos, relativamente reduzidas. Isso depende de muitos 
factores, os quais,

97

porm, mais uma vez, diferem com a variao dos contextos nacionais e

locais. Em muitas situaes - tpicas, por exemplo, de Itlia - um 
factor condicionante  representado pela debilidade dos mecanismos de 
programao dos centros produtivos e, de um modo mais geral, dos 
processos de urbanizao. Isto obriga algumas cidades a enfrentar 
inesperadamente fluxos migratrios de enorme envergadura - de tal 
modo que as adn-nistraes locais se vem obrigadas a actuar em 
condies de emergncia, sem conseguirem mais do que mitigar, com a 
oferta de servios pblicos, os efeitos de um crescimento urbano 
catico e quase descontrolado. Em muitos pases, o carcter 
centralizado dos processos de decises (e, em particular, dos 
referidos na construo do welfare state) faz com que as cidades 
passem a desenvolver um papel secundrio e actuativo nos confrontos 
com as grandes opes relativas ao modelo de interveno e de 
dispndio social, os quais se mantm apangio dos governos centrais. 
Finalmente, nos casos das cidades sedes de grandes empresas 
fordistas, pode verificar-se o fenmeno (salientado por Gallino, 
1990, ainda com referncia a Turim) de um desequilbrio estrutural de 
poderes entre a direco da empresa - num grau capaz de condicionar a 
esfera poltica local e, alm disso, monopolizar a parte mais activa 
da populao de alto nvel de instruo - e o governo urbano, por 
vezes incapaz de formular estratgias aptas para contrabalanar as 
inspiradas pela prpria empresa.

A presena de problemas e dificuldades estruturais por parte das 
administraes urbanas no impede que, em muitas circunstncias, 
assumissem um papel de primeiro plano, apresentando-se como a ponta 
de diamante na

construo do welfare state, s vezes em polmica com as orientaes 
do governo nacional. Nesta oposio entre as linhas polticas 
centrais e as

locais reveste-se de particular relevncia nos casos em que existe, 
nos

dois nveis de governo, uma maioria poltica diferente. Isto 
verifica-se, por exemplo, em Itlia - durante todo o perodo 
considerado - nas cidades das regies vermelhas (e, em particular, 
da Emilia Romagna) ou em Inglaterra no incio dos anos 80, quando o 
governo conservador de Margaret Thatcher enfrentou a defesa das 
polticas sociais operada por numerosas administraes urbanas de 
maioria trabalhista.

3. 1. 4. Crise do welfare state, neoliberalismo e governo urbano

Os primeiros sintomas da crise do welfare state comearam a 
manifestar-se por volta de meados dos anos 70. A partir de ento, a 
gradual desagregao daquele modelo de interveno pblica - e de 
gesto das relaes entre o Estado e os cidados - prosseguiu a par e 
passo com a superao do fordismo, embora as causas dos dois 
fenmenos fossem

98

apenas parcialmente coincidentes. De qualquer modo, reduziram-se as

razes do pacto que procurara alcanar a estabilidade social nos 
decnios precedentes.

Os factores do desmoronamento do welfare state foram vrios. Uns 
tinham uma raiz estritamente econmica, ou seja, dependiam das 
dificuldades crescentes em manter em funcionamento a mquina da 
interveno social do Estado, enquanto outros, ao invs, reconduziam 
a uma atitude modificada dos diferentes grupos sociais no campo 
poltico.

No tocante aos primeiros, convm sobretudo recordar que os anos 70 
foram assolados por uma situao de estagnao da econon-a, 
acompanhada do encarecimento das matrias-primas e de correntes 
inflacionistas. Nestas condies, tomou-se cada vez mais difcil para 
o Estado reunir os recursos necessrios para garantir a interveno 
da despesa pblica aos

mesmos ritmos que atingira no anos anteriores. Na verdade, perante 
uma reduo das taxas de expanso da economia, o nico caminho 
praticvel para manter a despesa social do Estado elevada consistiria 
num ulterior aumento da presso fiscal. No entanto, convm notar que 
esta ltima j sofrera, no vintnio entre 1955 e 1975, um acrscimo 
sem precedentes: como recorda Flora (1981), naquele perodo passou-
se-na mdia europeia
- de uma taxa mdia de receita fiscal (expressa em relao com as 
tributaes gerais e do produto nacional) inferior a 23% para outra 
superior a

31%. Um ulterior aumento da tributao tornava-se, portanto, 
impraticvel. Com efeito, nos confrontos daquele nvel de presso 
fiscal comeavam a manifestar-se sintomas de rejeio, sob a forma de 
revoltas fiscais registadas entre os contribuintes de alguns pases 
(em particular, nos Estados Unidos e na Dinamarca).

No que se refere s atitudes nas confrontaes do welfare state, 
verificou-se que, a partir dos anos 80, apresentava-se em queda junto 
de largas camadas de cidados. Por muito paradoxal que possa parecer, 
esse

fenmeno deve considerar-se como um efeito do xito das polticas 
sociais do Estado. Como escreve Detragiache (1995), enquanto no ps-
guerra a grande maioria da populao vivia na escassez [     ... 1, 
agora, por efeito do desenvolvimento econmico-social assegurado pelo 
progresso cientfico-tcnico, mas tambm [   ... ] do 
intervencionismo do Estado no campo social, a grande maioria da 
populao vive no bem-estar (p. 59). Assim,

se nos primeiros anos do ps-guerra se exercera uma forte presso por 
parte de largas massas trabalhadoras a fim de obterem polticas 
voltadas para o incremento do grau mdio do bem-estar, nos anos 80 as 
exigncias de algumas camadas sociais voltaram-se para os confrontos 
polticos que aumentassem a competitividade do sistema e, portanto, 
favore-

cessem as oportunidades de ascenso social mais fortes dos 
indivduos, embora com o custo de aumentar, ao mesmo tempo, a 
marginalidade dos

99

mais fracos. Em resumo, o welfare state, depois de ter sido 
considerado uma garantia para todos contra os riscos do insucesso e 
da pobreza, foi reinterpretado como um lao que aperta as classes 
mais dinmicas (e, por conseguinte, os potencialmente aptos para 
fazer crescer a riqueza dos pases), com vantagem apenas dos menos 
activos, satisfazendo os seus pedidos de assistncia pblica.

As dificuldades financeiras da administrao pblica levaram quase 
todos os pases a uma reviso das modalidades de interveno social. 
A natureza dessa reviso, todavia, foi fortemente influenciada pelas 
orientaes polticas maioritrias em cada pas. Assim, por exemplo, 
perante uma tentativa de defesa substancial do welfare state, mesmo 
com os retoques necessrios, aplicada nos pases escandinavos, 
assiste-se a uma inverso radical de tendncia nos governos por 
partidos inspirados numa ideologia conservadora e neoliberalista, 
como no Reino Unido com o governo Thatcher e os Estados Unidos sob a 
presidncia de Reagan. Nestes casos, o desmantelamento das polticas 
de assistncia pblica andava a par e passo com a tentativa para 
incutir alento  iniciativa econn-ca dos privados, estimulando-a a 
intervir mesmo nos campos que at quele momento estavam 
hegemonizados pela mquina organizativa do welfare state (sade, 
educao, segurana social). Alm disso, na ideologia em causa, 
estava sempre presente - ainda que com diferentes acentos nacionais 
- a ideia de que largas camadas de cidados deviam ser solicitadas 
para a iniciativa econmica privada, acordando-as, por assim dizer, 
do estado de torpor resultante de um excesso de garantias pblicas, 
combinado com um nvel de tributao sobre os rendimentos elevado e, 
portanto, apto para desencorajar o empresariado difuso. Por 
conseguinte, o neoliberalismo tendia a legitimar a prpria obra de 
enfraquecimento do papel social do Estado, no s com base numa 
adequao realista s condies econmicas modificadas mas tambm sob 
a escolta de uma chamada para o activismo econmico e o 
individualisrino como valores radicados profundamente no senso comum 
dos pases anglo-saxes - trata-se de uma imagem ideolgica a que, em 
relao ao thatcherismo, Hall (1988) chama populismo autoritrio.

A crise do welfare state e a afirmao de intenes conservadoras 
produziram transformaes radicais no governo da cidade. As 
administraes urbanas, garantes mais completos nos confrontos dos 
cidados na interveno pblica no campo social, achavam-se agora 
preteridas: para esquematizar, pode dizer-se que os efeitos negativos 
imediatos das novas orientaes polticas (a contraco dos servios 
pblicos) lhes foram directamente atribudos por camadas sociais 
atingidas por eles, enquanto os eventuais efeitos positivos (o 
relanamento econmico e a tributao reduzida) incidiam de 
preferncia nas relaes entre os

100

cidados e o Estado central. Resultou disso - pelo menos, nalguns 
casos - uma tendncia para a resistncia da parte das cidades, nos 
confrontos das polticas de cortes nas despesas pblicas, operadas 
pelos governos centrais, tendncia essa que pode chegar a uma 
conflitualidade explcita.

A esse respeito,  particularmente significativa a situao inglesa 
depois da vitria eleitoral do partido conservador, em 1979. Foi 
imediatamente posta em aco uma poltica de conteno das despesas 
pblicas, que envolvia o financiamento s escalas local e urbana. No 
espao de poucos anos, essa poltica produziu efeitos relevantes, em 
termos globais. Com efeito, enquanto a incidncia das despesas locais 
no produto interno bruto atingia os 15,9% em 1975-1976, oito anos 
mais tarde, em
1983-1984, era reduzida para 12,8 %. Assim, invertia-se a tendncia 
para um crescimento contnuo que se produzira desde fins da Segunda 
Guerra Mundial (Romagnoli, 1987). No entanto, este processo s se 
conseguiu por meio de uma dura confrontao com muitas administraes 
comunais, as quais utilizaram todos os instrumentos  sua disposio 
para anular os planos do governo e, nalguns casos, arriscaram-se a 
compensar o desempenho progressivo com iniciativas locais. De 
qualquer modo, como sustenta Jackrnan (1987), o acordo tradicional, 
pelo qual o governo central fixava os montantes gerais para as 
despesas pblicas locais e deixava livres as entidades locais para 
determinar as particulares, foi quebrado (p. 169). A rotura do 
acordo, por seu turno, foi consequncia do facto de o governo central 
tentar superar as resistncias aumentando o poder dos rgos de 
governo nacional, em prejuzo dos descentralizados. Um episdio 
saliente desse desencontro foi a disposio, que comeou a vigorar em 
1986, que abolia o nvel mais alto dos governos locais, ou seja, os 
Conselhos das Contas Metropolitanos e o Conselho da Grande Londres, 
que governara a principal rea metropolitana do pas durante
21 anos, promovendo uma intensa actividade a favor do desenvolvimento 
dos servios pblicos e do emprego.

De qualquer modo, voltando a reflexes de ordem mais geral, se  
verdade que o contexto socioeconmico comporta maiores dificuldades 
para a

administrao local nos anos 80 e 90 - mesmo independentemente da 
orientao poltica dos governos centrais -, no  certo que isso se 
traduza inevitavelmente num declnio do governo urbano. Sob alguns 
perfis, pode dizer-se que, no momento em que se atenua, para as adn-
nistraes cornunais, a

funo de serem instrumentos de aplicao de polticas globais de 
interveno social, depara-se-lhes uma tarefa mais difcil, mas 
tambm mais rica de valncias autodecisionais - a de tornar 
promotores,  escala local, planos estratgicos de desenvolvimento, 
aptos a contra-atacar os sempre iminentes riscos de declnio urbano.

101

3. 2. Velhos e novos desequilbrios sociais

3. 2. 1. O esgotamento do pacto fordista

Como vimos, a crise conjunta do fordismo e do welfare state tomou 
menos notveis as condies daquilo que se definira como pacto 
fordista e que tinha como contraentes principais a grande empresa, 
os trabalhadores industriais e as suas organizaes, o Estado. Uma 
razo fundamental desta mudana de condies j foi analisada: a 
funo mediadora do Estado perdeu muito da sua eficcia, porque o 
prprio Estado - mesmo nas suas articulaes locais - no estava em 
condies de colocar no prato da balana uma poltica de expanso 
contnua da despesa social com o objectivo de reequilibrar as 
desigualdades sociais. Portanto, esse pilar fundamental em

que se apoiava o equilbrio entre as classes sociais no perodo 
fordista tendeu a enfraquecer.

Um efeito disso consistiu em que as diferenas entre as classes 
sociais recomearam a aumentar, em particular no respeitante  
distncia entre os grupos que se encontravam em extremos opostos da 
escala social. Contudo, o facto no provocava forosamente uma 
intensificao da conflitualidade e, sobretudo, no implicava um 
regresso das organizaes dos trabalhadores a posies de conflito 
radical nos confrontos do sistema social capitalista. A verdade  que 
- paralelamente  mudana do papel do Estado - a situao dos outros 
grandes actores da fase fordista se transformou de modo substancial.

Quanto  grande empresa, a mudana de papel no significava um

enfraquecimento. Pelo contrrio, o cenrio ps-fordista assistiu a um 
ulterior robustecimento do poder das grandes empresas ou, melhor 
dito, das concentraes financeiras que operavam  escala 
internacional. Esse robustecimento, porm, movia-se a par de uma 
transformao das exigencias que a empresa manifestava nos confrontos 
dos outros actores. Com efeito, num quadro cada vez mais dominado por 
processos de globalizao da actividade produtiva e financeira, a 
necessidade de estabelecer relaes estveis com os governos 
nacionais e locais diminuiu de forma cada vez mais evidente. Os 
traos salientes da fase actual so a rpida transferncia dos 
interesses comerciais e financeiros em pontos sempre diferentes do 
espao econmico e geogrfico. De forma ainda mais acentuada, essa 
mudana refora as relaes entre a empresa e os trabalhadores. Neste 
caso, como refere Dalirendorf (1995), o termo chave  flexibilidade, 
a qual acabou por indicar sobretudo abrandamento dos laos que 
agravam o mercado do trabalho: maior facilidade em admitir e 
despedir, possibilidades de aumentar ou diminuir os
102

salrios, expanso dos empregos em part-time e a prazo, mudana cada 
vez mais frequente de trabalho, de empresa e de sede (p. 24). Por 
conseguinte, aquilo que agora impele as empresas no  tanto 
estabelecer acordos a longo prazo com as organizaes dos 
trabalhadores, em funo de uma limitao da conflitualidade, mas sim 
garantir-se a liberdade dos vnculos que determinam a rigidez: dos 
devidos  legislao do trabalho ou a acordos sindicais de longo 
prazo at aos determinados pela presena de grandes concentraes 
operrias no territrio.

No respeitante aos trabalhadores, o processo mais relevante dos 
processos em aco situa-se no redimensionamento do peso - quer em 
termos quantitativos, quer do perfil do poder contratual - do 
operrio-massa. A causa mais importante a esse respeito h-de 
procurar-se nas mudanas tecnolgicas e organizativas intervenientes 
a nvel produtivo
- fazem com que inteiros segmentos da produo, antes desenvolvidos 
com o uso de mo-de-obra desqualificada, sejam agora inteiramente 
automatizados e, portanto, executados por robots e mquinas 
controladas por um nmero reduzido de tcnicos qualificados. Um 
segundo factor  dado pela tendncia para descentralizar outros 
segmentos do processo produtivo fora da grande empresa, fazendo-os 
executar por empresas externas ou mesmo unidades de produo situadas 
nos pases emergentes do Extremo Oriente ou da Amrica Latina. Nos 
pases mais desenvolvidos, uma consequncia deste impulso para a 
descentralizao  que os operrios - e, mais em geral, os 
trabalhadores dependentes da indstria -, alm de serem em menor 
nmero, encontram-se na sua maioria fragmentados numa quantidade de 
empresas de diferentes dimenses e num espao que j no coincide com 
o das concentraes metropolitanas. Deriva da uma perda do poder 
contratual dos trabalhadores industriais e das suas organizaes 
sindicais (ao invs, um peso crescente aguarda os trabalhadores que 
desempenham papis-chave no sector dos transportes e das 
telecomunicaes, cuja importncia  decisiva numa economia mvel e 
globalizada).

Do conjunto das transformaes aqui rapidamente ilustradas resulta, 
pois, que, no cenrio ps-fordista, os indivduos sociais 
fundamentais, protagonistas da fase precedente, assistiram  mudana 
do seu papel na sociedade e nas relaes recprocas. Em geral, o novo 
quadro que agora se define mostra-se caracterizado por uma tendncia 
para o aumento das disparidades sociais, uma maior fragmentao dos 
actores sociais e uma mutao contnua das situaes, ao ponto de 
tornar inteis as tentativas para estabelecer, explcita ou 
implicitamente, acordos de longa durao entre as partes sociais, com 
a garantia oferecida pela intermediao de um Estado forte e 
intervencionista.

103

3. 2. 2. A estrutura social urbana

Para alm do que at agora analismos, o que muda ainda mais 
radicalmente no novo cenrio  a maneira como se articulam os eixos 
fundamentais da diviso social, ou seja, as linhas de fractura, ou 
cleavages (Rokkan,
1970), que distinguem os grandes agregados de sujeitos sociais e 
definem as principais linhas de conflito e de aliana em torno das 
quais se organiza a estrutura social,  escala global ou local.

Como vimos, no fordismo o eixo de diviso fundamental era entre a 
grande empresa - ou seja, a grande burguesia capitalista e os 
dirigentes industriais - e a classe operria, por vezes unida em 
aliana com o sector m dio dos empregados e outras figuras de 
trabalhadores dependentes.

A propsito destes temas, na sociologia contempornea desenrola-se um 
grande debate que parece ainda longe de ter proporcionado respostas 
definitivas. Por sua vez, no campo da sociologia urbana a discusso 
repete-se, concentrando-se sobretudo nas linhas de diviso que 
parecem assinalar, hoje, a estrutura social das cidades e dos 
conjuntos metropolitanos. Faremos agora algumas consideraes sobre 
este aspecto especfico da discusso, concentrando-nos em alguns ns 
problemticos essenciais e sem a pretenso de fornecer um quadro 
completo e sistemtico.

1. O eixo de diviso que contrape a empresa aos operrios v como 
principal linha de fractura aquela que se situa entre duas classes 
sociais, uma das quais (a burguesia) se caracteriza pela propriedade 
dos meios de produo, e a outra (a classe operria) pela excluso 
dessa propriedade. Esse eixo comporta, portanto, segundo a 
aproximao da anlise de classes teorizada por Marx, uma diviso em 
apenas duas classes fundamentais, das quais as intermdias podem ser 
aliadas, sem todavia representar uma terceira polaridade efectiva.

Alm disso, se se orienta a anlise para uma considerao mais 
articulada das figuras que hoje se movem no mercado do trabalho (em 
particular nas grandes concentraes urbanas),  possvel determinar 
outras linhas de diferenciao dos sujeitos sociais. Por exemplo, 
modelos analticos recentes tentam construir tipologias de sujeitos 
sociais que tomem em considerao a presena de mais estratos - ou 
seja, de conjuntos de ocupaes a que correspondem conjuntos de 
trabalhadores - diferenciados no s com base nas funes e ao n vel 
retributivo mas tambm ao carcter mais ou menos estvel da relao 
de trabalho.

Nesta ptica, Perulli (1992) prope uma desagregao do mercado do 
trabalho em quatro estratos sobrepostos, dentro dos quais os 
sujeitos efectuam percursos individuais muito menos lineares e 
previsveis dos tpicos da poca fordista:

104

a) o primeiro (que se situa ao nvel mais baixo,  constitudo por 
trabalhos de ingresso, efectuados de forma provisria na sua maioria 
por jovens nas suas primeiras experincias laborais, embora tambm 
por imigrados recentes, colocados pela segurana social, etc. As suas 
caractersticas so a ausncia de estruturao da rela o de 
trabalho, temporaneidade, baixo nvel de qualificao exigido e baixa 
remunerao. Participam nele actividades de distribuio de panfletos 
e venda porta a porta, descarga de mercadorias, limpeza, papis de 
figurante em espectculos de vrios tipos, etc.;

b) imediatamente acima, situa-se o estrato dos trabalhos perifricos, 
que apresentam um maior grau de estruturao da relao de trabalho, 
mas tambm exigem baixa qualificao e comportam remuneraes 
modestas. Desenrolam-se dentro de unidades de pequena dimenso, que 
ocupam uma posio no central na economia. Por conseguinte, os 
trabalhadores perifricos executam tarefas manuais em pequenas 
empresas industriais e, sobretudo, no sector dos transportes, dos 
servios  tarefa e das construes;

c) o terceiro estrato  o dos trabalhos centrais, ou seja, dos que se 
desenrolam dentro das grandes organiza es, entre as quais a mdia e 
a grande empresa industrial, as actividades do crdito e da finana e 
o sector pblico. Comportam remuneraes comparativamente mais 
elevadas e garantidas. Alm disso,  mais alta a quota de actividades 
que exigem maior qualificao - as figuras sociais que as executam 
so, portanto, operrios especializados, tcnicos, empregados e 
quadros intermdios;

d) o estrato mais elevado  o dos trabalhos directivos, e executam-
nos figuras como os empresrios, dirigentes (presentes em particular 
nas reas de grande funo produtiva), profissionais livres e 
gerentes (presentes de um modo cada vez mais macio nos centros de 
terciarizao elevada).

A tipologia acabada de ilustrar oferece um instrumento til para a 
anlise das especificidades que o mercado do trabalho manifesta nos 
contextos urbanos e, em particular, nas grandes reas metropolitanas. 
Como o prprio Perulli e muitos outros autores demonstram, registou-
se no perodo mais recente, nas cidades, a tendncia para uma reduo 
percentual dos trabalhadores centrais, devida quer  sua menor 
incidncia nos modelos socioeconrnicos ps-fordistas, quer aos 
processos de suburbanizao, que levaram muitos deles a afastar-se 
das reas centrais para as cinturas mais exteriores (cf. os pontos 5. 
1. 2 e 5. 1. 3). Pelo contrrio, se  muito ampliada a consistncia 
dos dois estratos inferiores, com particular referncia s reas mais 
prestigiadas do centro urbano, tornou-se mais significativo o peso do 
estrato superior. Deriva da, para as cidades, uma estrutura social 
alargada nos extremos e adelgaada no centro -  este o modelo que, 
com uma imagem eficaz, se define com frequncia como de clpsidra.

2. O segundo n problemtico, sobre o qual se debruou recentemente o 
debate a propsito da estrutura social nas sociedades ps-
industriais,  o

105

relativo s camadas mdias. Embora, como j se referiu, em todas as 
sociedades industriais - das oitocentistas at s fordistas - seja 
lcito afirmar que a contraposio fundamental reside entre a 
burguesia e a classe operria, no se pode n-nimizar o facto de que, 
em todo o sculo xx e, especialmente, a partir do segundo ps-guerra, 
se assistiu a um crescimento cada vez mais rpido das camadas que se 
colocaram em posio intermdia entre as duas classes extremas. Essas 
camadas mdias, de resto, compem-se quer de figuras que - nas 
prprias organizaes produtivas - ocupam funes mdias entre a 
direco e os trabalhadores manuais (os chamados colarinhos brancos), 
quer de indivduos que operam como trabalhadores autnomos em 
pequenas unidades de produo (pequena empresa, artesanato moderno) 
e, sobretudo, no sector tercirio.

Qual  a posio das camadas mdias na estrutura social ps-fordista? 
Como se podem desagregar em subconjuntos dotados de interesses 
especficos?

Segundo Bagnasco e Negri (1994), estas perguntas podem receber 
respostas diferentes com base na ptica com que se olha esse conjunto 
de sujeitos sociais e, em particular, a linha divisria que se 
entende considerar de forma predon-nante. A esse respeito, os 
autores citados afirmam que se podem tomar em considera o duas 
abordagens distintas.

A primeira  a clssica, em que a situao social depende 
essencialmente do papel que os sujeitos desempenham no processo de 
produo de bens e servios. Se nos colocarmos nessa perspectiva, 
podem dividir-se as camadas mdias em estratos superiores e 
inferiores, ou pode tomar-se em considerao o tipo de produo a 
que se aplicam. Este ltimo critrio permite, por exemplo, 
distinguir, como faz Berger (1986), entre as figuras que produzem ou 
vendem bens e servios materiais (dirigentes e empregados da 
indstria, comerciantes de produtos industriais) e os que se ocupam 
em satisfazer necessidades no materiais (colocados no sector 
educativo, nas actividades culturais, nos meios de comunicao, 
etc.).

A segunda abordagem, ao invs, distingue as posies sociais com base

nas suas potencialidades de consumo, que no dependem unicamente dos 
rendimentos resultantes da actividade laboral mas tambm de outras 
condies, como a posse de recursos patrimoniais (entre os quais se 
reveste de particular importncia a propriedade da habitao) e os 
direitos de acesso a oportunidades oferecidas pelo Estado. Deste 
ponto de vista, as camadas mdias tomam-se complexamente articuladas 
ao seu interior, mas, em ltima anlise, as linhas de demarcao mais 
relevantes so as que distinguem essas camadas, no seu conjunto, de 
uma elite restrita, por um lado, das marginalizadas, por outro.

Usando estes conceitos em combinao,  possvel preparar um 
instrumento de anlise da estrutura social no s teoricamente mais 
requintado

106

mas tambm mais adaptado para estudar se diferenas entre os 
contextos urbanos. Nesse sentido, por exemplo, Bagnasco e Negri 
propem uma

tipologia de situaes urbanas nas quais se faz distino entre a 
condio da grande cidade (com uma presena menos determinante que no 
passado das camadas mdias e uma polarizao para as condies 
extremas), a das cidades mdias chamadas - com uma retomada da 
terminologia de Weber
- dos produtores (em que prevalece a estrutura com base em funes 
produtivas) e a das cidades mdias dos consumidores (em que predon-
na a

estruturao com base nas funes de consumo, em especial no que se 
refere s camadas mais instrudas).

3. Como se viu, muitos elementos levam a considerar determinante a 
cleavage entre as camadas privilegiadas ou, de qualquer modo, dotadas 
de recursos suficientes para garantir um nvel de vida aceitvel 
(sumariamente equivalente aos dois teros da populao) e as camadas 
marginalizadas (o tero restante). Foram utilizados numerosos 
contributos, no perodo mais recente, para indagar a natureza destas 
ltimas e a sua composio interna.

No debate em lngua inglesa e, especialmente, nos Estados Unidos, 
para designar este conjunto composto de camadas desfavorecidas, 
emprega-se correntemente (no s em sociologia mas tambm no debate 
jornalstico) o termo underclass (literalmente, infraclasse), 
introduzido nos

anos 60 pelo economista sueco Myrdal para designar os americanos 
pobres, excludos do mercado do trabalho ou ocupados em actividades 
marginais.
O emprego desta expresso, porm, parece destinado a favorecer 
equvocos: dificilmente a underelass pode ser considerada uma 
verdadeira e prpria classe social - no principal sentido do conceito 
, ou seja, como um

conjunto de indivduos que se encontram em condies sociais anlogas 
e

se caracterizam por interesses fundamentalmente unitrios. Isto deve-
se a

dois factores, que convm tomar em considerao - por um lado, a 
extrema fragmentao deste ltimo tero, dividido com base nas 
caractersticas tnicas, nos contextos de vida, etc.; por outro, a 
existncia de grandes processos de mobilidade, tpicos principalmente 
dos Estados Unidos (Esping-Andersen, 1993; Paci, 1993), que fazem com 
que os piores trabalhos (os chamados macjobs) no sejam executados 
continuamente pelos mes-

mos indivduos, se se excluir um grupo relativamente reduzido de 
pessoas que permanecem, por assim dizer, intrapolarizadas.

Pode, pois, dizer-se que a underclass no corresponde a uma entidade 
social unitria sob um perfil objectivo, o que no impede que possa 
ser

encarada como tal na imagem que construram dela as camadas sociais 
mais favorecidas. Todavia, na construo dessa imagem entram em jogo 
no s elementos de natureza socioeconmica, mas tambm de ordem 
cultural. Por exemplo, os preconceitos contra os grupos tnicos de 
que provm maioritariamente os indivduos desfavorecidos. Nesse caso, 
porm,

107

como observa Gans (1993), as vtimas da sociedade ps-industrial, 
mais do que uma infraclasse, formam uma undercaste (infracasta), ou 
seja, um conjunto discriminado com base em critrios de valor que 
implicam um juzo moral negativo contra elas.

3. 2. 3. As novas pobrezas urbanas

Embora, como se acaba de referir, muitas razes desaconselhem a 
considerar os estratos sociais mais desfavorecidos como um conjunto 
social homogneo e coerente, o seu crescimento quantitativo nas reas 
urbanas e o agravamento das suas condies de vida (consequente do 
enfraquecimento do welfare state) tambm no explicam a razo pela 
qual esses estratos so, hoje, um dos temas de estudo de maior 
actualidade para a sociologia urbana.

Em muitos casos, o conceito base utilizado para aludir ao fenmeno 
que os rene , simplesmente, o da pobreza, por vezes qualificada com 
a expresso pobreza urbana (Pieretti, 1992), para salientar a 
concentrao de indivduos pobres nos contextos urbanos, ou mesmo 
novas pobrezas urbanas (Silver, 1993), para distinguir as formas 
emergentes no cenrio ps-industrial das tpicas dos perodos 
precedentes. Apesar da fraqueza terica e da ambivalncia desses 
conceitos, justificam-se essencialmente pela sua flexibilidade, que 
permite aplic-los a um conjunto de situaes altamente mutveis de 
contexto para contexto e, alm disso, rapidamente variveis no tempo. 
Segundo Mingione (1993), o conceito de pobreza tem a sua base na 
ideia de que, por diversas razes e perodos de tempo variveis, uma 
parte da populao no tem acesso a recursos suficientes para lhe 
permitir sobreviver a um nvel de vida mnimo, determinado histrica 
e geograficamente, que conduz a consequncias graves em termos de 
comportamento e relaes sociais (p. 2).

Dois aspectos desta definio merecem particular realce. O primeiro 
diz respeito ao facto de que a deterrfflnao da pobreza se deve 
efectuar usando como termos de comparao padres prprios de cada 
contexto geogrfico e de cada poca histrica. Nesse sentido, o 
conceito tem um valor relativo - um indivduo  pobre (e isso  
considerado por ele prprio e pelos outros) em relao  diferena 
da sua condio de vida em confronto  do grupo de referncia 
(Sarpellon, 1991, p. 35), por exemplo, a condies mdias 
difundidas numa cidade ou num Estado 2      . Deste ponto

2 Para esta concepo da pobreza como pobreza relativa orientam-se, 
em geral, as definies oficiais do fenmeno, nos vrios pases, ou 
as adoptadas a nvel internacional. Por exemplo, a International 
Standard of Poverty Line afirma que  pobre uma famlia de duas

108

de vista,  evidente que onde essas condies mdias se elevem - 
como nos contextos metropolitanos dos pases mais ricos -, para os 
grupos sociais que se encontram em situao social estagnada ou em 
declnio, a diferena atrs indicada torna-se mais larga e, por 
conseguinte, a pobreza relativa converte-se num fenmeno em vias de 
agravamento. Alm do mais, essa definio relativa da pobreza deve 
distinguir-se de outra em termos absolutos. Neste ltimo caso, a 
pobreza absoluta - ou misria (Martinelli, 1995) -

indica uma condio em que a integridade fsica e mental dos 
indivduos e

a sua prpria sobrevivncia so colocadas em perigo.

O segundo aspecto que convm salientar  que a pobreza no se 
relaciona apenas com a falta de um rendimento adequado, mas de um 
modo mais geral com uma escassez de recursos, que, supe-se, devem 
ser mantidos variveis no tempo e no espao. Muitos autores 
salientaram que, examinando atravs da anlise emprica os percursos 
atravs dos quais os indivduos chegam a condies de pobreza 
(Guidicini, Pieretti, 1992), apercebem-se de que os recursos que 
faltam no so apenas de natureza monetria mas que envolvem um 
conjunto de factores muito mais amplo, entre os quais os de ordem 
cultural (por exemplo, o grau e a natureza do nvel de instruo), 
poltica (a possibilidade de influir nas decises pblicas mediante 
representantes prprios) e relacionais (o contacto com redes de 
solidariedade e de apoio).

A esta luz, alguns socilogos (Berzario, 1992; Mela, 1993) insistem 
na importncia de que se reveste, nas anlises das pobrezas urbanas, 
uma abordagem baseada na considerao das redes sociais (cf. captulo 
6). Com efeito, a pobreza pode ser considerada no tanto como um 
estatuto permanente, em que se encontra um conjunto de indivduos 
considerados isoladamente, mas mais como uma condio - por vezes, 
apenas temporria -

que depende de um enfraquecimento das relaes sociais que cada 
indivduo tem com muitos outros e que o apoiam na busca de uma 
satisfao das suas necessidades materiais e imateriais. As redes de 
relaes sociais, a que aludimos, so as que se estabelecem no seio 
da famlia, as redes entre vizinhos, entre colegas de trabalho, mas 
tambm as que dependem das actividades de servios sociais pblicos 
(por exemplo, os servios de preveno da carncia,  escala 
territorial) ou de associaes de voluntariado. As ligaes com essas 
redes garantem aos indivduos sociais uma ajuda na resoluo dos 
problemas da vida quotidiana, que, em muitas circunstncias, 
desempenha um papel substitutivo nos confrontos da falta de rendimen-

pessoas cujo rendimento  inferior ou igual ao mdio per capita do 
pas tomado em anlise e, a partir desta definio, calcula com uma 
escala de equivalncia o limiar de pobreza para os ncleos com outro 
nmero de componentes (Bagnasco, Negri, 1994, p. 62).

109

tos adequados. Pelo contrrio, o afastamento destes ltimos determina 
uma condio de carncia e vulnerabilidade social que agrava os 
riscos do empobrecimento.

Tendo isto em conta, compreende-se como a pobreza representa um risco 
ligado no s  pertena a grupos socioprofissionais de baixa 
remunerao mas tambm a condies familiares especficas, estilos de 
vida, origens tnicas, e assim sucessivamente. Por exemplo,  
particularmente agudo para as

familias formadas por um nico membro adulto (em geral, mulheres) com

filhos ou de casais ancios privados de laos familiares ou mesmo 
pessoas com deficincias fsicas ou mentais, indivduos com problemas 
de alcoolismo, toxicodependncia, etc. O contexto residencial tambm 
pode criar um papel importante - a probabilidade de uma total 
ausncia de ligaes com redes sociais de apoio  maior nos grandes 
centros urbanos do que nas cidades mdio-pequenas, em que a 
visibilidade imediata dos indivduos em condies de carncia 
solicita, de algum modo, a interveno.

Os estudos recentes sobre a pobreza urbana focalizaram com frequncia 
a sua ateno no s na dimenso esttica do fenmeno mas tambm na 
dinn-fica - tentaram reconstruir os percursos atravs dos quais um 
certo nmero de indivduos cai em condies de pobreza, ou ento 
reemerge dela para uma situao social mais aceitvel. No estudo 
desses percursos, foi por vezes retomado e elaborado o conceito de 
carreira moral, proposto originariamente por Goffman (1962). Segundo 
esse autor o termo carreira? costuma ser reservado a um tipo de 
privilgios gozados por quem progride, por etapas graduais, numa 
profissoxito. Emprega-se, todavia, o mesmo termo, num sentido mais 
amplo, para indicar uma espcie de fio condutor - de natureza social 
- seguido no ciclo da vida inteira de uma pessoa (p. 151). Neste 
sentido, as carreiras no so forosamente ascendentes (projectadas 
para o xito), mas podem tambm ser descendentes e orientar-se, por 
etapas, para condies de pobreza. Alm disso, a ideia de uma 
carreira moral comporta que, na sua determinao, entrem errijogo no 
s condies de tipo objectivo, como o nvel de rendimento ou os 
padres de consumo, mas tambm condies de tipo subjectivo, como o

prestgio de que um indivduo desfruta, as avaliaes morais de que  
alvo

e a imagem que d de si (Dickens, 1990).

Por conseguinte, utilizando este instrumento analtico, pode afirmar-
se que a pobreza  uma condio na qual um indivduo, ou grupo de 
indivduos, transita, ou se situa estavelmente, por efeito de uma 
carreira moral negativa, escondida frequentemente por etapas 
correspondentes a situaes ou eventos desfavorveis. Os eventos 
deste tipo podem ser, por exemplo, a perda do trabalho, a dissoluo 
de um ncleo familiar, a perda do ambiente residencial (em resultado 
de um despejo ou da necessidade de se mudar), a doena, a adopo de 
comportamentos ou hbitos de risco, uma crise

110

psicolgica, a morte de um cnjuge. Observa-se com frequncia, no 
caso

das carreiras morais descendentes, que a ocorrncia de um evento 
negativo tende a aumentar as probabilidades da ocorrncia de outros, 
de diferente natureza. Por exemplo, pode acontecer que a crise de uma 
rela o conjugal implique uma crise psquica e esta ponha a sade em 
perigo, ou ento (como se verifica em pases onde so baixas as 
garantias do welfare state) que a

perda do posto de trabalho no permita que um indivduo conserve a 
sua habitao, nem que se cure devidamente, etc. Por outro lado, o 
carcter consequencial dos eventos aplica-se igualmente ao caso dos 
percursos ascendentes. , pois, importante que se tenha em conta na 
predisposio das polticas voltadas para a luta contra a pobreza e a 
excluso social. Com efeito, no forosamente por serem eficazes, 
essas polticas devem ofere-

cer um apoio global aos indivduos que se encontram em condies de 
carncia. Mais frequentemente basta (e, por vezes, at se torna mais 
oportuno) que intervenham para inverter o curso de uma carreira moral 
descendente favorecendo a produo de um evento positivo (por 
exemplo, oferecendo uma oportunidade de trabalho ou o contacto com 
uma rede de voluntariado) e estimulando uma reaco pessoal que torne 
mais provveis eventos sucessivos positivos.

3. 2. 4. O dualismo urbano

Nos pargrafos anteriores j se mencionou o facto de que as 
sociedades ps-industriais - embora reconhecendo, em mdia, um 
incremento da riqueza - se caracterizam por um aumento da diferena 
entre as condies sociais mais ricas e as das quotas mais 
desfavorecidas e marginalizadas da populao. Alm disso, pde 
observar-se - analisando a estruturao de clpsidra do mercado do 
trabalho urbano - como isso acontece nas reas metropolitanas, 
sobretudo nas suas partes centrais, os lugares em que os extremos 
sociais tendem a concentrar-se em maior medida.

Convm analisar agora como este tipo de consideraes se encontra no 
centro de um animado debate que envolve, a partir de fins dos anos 
80, numerosos socilogos urbanos, na sua maioria pertencentes ao 
filo da urban political economy. Esse debate tem um ponto de partida 
preciso: as teses avanadas por Castells (1989) a propsito do 
carcter dual da cidade na

sociedade ps-industrial, ou seja, naquela a que ele chama sociedade 
da infonnao, com a aluso principal ao contexto dos Estados Unidos.

Segundo esse autor, o dualismo deriva de um conjunto de factores 
ligados estreitamente s transformaes da base produtiva, mais do 
que do papel do Estado como meio de regulao dos conflitos e de 
apoio aos grupos mais fracos. Na verdade, toda a base econmica dos 
pases mais desen-

111

volvidos, mas de forma muito particular a economia urbana, tende hoje 
a

transformar-se por efeito da ascenso de dois sectores igualmente 
dinmicos, embora de natureza muito diferente.

O primeiro  um sector econmico fonnal, baseado nas tecnologias 
microelectrnicas e na elaborao da informao. De certo modo, 
destina-se a substituir o sector manufactureiro como eixo central das 
sociedades avanadas. No entanto, o seu crescimento no basta para 
compensar em

termos ocupacionais o declnio da indstria tradicional, sobretudo 
porque recruta os seus adeptos quase somente entre a populao de 
nveis de instruo mais elevados. Os destinados s tarefas mais 
privilegiadas e

remunerativas formam uma nova elite urbana com nvel de vida e 
privilgios exclusivos.

O segundo sector  o das actividades infonnais e apresenta algumas 
analogias com o sector correspondente das cidades do Sul do mundo. 
Ocupa mo-de-obra desqualificada e mal paga, mas no se trata de uma 
rea estagnada e de pura subsistncia, pois apresenta um grande 
dinamismo e garante lucros elevados a quem organiza as suas 
actividades. Fazem parte dele actividades heterogneas - vo da 
produo de artigos de vesturio e

mveis em pequenas unidades de produo no registadas, 
subfornecimento para a indstria electrnica, as ligadas  construo 
civil que executam trabalhos abusivos, os gypsy cabs, txis 
irregulares que efectuam os transportes em bairros em que os 
regulares se recusam a entrar (Sassen, 1989), at s actividades da 
econon-a criminal, como as ligadas ao trfico de droga. Os 
destinados ao sector informal encontram-se em crescimento em todas as 
grandes cidades americanas e, em larga medida, advm dos grupos 
tnicos de in-grao recente ou mesmo dos imigrados clandestinos.

A presena simultnea destes dois tipos de indivduos nas cidades
- por efeito de caracteres estruturais na actual fase do 
desenvolvimento capitalista - toma dual a estrutura social urbana. 
Isto, porm, no significa, para Castells, que a cidade tende a 
organizar-se em dois universos sociais internamente homogneos e 
claramente contrapostos entre si (como acon-

tecia, sob alguns perfis, na cidade oitocentista dividida entre 
bairros burgueses e proletrios). Pelo contrrio, a natureza dos 
processos de estruturao da sociedade urbana  de tal ordem que 
provoca fragmentao social e
encerramento dos grupos nos seus prprios estilos de vida e nas 
modalidades peculiares de utilizao do territrio.

Apesar destas ltimas precises, que CastelIs esclarece nas suas 
anlises, a tese do dualismo urbano recebeu fortes crticas, 
sobretudo acerca da implcita simplificao que contm.

A esse respeito, Marcuse (1989, 1993) prefere falar, mais do que de 
cidade dual, em quartered city, expresso intraduzvel, que d a 
ideia de uma cidade dividida em bairros, mas tambm esquartejada, 
feita em

112

pedaos pelas desigualdades entre os mbitos residenciais que a 
compem. Define, em particular, os seguintes tipos de realidades 
urbanas, correspondentes a outras tantas partes do territrio, 
amplamente desconhecidos entre si:

a) a cidade das residncias de luxo (luxury housing), um conjunto de 
ilhas em que se concentra o vrtice da hierarquia econmica, social 
e poltica;

b) a cidade aburguesada (gentrified city - para uma explicao do 
significado do termo gentrification e derivados, cf. ponto 5. 1. 3), 
com grande presena de pessoas ss e indivduos que desempenham 
funes dirigentes, tcnicas ou de gesto;

c) a cidade suburbana, caracterizada por habitaes unifamiliares 
ocupadas por famlias tpicas americanas pertencentes s camadas 
inferiores da pequena burguesia;

d) a cidade das casas de apartamentos (tenement city), rea mista com 
casas por vezes em runas, habitadas em parte por indivduos 
pertencentes a minorias tnicas e, por outro lado, por trabalhadores 
de baixo rendimento;

e) o gueto, lugar da pobreza e da marginalizao, privado de servios 
e infra-estruturas importantes, com fortes indcios de superlotao e 
presena de actividades ilegais.

Esta articulao sociourbanstica da cidade  sumariamente paralela a 
uma articulao anloga das actividades econmicas urbanas. Deste 
ponto de vista, a cidade pode dividir-se nos seguintes mbitos:

a) os lugares das grandes decises, que incluem no s escritrios e 
sedes de direco de luxo mas tambm locais mveis, como os iates e 
os avies particulares;

b) as cidades dos servios avanados e dos escritrios profissionais, 
situados nos centros urbanos e reagrupados em redes ligadas por 
densas comunicaes;

c) a cidade de produo de bens industriais e servios; d) a cidade 
da economia informal; e) a cidade residual, onde se concentram 
actividades ilegais e nocivas, rejeitadas pelo resto da cidade.

Alm disso, Marcuse aprofunda a sua anlise, tentando distinguir os 
aspectos da desigualdade urbana que se devem considerar realmente 
novos e emergentes daqueles que representam constantes de perodo 
prolongado. Resulta dessa reflexo uma imagem globalmente negativa da 
cidade contempornea, a propsito da qual  realado o aumento da 
populao privada de habitao, o agravamento da segregao 
residencial e do papel que a identidade do bairro residencial exerce 
nos destinos da populao urbana.

Perante uma imagem de tintas to carregadas, podemos perguntar se se

relaciona apenas com tendncias tpicas do contexto americano ou se 
reflecte

113

processos de ordem mais geral. Quanto a isto, no nos parece que hoje 
estejamos em condies de fornecer uma resposta definitiva. Convm 
ter, sem dvida, em conta, por um lado, o facto de que as 
desigualdades sociais so extremamente agudas nos Estados Unidos, em 
especial se comparar-

mos esse pas com as naes mais avanadas da Europa Central e 
Setentrional, como a Alemanha, Holanda e Sucia (Geri, Pennacchi, 
1993). Por outro lado, temos tambm de considerar que, at aqui, a 
tese do dualismo urbano foi posta  prova atravs de factos 
referentes a cidades americanas como Nova Iorque e Los Angeles, 
enquanto so muito menos numerosos os estudos sobre outros contextos 
urbanos. No entanto,  igualmente verdade que alguns trabalhos 
referentes a grandes cidades da Europa Ocidental, como Londres 
(Fainstein, Gordon, Harloe, 1992; Petsimeris, 1995) ou Paris 
(Wacquant, 1993), ou ainda anlises relativas a cidades da Europa 
Oriental (Musil, 1992) revelam sinais de aumento dos desequilbrios e 
desigualdades no espao infra-urbano, embora se apresentem mais 
atenuados onde o mercado encontra um correctivo na presena de 
polticas reequilibradoras aplicadas por decises pblicas. Por 
conseguinte, embora possa parecer estril discutir sobre o facto de a 
cidade dever manter-se dual ou dividida em partes, no se pode 
ignorar este facto preocupante - a cidade ps-industrial, apesar do 
incremento das potencialidades comunicativas devidas s novas 
tecnologias, continua dividida internamente por muros invisveis, 
ou seja, por barreiras sociais bem operantes (Marcuse, 1995).

3. 3. Competio e participao na poltica urbana

3. 3. 1. Coligaes de interesses e o governo urbano

Muitos estudiosos das polticas urbanas concordam em afirmar que a 
actividade governamental  escala urbana deve, hoje, enfentar um 
cenrio muito mais incerto e ameaador do que o tpico da fase 
fordista. Muitos, porm, afirmam que - mau grado os riscos presentes 
- existem margens de manobra consistentes para as administraes 
pblicas, desde que elas adoptem uma atitude inovadora e flexvel que 
as leve a assumir iniciativas eficazes para o desenvolvimento local.

As razes que motivam estes juzos derivam de anlises j expostas 
nas pginas precedentes. O aumento das dificuldades para a aco de 
governo urbano resulta, no plano econmico, da mundializao da 
economia - que faz com que os factores produtivos sejam dotados de 
uma mobilidade internacional no controlvel dos poderes pblicos - e 
do impulso para a

114

desindustrializao das reas urbanas. Depois, no plano poltico, 
pesa tambm a menor disponibilidade de recursos colocados  
disposio das cidades pelos governos centrais e a fragmentao dos 
grupos sociais. -- jos interesses organizados. Ao mesmo tempo, porm, 
estes mesmos processos explicam - pelo menos, em parte - os motivos 
pelos quais a aco de governo urbano pode gozar de margens de 
liberdade consistentes e , mais do que anteriormente, determinante 
no encaminhamento da cidade para um percurso de desenvolvimento ou, 
pelo contrrio, de declnio. Com efeito, se  verdade que a 
indstria, no seu conjunto, tende a abandonar as grandes 
concentraes urbanas, no o  menos que as actividades produtivas de 
alta intensidade de pesquisa e as tercirias mais valiosas so 
atradas pelas reas metropolitanas, porque, como vimos, estas 
apresentam um milieu rico e dinn-co, no s em termos econmicos 
mas tambm socioculturais. Se tomarmos isto em considerao, 
compreenderemos facilmente que a prpria mobilidade dos factores 
produtivos, embora tomando impossvel um controlo directo do 
estabelecimento de actividades econn-cas por parte dos governos 
locais, faz com que as empresas sejam sensveis a condies locais 
que, indirectamente, dependem das iniciativas das administraes: 
acima de todas as que influem na qualidade do milieu, como a dotao 
de infra-estruturas, a eficincia dos transportes e das comunicaes, 
a vivacidade da vida cultural e a presena de universidades e centros 
de pesquisa.

Assim, para resumir a questo de forma esquemfica, pode dizer-se que 
o governo local  obrigado a actuar num contexto de alta 
competitividade, em que aumentam tanto os riscos como os lugares 
ernjogo. Alm disso, deve estar em condies de encontrar solues 
eficazes num terreno duplo: no plano interno, nas confrontaes dos 
prprios cidados, o governo deve saber garantir um nvel aceitvel 
da qualidade de vida, evitando que a fragmentao social se 
transforme num conflito destrutivo; no plano externo, nas 
confrontaes com as outras cidades concorrentes, deve saber criar 
condies apropriadas para um desenvolvimento ps-industrial, 
conseguindo assim captar e, possivelmente, manter fluxos de recursos 
(pblicos e privados) mveis e permanentemente em busca das situaes 
mais vantajosas.

Este tema da competitividade encontra-se na base de muitas teses 
sobre o governo urbano, elaboradas a partir dos anos 80, e explica os 
principais objectivos de interesse. A essa luz, por exemplo, se deve 
entender a insistncia de muitas anlises sobre os agentes dos 
governos urbanos e coligaes de interesses que se formam para apoiar 
algumas intenes polticas ou impedir outras. Na verdade, 
precisamente porque a aposta, pelas cidades da poca ps-industrial, 
 na conquista de um papel vencedor na competio internacional, 
todas as foras econmicas e sociais (alm das organizaes polticas 
em sentido rigoroso) so de algum modo obrigadas a jogar as suas 
cartas na primeira pessoa e

115

a formar coligaes suficientemente potentes para voltar as aces do 
governo urbano a seu favor.

Move-se neste sentido analtico um clebre ensaio de Logan e Molotch 
(1987), que, desenvolvendo algumas ideias j propostas uma dezena de 
anos atrs pelo mesmo Molotch (1976), apresenta a cidade americana 
como uma mqui   .na para o desenvolvimento (growth machine), 
accionada por uma larga aliana de elites urbanas, as quais - por 
muito divididas que possam estar acerca de outros problemas - esto 
unidas por um interesse comum para promover o desenvolvimento urbano 
e criar um bom clima para os negcios. A composio dessas 
coligaes difere de cidade para cidade, mas alguns actores 
encontram-se tipicamente em todos os casos. Entre eles figuram, em 
primeiro lugar, os polticos, alguns dos quais podem tambm estar 
pessoalmente interessados como homens de negcios, ou profissionais 
liberais, no xito da econoiriJa local. A par desses, situam-se os

empresrios, os promotores imobilirios, a imprensa e os mass media 
locais, os dirigentes das sociedades de servios (por exemplo, dos 
transportes), mas tambm, com funes auxiliares, os representantes 
das universidades, do mundo da cultura e do desporto, as organizaes 
dos trabalhadores, os profissionais liberais e os comerciantes.

A coligao que se coloca  cabea da mquina para o desenvolvimento 
deve por vezes superar as resistncias derivadas da aco de 
coligaes com interesses opostos, as quais podem, alm disso, ser 
formadas por actores sociais dotados de nveis de poder e objectivos 
muito distantes entre si. Com efeito, em alguns casos, a oposio ao 
desenvolvimento pode provir de operadores econmicos com interesses 
sectoriais (por exemplo, no campo da extraco do petrleo ou da 
energia nuclear), que se opem a projectos de desenvolvimento 
destinados a promover interesses diferentes (tursticos, por 
exemplo). Noutras situaes, ela procede da base de grupos de 
cidados interessados na defesa de valores de uso, como, por 
exemplo, os ambientes presentes no territrio.

As teses de Logan e Molotch situam-se num debate sobre o governo 
urbano que, nos Estados Unidos, tem longas tradies. Pode recordar-
se aqui que, nos ltimos 20 anos, foram propostos diferentes modelos 
interpretativos situados, por assim dizer, entre duas teses extremas.

A primeira, mantida por Yates (1977), afirma que a poltica urbana se

caracteriza por um hiperpluralismo estrutural - os problemas e os 
interesses que os decisores urbanos tm de enfrentar so de tal modo 
fragmentados que as polticas no podem deixar de assun-r um 
andamento descontnuo e instvel. A segunda tese, defendida por Stone 
(1989), indica, ao invs, a possibilidade de a fragmentao ser 
superada com a formao de coligaes de interesses dorrnantes 
(inclusive, em alguns casos, os de grupos organizados de cidados), 
at  constituio de um verdadeiro e prximo

116

regime urbano, ou seja, um governo estvel que garanta benefcios 
directos e vantagens colaterais para cada parceiro. Pode dizer-se a 
este respeito que o modelo da mquina para o desenvolvimento 
representa um caso particular de regime urbano, em que o 
desenvolvimento econmico  o objectivo unificador da coligao com o 
poder.

Nem sempre os esquemas interpretativos do governo urbano, propostos 
pela sociologia moderna, se revelam aplicveis a outros contextos e, 
em particular, aos europeus. No nosso continente, com efeito, h 
pases, como a Frana, em que a centralizao do sistema poltico 
obriga o Estado a desempenhar um papel mais importante, mesmo na 
poltica de desenvolvimento das cidades. No entanto, nos anos 80, 
assistiu-se a a um relanamento em grande escala da iniciativa de 
alguns governos urbanos e metropolitanos (como, por exemplo, no caso 
de Lyon e de Montpellier); todavia, mesmo quando a iniciativa passa 
para o nvel local, pode observar-se que o papel dos poderes pblicos 
e das polticas de programao e infra-estruturao do territrio, 
executados por eles, se reveste de um carcter muito mais decisivo em 
Frana do que nos Estados Unidos.

Em Itlia, a recente rotura dos equilbrios polticos consolidados 
desde o final do fascismo provocou uma condio de instabilidade 
ainda no resolvida, que torna difcil qualquer avaliao projectada 
no futuro. De qualquer modo, pode observar-se a presena de impulsos 
para o robustecimento dos poderes descentralizados. J hoje, a 
introduo do princpio da eleio directa do presidente da Cmara 
pelos cidados e a consequente formao de juntas indicadas por ele 
esto a alterar significativamente a aco das administraes, 
tornando-as mais livres nas confrontaes dos aparelhos partidrios e 
mais aptas para assumir um papel de catalisador em processos de 
desenvolvimento com elevada participao privada. Em todo o caso, 
muitos obstculos derivam da instabilidade poltica  escala 
nacional, da ausncia de uma preparao adequada da parte de muitos 
adm-inistradores e funcionrios e da prpria atitude insuficiente das 
elites econmicas locais para superar o particularismo dos interesses 
imediatos, para apontar a projectos de desenvolvimento coordenados e 
a mdio prazo.

3. 3. 2. Sentido cvico, participao, conflito

No perodo mais recente, a tnica colocada por parte dos socilogos 
urbanos na elite urbana e as coligaes para o desenvolvimento 
deixaram na sombra um tema que, pelo contrrio, capturou a ateno 
nos anos 60 e
70 - o da participao dos cidados nas opes do governo urbano.

Para explicar esta diminuio de interesse, podem referir-se muitas 
razes vlidas. Uma delas (a mais facilmente perceptvel) resulta da

117

escassez dos resultados produzidos pelo impulso para a participao 
que se produziu, sobretudo em fins dos anos 60, ao sabor dos 
movimentos de protesto surgidos em muitos pases. Uma segunda razo, 
mais essencial, diz respeito s alteraes de fundo determinadas na 
estrutura social - a fragmentao dos interesses e a marginalizao 
dos grupos mais fracos so condies que impedem a participao das 
decises pblicas ou, pelo menos, tornam difcil a formao de 
impulsos participativos difusores, ao ponto de contrabalanar os 
centros de poder mais influentes.

Apesar disso, no se pode dizer que o tema da participao tenha 
simplesmente desaparecido do horizonte analtico da sociologia e do 
pensamento poltico destes anos. Pode antes depreender-se que os 
contributos mais interessantes tendem a pr o problema em termos 
diferentes dos do passado e, inevitavelmente, mais complexos. Um 
aspecto significativo desta posio de perspectiva situa-se no facto 
de que, hoje, as condies da participao so mais problemticas do 
que no passado recente e as suas manifestaes apresentam-se mais 
facetadas. Para simplificar, podemos dizer que, em relao ao 
contexto da cidade fordista tpica, se podia (dentro de certos 
limites) tomar como dado adquirido que a comunho de interesses de 
grandes grupos sociais representa uma condio necessria e

suficiente para o desenvolvimento de um movimento reivindicativo, 
cujas formas de actividade consistiam na organizao de formas de 
luta ou de presso poltica para obter a adopo de determinadas 
polticas urbanas ou

bloquear outras. Nos contextos urbanos actuais, pelo contrrio, a 
simples condiviso de condies de vida homogneas nem sempre basta 
para superar a disperso dos interesses e favorecer a aco 
colectiva. Por outro lado, esta ltima no se traduz forosamente na 
aco reivindicativa explcita, embora tambm possa assumir formas 
indirectas, mas nem por isso menos significativas.

A propsito dos requisitos prvios da participao e, de um modo mais 
geral, da eficincia da poltica local, um contributo importante 
provm de um texto de Putnam (1993), apesar de se desenvolver mais ao 
nvel regional do que urbano. Nesse trabalho, Putriam procura 
esclarecer as causas das desigualdades, nas vrias regies italianas, 
relativas ao grau de funcionalidade das instituies regionais e  
qualidade da relao com os cdados. Para explicar esse fenmeno, 
analisa as diferenas de intensidade com que, nos vrios contextos, 
se manifesta aquilo a que chama civicness, ou seja, o sentido cvico 
dos habitantes 1.

1  til salientar qus o termo ingls no tem as conotaes de juzo 
moral que esto presentes na traduo que utilizamos.
118

Segundo o estudioso americano, que se relaciona com as clebres 
anlises de Tocqueville, nota-se um grau elevado de sentido cvico 
nas comunidades locais em que est difundida a presena de cidados 
que interpretam activamente o seu papel, dentro de um tecido social 
em que vigoram princpios de cooperao e confiana no prximo. Isto 
no significa forosamente que, nesses contextos, seja mais elevada a 
incidncia de comportamentos altrustas - a cooperao e confiana 
derivam sobretudo do exerccio de um interesse luminado, em que as 
convenincias pessoais so avaliadas num quadro mais global que 
compreende imagens de um bem comum. Esta atitude favorece tambm o 
desenvolvimento de relaes sociais de rede entre indivduos que se 
consideram iguais. Pelo contrrio, nas

comunidades em que o sentido cvico  fraco, prevalecem as relaes 
entre desiguais, ou seja, caracterizadas por princpios de autoridade 
e sujeio.

O trabalho de Putriam compreende uma verificao emprica na qual, 
mediante o emprego de indicadores da intensidade do sentido cvico, 
se chega a urna classificao das regies italianas e a uma mistura 
das correlaes existentes entre civicness e eficincia 
institucional. Os resultados mostram que essa correlao  forte e 
traa uma imagem da Itlia mais uma vez substancialmente dividida 
entre Norte e Sul. Esta parte explicativa do trabalho foi criticada 
por muitos (Mlano, Moro, 1995), quer em virtude da escolha dos 
indicadores quer dessa representao das diferenas inter-regionais, 
considerada demasiado sumria e, em ltima anlise, convencional. 
Apesar disso, reveste-se de indiscutvel interesse o realce conferido 
ao papel fundamental do sentido cvico, como atitude difusora e no 
ligada apenas a posies sociais especficas, como o apelo  
sedimentao de processos histricos de longa durao, que explica a 
presena desigual do civicness.

No tocante s manifestaes dos impulsos participativos ou dos 
comportarnentos colectivos destinados a influenciar as opes de 
poltica urbana, pode operar-se uma distino global (de 
configurao, de resto, esfumada) entre as que tm um carcter 
explcito e intencional e as que o

no tm.

Entre as primeiras, podemos considerar vrias actividades destinadas 
a

exercer presses com vista a determinados objectivos polticos ou 
administrativos. Alguns tm um carcter durvel no tempo, como os 
desenvolvidos por grupos de interesse organizados, ou lobbies, que se 
empenham em exercer presses contnuas sobre as administraes ou 
sobre exponentes especficos, intervindo na imprensa local, etc. Uma 
aco deste tipo pode ser

executada por grupos, organizaes, associaes, por exemplo, de 
mulheres, ambientalistas, expoentes de minorias tnicas influentes, 
comerciantes, residentes em zonas de particular prestgio ou valor 
arquitectnico, automobilistas, etc. Noutros casos, porm, as 
presses derivam das partes sociais

119

em conflito, por ocasio de episdios particulares relativos  
poltica urbana. Verificam-se ocasies deste gnero em presena de 
projectos que comportam transformaes significativas da cidade ou de 
partes dela, como a renovao de bairros histricos degradados, a 
reutilizao de reas industriais abandonadas, a construo de auto-
estradas urbanas, linhas de metropolitano, arranha-cus para 
escritrios, grandes conjuntos comerciais, instalaes para a 
produo energtica ou o escoamento do lixo (Maggio, 1994). Nestas 
circunstncias, definem-se por vezes blocos de interesses em 
conflito, dotados de um carcter transitrio e pontual , que 
estabelecem de forma transversal as linhas de diviso social mais 
consolidadas. Para dar um exemplo, intervenes na viabilidade 
urbana, como o projecto de uma linha de escoamento veloz do trfego 
em direco s reas centrais, podem ter o acordo dos empregados 
pendulares, que trabalham no centro e utilizam transporte prprio, e 
os proprietrios das reas semicentrais, valorizados por um 
incremento da acessibilidade. Pelo contrrio, a obra pode ser 
rejeitada por movimentos ecologistas e por uma parte dos habitantes 
dos bairros perifricos atravessados pela linha de trfego veloz, em 
especial as pessoas idosas que receiam que a nova artria corte o 
bairro em dois, tornando difcil o cruzamento dos pees. 
Naturalmente, as disposies contrapostas assim detern-iinadas - por 
profunda que se possa revelar a sua oposio ao

caso em questo - destinam-se a dissolver-se depois de o assunto ter 
encontrado uma soluo e porventura a reconstituir-se com uma 
composio diferente noutras circunstncias.

Entre as actividades no explicitamente destinadas a influenciar as 
opes da administrao urbana, as quais ainda representam uma forma 
de participao indirecta, podem indicar-se vrios tipos de 
comportamento e empenho social. Vo da participao em actividades de 
voluntariado,  escala local, adeses a associaes que animam a vida 
citadina ou que se

interessam pela tutela do patrimnio artstico e ambiental, at  
participaao em assembleias e iniciativas cvicas. No seu conjunto, 
essas actividades podem ser retomadas sob a categoria do trabalho na 
comunidade local (community work). Num sentido ainda mais amplo, 
podem considerar-se formas de participao indirecta os 
comportamentos que enviam aos adn-nistradores informaes sobre 
preferncias e as aspiraes dos cidados: por exemplo, os contactos 
que tm com membros singulares da administrao ou funcionrios, as 
orientaes expressas atravs da imprensa, as rdios e as televises 
locais, o acolhimento reservado a determinadas iniciativas, como 
exposies, espectculos ou feiras comerciais.

O conjunto destas formas de participao explcita ou implcita, no 
s a produo de informao significativa com fins da poltica 
urbana, configura uma presena influente dos cidados, ainda que no 
forosamente organizada nas formas tradicionais partidrias ou 
sindicais. Reala uma

120

modalidade activa de exerccio da cidadania, a que Verba (1992) 
define como citizenry (vocbulo que sugere a ideia de uma cidadania 
em aco), para a distinguir do termo mais habitual de citizenship, 
que designa a relao jurdica entre o cidado e o Estado.

A pardas manifestaes participativas acabadas de referir, existem 
modalidades mais radicais de expresso de atitudes conflituais. 
Algumas continuam a assumir a forma tradicional reivindicativa, 
baseada na organiza o de formas de luta e na negociao, enquanto 
outras tendem mais para criar na cidade mbitos e lugares em que se 
possam manifestar estilos de vida e comportamentos alternativos. 
Neste segundo caso, tpico de alguns grupos marginalizados, de 
minorias tnicas e culturais ou de movimentos fundados (como veremos 
no ponto 4. 2) na ideia da valorizao das diferenas, a radicalidade 
da expresso no consiste tanto no conflito com contrapartes precisas 
como na rejeio de uma relao com o poder baseada na contratao e 
na procura do compromisso. Isto no impede que, em ocasies de 
decises particulares que lhe dizem respeito de perto, da parte 
desses movimentos se

procure exercer presses na adnlnistrao pblica ou mesmo fazer 
eleger seus representantes ou pessoas da sua confiana, preparados 
para elementos de ligao entre o poder citadino e o movimento.

3. 3. 3. Planificao e polticas urbanas

As transformaes analisadas at aqui tm como consequencia a crise 
das formas tradicionais do exerccio do governo, por parte dos 
poderes locais. Essas crises, e as propostas para a sua superao, 
encontram-se hoje no centro de um aceso debate que envolve muitas 
disciplinas (sociologia, cincias polticas, urbanstica, direito 
administrativo, etc.) e que no parece ter encontrado at agora 
solues satisfatrias. Reconstruir esse debate constituiria uma 
tarefa demasiado complicada e fora do mbito do presente livro. H, 
porm, um tema sobre o qual parece til debruarmo-nos rapidamente, 
pois resume muitos aspectos do contraste terico e poltico 
subjacente s discusses em vista - a questo da planificao 
territorial e urbanstica.

A planificao representa uma metodologia para a interveno pblica 
no campo urbano. Todavia, apesar do seu papel essencialmente 
instrumental, pressupe uma representao da cidade e dos processos 
que induzem as suas transformaes. Essa metodologia foi organizada 
pelo pensamento urbanstico europeu a partir da segunda metade do 
sculo XIX e conheceu diversas fases de desenvolvimento e at 
interpretaes contrrias.

Em geral, por planificao territorial e urbanstica pode entender-
se o uso de instrumentos (aplicveis a diversas escalas espaciais) 
que se consideram capazes de garantir - em funo de detern-nados 
objectivos -

121

coerncia no espao e no tempo s transformaes territoriais. Por 
conseguinte, a planificao prope-se influenciar a dinmica do 
desenvolvimento dos sistemas espaciais, definindo percursos 
desejveis do ponto de vista do bem comum e garantindo ao mesmo tempo 
uma flexibilidade razovel s opes singulares que intervenham para 
regular aspectos especficos desse desenvolvimento. Alm disso, 
prope-se obter a transparncia do processo de decises, esclarecendo 
a priori os critrios na base da formao das opes. So alvo da 
planificao territorial e urbanstica (Salzano, 1995) as 
transformaes significativas do aspecto espacial de uma rea, quer 
no sentido fsico (as que incidem na forma do territrio), quer em 
sentido funcional (as que modificam os usos do solo e as 
interligaes).

A histria do pensamento e da praxis planificatria difere muito de 
pas para pas. No conjunto, porm, pode afirmar-se que, mesmo no 
perodo correspondente ao mximo desenvolvimento do modelo fordista e 
do welfare state, a planificao atravessa o perodo de maior xito. 
Isto significa que, por um lado, assume um papel importante no quadro 
das polticas pblicas e, por outro, recebe uma definio 
particularmente rigorosa e empenhativa.

No debate urbanstico, a concepo dominante da planificao nos anos
60 e 70 (expressa, por exemplo, in McLoughlin, 1969) designa-se por 
vezes com a expresso modelo racional- compreensivo, que salienta 
alguns aspectos dessa concepo que se podem resumir como segue:

1. A cidade e o territrio so interpretados como sistemas, e  
planificao  atribuda uma tarefa de regulao global do seu 
funcionamento, segundo um esquema que exige o controlo da criao de 
sistemas produtivos.

2. Os elementos da realidade urbana em que se concentra 
maioritariamente a ateno so os funcionais e, em geral, os que 
podem ser objecto de uma apreciao quantitativa. Por esse motivo,  
atribudo um grande crdito ao contributo analtico e normativo das 
cincias aplicadas, incluindo - pelo menos em referncia a alguns 
contextos como o holands (van Doorn, 1964) e o francs (Remy, 1987) 
- a sociologia.

3. O processo de planificao tende a ser definido segundo um esquema 
em cascata, no qual, a partir da definio de objectivos de 
carcter geral, se procede dedutivamente para a definio de um 
quadro global da estrutura espacial da cidade, para depois se chegar, 
de forma cada vez mais pormenorizada,  determina o da disposio 
de subsistemas funcionais especficos (a residncia, as actividades 
produtivas, os servios, os transportes) e mbitos territoriais 
particulares.
Perto do final dos anos 60, porm, o modelo racional-compreensivo 
comeou a ser submetido a uma crtica cada vez mais radical, que se 
referia

122

quer  concepo da cidade e do territrio que isso subentendia, quer 
 eficcia efectiva dos instrumentos propostos, com o objectivo do 
controlo do desenvolvimento dos sistemas espaciais numa fase ps-
industrial.

Foi posta em discusso, em particular, a ideia de que os processos do 
crescimento urbano podiam ser interpretados como o efeito do 
funcionamento de um simples mecanismo, regulvel do exterior 
atravs da interveno de um plano. Ao invs, nos anos 80 - embora 
sob a escolta da difuso, no debate sociolgico e urban stico, de 
conceitos resultantes de novas linhas de pesquisa no campo biolgico 
ou na teoria dos sistemas -, difundiram-se esquemas analticos que 
consideravam os sistemas territoriais extremamente complexos e mesmo 
hipercomplexos (Morin, 1984), dotados no de um nico centro 
regulador mas de uma multiplicidade de decisores difusos, entre os 
quais no existia forosamente cooperao e diviso funcional das 
tarefas. A dinmica de sistemas como estes no podia, pois, ser 
controlada por qualquer decisor singular - dependia da interaco 
entre uma multiplicidade de processos, que no possuam um andamento 
linear, mas, ao invs, tinham um carcter por vezes imprevisvel e 
catico. Os decisores pblicos e, entre eles, as autoridades 
propostas para a

planificao territorial e urbanstica eram apenas alguns entre os 
muitos centros de deciso influentes e, portanto, representavam uma 
parte do sistema e no um organismo de controlo superordenado, capaz 
de determinar, do exterior, os estados futuros do prprio sistema.

Se este tipo de crticas ao modelo racional-compreensivo se apresenta 
hoje largamente compartilhado, no deixa de ser verdade que existem 
hipteses em contrrio, quando se trata de redefinir as tarefas das 
polticas pblicas sobre a cidade.

Simplificando as hipteses que se expuseram nestes anos, pode dizer-
se que, em resumo, se colocam num leque que tem nos seus dois lados 
extremos a ideia de uma liquidao substancial da planificao e a de 
um seu relanamento em bases diferentes e com instrumentos renovados.

A primeira linha - que por vezes volta a surgir em temas da polmica 
ps-modernista (a esse respeito, cf. ponto 4. 1) - impele a crtica 
para o modelo racional-compreensivo ao ponto de negar radicalmente o 
carcter sistmico da cidade, e at, em alguns casos, a negar que 
ainda seja sensato falar da cidade como de uma entidade 
significativa. Nesta perspectiva, prope-se uma representao que v 
no espao ps-industrial nada mais do que uma intercepo de redes 
econmicas e sociais de dimenso internacional, ligadas por fluxos de 
informaes cada vez mais indiferentes  fisicidade dos lugares e ao 
peso das distncias. Num cenrio desta natureza, pensar em exercer um 
controlo mediante um plano representa uma

pretenso insensata - uma pura herana de uma utopia regressiva e 
autoritria, que pretende reconduzir o espao a um conjunto de 
comunidades

123

locais organicamente compactas e funcionalmente ordenadas. Um 
interesse especfico deve ser atribudo a alguns pontos singulares em 
que se concentram os smbolos da nova sociedade, entre os quais, por 
exemplo, as reas direccionais dos centros metropolitanos. Em 
contrapartida, a interveno nestes pontos deve revestir-se de um 
carcter de livre planificao e no de um controlo planificatrio. 
No se prope regular as dinmicas globais do sistema urbano, mas 
exaltar a singularidade de um edifcio ou de uma parte da cidade. Por 
esse motivo, o instrumento privilegiado da interveno no  o plano 
(correlacionado pelas anlises preparatrias e pelas previses de 
desenvolvimento), mas o projecto arquitectnico, com a sua autonomia 
formal e a sua valncia esttica.

Qualquer que seja a importncia cultural e cientfica dos problemas 
levantados por esta concepo, convm registar que - em especial em 
Itlia -

esta linha de pensamento produziu uma ideologia antiplanificatria 
(Mela,
1985), que, na realidade, constituiu uma justificao para uma praxis 
de interveno na cidade baseada em grandes obras, por vezes 
desligadas de hipteses efectivas de desenvolvimento da cidade, em 
que o financiamento pblico abriu simplesmente o caminho a 
intervenes rendveis de grandes grupos financeiros, promotores 
imobilirios e empresas de cons-

trues (Indovina, 1992).

Na vertente oposta, a reflexo crtica sobre as fraquezas e erros do 
modelo racional-compreensivo produz hipteses de redefinio de uma

poltica de plano, que, embora sem atribuir a esse instrumento um 
valor demirgico, no renuncia a utiliz-lo - juntamente com outras 
linhas de interveno - para influir no desenvolvimento das cidades 
com base em objectivos pblicos.

Entre os aspectos que hoje caracterizam essas hipteses, podem 
salientar-se em particular os seguintes.

Teoriza-se, acima de tudo, uma distino entre dois nveis de 
interveno urbanstica, cada um dos quais deve ter margens de 
autonon-a consistentes, embora deva existir entre elas uma atraco 
recproca contnua.
O primeiro  o da planificao estratgica, em que o plano no 
renuncia a uma representao global do desenvolvimento de um sistema 
urbano e territorial. Esta representao, porm, est em contnua 
redefinio e  o produto de uma negociao entre um conjunto de 
agentes e de centros de deciso. Por conseguinte, o plano estratgico 
no constitui um projecto da cidade futura, traado de uma vez por 
todas, mas um quadro de referncia, que, por um lado, regista os 
acordos, sempre transitrios, alcanados entre os actores e, por 
outro, representa um ponto de apoio para a futura negociao (Faludi, 
van der Valk, 1994; Mazza, 1995). Alm disso, serve para consolidar 
uma imagem da cidade e das suas linhas de transformao, que, alm de 
reforarem o quadro das representaes comuns das decises

124

urbanas, favorece uma representao eficaz da cidade nos confrontos 
de decises externas, como, por exemplo, de empresrios estrangeiros 
interessados em investimentos na mesma cidade. O segundo nvel  o da 
interveno operativa, ou seja, das decises relativas a aspectos 
especficos do desenvolvimento urbano. Este nvel no descende 
automaticamente do primeiro - toda a deciso deve ser justificada por 
si prpria e no se pode configurar como mera execuo operativa de 
opes j implcitas no plano estratgico. Em todo o caso, este 
ltimo no pode ser simplesmente executado, mas interpretado 
constantemente de modo flexvel e com base na avaliao de 
circunstncias parcialmente imprevisveis.

Alm disso, porque a planificao se reveste de um carcter 
processual, tem grande importncia o momento da monitorizao dos 
resultados alcanados. A anlise do sistema alvo de planificao, que 
inclui vrias disciplinas, no deve preceder unicamente a interveno 
planificatria, mas

deve ligar-se com ela de forma recursiva - permite que os actores do 
processo de planificao definam e redefinam os cenrios da sua aco 
oferecendo instrumentos para avaliar, durante a operao, a eficcia 
das iniciativas empreendidas.

Finalmente, dado o papel que a negociao tem na planificao, uma 
tarefa essencial da interveno pblica  a de estabelecer regras do 
jogo aptas para garantir, nos limites do possvel, a transparncia e 
a eficcia da contratao entre os partidos interessados. Ao longo 
desta linha, convm realar a importncia assumida, nos processos de 
planificao e em oca-

sies de momentos importantes de deciso, pelo papel da mediao, 
atravs da utilizao de figuras profissionais especializadas. A do 
mediador corresponde  de um agente neutro, que no tem interesses 
especficos na escolha em causa, nem o poder de produzir uma soluo 
definitiva. A eficcia da sua aco baseia-se apenas na capacidade de 
favorecer a interaco entre as partes, numa sede que, embora no 
sendo directamente decisria, tende a definir um acordo empenhativo 
para os contraentes (Englemann et al., 1995). O papel da mediao 
passa a ser experimentado num largo nmero de processos decisrios, 
sobretudo nos Estados Unidos (Bingham, 1986), mas tambm em pases 
como o Canad e o Japo e, mais recentemente, em

alguns contextos europeus.

O papel atribudo  sociologia, no mbito dos processos de 
programao territorial e planificao da cidade, assistiu a vrias 
definies no perodo mais recente, em funo das alteraes nos 
paradigmas de referncia urbanistas e decises polticas. Quanto 
muito, pode afirmar-se que se passou de uma concepo globalista, 
que confiava ao socilogo a tarefa de formular previses sobre as 
tendncias gerais de desenvolvimento dos sistemas socioespaciais, 
para uma delimitao mais pontual dos seus contributos, focalizando-
os em tomo do tema da avaliao dos possveis efeitos sociais

125

das intervenes projectadas e o da participao dos sujeitos sociais 
nos processos decisrios (C ESQUEMA 3. 1).

ESQUEMA 3. 1. Sociologia, planificao do territrio, projecto do 
construido

Nos ltimos anos, compete cada vez com mais frequncia aos socilogos 
interactuar com indivduos que, a vrios ttulos, se ocupam de 
projectar o territrio, o habitat natural e construido, a cidade - 
trata-se com frequncia de fornecer um apoio aos decisrios, como, 
por exemplo, em:

- processos de planificao territorial a nvel urbano ou regional;
- projectos voltados para pores circunscritas de territrio (por 
exemplo, bairros isolados), em especial no caso de intervenes que 
pretendem associar reestruturao da construo civil e 
requalificao de um tecido social local;

- intervenes no ambiente natural e na paisagem, ligadas, por 
exemplo,  construo de novas infra-estruturas ou a projectos para 
os quais se necessite de uma avaliao do impacte ambiental.

Em todos estes casos, pede-se ao socilogo, substancialmente, que se 
ocupe - no final de um percurso de pesquisa - da formulao de 
indicaes relativas ao mtodo e maneiras de proceder mais oportunos 
para intervir no ambiente (construido ou natural), de modo a gerar 
efeitos positivos (ou neutralizar os negativos) sobre o tecido social 
da rea interessada.

As abordagens metodolgicas utilizadas podem ser mltiplas: da 
anlise de dados estatsticos recolhidos (por exemplo, do Registo 
Civil ou de censos) aos surveyatravs de questionrios aos cidados; 
das entrevistas a testemunhos qualificados (entre aqueles que tm 
papis relevantes e bons conhecimentos do territrio em exame; por 
exemplo, responsveis de associaes, administradores locais, 
paroquianos, etc.)  observao participativa da realidade em que se 
concebe a interveno projectual.

Sobretudo no Norte da Europa, existe uma tradio consolidada de 
envolvimento dos socilogos em equipas multidisciplinares de projecto 
e interveno no ambiente e na construo.

Um caso embiemtico, entre muitos,  o do bairro berlinense de 
Kreuzberg, zona j degradada fisicamente e marginal em termos 
sociais, empenhada na reestruturao desde fins dos anos 70 com um 
projecto de recuperao urbana prudente - um plano de intervenes 
graduais, mais de reestruturao do que de demolio, preparao de 
servios pblicos; mas tambm de valorizao dos recursos locais e 
das organizaes activas no territrio, de envolvimento da populao 
segundo o critrio de concertar as decises com residentes e 
empresrios locais.

Em Kreuzberg os socilogos apoiaram os urbanistas, economistas, 
polticos e outros indivduos peritos, participando nos trabalhos de 
grupos de discusso pblica, indagando junto da populaco residente 
as necessidades, expectativas e opinies sobre os projectos de 
interveno, reconstruindo as dinmicas interactivas entre os 
indivduos envolvidos nos processos organizativos e decisrios, 
avanando propostas e sugerindo alternativas projectuais para 
optimizar os recursos presentes no territrio.

126

4. A CIDADE, OS SMBOLOS, AS CULTURAS

4. 1. A condio ps-moderna e a cidade

4. 1. 1. As dimenses da cultura

No presente captulo, ocupar-nos-emos ainda - predoirnantemente -

das transformaes do urbanismo contemporneo, mas introduzindo uma 
nova e, segundo alguns, ainda mais decisiva chave de leitura: a que 
encara a cidade como um lugar de elaborao cultural e simblica. Na 
realidade, a cidade constituiu sempre, em todas as fases da sua 
histria, um fenmeno cultural. Poder-se-ia mesmo dizer que ela  
pela sua natureza um lugar de incubao e difuso da cultura no duplo 
significado que se atribui a estes termos nas cincias sociais e na 
linguagem quotidiana.

Por um lado, a cidade, desde a sua apario, caracteriza-se pela 
produo de uma cultura alta. A revolu o neoltica e o 
desenvolvimento da agricultura criam as condies para o seu 
nascimento, ao mesmo tempo que originam um surplus de recursos que 
permitem a algumas camadas sociais desprender-se das actividades 
voltadas para a satisfao das necessidades elementares e dedicar-se 
ao governo,  defesa militar,  religi o e mesmo a todas as formas 
de expresso artstica, literria, filosfica ou cientfica que 
costumamos abarcar na designao cultura. Assim, a histria da 
cidade est ligada indissoluvelmente  de todas essas formas de 
manifestao de alto nvel das civilizaes humanas.

Por outro lado, ao mesmo tempo, as cidades so tambm lugares nodais 
do desenvolvimento das culturas, entendendo estas ltimas no 
significado antropolgico do termo, ou seja, como conjunto de normas, 
valores, tradies, smbolos, crenas e modos de vida que 
caracterizam difusamente toda uma populao. Obviamente, as culturas 
manifestam-se em forma plena, mesmo no campo. A cidade, porm, 
representa uma caracterstica

127

peculiar: a de ser lugar de confronto entre culturas heterogneas. 
Como Aristteles afirmou, a cidade  originada pela presena comum 
dos diversos. Nela, por conseguinte, as diferenas culturais 
exprimem-se melhor como tais, lanando as bases para um confronto e, 
s vezes, um conflito aberto a muitas sadas. De qualquer modo, 
historicamente, a cidade  o lugar em que, por excelncia, se operou 
a incubao das tranformaes culturais e em que, sobretudo, se 
executaram os grandes processos de reorientao dos valores e dos 
comportamentos difusos que acompanharam e, em muitos aspectos, 
precederam o nascimento da modernidade.

Em todos os tipos de aglomerado urbano, os dois nveis da cultura (o 
alto e o difuso) estabelecem entre si interdependncias, embora a 
natureza destas varie em funo das pocas e dos contextos. Pode, no 
entanto, afirmar-se que nunca como hoje, no mbito do urbanismo ps-
industrial, essas interdependncias assumiram um carcter to 
complexo e desempenharam um papel to decisivo na dinmica cultural. 
Isso deve-se a muitos factores, mas sobretudo ao facto de a cidade 
contempornea ser

um n em que - como veremos melhor no Captulo 6 - se interceptam e 
ligam circuitos comunicativos de todo o tipo, alm de se trocarem a 
alta velocidade mensagens, quer entre indivduos co-presentes, quer 
entre indivduos ligados entre si por meios de comunicao  
distncia.

Em particular, gracas  difuso cada vez mais capilar dos mass media, 
quase todas as manifestaes da vida quotidiana, estilos de vida, 
moda e

tendncia expressiva ganham visibilidade e podem tornar-se objecto de 
uma

comunicao de largo alcance. Esta condio tende fortemente a 
baralhar as cartas nas relaes entre as vrias formas de cultura: as 
formas altas podem encontrar modalidades de divulgao outrora 
impensveis (embora correndo o risco de ver modificada a sua 
natureza); as difusas, em alguns aspectos, entram no circuito 
comunicativo ao mesmo ttulo das primeiras,

umas vezes em sinergia, outras em competio com elas. A situao que 
se

acaba de configurar desse modo  rica em potencialidades, 
ambiguidades, riscos, mesmo de sinal contrrio - com efeito, ao 
variar alguns factores pode prevalecer ora a tendncia para uma 
homologao cultural, ora, ao

invs, para o conflito ou para a marginalizao das culturas 
minoritrias.

Analisaremos neste captulo alguns caracteres da complexa condio 
cultural da cidade ps-industrial. Em primeiro lugar, na continuao 
do ponto 4. 1, estudar-se- o tema da evoluo da cultura urbana em 
direcco

a uma condio ps-moderna. No ponto 4. 2, realar-se- um tema 
fundamental para as sociedades urbanas do nosso tempo - a forte 
acentuao da heterogeneidade e o desenvolvimento de orientaes que 
reivindicam o

papel das diferenas. Passar-se-, depois, no ponto 4. 3, a salientar 
o carcter simblico dos lugares urbanos, e no 4. 4. efectuar-se- um 
reconhecimento de alguns traos da cultura urbana, colocando a tnica 
em aspectos

128

que lhe definem a valncia esttica. Finalmente, no ponto 4. 5, ser 
feita uma aluso s polticas culturais e ao papel que podem 
desempenhar no

relanamento da cidade, aps a fase fordista.

4. 1. 2. O esprito do ps-moderno

Uma das palavras-chave que, com maior frequncia, se encontram no 
debate sobre o mundo contemporneo no ltimo quartel do sculo xx,  
o adjectivo ps-moderno, empregado em referncia a uma larga gama de 
substantivos, como cultura, arte, condio, etc. A propsito 
disso, Denzin (1991) sustenta que se trata de um termo que contm 
elementos semnticos intrinsecamente contraditrios - com efeito, 
modemo indica algo de actual, de presente, enquanto o prefixo ps 
faz pensar numa

superao do moderno e, portanto, numa situao que o toma inactual. 
Por outro lado,  nessa abordagem paradoxal que se encontra a sua 
fora evocativa. Na verdade, o termo sugere que os fenmenos 
indicados pelo substantivo a que se encosta (a cultura, a arte, etc.) 
se acham hoje numa

fase de transio, em que esto menos presentes os caracteres que se 
lhes atribua no perodo modemo. Ao mesmo tempo, todavia, definindo 
esta fase apenas como alguma coisa que vem depois do moderno, 
sugere-se implicitamente que os novos caracteres que se vo 
delineando ainda no configuram un modelo coerente ao ponto de 
solicitar uma definio efectiva.

Portanto, a ideia geral  a de um esgotamento do mundo moderno, de 
uma sada progressiva da experincia que representou, quer do ponto 
de vista colectivo, quer do individual, e de uma obsolescncia dos 
esquemas interpretativos empregados para compreender e justificar a 
modernidade, sejam conceitos filosficos, teorias cientficas, 
ideologias polticas, manifestaes artsticas ou outros.

Como se pode verificar, trata-se de uma ideia de largo raio de aco, 
a

que no podem faltar elementos de ambiguidade. Entre eles, h um que 
merece, em particular, ser colocado em evidncia. Por um lado, 
recorrer ao adjectivo ps-moderno parece implicar uma inteno 
descritiva - por exemplo, referindo-o  condio cultural das 
sociedades mais ricas e desenvolvidas, entende-se afirmar que nelas 
se registou uma rotura, uma transformao rpida e profunda que lhes 
alterou a natureza. Deste ponto de vista, por conseguinte, os 
conceitos de ps-moderno e ps-industrial poderiam ser
mantidos complementares - o primeiro serviria para rotular os 
aspectos socioculturais das sociedades contemporneas, ampliando e 
integrando a

perspectiva socioeconmica sugerida pelo segundo.

Por outro lado, contudo, quem privilegia o recurso ao ps-moderno 
tende, em geral, a manifestar uma atitude no s descritiva mas 
tambm

129

crtica, concentrando uma ateno poln-ca nas manifestaes que 
eram tpicas do perodo moderno. Esta ptica crtica assume diversos 
alvos segundo os campos em que se exprime. Assim, por exemplo, no das 
cincias sociais a acentuao da rotura com o moderno faz-se 
acompanhar quase sempre de uma crtica  sociologia de cariz 
positivista e, mais em geral, s posies que atribuem uma confiana 
excessiva s possibilidades de analisar de forma objectiva e 
cientfica a evoluo dos sistemas sociais, formulando previses 
globais e propondo intervenes de controlo e correco do devir 
histrico. Paralelamente, no mbito do pensamento poltico,  
enfatizado o fim das grandes ideologias de origem oitocentista (o 
socialismo, o comunismo, o liberalismo na sua forma clssica), que 
orientaram a aco de largos movimentos de massa nos trs primeiros 
quartis do nosso sculo. Noutros campos, como nas artes visuais ou 
na arquitectura, a instncia ps-moderna assume formas variadas e 
mais especficas. Em arquitectura, sobretudo, o termo indica uma 
orientao que, em polmica com o funcionalismo e com o racionalismo 
do movimento moderno, prope uma concepo diferente do projecto e 
exprime-se em traos estilsticos facilmente reconhecveis, que deram 
uma marca especfica a muitos edifcios do perodo mais recente.

Em sntese, portanto, pode dizer-se que a referncia ao ps-moderno, 
com as suas mltiplas potencialidades de aplicaes e sugestes, 
permite sobretudo caracterizar um clima cultural alastrado tpico do 
perodo mais recente e participado tanto pela alta cultura como 
pela difusa. No que se refere  primeira, podemos definir como 
ps-modemas (ou, como decerto seria mais apropriado, ps-
modernistas) as posies dos intelectuais que, de vrios modos, 
tentam compreender e interpretar o esprito da sociedade ps-
industrial e a condio existencial de quem a habita, enfatizando a 
rotura do mundo moderno com as suas expresses culturais mais 
caractersticas, como a confiana no progresso e na cincia e o 
racionalismo. No tocante  segunda, o ps-moderno remete para a 
experincia da vida, para as percepes, para as manifestaes 
culturais prprias dos vrios campos que compem a populao dos 
pases economicamente avanados e, em particular, a que se concentra 
nos maiores agregados metropolitanos. Dedicaremos a cada um destes 
dois aspectos, respectivamente, os dois pontos que se seguem, nos 
quais, obviamente, a ateno se concentrar sobretudo nas questes 
que tocam de perto o tema da cidade.

4. 1. 3. Ps-moderno e cidade

Nestes anos, o debate sobre a condio ps-moderna interceptou com 
frequncia o da cidade e, mais em geral, o relativo ao papel do 
espao e do

130

tempo na aco social. Isto no acontece por acaso, como tambm no  
casual a circunstncia de que, no seio da sociologia, o debate sobre 
o ps-moderno tenha despertado ateno frequentemente em mbitos 
disciplinares interessados na cidade e no territrio e em revistas 
que se ocupam predon-nantemente destes temas (como, por exemplo, 
Society and Space). Com efeito, as questes levantadas naquele debate 
envolvem imediatamente temas e casos que tm uma funo central na 
interpretao da cidade, sobretudo no que se refere ao seu papel 
cultural e  sua especificidade do lugar de incubao dos modos de 
vida e das categorias conceptuais prprias de uma poca.

Pode revelar-se til focalizar, nesta sede, alguns aspectos da 
intercepo entre ps-moderno e cidade.

Como se mencionou um pouco atrs, as posies ps-modernistas colocam 
em questo as pretenses de que a cincia - sob a influncia do 
positivismo - avanou nos sculos XIX e XX, apresentando-se como 
instrumento capaz no s de fornecer uma representao objectiva do 
real, mas tambm de resolver racionalmente os problemas ligados ao 
desenvolvimento social e econn-co. Agora, pode-se salientar como 
essas pretenses permearam em particular as representaes de 
socilogos, gegrafos urbanos, planificadores e urbanistas. Por 
conseguinte, a cidade foi descrita

como a manifestao visvel da organizao social e da racionalidade 
modernas, como um ambiente artificial preparado para responder a todo 
o tipo de necessidades e exigencias humanas. Por outro lado, esta 
representao da cidade no se confinou aos textos dos especialistas, 
pois tambm inspirou a prtica da construo civil e urbanstica, 
assim como as polticas sociais e a gesto administrativa. 
Finalmente, foi vrias vezes reproposta nas imagens e na retricas da 
cultura artstica, literria, cinematogrfica e na comunicao 
veiculada pelos mass media.

No deve, pois, surpreender que a polmica contra aquela concepo da 
cincia, promovida por muitos autores ps-modernos, encontrasse um

terreno prprio para a exemplificao no campo das questes urbanas. 
De um modo particular, o que se nega polemicamente  a pretenso dos 
planificadores de poderem regular a dinmica socioeconmica e 
espacial da cidade, adaptando-a a modelos definidos a priori com 
vista  resoluo de problemas funcionais de natureza universal. 
Nesta atitude de confronto da cidade, os ps-modernistas vem uma 
tentativa de impor uma lgica unificadora e, portanto, de natureza a 
mortificar as variegadas caractersticas dos microcosmos urbanos, dos 
lugares que reflectem o simbolismo dos vrios grupos. Como 
alternativa,  exaltada a vitalidade catica das prticas urbanas, a 
sua irredutibilidade e esquemas pr-constitudos, a impossibilidade 
de os enquadrar numa viso da histria que tenha como objectivo o 
progresso ou qualquer meta definitiva.

131

Em ligao com os problemas agora abordados, podemos ainda 
acrescentar que o cientismo e as ideologias polticas de cariz 
moderno deixaram nas cidades os seus traos visveis so@ a forma de 
infra-estruturas, transformaes urbansticas e signos 
arquitectnicos carregados de valncias simblicas. O sculo xix, em 
particular, assistiu  afirmao de tentativas para replasmar a 
cidade com vista a exigncias de manuteno da ordem social, 
incremento da mobilidade e saneamento dos bairros mais pobres: o 
exemplo da transformao de Paris, desejada por Haussman e centrada 
no traado dos grands boulevards  sem dvida emblemtico nesse 
sentido. Ainda mais radical  a transformao do arranjo fsico das 
cidades no sculo actual, sobretudo nos decnios subsequentes  
Segunda Guerra Mundial - realiza-se sob o signo de uma arquitectura 
que, para alm das intenes originrias do movimento moderno, no 
consegue exprimir outra coisa que no seja uniforniidade e 
estandardizao, reflectindo os imperativos de uma especulao da 
construo em larga escala.

A crtica ps-moderna pretende tambm discutir aqueles signos e a 
proposta de um estilo capaz de recuperar livremente do passado formas 
e tipologias, sem a preocupao de uma correspondncia directa entre 
a forma arquitectnica e a funo do edifcio, prpria da esttica do 
movimento moderno. Sobre a variedade das tendncias arquitectnicas 
de inspirao ps-moderna, cf. o ESQUEMA 4. 1.

As crticas ao cientismo, s ideologias, s concepes 
unidireccionais da histria, s pretenses de controlo global e 
planificao do futuro encontram o seu derion-iinador comum numa 
atitude filosfica de rejeio de uma concepo forte da aco 
humana ou da conscincia subjectiva. Nessa concepo (que os ps-
modernos atribuem s grandes filosofias do Ocidente, culn-nadas no 
positivismo e nas formas do marxismo afirmadas com o socialismo 
real) predorrna a ideia de um sujeito humano plenamente consciente 
de si e da pr pria racionalidade e capaz de orientar as suas aces 
para fins prestveis, com a ajuda de um saber formalizado e de uma 
tecnologia cada vez mais poderosa. Esse sujeito forte  tambm 
tendencialmente unitrio, para o qual as diferenas de gnero, 
cultura, etnia e idade apenas representam variantes de escasso 
relevo.

ESQUEMA 4. 1. As diversas tendncias da arquitectura ps-moderna

O termo ps-moderno (utilizado pela primeira vez em referncia  
arquitectura de Charles Jencks em 1977) no define tanto um movimento 
nascido com objectivos e bases comuns como um conjunto de abordagens 
diferentes, que, tendo o factor comum de uma exigncia de superar os 
caracteres unvocos da arquitectura racionalista, diferem mais 
profundamente entre si quanto s orientaes projectuais especficas 
(De Fusco, 1988; Belluzzi, Conforti, 1994).

132

O filo porventura mais notvel  o do eclectismops-moderno- no por 
acaso definido por vezes, tout-court, como Post-Modem -, cujas razes 
se podem identificar em concepes artsticas de movimentos como o 
dadasmo ou a pop art: o manufacturado arquitectnico, neste caso, 
torna-se motivo para a insero de citaes histricas ocasionais, 
mais ou menos irnicas. Faz-se referncia a proj.ectistas como Robert 
Venturi, Charies Moore ou aos expoentes do chamado ruinismo, em que 
abundam obras arquitectnicas incluindo fragmentos de runas 
clssicas gregas e romanas, colunas dricas, capitis, frontes de 
templos.

Uma abordagem arquitectnica desenvolvida nos anos mais recentes  a 
do chamado desconstrucionismo, que, extremando os relevos crticos 
ps-modernos ao racionalismo, chega a negar alguns dos prprios 
princpios estruturais da arquitectura. A criatividade do 
projectista, neste caso, acaba por se aproximar da de um escultor - 
os produtos dessa criatividade so assim, por exemplo, casas com 
soalhos e pavimentos inclinados, janelas tortas e a destoar com a 
fachada, mveis e objectos de decorao em que o factor esttico 
predomina nitidamente sobre o funcional - por exemplo, estantes com 
prateleiras pendentes.

Arquitectos como Renzo Piano e Richard Rogers so, por outro lado, 
expoentes de realce da chamada arquitectura high-tech, que concentra 
a ateno nas inovaes tecnolgicas e faz da instrumentao de 
tecnologia elevada o principal elemento de qualificao esttica da 
manufactura arquitectnica. O Centro Pompidou em Paris, ou o palcio 
dos LloycIs de Londres - com as estruturas e as instalaes 
expostas% na fachada - constituem dois exemplos significativos nesse 
sentido.

Um ltimo tipo de abordagem, embora sempre reconduzvel ao clima ps-
moderno, pretende superar antecipadamente o racionalismo em termos 
no puramente positivos. Trata-se do chamado neoclassicismo (definido 
por alguns como neo-raconalismo), que caracteriza os edifcios 
projectados, entre outros, por Aldo Rossi ou Mario Botta, nos quais  
evidente uma recuperao de alguns conceitos fundamentais derivados 
do patrimnio da arquitectura clssica, como, por exemplo, os de 
simetria, racionalidade e axialidade.

A crtica ps-modemista  concepo da subjectividade tem levado, 
pelo contrrio,  reafirmao da centralidade das diferenas na 
experincia humana, juntamente com uma atitude de suspeita perante 
todas as tentativas para repropor imagens unificadoras do homem e da 
sua racionalidade. Essa orientao, como  fcil de compreender, tem 
consequncias imediatas numa questo de grande relevo para a 
sociologia urbana. Com efeito, no quadro urbano, uma atitude de 
aceitao e valorizao das diferenas parece hoje extremamente 
importante e pode favorecer uma necessria correco de tiro em 
relaao s representaes defrmadas, predominantes no passado e 
baseadas numa imagem ao mesmo tempo enftica e redutora do homem.

No entanto, a inteno de reconhecer o valor das diferenas no basta 
para resolver o problema da convivncia dos diversos na cidade. Em 
muitos casos, as linhas de distino entre grupos ou agregados 
sociais culturalmente coincidem ou, por vezes, interceptam-se com as 
linhas de demarca-

133

o das desigualdades sociais, dos processos de marginalizao e de 
excluso do exerccio de direitos fundamentais. Ora, se se pretende 
combater estas formas de desigualdade e injustia, se se querem 
estabelecer regras para a interaco entre o vrio - ou, melhor, 
critrios para que se possa desenvolver uma conflitualidade no 
destrutiva, mas orientar para a negociao -, no basta recorrer aos 
valores da diferena, mas antes encontrar termos de referncia 
comuns, um conjunto de argumentaes conjuntas (Harvey, 1992) para 
fixar, pelo menos, objectivos singulares aceitveis por todas as 
partes e normas de procedimento para o confronto. Isto, porm, por 
seu turno, pe o problema de uma redefinio - menos triunfalista, 
mas tambm menos unilateral em relao  clssica - da subjectividade 
e das formas de racionalidade. Trata-se de um problema filosfico, 
mas tambm
- convm salient-lo - um problema que, nas metrpoles 
contemporneas, se pode traduzir em alternativas de opo poltica e 
cultural dotadas de caracteres decididamente concretos e, no 
raramente, dramticos. Na verdade, renunciar simplesmente a todo o 
tipo de terreno comum pode significar, para alm das intenes, 
adoptar uma atitude de desinteresse nos confrontos dos desequilbrios 
e das injustias ou mesmo deixar de agir preventivamente contra as 
manifestaes destrutivas que a exasperao das diferenas est na 
iminncia de provocar.

4. 1. 4. A experincia quotidiana da cidade contempornea

Se  verdade que, nestes anos, o ps-modemo representa um clima 
cultural que influencia as interpretaes propostas por um sector 
consistente das cincias sociais e da cultura humanstica, no  
menos exacto que isso se relaciona - de vrias formas - com a 
experincia vivida quotidianamente por milhes de mulheres e homens.

Com efeito, o sentido de incerteza, a perda de pontos de referncia 
fundamentais para a compreenso do seu papel na sociedade, a 
diminuio da segurana sobre a natureza imparvel do progresso e na 
melhoria contnua das condies socioeconmicas so apenas as notas 
dominantes da concepo crtica de uma elite culta - trata-se antes 
de sensaes comuns, embora de vrias formas, de largas camadas da 
populao. Alm disso, mais uma vez,  sobretudo a experincia de 
quem vive nos aglomerados metropolitanos que evoca mais fortemente 
aquelas sensaes, e isto por um conjunto de razes.

Em primeiro lugar, as metrpoles constituem o principal teatro desses 
grandes fenmenos de transformao, que assinalaram o fim da 
sociedade fordista. Embora provocando uma subida do nvel mdio de 
vida dos pases ricos, aumentaram o grau de incerteza e a 
competitividade, presentes na
134

vida social. Constituem factores importantes a menor linearidade das 
carreiras laborais, resultante da mais rpida obsolescncia das 
competncias e das contnuas reestruturaes do sistema econrrfico, 
e a reduo das garantias oferecidas pelos amortizadores sociais e 
servios pblicos. A incerteza crescente toma mais difcil, para 
muitos indivduos pertencentes a camadas de algum modo 
desfavorecidas, a formao das imagens tranquilizadoras do seu futuro 
e programar o futuro dos filhos com realismo suficiente. A prpria 
organizao da vida quotidiana modifica-se devido a muitos factores - 
cada vez mais, os horrios sociais provocam sobreposies de tarefas 
ou obrigam os indivduos a optar entre empregos alternativos do 
tempo. Uma consequ ncia de tudo isto  a mudana da percepo do 
tempo social e, em particular, do sentido da continuidade da 
experincia individual e colectiva.

Em segundo lugar, tambm a percepo do espao tende a mudar.
O que se deve, entre outras coisas, a um processo de fragmentao dos 
espaos,  sua distenso (para retomar um conceito de Giddens, 1990). 
Nos grandes sistemas metropolitanos produz-se uma especializao 
espacial - h espaos residenciais, para o trabalho, a cultura, o 
divertimento, o consumo, etc. E no s, pelo menos para um certo 
nmero de indivduos, cada um destes espaos sofre, por sua vez, uma 
ulterior fragmentao. Por exemplo, entre as camadas mdio-altas no 
 invulgar o caso de quem possui uma dupla habitao; em muitas 
actividades do tercirio avanado o posto de trabalho no  nico, 
mas mltiplo e mvel; os lugares do consumo do tempo livre variam em 
funo de especializaes sectoriais, etc. Alm disso, os vrios 
tipos de espao podem situar-se em locais muito distantes uns dos 
outros, embora bem ligados pela rede de transportes e 
telecomunicaes. As residncias encontram-se cada vez menos no 
mbito das cidades centrais e mais nas largas faixas suburbanas; os 
postos de trabalho tercirio podem localizar-se nos centros 
histricos ou em espaos adjacentes aos ns extra-urbanos do sistema 
dos transportes (aeroportos, portagens de auto-estrada); os 
industriais afastam-se das cidades; os espaos do tempo livre podem 
ser centrais (por exemplo, teatros e salas de concerto) ou fortemente 
descentralizados (discotecas, espaos para o desporto e turismo de 
fim-de-semana). Para muitos indivduos, isto traduz-se na experincia 
de uma vida quotidiana dispersa pelo territrio e dependente da 
eficincia dos transportes.

Este ltimo aspecto tambm representa um factor de incerteza - na

vida metropolitana a populao cada vez se consciencializa mais de 
que a

sua segurana e a possibilidade de desenvolver as actividades de 
todos os dias dependem do funcionamento de sistemas abstractos, de 
carcter impessoal (Giddens, 1990) e, acima de tudo, dos que regulam 
a circulao automvel ou os meios de transportes colectivos. A 
vulnerabilidade destes

135

ltimos salienta essa dependncia - basta uma greve nos transportes 
areos ou um engarrafamento na auto-estrada para paralisar sectores 
inteiros da actividade social e, por vezes, criar condies de 
verdadeiro e aut ntico perigo.

Tudo o que at agora se disse justifica que se possa falar, a 
propsito da vida quotidiana, de uma experincia difusa de perda dos 
pontos de orientao nas relaes com o territrio. Uma experincia 
que, de qualquer modo, pode ser comparada com o fenmeno de perda da 
centralidade de alguns valores (como a confiana na cincia, o 
progresso, as ideologias), de que falam filsofos ou socilogos 
intrpretes da condio ps-moderna. Isto no significa que o 
territrio se apresente, para quem o habita, como uma entidade 
simbolicamente diferenciada. Pelo contrrio, h uma tentativa 
contnua para procurar, e mesmo recriar, valores simblicos ex novo e 
oportunidades de enraizamento afectivo.

Essa busca, porm, j no pode contar com esquemas largamente 
compartilhados, com reportrios de smbolos indiscutveis, pelo 
contrrio, implica uma adaptao, mesmo psicolgica, ao ambiente de 
vida, que se realiza, na maioria das vezes, de forma individual ou no 
seio de grupos restritos. Por conseguinte, cada um vive uma 
experincia urbana individualizada, cada vez mais pobre de pontos 
de referncia colectivos, por isso tem dificuldade em reconhecer a 
cidade como uma totalidade e, portanto, no logra, seno com fadiga, 
traar o seu mapa global mental (Jameson, 1984).

Esta condio reflecte-se na estrutura da personalidade do indivduo 
metropolitano. No perodo fordista, os socilogos tinham identificado 
como risco fundamental o da solido de cada um, numa multido 
indiferente composta por pessoas que actuam segundo papis rgidos e 
previamente estabelecidos (Riesman, Glazer, Denney, 1950). Nessas 
condies, o principal perigo era o de ser obrigado a adoptar 
esquemas de comportamento determinados de cima e substancialmente 
dependentes das funes laborais, na ausncia de reais possibilidades 
de escolha. Na metrpole ps-fordista, a rigidez dos papis parece 
afastar-se, e as margens para uma escolha entre muitas opes pode 
alargar-se. No forosamente, todavia, tudo isto significa um aumento 
efectivo da liberdade individual ou colectiva. Com efeito, tanto a 
incerteza sobre as consequncias reais das opes como a reduo dos 
critrios de orientao compartilhados criam um cenrio complexo e 
varivel, em que o risco essencial se toma a impossibilidade efectiva 
de fazer opes sensatas entre uma gama de oportunidades 
aparentemente equivalentes.

Assim, o indivduo  colocado em condies pelas quais deve escolher 
entre esquemas alternativos, mas carece de critrios que tomem a 
escolha sensata e, por conseguinte, justificvel nos confrontos 
consigo prprio e

136

com os outros. O aspecto arriscado  a difuso de atitudes que 
consideram, em ltima instncia, irrelevantes as opes que se devem 
tomar, tanto na esfera pblica como na privada. Dessas atitudes 
depende uma cultura difusa que exalta a actual dimenso da 
experincia individual e da vida social, em prejuzo tanto do 
empenhamento para o projecto do futuro como do interesse para a 
memria, para a conservao do patrimnio simblico que assinala a 
continuidade da histria pessoal e colectiva.

As consequncias na personalidade desta sndrome de apego obsessivo 
ao presente, que alguns estudiosos descreveram recorrendo com outro 
sentido ao termo freudiano narcisismo (Lasch, 1979, 1984; Mela, 
1985), j foram objecto de debate intenso nos finais dos anos 70. 
Alm disso, constituram tema de importantes files da narrativa 
literria (em especial no romance

americano dos anos 80, da cinematografia e das artes visuais, que 
contriburam eficazmente para as colocar sob o foco da ateno 
crtica.

4. 2. Diferenas, culturas, movimentos

4. 2. 1. A exploso das diferenas

No quadro geral definido at aqui, pretendemos agora focar a ateno 
num fenmeno especfico, relevante para os destinos da cidade e da 
sua dimenso cultural (entendida, neste caso, sobretudo em relao  
cultura difusa): aquilo que poderemos designar falando de uma 
exploso das diferenas.

Comoj se referiu, em qualquer poca a cidade  um lugar de presena 
colectiva de indivduos e grupos heterogneos sob muitos perfis. Por 
outro lado, esta caracterstica foi indubitavel mente realada nos 
contextos urbanos que sofreram o impacte da Revoluo Industrial. 
Todavia, na

actual fase de evoluo das sociedades ocidentais (e, em certa 
medida, de todas as sociedades), a relevncia sociocultural dos 
problemas ligados s diferenas sofreu um ulterior aumento de grau 
at a tornar numa das questes centrais para a cultura urbana 
contempornea.

Duas ordens de factores, de resto ligados estreitamente, contribuem 
para determinar a exploso das diferenas: por um lado, os que 
favorecem o aumento efectivo da heterogeneidade nos contextos 
metropolitanos e, por outro, os que concorrem para tomar mais aguda a 
percepo das diferenas e fazer com que, na sua base, se produzam 
expectativas, reivindicaes e atitudes diferentes das do passado 
mais recente. Tratemos agora de as considerar mais analiticamente, 
salientando alguns dos seus aspectos.

137

Entre os factores de incremento efectivo da heterogeneidade, podemos 
realar os que incidem na diversificao tnica, nas desigualdades 
sociais e

na esfera das razes familiares e privadas.

1. As novas migraes. Como diremos melhor no Captulo 5, embora, no 
seu conjunto, os agregados metropolitanos dos pases desenvolvidos 
tenham parado de crescer, nos dois ltimos decnios continuam a 
constituir o local de chegada de importantes correntes migratrias, 
provenientes em grande parte de pases pobres. Essas correntes 
invadiram tambm reas tradicionalmente exportadoras de mo-de-obra 
(como a Europa Meridional). Alm disso, compem-se de indivduos e 
grupos por vezes muito distantes em cultura e tradies do mundo 
ocidental, mas suficientemente heterogneos entre si em relao s 
reas geogrficas de provenincia, aos nveis de instruo (como se 
sabe, existe na Europa uma componente de imigrados do Terceiro Mundo 
possuidores de habilitaes acadmicas elevadas) e  natureza do 
projecto migratrio de que so portadores.

2. Os novos desequilbrios. J vimos no Captulo 3 que a tendncia 
fundamental, nas reas metropolitanas e, sobretudo, nas cidades 
centrais,  hoje para um aumento das desigualdades sociais, ao ponto 
de configurar um verdadeiro e prprio dualismo. Os desequilbrios, de 
resto, no tendem a designar uma hierarquia ordenada de estatuto 
social (como acontecia na cidade fordista), mas uma constelao em 
expanso contnua de condies desiguais sob muitos perfis, entre os 
quais a remunerao, a estabilidade, as garantias sociais ligadas ao 
trabalho, as oportunidades e os riscos ligados  carreira, o 
prestgio. Por conseguinte, o carcter ao mesmo tempo acentuado e 
catico das desigualdades sociais tende a favorecer o pluralismo 
das atitudes e dos modos de vida no prprio seio dos agregados 
sociais que, com base em critrios clssicos da sociologia, se 
deveriam considerar substancialmente homogneos.

3. As transformaes dafamlia e dos equilibrios demogrficos. Muitas 
causas, impossveis de analisar aqui, contribuem para tornar 
principalmente articuladas as modalidades em que se vive a 
experincia familiar e, mais em geral, a das relaes primrias, 
afectivas e sexuais. Os seus efeitos visveis, que de resto se 
manifestam de vrios modos nos contextos singulares, ho-de procurar-
se, por exemplo, no aumento do nmero das pessoas que vivem ss, dos 
ncleos familiares com um nico indivduo adulto, famlias 
recompostas aps a dissoluo de laos matrimoniais precedentes, 
formas de convvio no matrimoniais, convvios temporrios, uni es 
de homossexuais, etc. Por outro lado, mesmo no seio das famlias 
nucleares, compostas por cnjuges e seus filhos, verificam-se 
transformaes culturais que incrementam o pluralismo dos modos de 
vida: em particular,

138

os filhos adolescentes ou adultos que vivem com os pais tendem a 
rejeitar o seu controlo sobre o comportamento social. Ao mesmo tempo, 
aumenta a exigncia de maiores espaos para a expresso da 
individualidade dos cnjuges, em especial da mulher. Parcialmente 
ligados a estes fenmenos, h aqueles que dependem da mudana dos 
equilbrios demogrficos e que levam a observar (nos pases 
desenvolvidos) um incremento do peso da populao idosa, uma reduo 
da natalidade, etc.

Alm dos processos agora citados, reconduzveis a factores sociais de 
vria natureza, instalam-se outros elementos de natureza 
especificamente cultural que contribuem para exaltar o papel das 
diferenas e a tom-las mais visveis, definindo reas de conflito 
potencial mas tambm oportunidades para novas snteses.

1. A evoluo dos meios de comunicaao de massa e a sua cada vez 
maior penetrao capilar na vida quotidiana modificam 
substancialmente o cenrio dentro do qual se regista o confronto 
entre indivduos diferentes. Os efeitos so mltiplos e de sinais 
vrios. Retomando os conceitos utilizados por Fischer (1975), tanto 
podem favorecer a difuso cultural, ou seja, o conhecimento recproco 
e a hibridao das culturas, como a intensificao, ou a tendncia de 
uma cultura para crescer em si prpria, rejeitando a integrao e, em 
casos extremos, at o confronto.

Sem dvida que os meios de comunicaao, acima de todos, a televiso, 
contribuem para produzir informao sobre as diferenas, so alvo de 
discusso e, por vezes, at de espectculo e persuaso comercial 
(pensemos no uso, na publicidade, de actores e modelos com ligaes 
tnicas especficas a fim de conferirem uma dada imagem a um 
produto). No forosamente, porm, este aumento de visibilidade 
traduz-se num impulso para a sntese entre elementos de vrias 
origens culturais. Ela  mais fcil no que se refere aos elementos 
superficiais das culturas - por exemplo, a moda pode revestir-se 
facilmente de caracteres estilsticos de culturas tnicas 
minoritrias para os propor a um pblico mais variado, ou a indstria 
alimentar lanar no mercado, com xito, produtos de diferente origem 
nacional. r, distinto o caso das camadas pertencentes aos estratos 
profundos das culturas, como os ligados  religio ou  concepo de 
relaes familiares. A esse respeito, o aumento da comunicao pode 
mesmo actuar no sentido contrrio - graas a isso, os novos imigrados 
nas reas metropolitanas dos pases desenvolvidos podem manter con-

tactos frequentes com os pases de origem e sofrer as influncias dos 
processos culturais que ocorram (por exemplo, torna possvel a 
circulao de interpretaes fundamentalistas da religio islmica, 
mesmo
nas comunidades muulmanas europeias). E, ainda, a apresentao 
exasperada e espectacular de comportamentos e modos de vida ligados a 
cul-

139

turas minoritrias, por parte da televiso ou dos jornais, tem por 
vezes o efeito de acentuar a desconfiana dos grupos maioritrios e 
criar um terreno prprio para a interveno de partidos ou movimentos 
polticos em busca do consenso eleitoral (pense-se, sobretudo, em 
algumas expresses de direita europeias e americanas).

2. Outro elemento de novidade, manifestado a partir dos anos 70, diz 
respeito ao papel dos movimentos que se organizam com base nas 
diferenas e propem promover os direitos de categorias especficas 
de cidados, tentando mobilizar a opinio pblica em torno de 
questes de relevante importncia social e, por vezes, tica. Um 
primeiro aspecto  dado pela multiplicao e articulao desses 
movimentos, alguns dos quais, dotados de uma importante tradio 
histrica (por exemplo, o feminismo e o pacifismo), desenvolveram uma 
capacidade de interveno dantes desconhecida, enquanto outros, como 
o ecologismo, sofreram uma transformao que os levou a tornarem-se 
movimentos de massa, embora subdivididos numa multiplicidade de 
tendncias. Outros ainda surgiram ex novo, por efeito de se 
produzirem novos problemas (por exemplo, a difuso da SIDA). Um 
segundo aspecto, talvez ainda mais importante,  fornecido por uma 
mudana na atitude e prtica reivindicativas de muitos movimentos 
desse tipo. De um modo geral, pode dizer-se que quase passaram de uma 
reivindicao do direito  igualdade a uma afirmao do valor 
intrnseco da diferena e a uma crtica, por vezes global, da 
sociedade, baseada na negociao da diferena. Esta transformao 
cultural  muito evidente no movimento feminista - com efeito, das 
suas manifestaes histricas, centradas na reivindicao dos 
direitos polticos e, depois, do direito ao trabalho, passou-se, nos 
ltimos decnios, a uma atitude cultural que pe em discusso todos 
os aspectos da sociedade, tanto no mbito pblico como no privado, 
como expresso de relaes de poder desequilibradas a favor da parte 
masculina e de uma cultura dominada por imagens falsamente 
universalistas, mas na realidade intrinsecamente machistas. Uma 
consequncia desta nova atitude  a afirmao orgulhosa da diferena, 
mesmo quando ela se encontra com preconceitos difusos ou tentativas 
de represso. Isto no se aplica apenas ao feminismo, mas tambm aos 
outros movimentos - pensemos, por exemplo, nas manifestaes pblicas 
do orgulho homossexual ou dos grupos tnicos marginalizados. Outro 
aspecto caracterstico  a luta no s contra as discriminaes 
institucionalizadas, mas tambm contra as que se manifestam atravs 
de comportamentos generalizados ou na linguagem - nesse sentido, 
revestem-se de particular relevo as batalhas contra as agresses 
sexuais, como tambm aquelas para exigir o uso de uma linguagem 
politicamente correcta nos mass media, nos textos escolares e nas 
frmulas da burocracia.

140

4. 2. 2. A cidade e as diferenas de gnero

A nova atitude, que afirma o valor das diferenas e critica as 
estruturas sociais e as representaes culturais que negam esse 
valor, encontrou um terreno essencial de confronto e desconfiana no 
campo das questes urbanas. Essa desconfiana est a desenvolver-se 
numa dupla direco. A primeira pe directamente em discusso a 
cidade, os seus modos de vida, as suas estruturas organizativas - os 
movimentos e as formas de pensamento baseados nas diferenas esto 
a produzir um esforo analtico para esclarecer de que modo a vida 
urbana procede a discriminaes contnuas nos indivduos titulares de 
identidades sociais n-tinoritrias ou subordinadas e, por vezes, um 
esforo propositado para modificar algumas condies. A segunda 
direco refere-se s representaes cientficas da cidade e, em 
particular,  sociologia urbana. Neste caso, a tentativa consiste em 
demonstrar que os prprios instrumentos conceptuais e as abordagens 
metodolgicas empregados para compreender a cidade, para alm da sua 
aparente neutralidade cientfica, contm o estigma das relaes de 
dominao predominantes e tm o efeito de gerar imagens prprias para 
reproduzir essas relaes.

Tentaremos agora ilustrar o significado desta desconfiana aludindo 
ao movimento feminista dos anos 80 e 90, ou seja, ao movimento que, 
porventura, efectua a tentativa mais radical, mas ainda mais apurada 
do ponto de vista terico, de reflexo crtica sobre a cidade.

Em especial no campo da sociologia urbana de lngua inglesa, nos 
ltimos anos, o ponto de vista feminista sobre a cidade prope um dos 
argumentos mais escaldantes de debate e de polmica. A questo que, 
at certo ponto, resume todas as outras  a denncia da no 
neutralidade do espao urbano relativo ao gnero 1. Na verdade, 
segundo o ponto de vista feminista, a organizao espacial da cidade 
oferece um exemplo de gendered space, ou seja, de espao 
estruturalmente assinalado pelo gnero. Por um lado,  expresso 
material de relaes desequilibradas entre os homens e as mulheres e, 
por outro, factor de reproduo desses desequilbrios (Spain, 1992). 
Numerosos trabalhos tentaram desenvolver esta perspectiva a respeito 
de caracteres particulares da cidade ou de tipologias de lugares. Um 
dos temas mais vezes abordados, a esta luz,  o da violncia e do 
medo. Assim, por exemplo, Pain (1991) desenvolve uma anlise da 
geografia urbana do

10 termo gnero (traduo do ingls gender) na linguagem sociolgica 
contempornea refere-se s diversidades psicolgicas, sociais e 
culturais entre homens e mulheres, distintas das puramente anatmicas 
e fisiolgicas, designadas pelo termo sexo (Giddens, 1989). A 
distino salienta o facto de que as diferenas de gnero no tm 
Lima origem biolgica, mas sociocultural.

141

medo, do ponto de vista das mulheres, examinando um conjunto de 
factores socioeconmicos e espaciais que influenciam os diversos 
graus de segurana ou insegurana e de sentido do controlo 
territorial, em vrias localidades urbanas. Analogamente, Valentine 
(1992) reala que o medo ligado  crirrnalidade e  violncia 
representa um condicionamento no uso dos espaos pblicos por parte 
das mulheres (por exemplo, na verdade, impede-lhes o acesso a alguns 
lugares nas horas nocturnas), evidenciando, tambm no territrio 
urbano, os caracteres patriarcais da nossa sociedade. Outro 
problema  o que diz respeito  relao entre as mulheres e as 
actividades de consumo. A literatura do gnero salientou uma 
ambiguidade fundamental: o consumo pode representar, por um lado, uma 
prtica opressiva para as mulheres, um verdadeiro trabalho que se 
junta s actividades produtivas e s ligadas ao cuidado da famlia. 
Por outro, todavia, trata-se de urna actividade que favorece a 
expresso de gostos e desejos pessoais e, pelo menos aparentemente, 
abre-lhes espaos de escolha e de controlo (Winchester, 1992).

Um tema que tem suscitado particular interesse na sociologia italiana 
 o da organizao espcio-temporal da cidade. Para as mulheres, a 
combinao das actividades de trabalho e das suas atribuies 
predominantes, no mbito da nossa cultura (cuidar da casa, apoio ao 
conforto dos filhos e dos idosos, etc.), alm de constituir um cargo 
material e psicolgico, tende a enfrentar as modalidades com que as 
diversas funes urbanas so organizadas no espao e no tempo. Assim, 
um peso suplementar para a populao feminina deriva das necessidades 
funcionais relacionadas com as deslocaes e com as dificuldades para 
sincronizar actividades que exigem contactos com lojas, 
escritrios, agncias pblicas e privadas, que operam segundo 
horrios rgidos e preestabelec idos. A denncia deduzida dos 
problemas resultantes disto insere-se, em contrapartida, numa 
reivindicao do direito mais geral - por parte das mulheres, mas 
tambm de outros indivduos por vrias razes em desvantagem de um 
funcionamento da cidade apropriado para acrescer a qualidade de vida 
dos habitantes e torn-la userffiendly, ou seja, An-ga de quem a 
usa (Balbo, 1991). Este empenhamento, apoiado predominantemente por 
socilogos e outros especialistas nos campos da arquitectura e da 
urbanstica, j comeou a produzir alguns resultados (Belloni, 1995), 
quer atravs do reconhecimento legislativo da necessidade de 
enfrentar os problemas em vista, quer por meio da actividade 
planificadora e administrativa de alguns Comuns italianos (Cf. 
ESQUEMA 4.2).

J anteriormente se referiu que um aspecto da crtica feminista  
cidade  constitudo pela polmica contra o aparelho terico e 
metodolgico que prevalece na sociologia urbana. Em muitos casos, o 
alvo principal desta crtica so os mtodos quantitativos, em 
especial os usados na sociologia
142

de rotina. A esse respeito,  criticado o carcter implicitamente 
massificador e negativo da diversidade das condies subjectivas. 
Para dar um exem-

plo, por detrs da aparente neutralidade das estatsticas relativas  
participao no trabalho, esconde-se a diferente modalidade com que a 
actividade profissional  vivida pelos homens e pelas mulheres; com 
efeito, para a maior parte destas ltimas, o trabalho exterior  
famlia soma-se - por vezes ainda mais prolongado - ao efectuado 
dentro das paredes doms~ ticas. Como alternativa aos mtodos 
quantitativos, h propostas tcnicas de investigao qualitativa como 
as entrevistas em profundidade, a observao participante, as 
histrias de vida (Schwartz, Jacobs, 1979), dando particular ateno 
 subjectividade das pessoas e diferenas que elas exprimem, 
portanto, mais aptas de representar uma concepo feminina da prtica 
sociolgica (Jacobs, 1993).

ESQUEMA 4.2. Tempos de vida, tempos da cidade

Nos ltimos anos, a dimenso do tempo entrou no debate terico sobre 
a cidade, tornando-se questo crucial em que se confrontam e 
estruturam projectos para garantir uma melhor qualidade de vida, em 
especial para as faixas de indivduos socialmente mais dbeis (AA.VV, 
1993b; Belloni, 1994,1995).

O debate nasce e desenvolve-se, pelo menos em Itlia, sobretudo por 
iniciativa de grupos e movimentos de mulheres e organizaes de 
esquerda, ou baseia-se na considerao do nexo estreito existente 
entre tempos de trabalho, de formao para a afectividade ou o 
recreio. E as mulheres, alm de sujeitos deste debate terico sobre 
tempos da cidade, so tambm protagonistas das anlises e estudos 
conduzidos sobre o tema. Isto em considerao do seu papel social 
estratgico, de interface entre dimenses pblica e privada, entre 
colectividade e famlia.

A temtica terica da planificao dos tempos urbanos foi colhida 
pela primeira vez em termos jurdicos na Lei n.9 142 de 1990. O 
artigo 36 prev para os presidentes de Cmara a possibilidade de 
coordenar os horrios de exerccio comercial, dos servios pblicos, 
no s o de abertura ao pblico das reparties perifricas das 
administraes pblicas, a fim de harmonizar e facilitar a aplicao 
dos servios s exigncias gerais dos utentes,,. Uma srie de Comunas 
italianas (trata-se, sobretudo, de cidades de mdias dimenses do 
Centro-Norte) ps em prtica o enunciado de leis, por vezes atravs 
da realizao de verdadeiros planos reguladores dos horrios urbanos.

As principais intervenes nesse sentido limitaram-se a sectores 
como:
- servios burocrticos: melhor acessibilidade para os cidados, 
prolongamento dos horrios de guich,,, simplificao das prticas, 
aplicao da autocertificao, etc.;

- informao: publicaes ou folhetos informativos (informacitt, 
numero verde, etc.) sobre servios existentes, horrios, acessos;

- servios culturais: prolongamento ou modificao dos horrios dos 
museus, exposies, bibliotecas, de modo que no coincidam com os de 
trabalho da maior parte dos cidados;

143

- servios comerciais: abertura de estabelecimentos e grandes 
armazns, mesmo de noite, nos fins-de-semana, etc.; ~ transportes: 
planificao dos fluxos, evitando sincronismos que produzam 
congestes de trfego;

- servios  pessoa: horrios mais flexveis em servios como creches 
e escolas, instituio de outros servios para crianas, para, entre 
outras coisas, desagravar o consumo de tempo quotidiano das mes.

4. 3. Smbolos urbanos e identidade

4. 3. 1. Identidade e sentimentos de pertena

A ateno crtica, que - como vimos - muitos movimentos urbanos 
concedem s representaes da cidade evoca um tema de grande relevo
- o da dimenso simblica da cidade e da relao entre o simbolismo 
urbano e a identidade social. A cidade, de facto, no  apenas uma 
forma especfica de organizao social no territrio, mas tambm um 
conjunto de smbolos, estratificados no curso da histria. Esses 
smbolos exprimem-se tanto nas estruturas fsicas (ruas, praas e 
monumentos) como nos modos de vida, cerimnias, rituais da vida 
urbana, ou ainda nas imagens e discursos que falam da cidade. Vai-se 
dos esteretipos com que  representado o carcter dos habitantes 
nas vicissitudes de todos os dias s simbologias presentes nas 
bandeiras e nos brases, das ilustraes dos guias tursticos s 
tcnicas de marketing que os peritos de comunicao social empregam 
para promover um centro urbano junto dos operadores econmicos 
internacionais.

A dimenso simblica da cidade no  um facto estranho  vida social 
e  experincia quotidiana dos habitantes. Pelo contrrio, est-lhes 
ligada por um lao profundo, que, como veremos um pouco adiante, 
constitui relaes num duplo sentido. Por um lado, o simbolismo 
urbano representa um ponto de referncia que estrutura e condiciona 
de muitos modos a actividade social, entrando em profundidade nos 
processos que definem a identidade dos indivduos singulares e 
colectivos. Por outro, a prpria actividade social e a interaco 
entre indivduos titulares de identidades heterogneas contribuem 
para reproduzir e, ao mesmo tempo, modificar continuamente os 
smbolos ligados  cidade.

Tentemos agora aprofundar essa dupla ligao introduzindo alguns 
conceitos desenvolvidos pela sociologia urbana nestes anos.

Concentremo-nos, sobretudo, na relao entre smbolos urbanos e 
identidade. Para todo o indivduo que opera num sistema social, a 
identidade 
144

o resultado de um confronto contnuo com os outros, que o leva a 
construir uma representao de si prprio, da sua unidade pessoal, da 
distino entre o seu eu e o dos outros, do papel desempenhado na 
sociedade e da posio ocupada nas hierarquias sociais. Como este 
processo se desenrola atravs da relao com os outros, existe uma 
interaco contnua entre a construo da sua prpria identidade, 
conseguida pelo indivduo na primeira pessoa, e o reconhecimento dela 
por parte dos outros. A construo da identidade, porm, no se situa 
no vazio, mas num contexto social e espacial preciso, de que faz 
parte a cidade, com os smbolos que lhe esto ligados.

Assim, portanto, ser oriundo de uma dada cidade, ou viver nela, ou em 
algum dos seus bairros, significa relacionar-se com um conjunto de 
smbolos (dotados de valncias, ora positivas, ora negativas) que 
representam termos iniludveis para a construo da identidade 
pessoal -  com eles que o indivduo deve contar, assim que se torna 
consciente do facto de que os

outros usaro esses termos para o identificar. Como Lalli (1992) 
refere: A pessoa como residente de uma detern-nada cidade adquire 
um certo nmero de caractersticas quase-psicolgicas associadas a 
ela. Por exemplo, uma cidade pode ser cosmopolita? em contraste com 
outras provincianas?, rica?, tradicional?, calorosa?, 
industriosa?, limpa?, etc., enquanto outras so rejeitadas 
desdenhosamente como pobres?, montonas?, ruinosas?, frias?, 
etc. (p. 293). Esses caracteres, que se transferem da imagem da 
cidade  dos cidados, tendem a passar a fazer parte da identidade 
pessoal destes, tornando-se num seu aspecto - a este aspecto, o mesmo 
Lalli (recorrendo a trabalhos precedentes de Proshansky e outros) 
refere~se falando de identidade relativa  cidade (urban-related 
identity).

Uma considerao anloga  agora proposta para a cidade no seu 
conjunto pode ser desenvolvida por partes singulares dela e, de modo 
particular, para os bairros e o ambiente domstico. Residir num 
determinado bairro ou viver num dado tipo de casa equivale 
imediatamente a receber um elemento de identificao, que pode 
desempenhar um papel essencial nos casos em que (como, por exemplo, 
na cidade americana contempornea) o espao urbano se articula em 
partes fortemente desiguais. A identificao actua tanto no sentido 
positivo, para quem reside em bairros elegantes, como, ainda mais, no 
negativo, para quem vive em reas da cidade consideradas bolsas de 
pobreza, insegurana e desvantagem social. Nesta situao, a 
identificao negativa transforma-se em verdadeira estigmatizao 
territorial (Wacquant, 1993), e a imagem espacial converte-se num 
factor efectivo de excluso. Se uma pessoa provm de um bairro 
considerado perigoso,  tomada por um factor potencial de perigo, o 
que pode produzir discriminao (por exemplo, no momento da procura 
de trabalho ou de alojamento numa zona mais tranquila), pelo que 
representa um handicap que deve tentar sempre superar. Como  fcil 
de compreender, pode acon-

145

tecer a vtima da estigmatizao territorial reagir, assumindo, por 
seu turno, um comportamento conflituoso ou mesmo agressivo - quem se 
sente alvo de uma discriminao baseada na imagem negativa do seu 
bairro pode ser

levado a aceitar realmente os caracteres contidos naquela imagem, 
tornando-se, em ltima anlise, num efectivo factor de perigo para 
quem accionou o comportamento discritrnatrio. Desse modo, o crculo 
aperta-se - a

estigmatizao territorial pe em movimento um processo que a 
transforma numa profecia que se autoverifica 1.

A atribuio aos outros ou a assuno de uma identidade relativa  
cidade actua, na maioria dos casos, de uma forma vagamente reflexa e 
quase inconsciente. Atravs dos processos de racionalizao, desde a 
infncia, todos interiorizam os caracteres simblicos ligados ao 
contexto urbano de residncia e, ao mesmo tempo, ensinam a distinguir 
esses caracteres dos ligados a outros centros urbanos ou ao 
territrio rural circundante. Paralelamente, determina-se um processo 
de identificao afectiva com a cidade, o bairro ou com mbitos ainda 
mais limitados. Ou seja, desenvolvem-se sentimentos de pertena 
territorial - sente-se parte de uma comunidade espacialmente 
definida, sente-se envolvido nos assuntos que o rodeiam, se

 atingido positiva ou negativamente por juzos expressos a seu 
respeito. Como observaram diversas vezes socilogos que conduziram 
estudos empricos, este apelo a lugares de dimenses espaciais 
reduzidas no est em conflito com uma viso cosmopolita do mundo, 
nem  diminudo pela tendncia para o aumento da mobilidade 
territorial, tpica das sociedades contemporneas (Strassoldo, 
Tessarin, 1992). Em muitos aspectos, at os

indivduos mais mveis tendem a evidenciar e, de certo modo, 
cultivar sentimentos de identificao com a cidade de origem, para 
fixar um ponto de referncia simblico que os ajude a organizar e 
dotar de sentido a sua experincia de vida.

Apesar do carcter quase inconsciente com que os processos agora 
analisados se realizam, h situaes em que determinados indivduos, 
ou grupos, tentam influir na identidade relativa  cidade, ou nos 
sentimentos de pertena, com base em estratgias precisas. Isto 
acontece, por exem-

plo, quando um grupo tenta reforar a sua coeso interna mediante a 
referncia a um mbito territorial, ou se prope difundir uma imagem 
positiva de si, ligando-a  de lugares especficos. O primeiro tipo 
de situao verifica-se no caso dos movimentos autonmicos de base 
regio-

2Porprqfecia que se autoverffica entende-se um tipo de dinmica 
social em que a presena de expectativas socialmente difusas acciona 
comportamentos que produzem efeitos correspondentes a essas 
expectativas, embora - do ponto de vista de um observador exterior -

paream infundadas (Merton, 1949).

146

nal ou local - aqui, os lderes esforam-se por reforar as imagens 
ligadas aos lugares e s cidades com o objectivo explcito de exaltar 
os sentimentos de pertena de quem os habita, para os induzir a 
apoiar o seu programa poltico. O segundo tipo pode, ao invs, 
encontrar uma simplificao sobre movimentos, como o movimento gay, 
no contexto dos Estados Unidos. Foi estudado em particular o caso da 
comuna californiana de West Hollywood, que representa o primeiro 
exemplo de comunidade urbana de maioria homossexual. Aqui, a imprensa 
gay conduziu uma tentativa explcita para criar uma imagem positiva, 
tanto da cidade como do tipo ideal do gay, estabelecendo ligaes 
entre as duas imagens e, por conseguinte, evidenciando como nas 
cidades se podem encontrar qualidades que s se associam ao tipo 
ideal como o apuramento esttico, a orientao para a criatividade, 
etc. (Forest, 1995).

4. 3. 2. A construo social do patrimnio simblico

At aqui explormos a relao que se estabelece entre a cidade e a 
identidade dos habitantes, seguindo o rumo que vai da primeira  
segunda - a cidade foi considerada uma espcie de sujeito colectivo 
que, por assim dizer, transfere alguns dos seus caracteres para 
sujeitos individuais, conferindo-lhes identidade. No entanto, como se 
adiantou,  igualmente importante a relao inversa - a que vai dos 
habitantes  cidade. Com efeito, a conotao simblica da cidade no 
se pode conceber como uma qualidade abstracta. Pelo contrrio,  
produzida pela aco concreta dos cidados - tanto dos que j l 
viviam, deixando traos materiais (edifcios, monumentos, infra-
estruturas) e imateriais (usos e costumes, conhecimentos, atitudes), 
como os que l vivem no presente. Estes ltimos no se limitam a 
receber passivamente um patrimnio simblico herdado da tradio, 
modelando nele a sua prpria identidade, mas, ao invs, apoderam-se 
dele activamente, interpretando-o, modificando-o e, em determinadas 
circunstncias, recusando-o totalmente ou em parte. De qualquer modo, 
esta interaco entre os smbolos urbanos e a aco dos habitantes 
no s contribui para construir a identidade dos indivduos como 
favorece a definio de uma identidade da cidade, ou seja, faz com 
que esta seja encarada como uma entidade singular e irrepetvel, 
dotada de uma atmosfera cultural que a contradistingue 
inequivocamente.

Os socilogos urbanos do perodo mais recente revelaram-se por vezes 
muito sensveis nos confrontos da problemtica agora evocada e 
introduziram numerosos conceitos para analisar os aspectos da que 
poderia ser definida,

no seu conjunto, como a construo social do patrimnio simblico 
urbano.

147

Ao longo desta linha, por exemplo, Suales (1984) fala de imagens da 
cidade e tenta determinar o percurso com que elas se construram no 
tempo e os indivduos que desempenharam um papel relevante na sua 
elaborao. Com uma anlise referida sobretudo ao contexto americano, 
evidencia, em particular, trs fontes historicamente sedimentadas da 
imagem urbana. Em primeiro lugar, h referncias aos pais fundado 
res da comunidade, como, por exemplo, Henry Hudson no caso de Nova 
lorque. No menos importante  a marca deixada sucessivamente pelos 
lderes e, em especial, os grandes empresrios, cujos nomes nalgumas 
circunstncias podem tomar-se quase o smbolo de toda uma comunidade 
urbana. Finalmente, a terceira fonte de imagem  fomecida por um 
conjunto de manufactos (no s edifcios, mas

tambm, por exemplo, produtos industriais tpicos) identificados com 
a cidade e que so objecto de um processo de museificao, no 
sentido literal do termo, porque so conservados nos museus locais 
ou, no sentido figurado, objecto de polticas especiais de tutela e 
conservao.

Outros autores realaram o carcter conflitual que por vezes assume o 
processo de construo social dos smbolos urbanos. Um caso 
emblemtico, estudado por Harvey (1985b),  o que diz respeito  
baslica parisiense do Sacr-Cceur. Surgiu nos anos subsequentes ao 
movimento da Comuna de Paris e, nas intenes da Igreja Catlica,  
considerada o smbolo da derrota dos comunardos e da restaurao da 
autoridade eclesistica. Devido a esta valncia, a basilica tomou-se 
depois um smbolo negativo por parte de foras polticas e culturais 
de diferente orientao. Ao mesmo

tempo, porm, representa um simples alvo de interesse turstico de 
numerosos visitantes. Estas observaes demonstram bem como seria 
imprprio considerar o processo de sedimentao histrica do 
simbolismo da cidade, ou de edifcios particulares, como um fenmeno 
de acumulao espontnea e quase natural - pe em relevo, antes, 
momentos de acelerao e de abrandamento e atravessa fases crticas, 
nas quais pode surgir um verdadeiro conflito entre projectos 
culturais contraditrios ou entre interesses opostos.

Uma tentativa para definir categorias mais abstractas e gerais para 
enfrentar os problemas aqui discutidos  efectuada por Shields 
(1991), que prope o conceito de espacializao social (social 
spatialization) para designar o processo contnuo de elaborao 
simblica do espao. Inclui tanto as elaboraes do imaginrio soci1 
(como a formao de mitologias relativas a cidades ou mbitos 
territoriais) como as que exigem interven es na paisagem ou no 
ambiente construdo. De qualquer modo, Shields parece atribuir maior 
peso aos processos referentes s imagens e ao discurso sobre a cidade 
- insiste sobretudo no papel que os meios de comunicao como os 
jornais, o cinema e a televiso desempenham na formulao e 
reformulao dos significados atribudos aos lugares. O conceito de 
espacializao social, de resto, no pretende referir-se apenas s 
imagens

148

propostas por operadores especializados, mas tambm s que emergem da 
comunicao e das prticas da vida quotidiana.

Ao contrrio de Shields, Bourdin (1984) concentra a ateno nos 
processos de transformao urbanstica e arquitectnica da cidade e 
das suas reas de interesse histrico - estes so encarados como uma 
tentativa continuamente renovada para reinventar o patrimnio 
simblico urbano, com a interveno de mltiplos operadores e por 
meio de inmeras transaces.

A construo social do smbolo urbano, quando consegue produzir uma 
estratificao dos significados, rica e coerente, confere a uma 
cidade o carcter tpico e peculiar que a toma inconfundvel no s 
aos olhos de quem a habita e frequenta mas tambm do visitante mais 
apressado. Carcter esse que, de qualquer modo faz com que o encontro 
com a cidade se possa comparar, com uma significativa metfora, ao 
encontro com uma pessoa -

em ambos os casos estamos na presena de uma entidade singular, que 
pode ser encarada de forma intuitiva desde o primeiro momento, mas 
tambm se pode tomar no objecto de uma descoberta que dura uma vida 
inteira. Isto acontece porque a identidade da cidade no se encama 
banalmente em edifcios ou pormenores singulares - como escreve 
Merleau-Ponty (1987), referindo-se  sua experincia do encontro com 
Paris,  quase no nos apercebemos de nenhum objecto, como no vemos 
os olhos de um rosto familiar,

mas a sua expresso. H uma sensao latente, difundida atravs da 
paisagem ou da cidade que encontramos numa evidncia especfica, sem 
necessidade de a definir (p. 325). Alm disso, essa sensao latente 
da identidade urbana, segundo Savage e Warde (1993), pode exprimir-se 
com o conceito de aura, como  enunciado na obra do filsofo Walter 
Benjamin e por ele referido  obra de arte. A aura indica a 
autenticidade da obra e a sua ligao com um contexto, da sua 
existncia nica e irrepetvel no lugar em que se encontra 
(Benjamin, 1936).

Para a cidade, possuir uma aura significa apresentar-se como uma 
identidade nica e no reproduzvel, ser uma obra da actividade 
humana que tambm pode constituir fonte de inspirao para outras 
obras, mas nunca objecto de pura e simples in-tao. Poder-se-ia 
dizer que uma cidade dotada de aura no se assemelha a qualquer outra 
(ainda que, atravs de um jogo de metforas e associaes de ideias, 
possa evocar outros lugares). Pelo contrrio, um sintoma preocupante 
de carncia de identidade toma-se notrio quando um ambiente urbano 
nos remete automaticamente para ambientes anlogos. Como qualquer 
pessoa pode observar facilmente, a aura de Veneza  inimitvel - as 
suas pontes e canais podem evocar os de Bruges ou
Amesterdo, mas isso acontece igualmente a quem uma grande obra de 
arte recorda outra. Pelo contrrio, um hipermercado europeu e um mall 
americano assemelham-se  letra - paradoxalmente, se mudassem de s 
bito

as suas localizaes, nada se alteraria.

149

4. 4. O espao pblico e a esttica da cidade

4. 4. 1. Espaos pblicos e comunicao

Estudando a construo social do simbolismo e da cultura, a 
sociologia urbana clssica insistiu muito na especificidade da 
cidade, apresentando-a

como o lugar da inovao cultural e da heterodoxia, em 
contraposio

com o papel conservador e ortodoxo do campo e dos pequenos centros. 
A esse respeito, enfatizou-se com frequncia o papel da densidade e 
da heterogeneidade da localizao urbana, porm, a simples presena 
concentrada de diferentes indivduos no produz inovao se entre 
eles no existe comunicao e, em particular, a directa, que se 
verifica por meio do contacto cara a cara. Mas, nesse sentido, a 
cidade apresenta um recurso essencial, abunda de espaos pblicos, em 
que o contacto comunicativo se regista no s de modo cmodo mas 
tambm colocando os interlocutores - pelo menos em alguns perfis - 
numa situao de paridade.

Naturalmente, pode haver uma comunicao directa num espao privado, 
mas este ser quase sempre um territrio apropriado por um dos 
interlocutores (a sua habitao, o seu jardim, os seus bens), onde 
ele/ela jogar, por assim dizer, em casa, ao contrrio dos outros. 
Inversamente, um espao pblico  um territrio no apropriado por 
ningum - um ponto de encontro em que todos podem acampar com os 
mesmos direitos. Uma rua, uma praa, um parque comunal  de todos e 
de ningum em particular. Estabelecer um contacto a no significa 
certamente ver anuladas as desigualdades sociais, mas, pelo menos, 
encontrar-se num terreno neutro, que no predetermina o xito do 
confronto.

Decerto que todas as cidades so largamente constitudas por espaos 
privados. No entanto, aquilo que melhor as caracteriza  o seu espao 
pblico, sem o qual no passariam de um aglomerado de locais 
reservados a diversos indivduos. Na verdade, como sugere a prpria 
etimologia do adjectivo, o que  privado tem o acesso condicionado 
- abre-se a alguns e fecha-se a outros. Um simples aglomerado de 
espaos privados permitiria apenas alguns encontros (os desejados 
pelos titulares dos espaos) e impossibilitaria outros. O espao 
pblico, pelo menos em princpio,  sempre acessvel a qualquer um - 
por esse motivo, torna-se sempre possvel qualquer encontro, mesmo o 
mais inesperado.

No entanto, se  verdade que estes caracteres sempre se associaram 
historicamente  cidade, no o  menos que a cidade contempornea 
apresenta uma mudana significativa de condies. Com efeito, o 
prprio significado dos espaos pblicos tende a modificar-se e, com 
isso, a sua potencialidade de representar terreno de encontro e lugar 
privilegiado da

150

inovao cultural e da elaborao simblica. De facto, muitos 
observam que na prpria metrpole, estendida por amplos territrios, 
cujas actividades s so fruveis graas ao uso do automvel ou de 
meios de transporte pblicos velozes, as ruas e praas configuram-se 
sempre, cada vez mais, como canais de comunicao e n o como espaos 
em que  possvel encontrar outros. Alm disso, a difuso de uma 
sensao de insegurana perante espaos demasiado abertos e pouco 
controlados (pensemos, por exemplo, nos grandes parques urbanos das 
cidades americanas) leva algumas categorias de cidados a exigir uma 
limitao do espao totalmente pblico e

que encontra - por vezes - administradores propensos a apoiar esses 
pedidos. De resto, o simples facto de uma larga parte da populao 
metropolitana viver em reas suburbanas distantes das zonas centrais, 
associadas tradicionalmente aos espaos pblicos mais significativos, 
faz com que estes ltimos percam o seu papel de smbolos da cidade e 
de lugares privilegiados da sua topografia.

Mas, sobretudo, o enorme incremento dos instrumentos para a 
comunicao  distncia parece definir uma situao pela qual se 
quebra o nexo tradicional entre espaos pblicos e comunicao. O 
espao pblico, identificado com lugares precisos da cidade, continua 
a existir, mas assume cada vez mais um papel funcional. Pelo 
contrrio, um novo mbito de comunicao alarga-se por obra das 
ligaes a redes tomadas possveis pelos telefones celulares, porfax, 
por correio electrnico, por televiso por cabo, etc. E no s:  
altamente provvel que os avanos tecnolgicos levem a tomar essas 
redes cada vez mais unificadas e capilarmente difundidas. Dispor-se- 
assim de um espao pblico que tornar menos relevantes as 
localizaes concretas dos interlocutores e as distncias fsicas que 
os separam. Em suma, poder configurar-se uma situao em que a 
navegaao nas redes temticas assumir o mesmo papel que, at  
explorao dos espaos pblicos da cidade e desenvolvimento das 
prprias redes, foi funo do espao pblico. Com a diferena no 
desprezvel de que, neste caso, a cidade perder as suas 
caractersticas privilegiadas - na paisagem electrnica, a cidade 
constituiria apenas um conjunto de tern-nais da rede e, portanto, 
desse novo espao pblico.

Que significam essas mudanas para o destino da cidade e do seu 
espao pblico? Abrem, indubitavelmente, uma fase diferente na 
relao entre cidades, cultura e comunicao, mas esta nova situao 
garantir a continuidade do papel histrico da cidade, representar 
antes uma inverso de tendncias?

Estas e outras interrogaes anlogas abriram na sociologia 
contempornea um vasto debate, em que esto presentes teses em 
contraste, mas tambm uma vastido de argumentos e uma riqueza de 
matizes que no podemos analisar neste espao. No entanto, com grande 
simplificao,

151

podemos, por um lado, estudar teses que exprimem a convico de uma

rotura essencial, porventura definitiva, na continuidade do 
significado da experincia urbana, enquanto outros afirmam que 
tender a recompor-se, talvez de forma renovada, no futuro, graas  
funo insubstituvel do encontro directo em pblico.

Quanto  primeira vertente, Della Pergola (1994) sustenta que o 
destino das metrpoles  de um crescimento reticular e uma integrao 
em sistemas mais vastos. Mas, desse modo, a cidade, assumindo o 
carcter de sistema urbano integrado com unies instantneas a outros 
sistemas urbanos complexos, origina, pela primeira vez na histria do 
homem, uma desadaptao socioespacial e sociotemporal que deterniina 
sobretudo - salvo para escassas elites - uma perda de linguagem (pp. 
31-32) e um bloqueio da capacidade de projectar. Para a cidade - ou, 
pelo menos, para a que reconhecemos e estudmos como tal no passado - 
isto representa o incio de um declnio inevitvel.

Mais difusa  a anlise de Castells (1989), na qual surge uma tenso 
dialctica fundamental. Com efeito, como j observmos no ponto 2. 4. 
1, afirma com veemncia que a tendncia evolutiva do sistema mundial 
comporta a substituio de um espao de lugares por um espao de 
fluxos. Todavia, esse espao  sobretudo o do poder e tem a sua base 
material na internacionalizao da economia e no domnio de 
organizaes econmicas desligadas da referncia a localidades 
especficas e capazes de patrocinar uma rede de comunicaes 
informatizada. Mas, se  verdade que o poder se exerce atravs de 
fluxos, no o  menos que a populao vive em

lugares precisos, onde actuam os processos de reproduo social. As 
localidades (e, portanto, as cidades no sentido tradicional do termo) 
no se encontram por isso completamente fora dojogo. O sistema de 
poder baseado em fluxos tende a colocar  margem tudo o que se 
representa como local. Mas tambm  possvel que, a nvel local, se 
gere uma reaco contra essas tendncias marginais, a qual pode 
atingir novos movimentos sociais e governos citadinos, os quais, 
graas  prpria capilaridade das redes informticas, podem estar em 
condies de se ligar mutuamente, para cons-

truir uma rede alternativa que represente o equivalente do espao 
pblico para uma nova forma de urbanidade, a da cidade da 
informao (Informational City).

Na vertente de uma viso optimista sobre os destinos da cidade, 
situam-se por vezes as posies daqueles que exaltam o papel dos 
espaos pblicos como monumento insubstituvel da vida urbana 
(Amendola, 1995) e afirmam que a comunicao directa e a comunicao 
por via informtica no esto destinadas a colidir, mas antes a 
reforar-se reciprocamente. Neste sentido  particularmente explcita 
a posio de Gottmann, o qual sustenta que a cidade continuar a 
exercer uma funo essencial nos cenrios futuros,

152

no obstante as enormes transformaes que lhe dizem respeito. E 
acrescenta que no s hoje,,mas h pelo menos um sculo, com o 
desenvolvimento das telecomunicaes, sucederam-se as profecias que 
prenunciavam o declnio definitivo das cidades perante a 
possibilidade de manter os contactos sem abandonar a sua habitao. A 
evoluo efectiva demonstrou antes o contrrio: a circulao das 
pessoas a breve e longa distncia no pra de aumentar; o desejo de 
estar presente em todas as formas de manifestao, participar 
pessoalmente nas reunies, conviverface to face acentua-se. E tudo 
isto anima, multiplica, sobrecarrega as redes, faz crescer ou 
explodir os centros das grandes cidades (Gottmann, 1991, p. 20).

4. 4. 2. A cidade como texto

Na anlise das relaes entre cidade e cultura, h um aspecto que no 
deve ser menosprezado - o que se refere  dimenso esttica. O 
ambiente urbano, na verdade, no pode ser associado  vivacidade da 
vida intelectual e  inovao cultural sem que se conte tambm com o 
seu contributo para o desenvolvimento das artes, da arquitectura e do 
aperfeioamento do gosto.
O nexo entre esttica e cidade  de tal modo profundo e 
historicamente enraizado que se reconhece no prprio senso comum. 
Para qualquer pessoa de mdia cultura, a Atenas da poca clssica 
lembra-lhe as snteses que se encontram na base de uma larga parte do 
pensamento ocidental, mas, ao mesmo tempo, faz pensar no Partnon, no 
teatro e na tragdia gregas. As cidades fiamengas do sculo XVII 
invocam a incubao do capitalismo moderno e as transformaes 
culturais correlacionadas, mas no podem deixar de remeter igualmente 
para a pintura de Rembrandt e o desenvolvimento do retrato.

No entanto, que elementos justificam esse nexo, de um ponto de vista 
sociolgico? Obviamente, uma resposta circunstanciada pressuporia a 
aluso a contextos urbanos particulares, situados no espao e no 
tempo, assim como detern-nar manifestaes estticas.

Em todo o caso, mantendo a anlise a um nvel de larga generalidade, 
 oferecida uma sugesto interessante por uma definio do 
antroplogo Hanner (1980), o qual, a propsito do papel culturalmente 
inovador da cidade, afirma que ela  um lugar em que, ao procurar uma 
coisa, se pode encontrar outra. Isto sugere a Bagnasco (1994) a ideia 
de que a tonalidade esttica da vida cultural urbana pode ser 
definida recorrendo a um termo intraduzvel que entrou no uso comum 
dos ingleses - o conceito de serendipity - para indicar uma 
descoberta casual -, a possibilidade de encontrar uma coisa que no 
se procurava, ou encontr-la onde no se procurava. A serendipity 
liga-se  cidade, porque esta, graas  sua comple-
153

xidade e heterogeneidade dos elementos que a compem, deixa sempre 
aberta a possibilidade de snteses culturais felizes e imprevistas, 
sejam inovaes de costume ou novos estilos artsticos ou musicais. 
Esta possibilidade - que se exprime com maior ou menor veemncia nos 
diversos centros urbanos -  ao mesmo tempo um recurso social e uma 
propriedade esttica da cidade. Embora seja difcil estabelecer com 
imparcialidade at que ponto um ambiente urbano se pode considerar 
bonito ou feio, h uma coisa com que se pode concordar sem 
dificuldade - sem a serendipity, sem

o carcter que torna sempre possveis novas abordagens entre os seus 
elementos, uma cidade no  realmente assim e s a fundo exprime uma 
potica urbana.

Na verdade, esta anlise parece atribuir  cidade um carcter anlogo 
ao do texto potico, que se gera precisamente atravs de snteses 
imprevistas de palavras, conceitos e imagens e, por seu turno, pode 
ser lido de tal modo que surgem sempre novas interpretaes. Contudo, 
para que possa haver uma leitura inovadora e criativa do texto 
urbano,  necessrio que o intrprete o encare com uma viso livre, 
capaz de se deixar envolver nas suas sugestes sem ficar vinculado a 
exigncias exclusivamente instrumentais.

Mas esse indivduo  capaz de personificar o papel de um intrprete, 
no sentido agora definido? Um interessante filo de estudos entre a 
sociologia e antropologia tentou, nestes anos, encontrar uma resposta 
a esta pergunta. Reveste-se de particular relevo, a esse propsito, o 
livro de Isaac Joseph, cujo ttulo, Le Passant Considrable (o 
passante considervel, digno de ateno), prope uma figura da vida 
quotidiana e convida-nos a concentrar a ateno na anlise n-
iicrossociolgica do cidado e do seu envolvimento nas situaes 
sociais (Joseph, 1984). Mais uma vez, figura no centro das atenes o 
espao pblico e os actores sociais que se movem nele. Tambm para 
Joseph, o espao pblico  distinto de abertura e imprevisibilidade, 
mas insiste sobretudo no seu carcter excntrico e problemtico. 
Com efeito, o espao pblico no  um lugar de organizao tranquila 
de uma estrutura bem ordenada de identidades sociais. Pelo contrrio, 
 a que as identidades se n-sturam e baralham e as situaes esto 
sempre sujeitas a ser definidas de muitas maneiras (Gazzola, 1994). 
Reaparece aqui, de outra forma, a ideia do carcter poeticamente 
criativo da experincia urbana, mas, no sentido da sua 
fragmentariedade e, em certa medida, da sua perigosidade.

Na experincia do passante, de quem percorre, curioso, as artrias da 
cidade, apoia tambm os seus argumentos Richard Sennett (1990). Uma 
larga parte do seu livro  consagrada explicitamente  dimenso 
esttica, e, a esse propsito, acrescenta observaes que enriquecem 
o quadro atrs delineado, em especial no que se refere s formas 
expressivas difundidas,

154

ou seja, no produzidas por operadores artsticos profissionais, mas 
por indivduos que pretendem simplesmente deixar um trao, uma 
documentao da sua histria (p. 223). Sennett liga este tipo de 
expresso - de que constitui um exemplo a produo de graffiti por 
parte de grupos juvenis ao duplo carcter da cidade, que de vrios 
modos se evidenciou nas pginas precedentes; por um lado, a sua 
abertura ao imprevisvel e ao confronto com o diferente, por outro, a 
perigosidade intrnseca dessa abertura, o risco omnipresente de que 
conduza ao insucesso. Segundo Sennett, esta situao, simultaneamente 
estimulante e frustradora, estimula nos cidados aquela a que chama 
arte de se expor, vontade de participar e efectuar pesquisas no

campo esttico. Os indivduos expem-se quando se sentem frustrados, 
quando esto a meio caminho entre o xito e o malogro (p. 23 1). Tal 
 a

condio dos grupos juvenis que deixem nos graf .fiti um trao da sua 
existncia social -  o reconhecimento da sua prpria marginalizao, 
mas tambm uma reaco a ela, que os impele a olhar em volta e 
experimentar as

possibilidades estticas contidas nos materiais que tm  sua 
disposio no seu ambiente de vida.

4. 4. 3. A esttica da cidade ps-moderna

Imprevisibilidade e fragmentao, acentuao das diferenas e noo 
do perigo, explorao quotidiana e experimentao nos materiais - 
todos estes elementos, que a sociologia moderna define como 
constitutivos da experincia urbana, parecem encontrar-se na base e 
so, por assim dizer, o derion-iinador comum das formas de expresso 
esttica que representam a condio da cidade ps-modema ou esto 
mesmo associadas a ela no imaginrio colectivo.

Embora sem nos aventurarmos num campo de anlise to rico de facetas 
(e, alm disso, difcil de interpretar somente com os instrumentos da 
sociologia urbana), tentaremos agora examinar de mais perto algumas 
formas de expresso e artsticas, que, embora de uso comum, se 
caracterizam por vezes como metropolitanas , procurando salientar a 
sua sintonia com os elementos atrs referidos entre as sugestes da 
anlise sociolgica.  quase suprfluo esclarecer que as poucas 
observaes que se seguem - recolhidas em grupos determinados por uma 
espcie de slogan - pretendem apenas revestir-se de uma qualidade 
exemplificativa.

1. As tribos urbanas. A exploso das diferenas, que se considerou 
como uma das manifestaes tpicas dos contextos metropolitanos 
contemporneos, encontra o seu equivalente no campo esttico na 
multiplicao das formas expressivas. No  por acaso que a cidade 
ps-modema - mesmo com algum exagero - foi por vezes comparada com um 
territrio em que

155

assume forma uma espcie de novo tribalismo (Maffesoli, 1988). Na 
verdade, os protagonistas da vida citadina, os maioritariamente 
activos nos espaos pblicos e lugares de encontro, so grupos 
caracterizados por modos de vida, formas de expressividade e 
diferentes rituais, mas ligados pelo desejo de se tomarem visveis 
aos olhos dos outros acentuando os seus traos distintivos. As vrias 
tendncias da msica pop e do rock (do rap ao heavy metal, do grunge 
 disco music), nesse sentido, so particularmente significativas - 
no mundo juvenil urbano so assumidas como emblemas de modos de vida 
nitidamente diferentes e, em alguns casos, conflituais, prprios de 
tribos dotadas de conotaes sociais heterogneas, preparadas, em 
alguns casos, para disputar o espao fsico da cidade. Este paradigma 
neotribal no se deve, porm, tomar muito  letra, nem salientar em 
excesso - a fragmentao dos estilos expressivos no impede a 
renovao contnua das tendncias (mesmo sob o impulso de modas 
ditadas por exigncias comerciais), nem a contaminao dos estilos e 
das subculturas ou a pertena do mesmo indivduo a muitas tribos.

2. A potica da cidade catica. A condio de extrema fragmentao 
simblica, a que acabamos de nos referir, constitui um tema 
recorrente da representao da cidade ps-modema no cinema, na 
literatura e nas artes visuais. Para o dizer de outro modo, torna-se 
parte essencial da potica da cidade contempornea. Os exemplos desta 
potica so numerosos, e, nesse sentido, algumas obras j assumiram 
um carcter emblemtico. , por exemplo, o caso do filme de fico 
cientfica Blade Runner, do realizador Ridley Scott, desenrolado numa 
Los Angeles no ano 2019. A cidade apresenta-se povoada por uma mescla 
de populaes, entre as quais as de origem asitica parecem 
predominar, e os seres humanos misturam-se com os replicantes, 
produzidos pela engenharia gentica. Os edifcios (que, em alguns 
casos, so mesmo existentes) esto dominados por uma imparvel 
decadncia fsica, mas albergam mecanismos de alta tecnologia. Os 
contrastes estilsticos so gritantes, mas repetidos, ao ponto de 
criar uma espcie de fundo caleidoscpico. 0 caos dos sinais, dos 
significados e das mensagens contraditrias

evoca uma condio de fragmentao e incerteza urbana que salienta 
muitos dos aspectos da esttica ps-modema (Harvey, 1990, pp. 378-
379).

3. Lixo e monumentos. A potica da cidade, que se exprime em Blade 
Runner e em exemplos anlogos no campo literrio (por exemplo, no 
sector da fico cientfica do gnero cyberpunk),  significativa 
noutro ponto de vista - insiste com particular prazer em aspectos 
ttricos e esqulidos do cenrio urbano, fornecendo uma imagem 
chocante, embora altamente sugestiva. Encontramos um processo anlogo 
de elaborao esttica em muitas outras manifestaes de arte 
metropolitana - parecem querer quase assunlr, como objectos 
exemplarmente densos de significados simblicos, aqueles que na vida 
quotidiana se apresentam como refugo, lixo ou, pelo

156

menos, produtos de srie banais e insignificantes. Para dar um 
exemplo sobre as artes visuais, essa inteno parece achar-se 
presente - pelo menos, em parte, na pop art dos anos 60 - alguns anos 
mais tarde, encontramo-la ainda mais claramente na chamada arte 
povera e, numa poca ainda mais recente, em trabalhos de graffitistas 
como Keith Haring. Esta reavaliao, numa perspectiva potica, do 
lixo subentende de algum modo a ideia, tpica de uma parte da 
cultura artstica contempornea, segundo a qual  impossvel, na 
cidade actual, dar vida a um projecto artstico orgnico, concentrado 
em torno de smbolos unificantes e capazes de se exprimir em obras 
universalmente reconhecidas. Da a tentativa de encontrar espaos 
artsticos nos interstcios da cidade, em espaos e objectos que 
agora so reconhecidos universalmente como insignificantes.

Por outro lado, isto no exclui que, na cidade contempornea, esteja 
em aco, por parte de outros sujeitos sociais (como, por exemplo, 
empresas multinacionais ou administraes pblicas), a tentativa de 
recriar obras de carcter monumental, de elevado impacte simblico. 
Com efeito, muitas cidades, mesmo a partir dos anos 80, povoaram-se 
de arranha-cus, estdios, centros de exposies, etc., cujas formas 
manifestam claramente a inteno de se proporem como outros tantos 
smbolos urbanos novos. No entanto, pode sustentar-se que esta busca, 
to evidente e arbitrria, da simbolicidade indica a dificuldade com 
que, na cidade ps-moderna, todo o novo elemento entra em relao com 
o ambiente construdo preexistente e com os smbolos do passado. Isto 
pode, em ltima anlise, interpretar-se como uma reprovao, de um 
ponto de vista quase diametralmente oposto, da situao de vazio 
simblico, do deserto do real (Mc Caffery, 1991), que torna 
plausvel a esttica do lixo.

4. 5. As polticas culturais urbanas

4. 5. 1. As fases da interveno pblica

As reflexes sobre a relao entre a cidade e a cultura seriam 
incompletas se no aludssemos a um ulterior terreno de encontro 
entre eles, terreno esse em que se toma particularmente importante 
encontrar pontos de convergncia entre as duas dimensoes que, at 
aqui, tm sido associadas ao conceito de cultura: a alta e a 
difusa. Tencionamos referir-nos ao campo das polticas culturais 
urbanas, ou seja, ao conjunto das intervenes praticadas por 
operadores pblicos (mas por vezes em colaborao com indivduos 
privados de vrios tipos) com o objectivo de favorecer a

157

que pode ser definida como vida cultural da cidade, com vista a 
objectivos de natureza econmica e social, alm de, como  obvio, 
natureza cultural em sentido rigoroso.

Debaixo do rtulo agora utilizado, como  fcil depreender, ocultam-
se muitos fenmenos e actividades sociais, que a interveno pblica 
se prope incentivar e programar. O socilogo ingls John Rex - que, 
h alguns anos, desenvolve um projecto de investigao comparativa,  
escala europeia, sobre o tema das polticas culturais urbanas - 
afirma que, na discusso dessas polticas, assumem particular relevo 
no s as duas dimenses da cultura atrs referidas mas, mais 
analiticamente, quatro aspectos diferentes:

a) as formas expressivas que so universalmente reconhecidas como 
fonte de cultura no sentido alto do termo: literatura, pintura, 
msica culta, etc.;

b) a cultura popular, tpica de um pas ou de regimes particulares, 
que se exprime na msica tradicional, na poesia popular, no 
artesanato, etc.;

c) as culturas, no sentido antropolgico do termo, ou seja, os usos, 
a linguagem, os estilos de vida prprios de grupos especficos 
(maioritrios ou n-iinoritrios) num aglomerado urbano;

d) os elementos das manifestaes simblicas desses grupos que, ao 
contrrio dos precedentes, possuem uma declarada e intencional 
valncia esttica (Rex, 1995).

Pode salientar-se que, enquanto os dois primeiros aspectos da cultura 
se manifestam com frequncia nas cidades (sobretudo o primeiro), mas 
no esto ligados exclusivamente a ambientes urbanos peculiares, o 
terceiro e o quarto definem fenmenos culturais para os quais a 
ambientao em lugares particulares (por exemplo, em bairros 
etnicamente relacionados) representa um carcter essencial do prprio 
fenmeno.

Tendo presente esta tipologia, pode sustentar-se que as polticas 
culturais ligadas s diversas cidades se propem sempre modificar as 
condies em

que um ou mais aspectos da vida cultural da cidade se manifestam. Com 
a variao dos contextos nacionais de referncia, assim como das 
orientaes ideolgicas predorrfinantes nas diversas administraes 
urbanas, as polticas em vista assumiram formas assaz heterogneas, 
revelando a tendncia para privilegiar ora um, ora outro aspecto. 
Contudo, lin-tando o campo de observao ao contexto da Europa 
Ocidental, pode dizer-se - seguindo as anlises de Bianchini (1995) - 
que uma descrio sumria das orientaes e dos objectivos predon-
iinantes nas polticas culturais urbanas se pode efectuar em

obedincia a um percurso de ordem cronolgica e, por conseguinte, 
definindo as fases seguintes, caracterizadas diferentemente, que 
partem do final da Segunda Guerra Mundial para chegar aos nossos 
dias.

158

1. A poca do relanamento da cultura alta. Esta primeira fase 
inicia-se imediatamente no ps-guerra e termina em fins dos anos 60. 
Nela, os vrios governos urbanos (ou, mais frequentemente, os 
prprios governos centrais) concentraram-se sobretudo no aumento da 
capacidade das infra-estruturas e das instituies para a produo 
cultural alta (ou seja, a primeira elencada na tipologia de Rex). 
Tomaram-se, ento, medidas prioritrias para a construo, ou 
reconstruo, de museus, teatros, salas de concerto e financiamento 
pblico de companhias teatrais, orquestras, organizaes culturais e 
educativas de vrias naturezas. Nos pases em que se verificou um 
desenvolvimento mais completo do welfare state, a despesa pblica 
destinou-se em parte a valorizao da oferta,  ampliao da procura 
cultural, ou seja, ao alargamento do pblico dos que usu-

fruem das actividades culturais. A localizao das infra-estruturas 
quase sempre privilegiou as cidades e, de forma particular, os 
centros histricos de maiores tradies. 2. A poca da participao. 
A fase seguinte abarca os anos 70 e chega ao incio dos 80, sofrendo 
o impacte dos movimentos sociais de 1968 e, em

particular, ressente-se da nfase que incutiram  importncia da 
participao social na vida urbana e a valorizao das formas 
culturais que se desenrolam de baixo. Recorrendo ainda  tipologia de 
Rex, pode afirmar-se que, nesta poca, so privilegiados o terceiro e 
o quarto tipo de cultura e, em

alguns casos, o segundo (em especial quando a cultura popular  
interpretada como expresso de grupos tnicos oprimidos e de classes 
subordinadas, em anttese com a cultura alta dos grupos e das 
classes dominantes). So, pois, favorecidas formas expressivas e 
indivduos diferentes dos que tradicionalmente tinham um papel 
hegemnico na vida cultural urbana
- so promovidas as artes tnicas das minorias, as expresses 
tpicas do mundo juvenil, difundem-se as formas de animao 
cultural que tentam incentivar a expressividade difusa, redescobre-
se o patrimnio folclrico, e

assim sucessivamente. A uma poltica baseada no robustecimento das 
infra-estruturas, substitui-se, com frequncia, uma tendncia para 
incrementar a despesa com eventos de carcter efrnero 
(manifestaes singulares, exposies, concertos, etc.). Por outro 
lado, tenta-se reequilibrar o peso dos centros histricos 
metropolitanos, promovendo a descentralizao das actividades 
culturais nas periferias urbanas e nos centros de menores dimenses.

3. A poca da cultura como instrumento para o desenvolvimento. Desde 
meados dos anos 80, as polticas urbanas, no seu conjunto, entram em 
crise, quer devido ao dfice crnico das finanas pblicas, quer pela 
afirmao, em muitos pases, de ideologias contrrias  expanso da 
interveno do Estado. Os cortes nas despesas pblicas, detern-nados 
por governos centrais, manifestam-se com particular intensidade nos 
sectores considerados

159

de menor importncia econmica, como o da cultura, e pem  discusso 
as orientaes das adrrnistraes urbanas. A reaco destas ltimas 
tende a produzir-se ao longo de uma dupla linha. Por um lado, os 
operadores pblicos tentam envolver na obra de promoo cultural os 
sujeitos econmicos privados, incentivando, por exemplo, o patrocnio 
de particulares a eventos espectaculares ou a restaurao de 
monumentos.

Por outro, e isto sobretudo no perodo mais recente, opera-se uma 
mudana nos prprios objectivos da interveno pblica - de um 
apagamento do papel social da promoo cultural passa-se a ver esta 
ltima sobretudo como um instrumento de relanamento da econon-a 
urbana. Esta nova orientao implica, pelo menos em parte, um 
regresso  concentrao nas intervenes nas zonas centrais da 
cidade, e comporta assim uma retoma dos investimentos para a 
realizao de intervenes da construo civil, financiadas 
directamente pelas entidades pblicas ou, por vezes, confiadas  
iniciativa privada.

4. 5. 2. Cultura e regenerao urbana

Esta tentativa para fazer da cultura um factor de desenvolvimento 
econmico da cidade merece mais algum aprofundamento. Antes de mais, 
convm salientar que se trata de uma opo poltica de grande 
interesse, sobretudo para as cidades que sentiram com maior impacte o 
efeito dos processos de desindustrializao dos anos 80 e, portanto, 
para aquelas que anteriormente se haviam uniformizado mais 
estreitamente ao modelo fordista. No , pois, por acaso que se 
desenrolaram esforos em direco ao desenvolvimento de polticas 
culturais de grande valncia econmica por cidades de antiga 
industrializao e/ou em cidades com uma econon-a portual em 
transformao, como, nos Estados Unidos, Filadlfia e Detroit ou, na 
Europa. Glasgow, Liverpool, Bilbau, Roterdo ou ainda, para nos 
voltarmos para a Itlia, Turim e Gnova.

As modalidades com que as intervenes no sector cultural se propem 
favorecer o relanamento econmico urbano podem ser de natureza tanto 
directa como indirecta.

Pode falar-se de um efeito directo no caso em que os investimentos 
pblicos ou privados produzem um retomo imediato em termos econn-
ficos, como, por exemplo, atravs do aumento da actividade turstica 
urbana ou o incremento do emprego em sectores que fazem parte do 
ncleo cultural. Para dar um exemplo, a construo de uma sala de 
concertos, a organizao de exposies ou congressos pode revelar-se 
um investimento imediatamente compensador - tenta-se atrair um 
pblico suficiente - e incentivar o desenvolvimento dos lucros e do 
emprego em sectores como o hoteleiro,
160

o das agncias tursticas, o das editoras, etc. Este efeito directo  
facilmente mensurvel, mas nem por isso menos importante. Isto 
produz-se em virtude de um melhoramento da imagem da cidade, do 
crescimento do nvel qualificativo do milieu urbano e, portanto, de 
um aumento da capacidade atractiva que a cidade exerce nos confrontos 
de operadores econmicos de vrios tipos. Como vimos no ponto 2. 4. 
4, uma cidade rica de actividades culturais de alto nvel, 
frequentada, devido a isso, por um pblico heterogneo e cosmopolita, 
tem ainda maiores probabilidades (obviamente, a par de condies 
estreitamente econn-cas) de ser preferida como sede de actividades 
privadas em sectores inovativos, ou escolhida para anfitri de 
instituies pblicas de mbito nacional ou internacional.

Naturalmente, a tentativa para instaurar processos de crescimento 
econmico atravs do acrscimo da oferta cultural no atinge 
forosamente os efeitos previstos, quer porque as variabilidades que 
podem favorecer o xito de uma iniciativa so numerosas e raramente 
previsveis, quer porque o nmero elevado de cidades que empreenderam 
polticas deste tipo determina uma situao de elevada 
competitividade, da qual somente algumas podem sair vitoriosas. Alm 
disso, esta tentativa comporta sempre o risco de identificar cultura 
unicamente com actividades expressivas e espectaculares de reembolso 
econn-co imediato, em prejuzo de todas as outras. E isto, por sua 
vez, corre o risco de aumentar os desequilibrios internos da cidade. 
Com efeito, mesmo nos contextos em que se alcanaram resultados 
significativos (como, por exemplo, em Glasgow) pde observar-se que 
os processos de regenerao urbana disseram respeito apenas s reas 
mais centrais, enquanto se foi incrementando ulteriormente a 
diferena entre estas e          as zonas mais pobres da faixa 
suburbana. Esta situao j provocou reaces de contestao nos 
confrontos das polticas adoptadas.

Por estes motivos, actualmente muitos socilogos e peritos de 
polticas culturais propem que, mesmo no seio de uma perspectiva 
atenta aos resultados econmicos das intervenes, a abordagem 
predominante nos primeiros anos da dcada de 90 seja corrigida de tal 
modo que se refira a uma concepo mais ampla do cultura urbana, 
promovendo de forma mais equilibrada as vrias dimenses. A esta luz, 
em muitos lados invoca-se - sobretudo em pases de lngua inglesa - a 
necessidade de adoptar formas de programao cultural (cultural 
planning). Estas entendem-se no certamente como esforos para impor 
o sinal do dirigismo pblico sobre a actividade cultural, mas como 
instrumentos para estimular e colocar em relao recproca 
iniciativas promovidas por indivduos heterogneos nos campos mais 
variados (da arte ao desporto, da msica s expresses das 
identidades tnicas), tentando obter resultados positivos e 
simultneos em muitos mbitos da vida urbana e, portanto, provocar um 
efeito regenerativo de natureza global.

161

5. O TERRITRIO URBANO

5. 1. A cidade, fenmeno ecolgico

5. 1. 1. Perspectivas da anlise ecolgica

Uma parte no marginal dos estudos da sociologia urbana, que se 
desenvolve em muitos pases, pode classificar-se sumariamente como 
pertencente a um filo ecolgico que deriva -  distncia - da escola 
de Chicago. Isto  verdadeiro sobretudo para a sociologia de lngua 
inglesa, no seio da qual talvez seja legtimo falar de um mainstream 
ecolgico, embora seja verdade que outras abordagens (como a da 
political economy) tenham recuperado terreno rapidamente (Schmandt, 
Wendell, 1988).

Depois de reconhecido isto, em termos gerais, h que operar uma 
distino entre os aspectos empricos e os tericos da abordagem 
ecolgica. Alm disso,  oportuno desenvolver consideraes 
diferentes no que se refere s temticas clssicas do filo e outra 
temticas que se podem considerar emergentes.

Como j se viu no ponto 1. 2. 2, a escola de Chicago dos anos 20 e 30 
colocava em primeiro plano um problema deixado na sombra por outras 
correntes de anlise urbana - o da relao entre a forma fsica da 
cidade e os seus caracteres sociais. Ao mesmo tempo, procurava 
construir um aparelho terico para enfrentar este problema, 
privilegiando esquemas de cariz positivista e origem biolgica, que 
levavam a analisar os grupos sociais e

tnicos presentes na cidade como populaes (no sentido que o termo 
assume em biologia) e considerar as relaes entre estas como sendo 
ecolgicas. Ora, para nos exprimirmos sinteticamente, podemos dizer 
que o problema clssico relativo aos habitantes de Chicago no perdeu 
o seu interesse. Como veremos um pouco adiante, no ltimo quartel do 
sculo XX registaram-se importantes processos de reorganizao do 
espao social das cidades

163

(e, sobretudo, das grandes reas metropolitanas) que atraram a 
ateno dos estudiosos e constituram o objectivo de uma elevada 
quantidade de estudos empricos. Pelo contrrio, os instrumentos 
conceptuais definidos pelo programa de investigao ordinrio de 
Park, Burgess e McKenzie (ou o mais recente e neo-ortodoxo de 
Hawley), que previam um recurso mais ou menos sistemtico a conceitos 
provenientes da ecologia animal e vegetal, no mantiveram as 
promessas iniciais e, ao invs, revelaram fraquezas graves, que os 
crticos no deixaram de realar.

Resulta, portanto, da uma espcie de dissociao entre o grande 
nmero dos estudos empricos de carcter ecolgico e a escassa 
espessura terica dos conceitos utilizados. Na verdade, a propsito 
da debilidade da teoria, convm acrescentar um ponto importante, que 
evidencia um aspecto muito paradoxal. Na realidade, no perodo mais 
recente, as cincias sociais em geral, mas tambm, especificamente, a 
pesquisa sobre a cidade e o territrio ressentiram-se fortemente da 
influncia de esquemas conceptuais derivados de novos contributos da 
biologia e da fisiologia contemporneas e, de um modo mais geral, 
aceitaram propostas metodolgicas e modelos tericos marcados por 
aquilo que foi definido como o paradigma da complexidade (Pumain, 
1995). Esta influncia j produziu alguns resultados de relevo. No 
entanto, no parece envolver de forma adequada os tradicionais campos 
de pesquisa da sociologia urbana de cariz ecolgico - talvez 
demasiado apegados a ideias de estudo transdisciplinares ou prximas 
daquilo que em muitos pases se define como geografia quantitativa.

Todavia, para alm destas consideraes, convm referir que, nos 
ltimos decnios, a aluso conjunta aos problemas da cidade e  
abordagem ecolgica no evoca apenas - nem sequer principalmente - os 
temas clssicos da escola de Chicago. Pelo contrrio, faz acudir cada 
vez mais  mente a relao entre o urbanismo, entendido como 
transformao artificial do ambiente, e o contexto natural e 
biolgico. Em suma, a ecologia faz pensar nos temas do inquinamento, 
do escoamento dos detritos, do trfego, etc., e a associao 
ecologia-cidade prope imediatamente como objecto de reflexo o papel 
que o urbanismo tem na alterao do equilibrio entre as sociedades 
humanas e os ecossistemas de que fazem parte.

Este aspecto do problema , sem dvida, o mais presente no debate 
pblico e na linguagem dos mass media, mas hoje comea a assumir um 
relevo nodal na prpria pesquisa sociolgica. Podemos, portanto, 
colocar nesta vertente a linha de expanso da pesquisa urbana de 
cariz ecolgico, embora isto no signifique que, for osamente, a 
vertente clssica representa unicamente um filo em vias de 
esgotamento.

Na sequncia do captulo, tentaremos dar conta das diversas faces da 
realidade agora traada esquematicamente. Em particular, o ponto 5. 1 
permitir efectuar uma anlise suficientemente ampla sobre os 
problemas da

164

cidade, na perspectiva tradicional do filo ecolgico. Mais 
sinteticamente, o ponto 5. 2  dedicado aos desenvolvimentos tericos 
ligados  aplicao de paradigmas biolgicos aos estudos urbanos, 
ainda que em mbitos externos  sociologia urbana. No ponto 5. 3 
estudam-se temas conotados com as novas dimenses da abordagem 
ecolgica, insistindo nas interdependncias que se criam entre o 
ambiente urbano e o homem, como ser dotado de uma especificidade 
biopsquica prpria.

5. 1. 2. Desurbanizao e reurbanizao

Como j foi referido no captulo 2, nos ltimos 20-25 anos as 
dinmicas mundiais do desenvolvimento urbano fizeram registar - com 
aluso exclusiva  parte industrializada do planeta - uma inverso de 
tendncia de grande relevo, considerada por muitos uma viragem de uma 
poca. Com efeito, em quase todos os pases desenvolvidos parece ter-
se esgotado o impulso para um crescimento demogrfico e econmico 
concentrado predominantemente nos grandes aglomerados urbanos e 
assistiu-se, pelo contrrio, a uma expanso muito rpida dos 
aglomerados suburbanos (sobretudo das segundas e terceiras cinturas, 
situadas  distncia, embora avistveis das zonas centrais) e at de 
centros de dimenso mdio-pequena, pertencentes a regies 
decididamente exteriores s metrpoles. De um modo geral, tanto na 
Europa como na Amrica do Norte, comea a predon-nar uma tendncia 
para aquilo que se pode definir como difuso urbana, se bem que, como 
veremos, tambm estejam presentes impulsos de sinal contrrio, embora 
de cariz mais limitado.

Nos captulos precedentes j foram ilustrados vrios factores que 
contrbuem para explicar os motivos pelos quais, no cenrio ps-
industrial, din-nui a importncia de uma localizao concentrada das 
actividades produtivas (no seu conjunto) e de populaes nas partes 
mais densas dos aglomerados urbanos, conquanto no din-iinua o papel 
fundamental da cidade, aumentando o atractivo dos centros urbanos 
para alguns sectores dinmicos da economia e alguns grupos sociais. 
Esses motivos, em geral, esto ligados  transformao do sistema 
econn-co dos pases mais desenvolvidos e ao impacte das novas 
tecnologias da informtica e da comunicao a distncia. Aqui 
debruar-nos-emos em particular sobre os efeitos demogrficos e 
morfolgicos das transformaoes em aco, ou seja, sobre as suas 
consequncias em ordem  distribuio da populao e  localizao no 
territrio dos diversos grupos sociais.

At aos anos 70, todas as grandes reas urbanizadas do Norte do mundo 
tinham feito observar modalidades de crescimento essencialmente 
centrpeto. Isto no significa, evidentemente, que o crescimento 
at ento

165

se cingiu s partes centrais da cidade. Na verdade, durante muitos 
decnios, depois de ter saturado aquelas  reas, o desenvolvimento da 
cidade voltou-se para o exterior, englobando no seu percurso centros 
menores que anteriormente haviam constitudo comunidades autnomas 
sob o perfil socioeconmico e adn-nistrativo. Assim, a fronteira da 
cidade compacta (aquela a que j no incio do sculo Geddes chamava 
co-urbao) alargou-se a seguir, enquanto, no seu exterior, se abria 
uma larga faixa de reas suburbanas, compostas por subrbios 
residenciais ou industriais estreitamente interdependentes do plo 
principal. No seu conjunto, a co-urbao e os centros 
interdependentes formam as reas metropolitanas, amplos aglomerados 
de habitaes que compreendem, portanto, uma cidade central e uma 
reunio mais ou menos larga de municpios que, de forma e medida 
variadas, gravitam  sua volta. Em muitos pases, as reas 
metropolitanas recebem uma definio oficial, por motivos meramente 
estatsticos ou com finalidades programatrias. Em Itlia, esto 
previstas pela lei 14211990.

Apesar desta expanso urbana para o exterior (de resto, mais 
acentuada na Amrica do Norte e na parte setentrional da Europa 
centro-meridional), esta modalidade de desenvolvimento ainda tem, na 
sua essncia, caracteres centrpetos, porque colide com o territrio 
a partir da cidade central, com um movimento que os gegrafos tm 
comparado ao das vagas do mar (tidal wave). Por conseguinte, embora a 
cidade central aposte em aumentar a sua populao (sobretudo no 
momento em que tende a perder actividades industriais a favor de 
funes tercirias), a rea metropolitana, no seu conjunto, prossegue 
o seu processo de crescimento.

Entre o final dos anos 60 e todo o decnio seguinte, ao contrrio, a 
tendncia inverteu-se. Entretanto, as cidades centrais comeavam a 
perder populao de forma consistente, enquanto as primeiras cinturas 
industriais tendiam a estagnar, particularmente devido aos processos 
de reestruturao industrial que bloqueavam o pedido de mo-de-obra 
por parte das grandes empresas. Prosseguiram o seu desenvolvimento as 
cinturas mais externas, porm o seu crescimento no bastava para 
controlar a perda das reas centrais. Determinou-se assim uma 
estagnao geral ou mesmo uma contraco da populao de toda a rea 
metropolitana -

um fenmeno que, por parte de muitos gegrafos, foi definido como 
desurbanizao ou disurbanizao.

Ao mesmo tempo, assistiu-se a uma retoma de capacidade atractiva por 
parte das regies anteriormente afastadas dos principais eixos do 
desenvolvimento econmico e demogrfico pela primeira vez desde havia 
mais de
150 anos, e nos anos 60 produziu-se nos Estados Unidos um crescimento 
da populao das reas no metropolitanas superior  das reas 
metropolitanas. O efeito combinado da estagnao metropolitana e do 
crescimento no metropolitano apresentava-se como um fenmeno de tal 
relevo que o

166

gegrafo americano Berry (1976) decidiu design-lo por contra- 
urbanizao e interpretou-o como.a manifestao de uma tendncia de 
longo perodo. Tambm na Europa, no incio dos anos 80, se efectuaram 
importantes investigaes sobre tendncias evolutivas do urbanismo 
(Hall, Hay, 1980; van den Berg et al., 1982). Em geral, evidenciavam 
diferenas notveis entre os vrios contextos nacionais e regionais 
e, conjuntamente, apresentavam um panorama em que eram menos visveis 
os sinais de uma rotura clara com as tendncias do passado, em 
especial no que se referia ao crescimento no metropolitano. No 
obstante, isso confirmava a tendncia geral para a desconcentrao 
das reas urbanas e metropolitanas, sobretudo das de industrializao 
mais antiga.

Todavia, nos anos seguintes, a evoluo da urbanizao apresentou 
novas dinmicas que intervieram para complicar ulteriormente o 
cenrio.

Embora, considerando vastos agregados territoriais, se possa dizer 
que a difuso urbana ainda prossegue no perodo mais recente, devemos 
reconhecer que, em muitas reas metropolitanas e, em particular, nas 
que albergam funes de nvel munthal, surgiu, nos fins dos anos 80, 
uma requalificao de numerosas zonas da cidade central, que 
comportou uma nova atractividade residencial. Como veremos, esta 
ltima  quase sempre limitada a alguns grupos sociais da camada 
mdio-elevada. Contudo,  sufidiente para contrastar, pelo menos 
parcialmente, com os processos centrfugos e o declnio demogrfico 
das reas centrais. Cf., a esse respeito, a tabela 5. 1, na qual, em 
referncia a algumas reas metropolitanas europeias, so indicadas as 
varia es demogrficas (relativas ao perodo
1970-1990, tendo o cuidado de distinguir entre a parte central da 
prpria rea (o core) e a composta pelas cinturas exteriores (o 
ring).

TABELA S. 1. Variaes percentuais da populao em algumas metrpoles 
europeias

1970-1975      1975-1980       1980-1985      1985-1990

reas metropolitanas Core Ring Core Ring Core Ring Core Ring

Hamburgo               -0,77   +0,85   -0,91  +0,36   ~ O,77  +0,06  
+0,24   +0,06 Paris                  -1,48   +1,93   -0,69  +0,66   -
1,02   +0,78  +1,01   +2,06 Amesterdo             -1,84   +1,51   - 
1,11 +0,81   -1,18   +0,57  +0,34   +0,47 Londres                -
1,89   -0,37   -1,60  -0,14   -0,38   -0,06  +0,56   -0,32 Bruxelas               
-1,99   +0,48   -1,38  +0,15   -0,95   +0,02  -0,17   +0,04 Barcelona              
-0,07   +3,40   +0,13  +2,27   -0,58   +0,71  +0,04   -0,04

Fonte: Sassen (1994), p. 41.

167

Dados como os aqui expostos devem ser lidos com uma certa cautela, 
dado que os valores dependem substancialmente das modalidades em que, 
em cada contexto, so definidos os confins da rea metropolitana e  
efectuada a desagregao entre core e ring. De qualquer modo, indicam 
que, nos anos 90, se est a verificar uma tendencial retoma 
demogrfica da parte interna de muitas reas metropolitanas 
europeias. Porm, o fenmeno parece quase totalmente ausente em 
Itlia, onde o processo difusivo - iniciado mais tarde que noutros 
pases -  ainda predon-nante, conquanto se privilegiem sobretudo 
reas suburbanas ou, de qualquer modo, situadas a no grande 
distncia dos centros urbanos, ao longo dos principais eixos de 
urbanizao. Em todo o caso, este fenmeno da retoma da capacidade 
atractiva do centro (designado por reurbanizao) no pode ser 
interpretado como sinal de uma nova viragem de poca nas dinmicas 
urbanas. A difuso urbana continua a ser a tendncia mais importante. 
No entanto, o impulso centrfugo e a reorganizao representam duas 
tendncias consistentes e no forosamente contraditrias, ligadas a 
diversas tendncias localizativas das funes urbanas e a uma 
redistribuio espacial dos grupos sociais. A difuso refere-se, em 
particular, sobretudo s actividades produtivas e  residncia das 
camadas mdias, enquanto a reurbanizao envolve algumas funes do 
tercirio avanado e populaes pertencentes s camadas superiores 
ou, inversamente, quotas dos trabalhadores dos servios e de 
underclass, o que est ligado aos processos que, como j vimos no 
ponto
3. 2, tendem a conferir um papel dualista s grandes cidades.

5. 1. 3. Suburbanizao e gentrification

Vamos agora observar mais pormenorizadamente dois fenmenos de 
redistribuio residencial, que, somando-se, contribuem para definir 
o esquema de crescimento que assiste  co-existncia de tendncias 
difusas

e novos impulsos para a valorizao residencial das reas centrais.

1. O primeiro fenmeno  o da suburbanizao, que est ligado ao 
florescimento da cidade central de popula o que vai viver nas 
faixas exteriores, a maior ou menor distncia do centro, efectuando 
movimentos pendulares dirios para alcanar o local de trabalho ou de 
estudo.

A sociologia americana interessa-se h muito pelo fenmeno da 
suburbanizao, j que este tem origens distantes nos Estados Unidos 
e apresenta particular amplitude. Naquele pas, nos anos 80, foram 
efectuadas estimativas da numerosidade da populao suburbana no seu 
conjunto. Se considerarmos suburbana a populao que vive no 
interior das reas metropolitanas (que, nos Estados Unidos, tm uma 
delimitao precisa como

168

Metropolitan Statistical Areas) mas fora das cidades centrais, foi 
calculada, para 1983, uma dimenso dessa populao superior a 102 
milhes de pessoas. Como se v, trata-se de uma quota muito ampla da 
populao total (ligeiramente superior a 40 %). Todavia, no interior 
dessa quota reconhecem-se diferenas sociais muito acentuadas. Assim, 
por exemplo, segundo a mesma fonte, cerca de 24 milhes dos 102 atrs 
citados podem ser classificados como populao rural.

Isto depende do facto de, na realidade, os aglomerados suburbanos 
serem fortemente heterogneos entre si, quer pelas funes que 
contm, quer pelas caractersticas da populao que albergam, quer 
ainda pelas modalidades com que se formaram historicamente.

No que se refere s funes, podemos distinguir pelo menos quatro 
tipos de reas suburbanas.

a) aglomerados de carcter residencial. Trata-se de reas dotadas de 
um notvel grau de homogeneidade interna, mas distinguveis entre si 
com base no estatuto social predominante da populao.

b) aglomerados de carcter industrial. So centros com forte presena 
de actividades produtivas que, com frequncia, atraem populao 
pendular da cidade central ou de outras zonas suburbanas.

c) aglomerados com um relativo equilbrio entre as funes. d) 
aglomerados com forte presena de actividades tercirias. Enquanto os 
trs primeiros casos correspondem a situaes com fre-

iaj consolidadas nos decnios passados, o ltimo diz respeito a uma 
quenc tendncia mais recente: a que comporta a formao de 
significativas concentraes de actividades comerciais e de centros 
direccionais ao lado de plos residenciais suburbanos, ligados ao 
plo central por meio de tecnologias avanadas da telecomunicao. 
Este tipo de aglomerado assume, em ingls, a designao de edge city 
(cidade margem) ou exopole.

No que se refere aos caracteres da populao, como se fez notar, os 
aglomerados suburbanos so com frequncia mais homogneos no seu 
interior (em especial, no contexto norte-americano). Em 
contrapartida, diferenciam-se muito uns dos outros - podemos, pois, 
falar tanto de zonas suburbanas destinadas a albergar as camadas 
mdias como de reas de estatuto privilegiado, como ainda de 
aglomerados destinados a albergar populao operria ou ento 
trabalhadores imigrados ( um caso frequente em pases europeus com 
forte imigrao extracomunitria, como a Frana, Alemanha ou Gr-
Bretanha).

Finalmente, no tocante s modalidades histricas de formao dos 
aglomerados suburbanos, podemos distinguir trs casos tpicos:

a) centros urbanos de implantao antiga, gradualmente atingidos pelo 
desenvolvimento da cidade central e englobados na co-urbao ou ento 
tomados funcionalmente dependentes dela;

169

b) centros de nova formao, resultantes de ausncia de planificao 
e com um desenvolvimento controlado do operador pblico.

Em Itlia, so particularmente comuns os centros do primeiro e do 
segundo tipos. Em muitos pases europeus e extra-europeus, ao invs, 
os poderes pblicos promovem, com maior ou menor xito, uma poltica 
de criao de novas cidades (new towns, villes nouvelles) com o 
objectivo de contrabalanar as tendncias para o crescimento 
desordenado das periferias urbanas e fazer convergir o 
desenvolvimento urbano num quadro de programao que permita o 
desenvolvimento equilibrado de residncias, postos de trabalho e 
servios.

Se se combinarem entre si as tipologias acabadas de ilustrar com 
referncia a caracteres singulares,  fcil observar como o 
territrio suburbano se pode articular numa multiplicidade de centros 
com traos sociais e funcionais assaz dissemelhantes. Por efeito 
dessa heterogeneidade, pode verificar-se que so analogamente 
diversificados os estilos de vida da populao suburbana e as 
modalidades em que ela se apresenta para usufruir dos recursos 
urbanos e desenvolver as suas prprias actividades. De qualquer modo, 
para simplificar, podem definir-se duas modalidades fundamentais.

Uma  a tpica das famlias dos trabalhadores pendulares, para os 
quais o aglomerado suburbano - situado principalmente em bairros 
residenciais de grandes dimenses - representa o lugar da habitao e 
do usufruto dos servios mais comuns (por exemplo, o comrcio de 
gneros alimentares), enquanto a cidade central representa o local de 
trabalho e do usufruto dos servios raros (espectculos, actividades 
culturais e universitrias, etc.).

A outra, mais recente,  a tpica de familias que, graas a uma 
mobilidade elevada, tomada possvel pela utilizao combinada de 
meios de transporte pblicos e privados, esto em condies de reunir 
as vantagens de uma residncia em centros de pequenas dimenses, com 
ampla disponibilidade de espao e contguos a reas de interesse 
natural, e os de um usufruto de servios em diversas partes do 
territrio metropolitano. Para designar o

processo de desenvolvimento urbano que favorece este estilo de vida, 
a sociologia recente reutilizou um termo j conhecido nos Estados 
Unidos nos anos 30 - o da rurbanizao, que indica uma forma de 
urbanizao que combina camadas socioculturais rurais e urbanas 
(Charrier, 1988). Obviamente, no se deve confundir com a expresso 
(apenas aparentemente anloga) de reurbanizao, a que j nos 
referimos.

2. O segundo fenmeno a analisar  a tendncia de grupos sociais 
pertencentes  camada mdio-alta para voltar a residir nas partes 
centrais da cidade. Este processo constitui para os Estados Unidos 
(onde se comeou a perfilar em fins dos anos 70) uma inverso parcial 
de tendncia sobre uma opo tradicional das camadas mais elevadas 
pelas reas suburbanas. Na Europa Ocidental, ao invs, trata-se de 
uma confirmao (embora de

170

modo diferente) da opo centrpeta consolidada dos prprios grupos 
sociais.
O termo usado com mais frequncia para o designar  a palavra inglesa 
gentrification; empregada inicialmente com conotaes quase irnicas, 
tornou-se depois de uso comum noutros idiomas. Literalmente, 
significa nobilizao, pois gentry designa uma pequena nobreza, 
sobretudo no campo. Na realidade, indica um processo de 
emburguesamento de bairros centrais, ou seja, uma acentuao da 
conotao residencial alto-burguesa ou mesmo uma transformao nesse 
sentido de bairros anteriormente conotados de maneiras diferentes.

Segundo Savage e Ward (1993), para que haja lugar  gentrification 
numa cidade, tem de se dar uma coincidncia de quatro processos:

a) uma reorganizao da geografia social da cidade, com substituio, 
em zonas centrais, de um grupo social por outro de estatuto mais 
elevado;

b) um reagrupamento espacial de indivduos com estilos de vida e 
caractersticas culturais similares ou, pelo menos, com preferncias 
comuns;

c) uma transformao do ambiente construdo, com a criao de novos 
servios e uma requalificao residencial que prev um sinal 
arquitectnico especfico;

d) uma mudana da ordem fundiria, que, na maioria dos casos, 
determina a elevao dos valores fundirios e um aumento da quota de 
habitaes em propriedade.

Como se pode observar, esta anlise relaciona o processo de 
gentrification com as numerosas intervenes de renovao urbana, 
verificadas nos anos 80 e 90 em muitos centros e por vezes 
favorecidas ou mesmo incentivadas pelas intenes polticas 
neoliberais do governo. A renovao, neste sentido, consiste na 
destrui o de bairros inteiros de habitao, situados no centro ou 
suas proximidades e na sua substituio por conjuntos de construes 
de luxo, integrados, com servios qualificados, residncias ou hotis 
de alta qualidade, destinados a camadas de rendimentos elevados. 
Noutros casos, a oportunidade pode ser proporcionada pela 
reutilizao de uma rea deixada livre pela indstria. Nas cidades de 
natureza medieval renascentista ou barroca,  possvel que a 
renovao se opere atravs da restaurao de edifcios de interesse 
histrico ou por meio de intervenes mais radicais de reestruturao 
dos mesmos.

Os factores que produzem a gentrification destinam-se, pois, a 
definir, por um lado, na sua explorao por parte dos proprietrios 
rurais e dos promotores imobilirios, oportunidades que se detern-
nam na situao particularmente dinmica da metrpole do perodo 
mais recente. Por outro, todavia, intervm factores sociais e 
culturais. Os protagonistas deste fenmeno (os gentriflers) no so 
procurados indiscriminadamente entre todos os pertencentes a camadas 
de altos rendimentos, mas sobretudo entre aqueles que produzem 
maiores benefcios devido a uma ligao ntima

171

com as oportunidades do centro urbano, em virtude das suas 
actividades profissionais ou do seu estilo de vida. Entre os 
gentrifiers, por conseguinte, encontram-se sobretudo empresrios e 
dirigentes pblicos de alto nvel de instruo, profissionais 
liberais ligados ao sector das finanas, comunicaes, moda e 
espectculo, intelectuais e artistas, e assim sucessivamente. Em 
contrapartida,  mais provvel que indivduos pertencentes a camadas 
com nveis de rendimento anlogos, mas estilos de vida diferentes - 
por exemplo, pequenos e mdios empresrios -, se sintam mais atrados 
pelas reas suburbanas.

Em concluso, pode ainda acrescentar-se que - embora seja difcil 
estabelecer um nexo causal unvoco entre os dois processos - entre a 
gentrification e o impulso para a difuso urbana no s se verifica 
uma co-presena mas tambm ocorrem efeitos de robustecimento 
recproco. Com efeito, o florescimento de uma parte da populao das 
zonas centrais provoca uma situao de menor presso da construo 
civil, que favorece a projeco de operaes de renovao por parte 
dos promotores imobilirios. Ao invs, o xito dessas operaes 
produz a elevao do rendimento fundirio nas reas circunscritas, 
tornando impossvel a estratos da populao de rendimento mdio-baixo 
- e, em particular, aos locatrios - a permanncia nesses bairros e, 
portanto, obrigando-os a colocar-se de novo fora da cidade.

5. 1. 4. As novas correntes migratrias

Como j referimos a propsito da cidade dual, as camadas de estatuto 
elevado atradas pela renovao urbana no so os nicos grupos 
sociais que compem os fluxos de populao que ingressam nas cidades 
centrais das reas metropolitanas. Assim, do ponto de vista 
quantitativo, em muitos contextos  muito mais relevante a presena 
nesses fluxos de tipos completamente diferentes de indivduos sociais 
- os provenientes dos pases em vias de desenvolvimento ou de reas 
mundiais envoltas numa transio socioeconniica difcil, como os 
pases ex-comunistas do Leste Europeu.

O peso dos fluxos migratorios varia consideravelmente de pas para 
pas e, a nvel interno, ainda mais intensamente de cidade para 
cidade. De qualquer modo, um aspecto saliente da actual situao dos 
processos migratrios do Sul para o Norte do mundo consiste no facto 
de escolherem maciamente tanto naes que, h algum tempo, 
representam plos de atraco das correntes migratrias como 
contextos que, at h poucos anos, se interessavam mais por fluxos em 
fuga.

No que se refere aos primeiros, pode citar-se, a ttulo de exemplo, o 
caso dos Estados Unidos. Nesse pas, segundo o censo de 1990, os 
nasci-
172

dos no estrangeiro (ou seja, os in-grados recentes) ascendem a 19,8 
milhes, nmero que aumentaria se fosse possvel considerar tambm os 
imigrantes ilegais, no recenseados. O fluxo total de populao 
imigrada nos anos 80 ultrapassa os 7,3 rrtilhes e, no confronto com 
as dcadas precedentes, apenas o excede, por consistncia numrica, o 
relativo ao primeiro decnio do sculo xx. Nos anos 90, o ritmo da 
imigrao parece ter-se elevado ulteriormente.

A incidncia dos novos imigrantes (entre os quais tem um peso 
particularmente relevante a quota proveniente do Mxico e dos pases 
das Caraibas)  muito desigual nas diversas realidades urbanas. Cf., 
a esse respeito, a figura 5. 1, na qual se evidencia a incidncia dos 
indivduos de imigrao recente no mercado do trabalho em algumas 
reas metropolitanas e se especifica a percentagem de imigrantes que 
se acumularam nas cidades durante o decnio de 1970-1980 (no total 
dos nascidos no estrangeiro).

FIGURAS. 1. Peso percentual dos nascidos no estrangeiro no total dos 
ocupados (1980) e dos imigrados no decnio 1970-1980

O % dos nascidos no estrangeiro no total dos ocupados
18 % de imigrados no decnio 1970-1980               58^

53,60%

Nova        Washington lorque

Miami

Chicago

Los             So Angeles        Francisco

Fonte: US Bureau of Census, Public Use Microdata, Sample 8, cit. in 
Greenwood (1994), p. 21 @.

Nas cidades americanas, a populao de imigrao recente povoa por 
vezes bairros inteiros, em muitos casos situados nas partes ainda no 
renovadas da cidade central - os diferentes bairros tnicos 
representam unidades sociais separadas do resto da cidade 
(nitidamente distantes entre si),

173

embora, no conjunto, constituam uma parte de modo algum irrelevante 
de todo o sistema metropolitano.

No tocante aos pases mais recentemente investidos pelas imigraes, 
um caso tpico  o italiano. Nos outros pases, os processos 
migratrios dos pases de baixo grau de desenvolvimento, em especial 
da frica Setentrional e da Ocidental, receberam um forte impulso nos 
anos 80, e cerca de meados dos 90 pareceram deter-se em valores um 
pouco inferiores ao milho de pessoas. O rumo destes fluxos, por 
outro lado, no  unicamente urbano - embora sejam relativamente mais 
amplas as quotas de novos imigrantes nas maiores cidades, uma 
presena estrangeira figura tambm em centros de mdias dimenses e 
em algumas reas agrcolas, em funo da absoro sazonal de mo-de-
obra estrangeira em actividades de baixa remunerao.

Em todo o caso, a quota de populao proveniente de pases em vias de 
desenvolvimento - em relao ao total da populao urbana - no  
particularmente elevada nos centros urbanos italianos. Para dar um 
exemplo, em Torino e sua cintura, segundo as estimativas do 
departamento competente do municpio, a presena regular de 
imigrantes extracomunitrios cifra-se em cerca de 2% da populao e, 
em conjunto (tendo em conta o nmero presumvel de irregulares) no 
supera os 2,8%. Isto no impede que, tambm no caso italiano, essa 
populao esteja hoje sujeita a fenmenos de concentrao que lhes 
acrescentam a visibilidade, contribuindo para uma percepo em 
termos enfatizados e problemticos dos processos de in-grao. Nas 
cidades italianas, por outro lado, a concentrao verifica-se, 
tendencialmente, nas partes degradadas dos centros histricos e das 
reas sencentrais, por vezes nas proximidades das estaes 
ferrovirias, que tambm representam um lugar de encontro e 
intercmbio para alguns grupos tnicos imigrados. Nas cidades 
industriais do Norte, os iinigrados extracomunitrios parecem mover-
se, pelo menos em parte, dentro dos prprios cenrios urbanos que -

um quarto de sculo antes - foram o primeiro ponto de abordagem das 
correntes migratrias provenientes do Meio-Dia.

5. 1. 5. Dinmicas e medidas da segregao

Tanto nas cidades americanas como nas europeias, o afluxo de 
populao de imigrao recente de contextos de baixo desenvolvimento 
tende a ceder o lugar a fenmenos de segregao, que se tomam 
visveis, pelo menos, a

partir do momento em que a presena dos in-grados supera um limite 
dimensionvel mnimo.

A problemtica dos fenmenos de segregao, por outro lado, no 
coincide apenas com o tema das imigraes mais recentes. Na 
realidade,

174

refere-se a uma variedade de processos que envolvem grupos sociais de 
vrios tipos. No  por acaso que a anlise emprica e a 
interpretao desses fenmenos representam um dos captulos mais 
amplos de toda a sociologia urbana, especialmente no respeitante  
americana. Por conseguinte, dentro deste captulo, consagrou-se 
particular interesse a dois tipos de segregao (e  potencial 
correlao que existe entre eles): a de base tnica - e, portanto, 
fundada nas diferenas relativas s tradies, costumes e estilos de 
vida de grupos de diferente origem tnica e geogrfica - e a 
socioeconmica - e, por conseguinte, fundada nas diferenas de 
rendimento e de estatuto social.

Tradicionalmente, no estudo da segregao tnica empregaram-se dois 
esquemas interpretativos, de diferente provenincia terica.

1. O primeiro esquema deriva directamente da abordagem dos tericos 
da escola clssica de Chicago (Burgess, 1928). Segundo essa linha, a 
segregao de um grupo tnico , fundamentalmente, uma funo do 
estatuto social predominante no seu interior. Com efeito, de incio, 
um grupo de nova imigrao tende a situar-se nos degraus mais baixos 
da escala social e  obrigado a ocupar os bairros mais degradados e, 
portanto, mais econmicos, que na cidade americana se encontram, na 
maioria dos casos, nas reas centrais. Por esse motivo, estes bairros 
tomam-se locais de segregao tnica. Contudo, na medida em que os 
emigrados comeam a aumentar os seus rendimentos, uma parte deles 
desloca-se para reas mais vantajosas, quebrando a opacidade do grupo 
e iniciando o processo de disperso. Com o passar do tempo, a 
disperso completa-se - o grupo precedentemente segregado funde-se no 
cadinho urbano (o meltingpot) e toma-se parte integrante da sociedade 
anfitri.

2. O segundo esquema  designado por modelo do estatuto tnico e 
desenvolveu-se a partir dos anos 60 e 70 (Nowak, 1971; Kantrowitz, 
1973). Nesta interpretao, os factores tnicos desempenham um papel 
independente dos econmicos: um grupo etnicamente homogneo pode 
manter a sua opacidade, mesmo quando o rendimento mdio de que dispe 
aumenta, porque pode desejar conservar a sua identidade e traos 
culturais intactos. Se  este o caso, superando um determinado limte 
dimensional, o grupo pode dotar-se de formas organizativas e 
instituies autnomas (escola, lugares de culto, actividades 
econmicas) que favorecem uma defesa da sua cultura nos confrontos 
com os riscos de assimilao  cultura dominante. A estes factores 
endgenos pode acrescentar-se, como factor endgeno reforador, a 
rejeio da cultura minoritria por parte da maioritria. De qualquer 
modo, a disperso residencial no representa de forma alguma o xito 
predefinido de um percurso integrativo.

A ttulo de comentrio, pode dizer-se que, enquanto o primeiro 
esquema parece adaptar-se muito bem (mas com um realce excessivo dos 
aspectos

175

econmicos) aos percursos seguidos por grupos tnicos originrios da 
Europa, e de religio crist, eri-figrados na Amrica do Norte entre 
os sculos xix e xx, o segundo interpreta melhor as actividades de 
grupos de outra extraco tnico-religiosa - tanto na Amrica como na 
Europa -, em especial dos provenientes do Sul do mundo.

A respeito destes dois modelos, uma tentativa de oferecer uma 
interpretao menos sumria dos possveis xitos do confronto entre 
maiorias e minorias tnicas est contido em esquemas como o de Boal 
(1981). Entra a em jogo uma apreciao da amplitude da diferena 
cultural existente entre o grupo tnico de nova imigrao e o don-
nante. Na verdade, quanto mais ampla essa diferena, maior a 
dificuldade encontrada nos processos integrativos. Em funo disto, 
est prevista uma srie de xitos possveis.

1. Uma primeira possibilidade  a de que a diferena se torna de tal 
modo fraca, que no produz, nem mesmo no incio, uma concentrao 
residencial dos imigrados, para dar imediatamente origem  disperso.

2. Uma segunda possibilidade  a de que o processo de integrao 
comporte problemas de tal natureza que favoream uma concentrao de 
populao pertencente a um grupo tnico em algumas zonas da cidade, 
mas no ao ponto de tornar provvel o perdurar da concentrao para 
alm de um dado perodo de tempo (por exemplo, para alm da primeira 
gerao de in-grados). A concentrao temporria de um grupo tnico 
d lugar a uma colnia.

3. Finalmente, uma terceira possibilidade  a de as diferenas serem 
tais que no tomem possvel a sua remo o, a breve ou a mdio prazo, 
e favoream, portanto, uma concentrao relativamente estvel. Nestas 
con-

dies, podem-se distinguir ulteriormente dois casos:

a) a segregao  devida predominantemente  rejeio por parte dos 
outros grupos: a rea tnica resultante define-se como gueto 
involuntrio;

b) a segregao deve-se predominantemente ao desejo, por parte do 
prprio grupo, de manter a sua identidade - a rea resultante ser um 
enclave voluntrio.

Boal prev, finalmente, que colnias, guetos involuntrios e enclaves 
voluntrios possam ser internamente desagregados em subreas, 
distintas na base pelo rendimento dos ocupantes.

Embora oferecendo-se como um esquema sinttico, o agora exposto sofre 
ainda de um excesso de simplificao, porque se baseia numa 
valorizao global e implicitamente quantitativa das diferenas 
culturais entre dois grupos tnicos. Na realidade, essas diferenas 
situam-se, na maioria dos casos, a vrios nveis, a partir do momento 
em que os aspectos que compem a cultura dominante num grupo 
pertencem, ou a estratos profundamente interiorizados (como, por 
exemplo, a religio), ou a estratos

176

mais superficiais e mais facilmente modificveis. Isto toma mais 
difcil proceder a avaliaes unvocas sobre as distncias culturais 
e, por consequncia, menos fceis so as previses sobre as dinmicas 
da segregao residencial, as quais, acima de tudo, dependem de uma 
multiplicidade de factores diferentes dos considerados e sujeitos a 
variao rpida, como a

conjuntura econmica, as orientaes polticas predominantes nos 
grupos maioritrios e nos n-iinoritrios, a atitude das instituies 
pblicas, etc.

Para alm das abordagens interpretativas - que referimos at agora o 
estudo da segregao tem presente, numa mescla ainda mais 
consistente, uma multiplicidade de anlises empinicas com intenes 
descritivas. Prop e-se, na maioria dos casos, medir com indicadores 
apropriados a intensidade da segregao tnica e social em contextos 
urbanos dados e, por con-

seguinte, efectuar comparaes entre as situaes presentes em 
diversas cidades, ou ento entre as presentes na mesma cidade em 
limites temporais sucessivos.

Vale a pena notar como, neste tipo de anlise, o prprio conceito de 
segregao tende a assumir um significado mais brando e puramente 
descritivo - com efeito, j no subentende a presena de causas 
internas ou externas a um grupo que provocam o seu isolamento em 
reas urbanas particulares, mas limita-se a observar a presena, nas 
cidades escolhidas para exame, de esquemas de distribuio 
residencial que comportam uma maior mistura ou separao dos grupos 
sociais ou tnicos. Neste caso, portanto, a segregao  medida numa 
escala continua, que varia, idealmente, num mnimo, que se tem quando 
um grupo  equidistribudo nas diversas partes da cidade, e um 
mximo, que acontece quando  realmente isolado numa nica parte.

Os ndices de segregao (cf. esquema 5. 1) foram utilizados com 
frequncia nos Estados Unidos, para o estudo do comportamento 
residencial dos grupos tnicos. Seguidamente, na tabela 5. 2, 
mostram-se, a ttulo de exemplo, os ndices de segregao relativos a 
grupos tnicos compostos por indivduos de origem no inglesa, 
registados em algumas cidades americanas.

Pela tabela, pode verificar-se que, de um modo geral, a segregao 
residencial do grupo afro-americano  notavelmente superior  dos 
grupos de origem europeia e, que entre estes ltimos, existem grandes 
diferenas (alis, influenciadas pela poca mais ou menos recente em 
que se verificou a imigrao dos vrios grupos). Pode observar-se, 
por outro lado, a presena de ndices mais diversificados, com 
referncia aos mesmos grupos tnicos, com a variao das cidades 
consideradas.
Os ndices de segregao so por vezes calculados em relao a grupos 
socioprofissionais. Em particular, o clculo dos ndices existentes 
no mesmo contexto em diversos momentos resulta particularmente til 
para estabelecer

177

em que medida a diferenciao dos esquemas de distribuio 
residencial -

quaisquer que sejam as causas que a determinam - se modifica com o 
tempo. Tome-se o exemplo da tabela 5. 3, relativa  segregao dos 
grupos sociais nas metrpoles londrinas, em 1981 e 1991.

ESQUEMA 5. 1. Medio da segregao territorial

Na tradio sociolgica dos Estados Unidos, o conceito de segregao 
foi quase sempre obtido atravs de indicadores ligados  pertena 
tnica dos indivduos. Na Europa, ao invs, os fenmenos de 
segregao urbana estruturaram-se at agora predominantemente em 
torno do estatuto socioeconmico. Para recolher os fenmenos da 
segregao no seio das diversas reas da cidade, os socilogos 
europeus utilizaram portanto, entre outros, indicadores relativos  
composio por classes sociais (por exemplo, percentagem de 
operrios, de empregados, de empresrios e de profissionais livres no 
total da populao em condio profissional), por sexos (por exemplo, 
percentagem de mulheres ocupadas no total da populao),  qualidade 
da habitao (por exemplo, afluncia das habitaes, expressa em 
habitantes divididos pelo nmero de divises) e aos nveis de 
instruo da populao residente (por exemplo, percentagem de 
licenciados no total da populao).

Mais pormenorizadamente, entre os vrios indicadores sintticos 
utilizados pela investigao emprica para recolher esses processos 
no seio de um contexto urbano, podem citar-se, a ttulo de exemplo, 
os seguintes (Petsimeris, 1931).

1. O ndice de segregao avalia a segregao global de um grupo e 
exprime-se pela frmula:

IS=-L

2Z1   -y1.100

em que: x, representa a relao de um grupo localizado na zona i-
sima na populao global daquele grupo em toda a cidade;

y, representa a relao dos grupos restantes (y) localizados numa 
certa zona, no total dos grupos restantes em toda a cidade;

n  o nmero das zonas urbanas consideradas. Os valores deste ndice 
podem variar de O a 100, de um mnimo a um mximo de segregao de um 
determinado grupo em relao ao conjunto dos outros grupos presentes 
num determinado contexto urbano.

2. O ndice de dissimilaridade residencial avalia a incompatibilidade 
entre a localizao residencial de dois grupos. O que  expresso pela 
frmula:

k ID = _@

2       xi-zi   100

em que:

178

x, representa a relao de um grupo da zona i-sima na populao 
global do grupo em toda a cidade;

zi representa uma relao similar a x, para outro grupo; k  o nmero 
das zonas urbanas consideradas. Os valores variam de O 
(compatibilidade mxima) a 100 (incompatibilidade mxima).

TABELA 5.2. ndices de segregao de alguns grupos tnicos em cidades 
dos Estados Unidos

Afro-americanos Irlandeses    Italianos Russos

Chicago                          80            35          49        
64 Los Angeles                      78            17          25        
55 Miami                            71            17          29        
61 Nova lorque                      67            43          55        
49 Washington                       68            17          25        
51 Mdia de reas metropolitanas    75            23          37        
59

Fbnte:U.S. Bureau of Census, Census ofFbpulation andHousing, 1980, 
dt. inSchwab (1991, p. 385.

TABELA 5.3. ndice de segregao residencial dos grupos sociais na 
Grande Londres

Grupos sociais

1981

1991

Profissionais livres Quadros superiores Empregados Operrios 
qualificados Operrios semiqualificados Operrios no qualificados

34,7
22,7
10,5
14,5
22,4
36,3

44,8
26,1
15,6
30,5
33,8
47,7

Fonte: Persimeris (1995), p. 48.

Destes, d-dos pode deduzir-se um duplo tipo de informaes. Por um 
lado, mostram que os grupos sociais que se situam nos extremos da 
escala social apresentam fenmenos de segregao mais intensos 
(presumivelmente de carcter involuntrio no caso dos grupos 
inferiores e voluntrio do dos superiores). Por outro, evidenciam uma 
tendncia para o aumento da segregao durante os anos 80. Estes 
elementos realam processos cujo alcance no se limita certamente ao 
caso londrino, pois  comum a muitos outros contextos urbanos e 
metropolitanos. Se o primeiro aspecto corresponde a um fenmeno que 
podemos considerar intuitivo (so evidentes as razes

179

pelas quais os grupos de rendimentos mais elevados ou mais baixos 
esto concentrados em bairros homogneos, enquanto os de rendimentos 
inter- mdios se difundem maioritariamente no territrio urbano), o 
segundo evidencia um fenmeno que contesta muitas previses 
optimistas, formuladas nos princpios anos 80, com base nas quais a 
superao do modelo fordista de cidade implicaria a atenuao das 
barreiras sociais e residenciais. O que na realidade se verifica 
parece ser o contrrio: o efeito combinado da difuso residencial e 
do repovoamento selectivo dos bairros centrais , sobretudo, o de um 
incremento global da diferenciao entre os esquemas residenciais dos 
vrios grupos sociais.

Anlises deste tipo podem ser conduzidas, com maior pormenorizao, 
utilizando, em vez do ndice de segregao, o ndice de 
dissimilaridade residencial (cf. de novo O ESQUEMA 5. 1). Nesse caso, 
isso revela-nos no a separao residencial global de um grupo do 
resto da populao, mas o grau de dissimilaridade entre a 
distribuio residencial dos grupos presentes numa dada cidade e a de 
cada um dos grupos. Servindo-se desse ndice, um inqurito promovido 
com recurso aos dados censitrios de 1991 em Turim (IRES, 1995) levou 
a concluir que, nesse contexto urbano, existe um grau de 
dissimilaridade relativamente modesto entre empresrios, 
profissionais livres e dirigentes, enquanto  assaz consistente a 
dissimilaridade destes grupos com os empregados e - de uma forma 
muito mais ntida -

com os operrios. Alm disso - a provar a j recordada tendncia para 
o aumento das diferenciaes residenciais -, a dissimilaridade entre 
os grupos de estatuto elevado, os empregados e os operrios apresenta 
um acr scimo no confronto entre a situao observada em 1981 e a de 
1991.

5. 1. 6. As populaes urbanas

Todo o filo ecolgico da sociologia urbana, como j se observou, 
considera a cidade um ambiente peculiar, em que convivem populaes, 
que,

com a sua distribuio espacial e comportamento, definem a sua 
morfologia social. Nas abordagens tradicionais - e mesmo nas recentes 
derivadas das primeiras - faz-se quase sempre corresponder essas 
populaes a subconjuntos da populao residente na cidade, que a 
desenvolve uma actividade laboral e usufrui de servios. Por 
conseguinte, dos estudos baseados nessas abordagens obtm-se 
essencialmente uma morfologia scio-residencial - a cidade  
definida, nas suas articulaes, em funo da distribuio das 
habitaes dos diversos grupos sociais ou tnicos.

Pode, porm, observar-se que essa morfologia se reveste de um 
carcter esttico - oferece-nos, por assim dizer, a fotografia de um 
aglomerado urbano como se apresenta nas horas nocturnas, quando a 
cidade  predomi-

180

nantemente povoada pelos seus residentes e quase todos, ou a grande 
maioria, se encontram nos seus domiclios. Na realidade, porm, a 
articulao social da cidade muda em funo dos ciclos temporrios de 
vrios perodos
- quotidiano, semanal, sazonal. Durante o dia, por exemplo, a cidade 
enche-se de trabalhadores residentes nas reas circunvizinhas, 
enquanto nos fins-de-semana esto presentes indivduos que aparecem 
para usufruir de oportunidades comerciais ou recreativas. Em 
determinados perodos do ano, muitas cidades albergam fluxos 
tursticos ou pessoas interessadas em manifestaes especficas, 
actividades de reunio, festas, etc. A distribuio dos vrios tipos 
de populao tambm muda nitidamente em funo do tempo - por 
exemplo, os bairros centrais, que, durante o dia, so povoados 
intensamente por adeptos das actividades tercirias,  noite podem 
ser visitados sobretudo por pessoas interessadas nos espectculos ou 
nos locais de diverso. Algumas reas verdes, de dia frequentadas por 
crianas e aposentados, podem tomar-se, durante a noite, reas 
preferenciais de actividades como a prostituio ou o trfico de 
droga.

Para ter em conta esta variabilidade da morfologia urbana, ligada  
dimenso temporal e cada vez mais acentuada pelo aumento da 
mobilidade, foi proposta recentemente pelo socilogo italiano Guido 
Martinotti uma nova abordagem, que tem em comum com a tradio 
ecolgica o facto de sublinhar a importncia das popula es urbanas, 
mas que concebe estas ltimas de um modo totalmente diferente em 
relao  corrente principal daquele filo.

Segundo Martinotti (1993), as populaes urbanas so simplesmente 
agregados de indivduos com caractersticas comuns. No entanto, para 
interpretar o comportamento, no ocorre de modo algum supor que 
existem valores comuns ou formas de aco colectiva, como por vezes 
acontece no caso das classes sociais. Por outro lado, o estudo das 
populaes no se pe em

alternativa  anlise de classe, nem a outras formas de anlise 
baseadas em diferentes modalidades de agrupamento dos indivduos 
sociais.

Na proposta de Martinotti, as populaes urbanas so quatro e 
distinguem-se pela diferente relao que estabelecem com a cidade.

1. Os habitantes correspondem quela que habitualmente  considerada 
verdadeira populao urbana - residem na cidade, alm de que a 
trabalham (embora uma parte possa ter o posto de trabalho noutro 
lugar) e encon-

tram bens e servios para os seus consumos.

2. Os pendulares so indivduos que no residem na cidade, mas que a 
trabalham e, pelo menos parcialmente, usufruem das suas oportunidades 
de consumo.

3. Os city users so, ao invs, indivduos no residentes na cidade, 
onde no trabalham, mas que tm com ela uma relao baseada apenas no 
consumo dos bens e servios que a se encontram.

181

4. Finalmente, temos de reconhecer uma populao de dimenses 
reduzidas, mas de importncia crescente, representada pelos 
metropolitan businessmen. Trata-se de indivduos no residentes na 
cidade, mas presentes nela por determinados perodos de tempo por 
razes de negcios e interessados em encontrar oportunidades de 
consumo e divertimento particularmente qualificados.

Cada populao relaciona-se com a cidade de um modo peculiar e nela 
define os seus percursos. O usufruto da cidade por parte dos 
pendulares  modelado sobretudo por percursos casa-trabalho e pautado 
pelos ritmos quotidianos. Os city users so atrados pelas zonas mais 
ricas de oportunidades comerciais e frequentam-nas sobretudo nos 
espaos do tempo livre. Os homens de negcios metropolitanos 
deslocam-se incessantemente s principais metrpoles mundiais e, no 
interior de cada uma, habitam hotis e residncias, frequentam 
restaurantes e locais nocturnos, que por vezes se assemelham 
fortemente em todas as partes do mundo.

Ainda segundo Martinotti, o urbanismo moderno sofreu, ao longo dos 
tempos, uma evoluo que se pode ler atravs do filtro interpretativo 
das anlises das populaes. As principais formas urbanas que essa 
evoluo produziu podem classificar-se do seguinte modo:

1 . A cidade tradicional assiste sobretudo  presena dos habitantes 
e caracteriza-se por uma presena limitada de populao pendular.

2. A metrpole de primeira gerao representa uma evoluo sucessiva, 
em que o peso da populao pendular  muito maior e, portanto, quem 
habita e a trabalha compe duas populaes de dimenses anlogas e 
relativamente distintas entre si.

3. A metrpole de segunda gerao -lhe sequente e assiste  
afirmao da presena cada vez mais relevante dos city users, ao lado 
da de habitantes e pendulares.

4. Pode, por fim, supor-se o desenvolvimento - j em parte efectuado 
- de uma metrpole de terceira gerao, que, alm das trs primeiras 
populaes, albergaria significativamente grupos de metropolitan 
businessmen, cuj a presena caracterizaria partes inteiras de cidades 
numa medida excedente em relao  simples entidade numrica dessa 
populao.

A proposta de Martinotti abre um caminho interessante  anlise 
ecolgica, susceptvel de conduzir a uma classificao ainda mais 
analtica das populaes (por exemplo, distinguindo vrios tipos de 
city users, em funo dos seus motivos de frequentao da cidade ou 
da durao da sua presena) e ao desenvolvimento de mtodos de 
recolha sistemtica de informao a seu respeito. Assim, as imagens 
da morfologia urbana tenderiam a enriquecer - a par do estudo 
tradicional dos bairros com base na camada

182

social ou no grupo tnico predon-nante, poder-se-ia introduzir uma 
chave de leitura que considerasse: a) o peso relativo das populaes 
no residentes, na cidade ou em algumas das suas partes; b) as 
relaes que se instauram entre estas ltimas e a populao 
residente.

Para dar um exemplo, uma anlise conduzida segundo esta ptica 
poderia revelar-se eficaz no estudo de ambientes como os bairros 
universitrios de uma grande cidade. A, com efeito, uma populao 
residente - alm disso, estranha  universidade - interactua com uma 
populao de estudantes ou de professores pendulares, uma formada por 
estudantes alojados em

residncias ou penses e outra por jovens no universitrios atrados 
por oportunidades culturais ou de diverso ligadas  presena da 
universidade, e assim sucessivamente.

Tambm no campo da planificao urbana se pode revelar frutuosa uma 
abordagem baseada nas populaes, especialmente em circunstncias em 
que se gera um conflito na utilizao de espaos e servios urbanos. 
Um caso de particular interesse  o levantado pelo actual debate 
sobre a programao dos transportes em Veneza, uma cidade em que, 
como se sabe, se tem vindo a verificar uma situao competitiva entre 
vrias populaes (residentes, pendulares, turistas, city users), que 
tendem a aceder  cidade histrica em vrios meios de transporte e em 
diversas faixas horrias.

Uma regulamentao dos pontos de acesso em funo dos meios de 
transporte e dos horrios pode favorecer uma ou outra parte da 
populao, com vista a objectivos estratgicos, definidos pelo 
governo local (Toniolo, Zamboni, 1995).

5. 1. 7. Esquemas ecolgicos da cidade ps-industrial

A tentativa de definir os esquemas espaciais sintticos, para 
representar graficamente a estrutura morfolgica do espao urbano, 
foi perseguida com tenacidade - e alguma ingenuidade - pelos 
estudiosos directamente influenciados pela escola clssica de 
Chicago. Numa poca mais recente, porm, a pesquisa de esquemas 
sintticos dotados de valor universal foi em

larga medida esquecida, com vantagem de uma preocupao analtica - 
os

cultores da anlise ecolgica dedicaram-se sobretudo ao estudo da 
morfologia social nos diversos contextos urbanos, e isto graas  
disponibilidade de meios informticos que permitem manobrar 
instrumentos estatsticos relativamente sofisticados e aptos para 
elaborar uma grande quantidade de informaes. Entre esses 
instrumentos, o que, at agora, obteve maior difuso  a anlise 
factorial (ef. ESQUEMA 5. 2).

183

ESQUEMA 5. 2.
O mtodo da ecologia factorial

Nos anos 60, desenvolveu-se o mtodo da ecologia factorial para o 
estudo das cidades - a cidade era considerada um conjunto de partes 
diferenciadas, e o objectivo consistia em estudar as homogeneidades e 
desornogeneidades entre elas sob um perfil social e morfolgico, 
recorrendo a uma ampla gama de indicadores.

Embora com algumas possveis variantes, o mtodo da ecologia 
factorial prev as seguintes fases: a) desagregao do territrio 
urbano num n mero de subunidades funcionais com fins de 
investigao; b) definio de uma srie de indicadores (que 
constituram as variveis iniciais) de aspectos e caractersticas 
sociais da cidade e das subunidades atrs referidas; c) construo de 
uma matrizde dados (o verdadeiro inputda anlise), com as variveis 
(indicadores) antes identificadas; o) aplicao  matriz de um 
programa de anlise factorial (presente no software produzido por 
diversas firmas) que permite averiguar de que modo as diferentes 
variveis se associam e combinam entre si, constituindo indicadores 
mais complexos, os factores, o hierarquiz-los com base na sua 
diferente importncia explicativa do territrio estudado. Entre os 
factores tomados mais frequentemente em considerao, podem citar-se 
os relativos  distribuio dos grupos de rendimento, das tipologias 
familiares e residenciais e das minorias tnicas; e) clculo do peso 
dos factores para qualquer das subreas atrs definidas.

Foram conduzidas numerosas anlises factoriais nestes decnios - no 
s nos Estados Unidos mas tambm na Europa e Itlia - em metrpoles 
singulares, conf rontando entre si diversas cidades e estudando uma 
mesma cidade de modo longitudinal, ou seja, com vrios estudos  
distncia de anos para definir as principais mudanas no tecido 
social e espacial. Outros estudos de ecologia factorial concentraram-
se em mais cidades pertencentes  mesma sociedade ou a duas ou mais 
cidades de sociedades diferentes.

Alm disso, a prpria abundncia das informaes recolhidas por meio 
dos mtodos analticos agora evocados estimulou novamente, em anos 
recentes, programas de pesquisa cujo objectivo, embora no sendo 
propriamente o de propor esquemas sintticos da morfologia urbana, 
consiste pelo menos em verificar a actualidade dos esquemas clssicos 
ou formular avaliaes comparativas sobre factores de articulao do 
espao urbano.

Dentro desta linha, por exemplo, podemos citar o estudo de White 
(1987) ou o trabalho desenvolvido por Schwirian, Hankins e Ventresca 
(1990), que investigam a estrutura ecolgica de 318 cidades dos 
Estados Unidos, para verificar at que ponto o esquema de crculos 
concntricos de Burgess ainda pode explicar a morfologia social 
urbana. A sua concluso  que em quase metade dos casos ainda revela 
uma capacidade explicativa suficiente.

184

Tentativas para traar concluses mais amplas do confronto entre 
resultados de anlises factoriais desenvolvidas em diversos contextos 
foram efectuadas por, entre outros, Abu Lughod (1969), Rees (1979) e 
Knox (1987). Em princpio, estes trabalhos conseguem mostrar que, nas 
cidades dos pases desenvolvidos, os principais factores de 
diferenciao do espao residencial das mesmas so os que, j nos 
anos 50, a chamada escola da Social Area Analysis de Shevky e Bell 
(1955) definira, e que so: a) o estatuto social, que reflecte a 
distribuio residencial dos grupos socioprofissionais e deterrnina 
por vezes uma articulao da cidade em sectores; b) o estatuto 
familiar, que reflecte a diferente composio das famlias residentes 
nas vrias partes da cidade e, em muitos casos, d origem a um modelo 
de crculos concntricos; c) o estatuto tnico, que reproduz os 
fenmenos de concentrao dos grupos tnicos e, na maioria dos casos, 
assiste  produo de uma estrutura espacial por ncleos, ou seja, 
de pintas de leopardo.

Um quarto factor, que por vezes se revela significativo, est ligado 
 estabilidade ou  mobilidade residencial da populao nos diversos 
bairros ou ao facto de se comporem de uma populao crescente, 
estvel ou declinante no tempo.

Um uso um tanto diferente de esquemas ecolgicos da cidade  o que 
existe em alguns contributos dos anos 80 e 90, nos quais se procura 
definir uma marca hipottica da possvel estrutura residencial da 
cidade do futuro prximo. A, na verdade, o uso de modelos grficos 
simplificados no representa uma tentativa de generalizao de 
resultados empiricos, mas

 proposto como um meio para dar visibilidade e consistncia a 
imagens sociolgicas que tm como objectivo potencial as evolues da 
forma urbana.

Um exemplo deste tipo est contido no j citado trabalho de White 
(1987), em que se prev que a cidade americana do sculo XX1 se possa 
compor das seguintes entidades socioespaciais: a) o core, quase 
totalmente privado de funes residenciais e comerciais e rico de 
funes do tercirio superior e de actividades culturais; b) a zona 
de estagnao, ocupada por edifcios obsoletos  espera de renovaao 
urbana; c) as bolsas da pobreza e das minorias, por vezes colocadas 
na margem da zona precedente; d) os enclaves de elite, situados em 
reas exteriores ou nas reas de qualidade; e) as zonas da classe 
mdia, difundidas em largas partes do territrio urbano;

185

fi as reas das sedes institucionais, ou seja, os bairros em que  
forte a

presena de aglomerados pertencentes a instituies pblicas ou 
privadas, como hospitais, escritrios, universidades; g) os 
epicentros e os corredores, ou seja, as reas de desenvolvimento 
econmico exterior ao centro urbano, de forma compacta ou axial.

Como se pode ver, este exerccio de imaginao no passa de uma

extrapolao razovel de linhas de tendncia j operantes no contexto 
americano. Muito mais sugestiva e, de certo modo, visionria  a 
imagem que Davis (1992) nos oferece da cidade do futuro, num ensaio-
panfleto acessvel na prpria Intemet. Na realidade, Davis quer 
referir-se ao futuro de uma cidade bem precisa, Los Angeles, mas o 
modelo que expe - inspirado abertamente no da Chicago de Burgess - 
parece prestar-se, exactamente, como o esquema sociolgico daquela 
cidade, a uma interpretao mais universalista.

Para Davis, a Los Angeles do futuro  quase a encarnao de uma 
utopia negativa, uma representao negra que supera em cores de 
pesadelo as imagens de fico cientfica da mesma cidade (como a j 
evocada no

filme Blade Runner). Com efeito, nela, a morfologia social e a 
prpria forma da cidade so definidas no s pelos efeitos da 
especulao da urbanizao e pelas operaes fundirias promovidas 
por grandes grupos financeiros, mas tambm por uma nova fora capaz 
de modelar, de muitas maneiras, a estrutura ecolgica urbana: o medo. 
Noutros termos, na imagem de Davis, as partes da cidade distinguem-se 
no s pelas diferenas de classe e de composio tnica, que fazem 
dos bairros e dos subrbios outras tantas subcomunidades muito pouco 
comunicantes, mas tambm pela ameaa  segurana fsica dos cidados 
que contm e ainda mais pela variedade das respostas a essas ameaas, 
predispostas de modo quase obsessivo pelas adrrnistraes pblicas, 
da poderosa polcia urbana e por iniciativas privadas sempre menos 
sujeitas a laos de controlo.

Assim, a morfologia urbana esboada pelo socilogo californiano prev 
tipos invulgares para a literatura do filo ecolgico. Existem, com 
efeito, entre as outras, reas como as zonas de conteno, nas quais 
se juntam indivduos sociais considerados potencialmente perigosos 
(como os sem-abrigo), ou as zonas da vigilncia de bairro 
(neighbourhood watch), em

que se executam programas de acordo com a polcia local, que prevem 
um

papel activo e organizado dos cidados na vigilncia e represso dos 
crimes. Mais para o exterior, encontram-se os bairros ricos fechados 
por can-

celas e dotados de acesso controlado por polcias privadas e zonas 
residenciais ou tercirias de construo nova, definidas como 
simuladores urbanos, porque reproduzem o ambiente urbano consolidado 
reconstrudo artificialmente em zonas consideradas mais seguras (o 
artifcio  levado ao

ponto de recorrer a expedientes para simular a patine do tempo em 
edifcios acabados de construir). Para alm dos confins da ampla rea 
urbanizada,

186

estendem-se asfranjas txicas, onde se concentram actividades de 
impacte fortemente negativo no ambiente natural (indstrias 
inquinantes, depsitos de detritos, descargas radioactivas, etc.).

Embora inspirado num pessimismo apocalptico, talvez devido ao facto 
de ter sido escrito a pouca distncia dos embates tnicos de Los 
Angeles de
1992, o ensaio de Davis traz a primeiro plano fenmenos de modo algum 
irrelevantes ou improvveis - a devastao ambiental das zonas 
adjacentes s reas metropolitanas  visvel em muitos pases (entre 
os quais a It lia), e a tentativa de conter fenmenos perigosos em 
zonas especficas verificou-se tambm em cidades europeias (por 
exemplo, em Zurique tentou-se, durante alguns anos, linfitar o espao 
e o consumo de droga a uma rea especfica). De um modo mais geral, 
parece agora evidente que a percepo mais ou menos realista da 
crescente insegurana na cidade e a procura de medidas para a 
enfrentar so factores que influem de forma cada vez mais 
avassaladora no comportamento e nas prprias opes residenciais dos 
habitantes.

5. 2. Novas abordagens  ecologia urbana

5. 2. 1. Os modelos das dinmicas ecolgicas

Nas formas de anlise ecolgica praticadas pelos socilogos - nas 
analisadas at aqui -, o estudo das populaes serve-se na maior 
parte das vezes de indicadores estatsticos apropriados, tratados com 
instrumentos de elaborao mais ou menos apurados, embora no faltem 
as abordagens puramente qualitativas, como as baseadas em esquemas 
grficos. Por outro lado, quase nunca acontece o socilogo 
interessar-se por uma modelizao formalizada e dinmica das relaes 
entre as populaes que compem uma cidade, ou seja, que se sirva de 
modelos matemticos aptos para simular a distribuio das populaes 
e a sua evoluo no tempo.

Como se compreende, at agora a tentativa de simular atravs de 
formalismos matemticos o funcionamento de um sistema urbano, nos 
seus aspectos sociais, enfrentou a enorme complexidade de semelhante 
sistema e a dificuldade em introduzir avaliaes numricas de todas 
as suas principais variveis, sem recorrer a simplificaes 
inaceitveis.

Nos estudos urbanos, a modelizao matemtica  utilizada muito mais 
largamente para a simulao da dinmica econmica - nesse caso, a 
possibilidade de avaliar quantitativamente as variveis recorrendo  
unidade de medida dos valores monetrios torna a tarefa relativamente 
mais fcil (no entanto, nem todos concordam quanto  eficcia desses 
instru-

187

mentos, sobretudo em sede produtiva). Alm dos modelos de base 
econmica, existem outras tentativas de representao matemtica, que 
suscitaram particular interesse a partir dos anos 80. Pretendemos, 
aqui, referir-nos a modelos da evoluo urbana de base ecolgica, ou 
seja, aqueles em que nos interessamos pelas rela es e dinmica 
entre populaes urbanas, entendendo estas ltimas num sentido 
anlogo ao que considermos at aqui. Embora estes modelos sejam, em 
geral, elaborados por gegrafos quantitativos, que raramente se 
referem explicitamente  tradio de Chicago, isso no impede que se 
revistam de um notvel interesse para o socilogo, porque desenvolvem 
autonomamente uma potencialidade que naquela tradio era implcita. 
Precisamente por isso, considera-se oportuno proceder aqui a uma 
rpida aluso a um deles, elaborado por dois gegrafos americanos 
peritos no campo da planificao urbana, Dendrinos e Mullally (1985).

O modelo em causa deriva de uma tradio de estudos biolgicos, 
baseada em trabalhos de Lotka (1924) e Volterra, para simular a 
dinmica de duas ou mais populaes animais num dado ambiente, como, 
por exem- plo, duas espcies de peixes num ambiente lacustre. Na 
verso em referncia, naturalmente, as espcies em discusso devem 
entender-se como grupos sociais - ou outros tipos de populaes - 
presentes no ambiente urbano.

O modelo estabelece que o acrscimo ou decrscimo da consistncia 
numrica das duas populaes co-existentes na cidade se verifica em 
funo das taxas de crescimento prprias de cada uma, mas tambm das 
relaes ecolgicas que se estabelecem entre uma e outra. Em termos 
formais, o modelo exprime-se com as seguintes equaes:

dx / dt = x (k + ax + by) dy / dt = y (1 + cx + dy)

em que: x e y so as duas populaes consideradas; dx / dt e dy as 
derivadas em relao ao tempo das duas populaes (de que  deduzvel 
a tendncia para o acrscimo ou decrscimo no tempo da sua

consistncia numrica); k, 1, a, b, c, d so parmetros.

Entre os parmetros do modelo, em particular, k, 1, a, d tm sempre 
sinal positivo e indicam, para nos exprimirmos sumariamente, as taxas 
de reproduo da populao, ou seja, a dinmica que depende dos 
seus ca-

racteres intrnsecos. Os parametros b e c, ao invs, tanto podem ter 
sinal positivo como negativo e indicam as modalidades em que a 
dinmica de uma espcie condiciona a da outra.

188

Com base no sinal que estes ltimos parmetros assumem, nos casos 
especficos, podem ocorrer as seguintes relaes ecolgicas entre as 
duas populaes:

b            c

o        + +        o

o o o        o

relao simbitica relaes comensalistas

relaes predador-presa

relaes amensalistas

relao de isolamento relao competitiva

Aos diversos tipos de relao pode atribuir-se um significado 
sociolgico, que, naturalmente, variar com a variao das aplicaes 
do modelo e, em particular, em funo da natureza das populaes x e 
y, nos casos especficos, e do contexto urbano em que se situam.

Em linhas gerais, porm, pode afirmar-se que uma relao : a) 
simbitica quando existe uma sinergia entre as duas populaes, ou 
seja, quando uma tira partido da presena da outra (por exemplo, 
poderia ser o caso de dois grupos sociais que desenvolvem funes 
complementares); b) comensalista quando uma populao tira partido da 
presena da outra, sem todavia lhe produzir vantagem ou dano (por 
exemplo, um grupo de nova imigrao que se utiliza de servios de que 
j dispe a populao residente sem que a funcionalidade dos mesmos 
se modifique); c) predador-presa quando uma populao tira partido da 
presena da outra, enquanto esta ltima sofre um dano (o que pode 
representar situaes em que uma populao instaura relaes de 
explorao nos confrontos com outra); d) amensalista quando uma 
populao sofre danos com a presena de outra, sem que esta receba 
vantagens nem danos (por exemplo, se uma populao pobre se instala 
nas margens de um bairro rico, a deste ltimo pode sentir-se afectada 
por efeitos potenciais de desqualificao simblica do prprio 
bairro, sem que a pobre obtenha qualquer vantagem); e) de isolamento 
quando a presena mtua entre duas populaes  indiferente a ambas; 
J) competitiva quando ambas as populaes sofrem danos da presena da 
outra (por exemplo, a presena mtua de dois grupos tnicos rivais 
num bairro pode gerar uma situao de conflito com desvantagem para 
ambos).

No modelo aqui exposto sinteticamente, faz-se intervir conceitos de 
derivao biolgica (como simbioses ou comensalismo) que j tinham 
sido

189

utilizados, metaforicamente, por socilogos do filo ecolgico. 
Contudo, como se pode observar, neste caso a anlise  conduzida 
sistematicamente e o recurso ao formalismo matemtico pode permitir, 
se no outra coisa, uma avaliao mais pontual das consequncias das 
variaes de sinal e de intensidade dos diversos parmetros - pode 
permitir, por exemplo, compreender com maior preciso quais so as 
consequncias - nem sempre intuitivas - de um aumento ou din-iinuio 
dos parmetros que exprimem o

condicionamento recproco entre duas populaes.

5. 2. 2. A cidade como sistema auto-organizado

As tentativas de uma modelizao matemtica da dinmica ecolgica da 
cidade representam apenas uma das mltiplas linhas de pesquisa hoje 
presentes no campo das cincias urbanas e regionais inspiradas num

paradigma biolgico e de evoluo. Essas linhas reforaram-se a 
partir de meados dos anos 80 e adquiriram relevo a partir da difuso 
de conceitos nascidos dos progressos da investigao em sectores das 
cincias biolgicas (pense-se, por exemplo, no estudo dos sistemas 
biolgicos auto-referenciais de Varela e Maturana), mas tambm pelas 
disciplinas fsico-qumicas (a elaborao de Prigogine e da escola de 
Bruxelas sobre sistemas dissipativos) e matemticas (a teoria das 
catstrofes, das dinmicas caticas, dos fuzzy sets, dos fractais), 
assim como tentativas de generalizao, de renovao da teoria 
sistmica e de redefinio epistemolgica, de trabalhos de autores de 
diversas extraces cientficas, como Atlan, von Frster, Dupuy, 
Morin, Le Moigne e outros.

As tentativas de anlise terica e modelizao da cidade, orientadas 
por esses desenvolvimentos cientficos, no configuram - pelo menos, 
de momento - um conjunto terico coerente, mas antes uma gama 
heterognea de estudos de vrias relevncias. Tambm esboam novas e 
fascinantes imagens dos sistemas urbanos, s quais os socilogos 
urbanos at agora no prestaram a ateno adequada

Os aspectos salientes que caracterizam estas representaes dos 
sistemas urbanos podem definir-se do seguinte modo (Rabino, 1995):

1. A cidade  um sistema complexo, que deriva da interdependncia de 
numerosas interaces entre actores. Essa complexidade faz com que,

1 Luhmann , sem dvida, um dos poucos socilogos que atribuem o peso 
justo aos
desenvolvimentos tericos mencionados no texto. No entanto, a 
abordagem que prope de uma transposio em chave sociolgica desses 
conceitos - que no se deve considerar a

nica possvel (Mela, 1990) - parece obstacularizar a aplicao a 
sistemas territorialmente delimitados, como a cidade.

190

ao nvel da totalidade urbana, se manifestem propriedades globais que 
no estavam presentes ao nvel das interaces singulares.

2. A apario inesperada dessas propriedades tem origem na relativa 
autonomia que, embora na interdependncia, se detern-na entre o 
nvel local (aquele onde se situam as interaces singulares) e o 
global (que envolve a totalidade do sistema).

3. A este ltimo nvel, em particular, o sistema urbano evidencia 
propriedades auto- organi zati vas, ou seja, est em condies de 
auto-elaborar a sua configurao interna por forma a garantir (pelo 
menos num intervalo temporal de longo perodo) a manuteno da sua 
identidade.

4. A auto-organizao no implica, porm, que o sistema urbano tenda 
para uma condio de equilbrio. Pelo contrrio, evolui de uma 
condio de instabilidade estrutural para outra, seguindo urna 
trajectria evolutiva irreversvel, que, em determinados momentos, 
pode comportar o alcance de pontos de bifurcao, ou seja, pontos 
em que se colocam alternativas radicais de desenvolvimento.

Os aspectos agora elencados (sobretudo os dos pontos 3 e 4) 
distinguem esta representao tambm na confrontao de precedentes e 
mais tradicionais modelos sistemticos da cidade, orientados para um 
paradigma mecnico e ciberntico; ao contrrio, repropem um 
paradigma biolgico e

evolutivo, segundo uma abordagem que at agora foi definida como neo-
neodarwinista (Casti, 1989).

Com base na orientao paradigmtica agora mencionada, propuseram-se 
modelos de simulao do comportamento evolutivo de uma cidade dotados 
de complexidade notvel. Em alguns casos, tentam fazer intervir e

manter sob controlo numerosas variveis ligadas  distribuio das 
actividades industriais e tercirias, com a mobilidade e a 
distribuio residencial dos grupos sociais. Nesta linha, esto 
particularmente adiantados os trabalhos de Peter Allen e seus 
colaboradores.

Alguns tipos de modelos de simulao tentam reproduzir, atravs de 
processos que recorrem  elaborao electrnica, os percursos 
evolutivos que geram a forma urbana e as mobilidades de uso do solo. 
Pertencem a este tipo, entre outras, as simulaes que se servem dos 
autmatos celulares. Um autmato celular consiste num conjunto de 
clulas, cada uma das quais, no

incio da simulao, se encontra num determinado estado qualitativo. 
Para dar um exemplo, o conjunto de clulas pode ser considerado uma 
grelha composta por casas quadradas. Se ela, no seu conjunto, 
representa o territrio em que se desenvolve um aglomerado urbano, 
uma casa indica uma pequena superfcie. No momento inicial da 
simulao, o estado de cada clula caracteriza-se por um dos dois 
possveis valores de uma varivel binria -

por exemplo, ser um espao edificado ou no edificado. A partir 
desse momento, a simulao desenrola-se atravs de mltiplos ciclos, 
ou interaces.

191

A cada interaco, o estado de cada clula pode permanecer 
inaltervel ou

mudar em funo do das clulas vizinhas (para retomar o exemplo 
precedente, podemos estabelecer a regra segundo a qual uma clula de 
espao no edificado se transforma em espao edificado se pelo menos 
duas clulas contguas se encontram j nesse estado). A configurao 
conjunta do sistema muda assim em cada interaco - em cadncias 
peridicas, podemos controlar as formas urbanas, ou seja, os esquemas 
de ocupao do solo que se definem desse modo, e estudar o seu 
percurso evolutivo.

Em, alguns casos, maneiras de proceder do tipo aqui esquematizado 
foram empregadas para enfrentar problemas clssicos da sociologia de 
na-

tureza ecolgica. Por exemplo, Portugali, Benenson e Omer (1994) 
empregaram este mtodo para simular a distribuio espacial de 
subcomunidades num espao urbano com base nas suas preferncias para 
tipos especficos de ambiente social.

Apesar do avano terico e do progresso metodolgico, ainda existe 
uma larga divergncia entre as exigncias de simplificao, que devem 
ser satisfeitas para poder construir e aplicar esses modelos, e a 
exigncia de ter em conta uma pluralidade de factores e graus de 
liberdade do comportamento individual, tpica da sociologia. Todavia, 
nas posies mais coerentes, h plena conscincia do facto de que, 
para fazer avanar esta linha de pesquisa, tem de se conseguir 
satisfazer ao mesmo nvel ambas as exigencias citadas. Refiramos como 
testemunho a seguinte afirmao de Allen (1995, p. 42): Temos de 
tentar encontrar um sistma que, embora desenvolvendo coerncia 
suficiente para funcionar, conserve liberdade individual e 
diversidade microscpica suficientes para oferecer uma reserva de 
adaptabilidade e inovao de modo que o sistema possa evoluir e 
reestruturar-se continuamente perante a mudana.

5. 3. A cidade e o seu ambiente

5. 3. 1. Ambiente exterior e ambiente interior

Nas abordagens at aqui exarriinadas, os conceitos de derivao 
ecolgica aplicaram-se nos estudos urbanos atravs de uma 
transposio metafrica -

considerou-se, em suma, a cidade como sefsse um sistema dotado de 
propriedades anlogas s de um ecossistema natural, justificando 
assim o uso de esquemas conceptuais e modelos matemticos j 
experimentados em biologia.

No entanto, em tempos mais recentes, reconhece-se que, para alm de 
qualquer metfora, a cidade constitui realmente um tipo particular de 
sistema

192

biolgico, com caractersticas fortemente problemticas. Com efeito, 
perante problemas de natureza indita suscitados pelo inquinamento, 
congestionamento do trfego, escoamento dos detritos, etc., no s os 
estudiosos mas tambm largos sectores da opinio pblica foram 
obrigados a tomar conscincia da interdependncia que subsiste entre 
a cidade e os ecossistemas em que ela se apoia. Toma-se, pois, cada 
vez mais evidente o facto de que a cidade, embora na sua extrema 
complexidade e capacidade auto-organizativa, no pode existir e 
desenvolver-se sem utilizar um conjunto limitado de recursos 
ambientais nem sempre renovveis. Esta necessidade configura uma 
relao extremamente delicada entre os sistemas urbanos e os 
ecossistemas, de que aqueles recursos fazem parte. Por um lado, esses 
ecossistemas parecem vulnerveis ante o impacte do desenvolvimento 
das sociedades urbanas - para alm de alguns limites crticos, o seu 
equilbrio pode ser alterado irreversivelmente. Por outro, a cidade  
vulnervel perante a crise do seu ambiente natural, dado que esta 
comporta o esgotamento dos recursos e a alterao das condies para 
a reproduo das prprias sociedades urbanas.

A conscincia da fragilidade do equilbrio cidade/ambiente natural 
produz efeitos importantes nos movimentos sociais, assim como (talvez 
com uma velocidade inferior  necessria) nas polticas urbanas. Ao 
mesmo tempo, porm, introduz factores de crise e impulsos para a 
renovao nas cincias da cidade e, em particular, da sociologia 
urbana. Com efeito, torna-se claro que, em larga medida, a bagagem 
terica das cincias sociais se consolidou num clima cultural 
fortemente influenciado pelo positivismo e por um optin-ismo 
injustificado sobre as potencialidades da cincia e da tecnologia, 
como instrumentos capazes de resolver qualquer problema levantado 
pela evoluo social e, portanto, tambm os suscitados pelo 
crescimento urbano. Para a sociologia urbana, isto comportou uma 
subavaliao sistemtica do problema da relao cidade/ambiente 
natural,  excepo de alguns files crticos (que, no entanto, em 
muitos casos, inseriam as preocupaes pela Natureza num quadro de 
pessimismo filosfico global sobre a modemidade), a anlise 
sociolgica da cidade ocupou-se quase sempre de outras questes, ou 
ento exaltou o papel do desenvolvimento urbano como factor de 
progresso e de domnio sobre a Natureza?, isentos de perigos.

Somente nos ltimos decnios se comeou a desenvolver uma ateno 
crescente dos socilogos pelo ambiente, o que produziu estudos 
directamente respeitantes  cidade (Davico, 1994). O risco que se 
desenha, contudo,

2 Um aspecto desta atitude nos confrontos da Natureza  o 
desinteresse pelas espcies no humanas - da a acusao de 
antropocentrismo que alguns estudiosos dirigem hoje s cincias da 
cidade (Wolch, West, Gaines, 1995).
193

 o de que a nova orientao acabe por dar vida apenas a uma 
disciplina adicional, paralela  sociologia urbana e capaz de 
produzir nesta ltima unicamente efeitos modestos de retroaco.

Como no  este o lugar apropriado para discutir a fundo o tema 
acabado de mencionar, vamos somente esboar um esquema simples para 
salientar as mltiplas modalidades com que as sociedades urbanas 
estabelecem relaes de interdependncia com o seu ambiente. A esse 
respeito, a figura 5. 2 pode constituir uma indicao til.

O ponto de partida deve encontrar-se numa concepo unitria da 
Natureza - as sociedades urbanas (como qualquer outro tipo de sistema 
social) no so nada de diferente ou contraposto  Natureza, mas uma 
sua parte integrante, embora dotada de grande especificidade e 
autonomia.

No seio da Natureza - ou, para ser mais preciso, do ecossistema 
terrestre - distingue-se a esfera a que pertencem os sistemas vivos e 
a da natureza inanimada. Na primeira, podemos reconhecer uma 
multiplicidade de sistemas, entre os quais salientamos os formados 
por indivduos pertencentes  espcie humana e os relativos a outras 
formas de vida (animal, vegetal, formas de vida microscpica). No 
entanto, na natureza inanimada podemos distinguir vrias esferas: a 
atmosfera, que constitui predominantemente a componente gasosa do 
ecossistema, a hidrosfera, composta pelo conjunto das guas; a 
litosfera, constituda pela parte slida n o viva (Gamba, 
Martignetti, 1995).

A espcie humana caracteriza-se por uma complexidade evolutiva 
particular -  formada por indivduos dotados de caractersticas 
biolgicas especficas (como qualquer outra espcie) transirissveis 
por via gentica, mas tambm capazes de desenvolver modalidades 
simblicas de controlo do seu ambiente e de comunicao, transn-
ssveis por via cultural. A propsito da espcie humana, podemos, 
portanto, distinguir, com fins analticos - seguindo uma tradio que 
remonta  escola de Chicago -, uma esfera bitica e uma esfera 
cultural. A interaco entre estas ltimas  de tal modo estreita 
que, na maioria das vezes, torna indistinguveis os limites entre 
elas. De qualquer modo, a definio das suas relaes  um n crucial 
para as cincias humanas e alvo de uma controvrsia epistemolgica de 
longa durao. Em todo o caso, mesmo dessas interaces surgem os 
sistemas sociais humanos, cuja possibilidade de existncia e 
desenvolvimento depende, pois, tanto dos processos que permitem a 
sobrevivncia biolgica dos indivduos e a reproduo do seu 
patrimnio gentico como dos que presidem  transmisso e elaborao 
da cultura.

De resto, estes processos baseiam-se no uso de recursos exteriores  
espcie humana - recursos esses que, por conseguinte, so por assim 
dizer colocados  disposio da natureza inanimada e das formas de 
vida no humanas. A disponibilidade destes recursos est, porm, por 
sua prpria

194

FIGURA 5.2. Relao sistemas sociais/ambiente

natureza, sujeita a vnculos: tanto a natureza viva como a inanimada 
esto subordinadas a leis sistmicas de alta complexidade, cuja 
alterao produz consequncias susceptveis de afectar as bases da 
vida humana. O conjunto de condies, recursos e vnculos que a 
Natureza impe ao desenvolvimento dos sistemas sociais humanos 
representa, para estes, o ambiente exterior.

Mas o desenvolvimento das sociedades humanas, embora dependendo do 
ambiente natural exterior, contribui para o transformar 
incessantemente -

195

em quase todos os seus aspectos, a conformao do ambiente que 
circunda as sociedades humanas, apesar de no se apresentar 
completamente artificializado,  produto de um processo de 
antropizao, ou seja, de modificaes, intencionais ou no, por 
parte do homem.

Falando do ambiente natural, qualificou-se at agora como exterior, 
assumindo como termo de referncia as sociedades humanas. Isto serve 
para o distinguir de outro tipo de ambiente que, ao contrrio, se 
poderia considerar interior, sempre do ponto de vista dos sistemas 
sociais. O ambiente interior est em relao com a esfera bitica, 
constitudo, por assim dizer, pelo material biolgico com que se 
constroem os sistemas sociais, ou seja, os elementos que caracterizam 
a especificidade biolgica e psquica da espcie humana. Em 
referncia aos sistemas sociais, estes elementos apresentam-se como 
um ambiente efectivo - no so reduzveis aos prprios sistemas 
sociais nem podem ser manipulados livremente por eles (embora possam 
ser condicionados nalguma medida). Por outro lado, trata-se de um 
ambiente interno, porque influi nos sistemas sociais ao condicionar 
as caractersticas biopsquicas do organismo humano, que, atravs do 
seu comportamento, d existncia aos sistemas sociais.

Se se pretende precisar ulteriormente os aspectos que definem o 
ambiente interno, pode definir-se dois nveis distintos (ainda que 
inter-relacionados): a) aspectos respeitantes  natureza biolgica da 
espcie humana; estrutura gentica, conformao e potencialidade do 
corpo humano, modalidades reprodutivas, etc.; b) aspectos 
respeitantes  natureza psquica da espcie humana: constantes 
relativas ao comportamento instintivo e inato.

Se se tomar em conta o esquema agora ilustrado, observaremos em 
quantas maneiras diferentes a considerao das variveis ambientais 
pode intervir para qualificar os problemas tpicos da sociologia 
urbana.

No tocante ao tema do ambiente exterior, temos de admitir que a 
cidade se apresenta como um sistema social problemtico. Com efeito, 
dada a grande concentrao de populaes, fbricas e tecnologias que 
comporta, a cidade absorve de modo particularmente acentuado os 
recursos do ambiente externo e provoca nele modificaes.

O estudo destes problemas, embora pertinentes a competncias 
diferentes das sociolgicas, no pode permanecer alheio  sociologia. 
Basta notar o facto de que os riscos ambientais no atingem de forma 
indiferenciada todos os indivduos urbanos, mas apresentam vrias 
gradaes, em funo das classes sociais, das actividades laborais, 
dos estilos de vida, e assim sucessivamente.
No que se refere ao tema do ambiente interno, deve salientar-se que 
os factores relativos aos caracteres instintivos do comportamento tm 
um peso

196

no desprezvel na definio da forma dos sistemas urbanos e na sua 
modalidade de funcionamento. Dickens (1990) ilustra alguns, como o 
instinto de conservao da espcie, a agressividade, os impulsos 
inatos para a posse, a tendncia para a filiao em grupos, a noo 
instintiva do territrio. Alm disso, mostra em que campos da vida 
urbana esses factores se devem ter na devida considerao. Ao mesmo 
tempo, lamenta o facto de a sociologia urbana ter terminado por 
descurar as constantes biopsquicas do comportamento, enquanto, no 
plo oposto, as disciplinas que se tornaram objecto especializado de 
estudo (como a etologia) tendem a explicar os seus efeitos de um modo 
demasiado simplificado, esquecendo as complexas mediaes culturais 
atravs das quais essas constantes influenciam a vida social urbana.

5. 3. 2. Qualidade de vida e sustentabilidade da cidade

Poderamos abordar muitos argumentos para ilustrar a interseco 
entre os temas da sociologia humana e os que so prprios da anlise 
sociolgica do ambiente. Entre estes, parece til sublinhar dois em 
particular, de resto ricos em ligaes recprocas, para os quais 
convergem, nestes anos, numerosos contributos.

O primeiro diz respeito ao problema da definio e medio da 
qualidade da vida urbana. As questes de fundo que animam o debate 
podem exprimir-se do seguinte modo: que factores, relativos ao 
ambiente urbano e s potencialidades que este oferece  vida social, 
contribuem para definir o grau de bem-estar que o ambiente transmite 
aos habitantes? Alm disso, admitindo que esses factores so 
identificados, como  possvel medi-los?

Como se pode depreender, a primeira pergunta levanta um problema 
teoricamente comprometedor, que envolve, de algum modo, um juzo de 
valor sobre quais so as condies desejveis para os indivduos que 
vivem no contexto urbano e lhes permitem sentir, vivendo nele, uma 
condio de bem-estar. A segunda pe um problema de ordem 
metodolgica, relativo aos instrumentos apropriados para medir quer a 
presena dessas condies, em termos objectivos, quer o modo como 
influem nas percepes subjectivas, tendo em conta as diferenas que, 
a esse propsito, possam subsistir entre os cidados com base no 
gnero, idade, nvel de instruo, condies sociais, etc.

Para definir a lista das condies ambientais de que depende a 
qualidade da existncia, individual e colectiva, recorreu-se, em 
alguns casos, a tentativas de classificao das necessidades humanas 
fundamentais, a que se fizeram corresponder as reas sociais, ou 
campos institucionais que presidem  sua satisfao. Por conseguinte, 
para cada um deles, definiram-se
197

indicadores individualizados, aptos para medir a performance, isto , 
a eficcia com que se encontram em condies de satisfazer a 
necessidade.

A ttulo de exemplo, podemos citar os trabalhos da OCSE e a 
elaborao de uma lista de preocupaes sociais obtidas de uma 
anlise da legislao social dos pases membros e correspondentes a 
reas que intervm na

definio do bem-estar (OCSE, 1973).

A tarefa de avaliao da percepo subjectiva da qualidade de vida, 
por outro lado, exige quase sempre o recurso a pesquisas no campo e 
d lugar a medidas na maioria dos casos no exprimveis por meio de 
escalas numricas.

Isto no impede que, igualmente nesta vertente, se tenham dado 
numerosos passos em frente, sob o perfil metodolgico, tambm graas 
ao desenvolvimento de tcnicas matemticas e estatsticas mais 
adequadas para a expresso dos aspectos qualitativos dos fenmenos. 
Assim, em muitos pases, foi-se consolidando uma tradio de estudos 
para a predisposio de polticas sociais e urbansticas (Szalai, 
Andiews, 1980; Martinotti, 1989).

A medio da qualidade da vida urbana constitui um campo de estudo 
que conheceu um grande desenvolvimento a partir dos anos 70, sob o 
estmulo do chamado movimento dos indicadores. No entanto, tambm 
pode ser conduzida com vrias abordagens e diversas finalidades.

Deste ponto de vista, podem distinguir-se duas modalidades 
fundamentais: a) a anlise conjunta das condies relativas  
qualidade de vida em sistemas urbanos totais (para retomar uma 
distino de Vergati, 1994, trata-se aqui da qualidade da vida da 
cidade); b) a anlise diferencial da qualidade de vida em referncia 
a grupos sociais singulares ou populaes urbanas localizadas no 
territrio (qualidade de vida na cidade).

No primeiro caso, o objectivo consiste, em geral, em conduzir 
anlises comparativas sobre a cidade presentes num contexto nacional 
ou supranacional, com pura finalidade cognitiva ou com vista  
definio de prioridade de interveno pblica em grande escala.

No segundo, o objectivo  mais o de avaliar as desigualdades 
presentes no seio de cidades singulares, para estabelecer quais so 
as reas sociais (quais os indivduos, em que parte da cidade) 
favorecidas ou

desfavorecidas e, eventualmente, onde se situam os grupos para os 
quais as condies ambientais de vida atingem valores crticos. Tudo 
isto, obviamente, com vista a aplicar polticas de interveno 
pblica a uma

escala mdio-pequena.

Outro tema emergente na discusso mais recente sobre a relao 
cidade/ /ambiente  aquele que pode ser rotulado com a expresso-
chave de cidade sustentvel, a qual indica um critrio normativo, ou 
seja, um objectivo que

198

deve ser atingido pelo sistema urbano. , em particular, sustentvel 
um

sistema que se revela capaz: a) de satisfazer, numa medida aceitvel, 
as actuais necessidades dos seus habitantes e, entretanto, b) 
desenvolver-se segundo modalidades que no danificam o sistema 
ecolgico 3@ c) de reproduzir os recursos necessrios para satisfao 
de necessidades futuras.

Este critrio normativo - alm de indicar uma orientao poltica que 
deve obedecer a decises de que depende o uso dos recursos urbanos -

fornece um mtodo para medir a presena ou ausncia, nas cidades 
actuais, dos requisitos exigidos. Naturalmente, para que a medio 
seja possvel,  necessrio que os requisitos atrs mencionados se 
traduzam em termos analticos e operativos. A esse respeito, 
indicaremos aqui uma forma de proceder que pode ser seguida para 
executar esta operao, referindo-nos ainda a trabalhos da OCSE 
(1992).

Em primeiro lugar, devem definir-se os recursos ambientais 
fundamentais de que dispe o sistema e dos quais depende a satisfao 
tanto das necessidades actuais como das futuras - sero, 
essencialmente, o ar, a gua, o solo, as fontes de energia e o 
conjunto dos recursos biolgicos. No momento considerado para a 
anlise, cada um destes recursos encontra-se num determinado estado, 
descritvel por meio de indicadores (por exemplo, indicadores 
relativos  presena no ar de vrias componentes gasosas; indicadores 
relativos  quantidade de gua disponvel, etc.).

Em segundo lugar, trata-se de definir analiticamente as actividades 
humanas que operam uma presso sobre esses recursos, utilizando-os 
e, portanto, modificando-os do ponto de vista quantitativo e 
qualitativo (indstria, transportes urbanos, consumo de energia, 
produo de detritos slidos e lquidos, etc.). O impacte destas 
actividades tambm se pode medir com indicadores apropriados.

Finalmente, deve definir-se o conjunto dos agentes, cujas escolhas 
influenciam as modalidades de uso dos recursos e, portanto, as suas 
potencialidades reprodutivas: trata-se tanto de agentes pblicos 
(adminis-

1 Costuma-se dizer que o desenvolvimento no danifica o sistema 
ecolgico de que depende uma sociedade humana quando no se 
ultrapassa a carrying capacity, ou capacidade de carga, prpria desse 
sistema. O conceito de capacidade de carga deriva da ecologia e, no
tocante a uma populao humana, pode medir-se com os nveis mximos 
de uso dos recursos que possam ser sustentados (os primeiros) e 
absorvidos (os segundos) [  ... 1 numa dada regio do planeta sem 
danificar progressivamente a integridade funcional e a produtividade 
de importantes ecossistemas de que a vida neste planeta depende 
(Alberti, Solera, Tsetsi,
1994, p. 19).

199

tradores, funcionrios) como privados (operadores econn-cos, 
consumidores), e assim quer faam parte do sistema quer sejam 
exteriores a isso. Por sua vez, as polticas e aces empreendidas 
pelos vrios agentes, alm do seu presumvel impacte ambiental, 
podero medir-se atravs de uma outra bateria de indicadores, 
referidos, por um lado, s polticas e aces explicitamente voltadas 
para o controlo do ambiente e, por outro, s de natureza sectorial, 
dotadas de consequncias ambientais relevantes.

Como se pode verificar, a medio da sustentabilidade dos sistemas 
urbanos apresenta dificuldades ainda maiores em relao  da 
qualidade de vida, dado que exige um conjunto assaz variado de 
informaes, relativas quer ao estado actual do sistema, quer aos 
agentes que lhe influenciam o estatuto futuro. Apesar disso, 
empreenderam-se recentemente em Itlia alguns interessantes projectos 
de pesquisa orientados nesse sentido. Serve de exemplo o denominado 
Legambiente, com a colaborao cientfica do Instituto de 
Investigao do Ambiente de Itlia, que j deu origem ao Primeiro 
relatrio da Legambiente sobre o ecossistema urbano (1994). Nele, 
entre outras coisas, figura uma classificao - que toma em 
considerao muitos indicadores -, eco-incompatibilidade das cidades 
italianas. No surpreende observar que os primeiros lugares da lista 
so ocupados por centros urbanos de dimenso intermdia do Norte e 
centro (os primeiros cinco so, por ordem, Bolzano, Macerata, 
Mantova, Ferrara e Parma), enquanto os grandes centros e at algumas 
cidades mdio-pequenas que se caracterizam por elevados nveis de 
rendimento e consumo (como por exemplo Aosta) se situam em posies 
mais recuadas.

5. 3. 3. Cidade e comportamentos

Outro mbito problemtico, relativo s relaes entre a cidade e o 
ambiente,  o que entende este ltimo como ambiente interno e coloca 
a tnica na interdependncia entre a cidade e os caracteres bipsicos 
dos habitantes (ou das outras populaes urbanas).

Mesmo nesta perspectiva, a relao a exan-nar reveste-se de um duplo 
sentido. Por um lado, h que salientar o papel que o comportamento 
instintivo e irreflexivo dos indivduos tem na definio da forma 
fsica e da morfologia social da cidade ou de ambientes particulares. 
Por outro, temos de tentar compreender de que modo a cidade est  
altura de condicionar a experiencia

e a aco dos cidados ou de grupos particulares ou categorias 
sociais.

O primeiro aspecto foi desenvolvido por anlises no lin-te entre a 
sociologia, a psicologia e a etologia. Para nos cingirmos aos 
trabalhos de natureza sociolgica, podemos recordar aqui estudos 
sobre o significado e a forma do ambiente domstico, como o de 
Saunders (1989). Com efeito,

200

neste ltimo salienta-se sobretudo como a conformao do espao 
residencial deve ser relacionada com a busca de uma condio de 
segurana e estabilidade emotiva.

Ainda mais pertinentes so as anlises em que se pe a questo dos 
instintos territoriais dos indivduos. Um caso emblemtco  o 
relativo  ocupao de um espao pblico, como, por exemplo,  
ocupao dos lugares numa praia livre por parte dos banhistas. De 
manh, quando ela se encontra ainda vazia, surge o primeiro, que se 
senta diante de uma parede (para no ter ningum atrs de si), ou a 
curta distncia do mar (para no ter ningum  frente) ou ainda no 
centro da praia. A escolha dos que vo chegando depois  condicionada 
pela dos primeiros e regulada por alguns rituais: por exemplo, pode 
registar-se uma troca de sinais de sauda o entre o primeiro 
banhista e um casal, que se juntam pouco depois. Com base em 
mensagens codificadas, transmitidas nesse intercmbio, o casal pode 
decidir sentar-se perto ou longe. O aspecto subsequente da ocupao 
do areal depender do xito dos rituais precedentes e das vrias 
manifestaes do instinto territorial, exibidas pelos recm-chegados.

O exemplo acabado de expor - que, com alteraes apropriadas, se 
poderia prestar para ilustrar numerosas situaes da vida urbana - 
reala, de resto, um elemento a que se deve prestar muita ateno. 
Embora, na ocupao dos lugares na praia, intervenham factores 
ligados a caractersticas instintivas e invariveis do comportamento, 
 verdade que intervm tambm variveis dependentes da cultura: por 
exemplo, aproximar-se de outro banhista, sem que haja uma necessidade 
imperiosa, pode ser avaliado diferentemente em vrios mbitos 
socioculturais, em funo do facto de se manter um comportamento 
amigvel ou intrusivo.

O problema do condicionamento que a cidade exerce sobre o 
comportamento e a psique dos cidados  objecto de pesquisas voltadas 
para alvos predominantemente analticos (pense-se, por exemplo, nos 
recentes trabalhos sobre o tema do stress urbano, como o de Moser - 
1992), mas tambm de estudos conduzidos em funo da projeco. Com 
efeito, aprofundar os mecanismos atravs dos quais se situa a 
influncia dos espaos urbanos equivale a colocar as bases para uma 
prtica da arquitectura e da urbanstica socialmente prudente. O que 
significa, segundo os critrios de valor que norteiam o projectista, 
ateno a no operar restries ao comportamento social, ou ento a 
propor estmulos aptos para influir (espera-se) positivamente.

Uma questo especfica que com frequncia focalizou o debate entre 
socilogos e projectistas  a do chamado detenninismo arquitectnico 
- a forma e a organizao funcional dos edifcios esto em condies 
de influir no comportamento social de modo exigente? Em caso 
afirmativo, quais as circunstncias e os efeitos? Na realidade, para 
que a questo seja subtrada

201

ao puro e simples confronto entre pontos de vista filosoficamente 
inconciliveis e se tome tema de pesquisa sociolgica, h que 
distinguir entre vrias formas de condicionamento.

A forma mais bvia (mas no menos importante)  a que o espao 
construdo exerce pelas suas prprias caractersticas fsicas. Com 
efeito, o espao pode ser conformado de tal modo que determina um 
comportamento obrigatrio, ou ento torna impossveis certos 
comportamentos. Nesse sentido,  particularmente rico de aspectos 
sociais e, ao mesmo

tempo, projectuais, o tema das barreiras arquitectnicas, ou seja, o 
problema posto pela forma de determinados espaos construdos, quando 
 de tal ordem que reduz ao mnimo a liberdade de movimentos de 
determinadas categorias de indivduos (a presena de degraus ou 
escadas torna impossvel a passagem de cadeiras de rodas para 
deficientes motores; tempos demasiado breves de permanncia do verde 
nas passagens para pees tornam arriscado atravessar por parte dos 
velhos, e assim sucessivamente).

Noutros casos, o condicionamento pode exercer-se por intermdio de 
normas culturais, como, por exemplo, para algumas confisses 
religiosas, a ausncia em lugares pblicos de uma separao entre 
espaos destinados aos homens e s mulheres pode tornar difcil a 
participao destas ltimas em actividades colectivas.

Ainda mais complexa  a anlise das influncias arquitectnicas no 
comportamento, pois que estas operam produzindo estmulos 
psicolgicos, que nem sempre so assimilados conscientemente pelos 
indivduos que os recebem.  o caso de ambientes que, pela sua 
prpria conformao fsica e/ou pelas caractersticas simblicas que 
marcam o seu sinal arquitectnico, podem produzir condicionamentos 
subtis. Por exemplo, espaos verdes excessivamente grandes e mal 
apetrechados podem provocar (com razo ou no) uma sensao de 
insegurana, a qual pode induzir os cidados a evitar esses espaos 
tornando-os ainda mais vazios e menos atractivos. Ainda a propsito 
do tema da segurana, so clebres as anlises de Newman (1972), o 
qual sustenta que algumas estruturas urbansticas (como as reas 
compostas por arranha-cus distanciados por espaos abertos e 
indiferentes) criam um ambiente impessoal que favorece o crime. 
Afirma tambm que, mediante projectos apropriados oportunos,  
possvel obter um espao defensvel que estimule a noo de 
responsabilidade dos habitantes e previna os comportamentos 
desviacionistas.

As reflexes agora propostas referem-se a espaos urbanos 
especficos. Ao invs, noutras anlises, consideraes sobre 
condicionamentos ambientais foram desenvolvidas a uma escala muito 
mais ampla, como a da cidade inteira. Nesta perspectiva, podem 
interpretar-se as lcidas anlises

202

que Sennett (1990) desenvolve a propsito do significado e efeitos da 
implantao urbanista de grelha, tpica da cidade americana. Na sua 
opinio, a estrutura de grelha, ou seja, segundo uma trama de ruas 
que se cruzam perpendicularmente, faz com que falte na cidade um 
centro e tende a negar a identidade do ambiente que a circunda, 
tratando-o como um elemento estranho a don-iinar. Na sua abstraco e 
ausncia de limites, que lhe  prpria, a grelha parece destinada a 
domar a imensidade dos espaos da plancie norte-americana, 
constituindo uma espcie de sinete espacial do processo de 
colonizao. Ao mesmo tempo, porm, essa estrutura tem efeitos sobre 
quem a habita: Submete aqueles que vivem no espao, mas desorienta-
lhes a capacidade de ver e apreciar as relaes (p. 72). Por 
conseguinte, ainda que de um modo largamente no programado, a 
urbanstica baseada na grelha favorece a penetrao de valores 
inspirados pelo esprito do capitalismo, com a sua tendncia 
impessoal e asctica para o domnio sobre a Natureza e outros, que 
Weber assim interpretou profundamente.

Voltando  escala n-crourbana, pode observar-se que, nas metrpoles 
contemporneas, est presente - com um peso talvez maior do que no 
passado - um duplo tipo de espaos, o que, alm do mais, levanta o 
problema do condicionamento comportamental.

1. O primeiro  constitudo pelos espaos hiper- regulados. Trata-se 
de lugares urbanos nos quais os graus de liberdade de aco social 
tendem a ser reduzidos, por efeito de uma conformao fsica que 
canaliza o comportamento ao longo de um canal preestabelecido. Um 
caso lin-te  representado pelas instituies totais (Goffman, 
1962), ou seja, instituies como prises, hospitais psquitricos, 
etc., que organizam globalmente a vida dos indivduos. No entanto, 
tambm os espaos aparentemente privados de vnculos, mas projectados 
para desenvolver uma funo especfica, como os supermercados ou 
mesmo os lugares de divertimento, como as discotecas, podem ter o 
efeito de induzir um comportamento uniforme e programado 
antecipadamente, para maxin-fizar a eficincia funcional e reduzir os 
riscos.

2. O segundo tipo de espao  constitudo pelos espaos sub-
regulados. Trata-se de ambientes de funo incerta, lugares residuais 
ou ainda zonas de transio entre o espao pblico e o privado, 
edifcios abandonados, etc. O elemento que os liga  o de uma 
relativa ausncia de regras de uso e de normas de comportamento 
aceites e sujeitas a controlo. So, portanto, espaos que se podem 
interpretar e apropriar diferentemente. Esta condio, por um lado, 
pode favorecer a expressividade e o comportamento anticonforn-ista 
(por exempo, um espao no construdo pode tomar-se lugar de jogo e 
aventura para grupos de adolescentes). Por outro, pode impedir um uso 
por parte de indivduos fracos (ancios, crianas), que se sentem 
ameaados pela ausncia de vigilncia e pelas tentativas de 
apropriao dos indivduos fortes.

203

Um dos riscos que a metrpole contempornea parece correr  o de ver, 
no seu interior, uma multiplicao de ambientes hiper-regulados, 
intervalados de partes de cidade sub-reguladas, tudo isto em 
detrimento do espao pblico normal, ou seja, em que  garantida a 
liberdade e variedade dos comportamentos de todos os indivduos, 
sejam fortes ou fracos.

204

6. PARA UMA SOCIOLOGIA ESPACIALISTA

6. 1. O nvel ncro: o espao da aco social

6. 1. 1. A estratgia terica espacialista

As anlises expostas at aqui obedeceram a um esquema bem consolidado 
para a sociologia urbana. Na verdade, a cidade foi examinada 
salientando,  vez, urna das dimenses fundamentais de que se compe. 
Foi, pois, encarada como um fenmeno econmico, como sujeito e 
objecto da actividade poltica, como lugar da cultura, como forma 
social e espacial aberta nos confrontos do ambiente. Na interseco 
entre estas perspectivas analticas complementares, a cidade 
evidencia-se como um tipo peculiar de sistema social, espacialmente 
definido. No se escondeu, desde as primeiras pginas, que se trata 
de um sistema estranho e difcil de delimitar, apesar de que se 
procurou mostrar como o urbanismo constitui, mesmo no cenrio 
contemporneo, um fenmeno de enorme relevo e digno de ateno 
cientfica.

Ao invs, neste ltimo captulo, o ngulo de observao  totalmente 
diferente. Inspira-se num conjunto de contributos tericos - mas 
tambm, nalguns casos, de pesquisa aplicada - que no se ocupam 
directamente da cidade, mas podem desempenhar um papel fundamental no 
desenvolvimento futuro da sociologia urbana. Esses contributos, pela 
sua evidente heterogeneidade, enfrentam a peito descoberto um n 
terico que, na histria da sociologia urbana, foi deixado com 
frequncia de lado ou, pelo menos, no resolvido: o da relao entre 
a aco e os sistemas sociais, por um lado, e o espao (ou, melhor, a 
dimenso espcio-temporal), por outro. Assim, tm o espao, por assim 
dizer, no prprio corao da teoria sociolgica, na

sua expresso mais geral, pois em vez do estudo de algumas 
subdisciplinas especializadas ocupam-se antes de particulares tipos 
de entidades sociais

205

dotadas de valncia espacial, como a cidade, os aglomerados rurais, a 
regio, etc. Ao procederem assim, contribuem para o desenvolvimento 
de toda a sociologia, renovando a estratgia terica da sociologia 
clssica numa direco que no ponto 1. 2. 5 se definiu como 
espacialista. De qualquer modo, porm, parecem prefigurar uma 
transformao do estudo das vrias entidades socioespaciais e, em 
particular, da cidade.

Para esclarecer melhor este ponto, confrontaremos agora as duas 
estratgias tericas aqui evocadas (a clssica e a espacialista), 
esquematizando-as de tal modo que se possam acentuar as diferenas, 
advertindo, todavia, que a gama das posies efectivamente presentes 
na literatura sociolgica  muito mais variegada e as distines mais 
complexas e esbatidas.

Ao referirmo-nos ao conjunto da sociologia clssica (e, portanto, no 
s e no tanto  sociologia urbana), temos de admitir que a relao 
entre a dimenso social e a espacial no  objecto de particular 
considerao. De um modo global, a teoria desenvolve-se tentando 
definir as relaes causais que existem entre fenmenos sociais 
interactuantes, os quais tendem a ser considerados vlidos 
independentemente do espao e do tempo em que se manifestam e, por 
conseguinte, a anlise terica assume um carcter anespacial e 
atemporal. Quanto muito, algumas teorias introduzem critrios 
implcitos de deliniitao espcio-temporal - por exemplo, afirmando 
que uma dada relao s serve para as sociedades industriais. Uma 
indicao deste tipo atribui  teoria uma valncia espcio-temporal 
muito vaga e definida s por excluso - no caso citado, exclui que a 
relao em vista se verifique nas sociedades actuais de carcter no 
industrial ou nas pr-industriais do passado. Assim, na sua essncia, 
a teoria no inclui as variveis espcio-temporais na sua estrutura 
explicativa.

Esta tende a interessar-se pelo espao e pelo tempo, quando do nvel 
da anlise pura se passa para o do estudo empirico ou aplicativo. 
Para dar um exemplo puramente hipottico e simplificado (e, portanto, 
no correspondente s teses de um autor em particular), suponhamos 
que uma teoria sustenta a existncia de uma relao para a qual o 
desenvolvimento industrial implique reduo da dimenso das famlias. 
Na sua fomulao abstracta, essa teoria apresentar-se- como dotada 
de valor geral, pelo menos a respeito das sociedades industriais. , 
porm, possvel que alguns socilogos, inspirados nela, procurem 
estudar empiricamente as relaes existentes entre industrializao e 
evoluo da famlia em contextos particulares e cheguem assim  
concluso de que somente em alguns deles a relao mencionada por 
hiptese  efectivamente observvel, enquanto noutros no se d ou 
no  visvel com clareza. Neste ponto, para explicar as diferenas 
entre as observaes empricas efectuadas, mantendo segura a 
referncia  teoria geral,  provvel que os autores da pesquisa 
recorram a variveis espaciais e temporais exgenas

206

nos confrontos da teoria, como, por exemplo, sustentando que os casos 
em que a relao no se d constituem anomalias porque influem 
nelas factores particulares ligados  posio geogrfica ou  
tradio local. Por outras palavras, espao e tempo so evocados 
apenas para explicar divergncias sobre uma tendncia hipottica da 
teoria pura ou flutuaes no grau de intensidade com que a 
tendncia se manifesta em vrias situaes. De qualquer modo, as 
variveis espcio-temporais situam-se a um nvel lgico diferente e, 
em ltima anlise, inferior, em relao ao das variveis 
efectivamente explicativas.

A estratgia terica espacalista deita por terra esta argumentao. 
Na sua perspectiva, definir relaes entre fenmenos sociais que 
prescindam do espao e do tempo no constitui um esforo de 
abstraco, mas

antes um empobrecimento da interpretao. Com efeito, os fenmenos 
sociais so accionados pela combina o de um conjunto de mecanismos 
e experincias efectuados por uma multiplicidade de actores, 
individual ou colectivamente. Cada um desses mecanismos no se 
executa numa espcie de vcuo pneumtico, mas no mbito de situaes 
bem definidas e inevitavelmente conotadas a referncias espaciais e 
temporais. O indivduo que actua e efectua a experincia - seja um 
indivduo, um grupo ou uma organizao - opera num contexto dentro do 
qual se forma um raio de aco especfico, e este ltimo  entendido 
quer em chave espacial (a aco parte de um indivduo localizado e 
atinge outros indivduos a maior ou menor distncia) quer em chave 
temporal (a aco relaciona-se com uma curva de tempo em que ela 
assume significado). Por conseguinte, as variveis espcio-temporais 
intervm forosamente para definir a aco e determinar o sentido: 
so contextuais a ela e devem considerar-se j no momento em que se 
formula a teoria sociolgica ao seu nvel mais  puro.

Para retomar o exemplo precedente, na ptica espacialista (que, como

vimos, tambm  temporalista) o estudo das relaes entre 
desenvolvimento industrial e dimenso da fanulia deve ser conduzido 
focalizando a ateno na situao que a industrializao determina e 
sobre as modalidades com que as fanulias enfrentam estas situaes, 
adaptando-se-lhes ou mesmo tentando modific-las. Nesse estudo, a 
dimenso espcio-temporal  mencionada continuamente: por exemplo, 
salienta-se o facto de o desenvolvimento industrial implicar maior 
mobilidade da populao no territrio, implicar -

pelo menos, nalgumas fases - concentrao da populao e impor ritmos 
temporrios (dirios, semanais, etc.) determinados pela organizao 
do trabalho, etc. Tentar-se-, pois, compreender o significado desta 
situao para as famlias que operam nela: que estratgias podem pr 
em prtica, que oportunidades podem obter e que limites lhes so 
impostos. Desta anlise, poder-se- ser levado a estabelecer relaes 
apenas referentes a contextos particulares ou de mais largo alcance. 
Em ambos os casos, as referncias ao

207

espao e ao tempo sero provavelmente diferentes, mas estaro 
presentes e providas de igual dignidade te rica.

Como em seguida parecer bvio, a perspectiva agora evocada no se

apresenta realmente como um paradigma claramente definido e dotado de 
uma instrumentao terica e coerente. Manifesta-se antes, hoje, como 
um

conjunto incoerente de reflexes e propostas analticas, que, 
todavia, j so suficientes para deixar entrever uma linha de 
desenvolvimento ao menos parcialmente convergente.

O presente captulo prope-se examinar algumas destas propostas, 
dando espao sobretudo s que possam oferecer motivos para o trabalho 
do socilogo urbano. Por isso, pois, a dimenso espacial tender a 
atrair a ateno mais do que a temporal, embora nos mantenhamos 
conscientes do facto de que a ligao entre as duas  assaz profunda. 
A organizao da exposio segue um percurso que vai do plo micro ao 
macrossociol gico
- a parte dos conceitos que se referem ao indivduo agente e  sua 
relao com o espao (ponto 6. 1), para passar aos relativos  
interaco e s redes sociais (ponto 6. 2), concluindo, portanto, com 
os respeitantes  dimenso espacial dos sistemas e das sociedades 
locais (ponto 6. 3).

6. 1. 2. A aco situada, o corpo e o espao

No s no campo da sociologia, mas tambm no da psicologia social e 
das cincias cognitivas, no perodo mais recente, multiplicaram-se as 
tentativas para renovar as interpretaes da aco social e da 
racionalidade do indivduo agente, por forma a evidenciar a estreita 
relao que se verifica entre a aco e o contexto em que se insere, 
superando a ntida separao entre os dois elementos que estava 
implcita nas concepes clssicas. Nestas ltimas, e serve de 
exemplo a concepo da racionalidade predominante nas teorias 
econmicas, nota-se de facto uma forte dicoton-fia entre o projecto 
de aco racional que est dentro do indivduo e as circunstncias 
ambientais que se encontram fora - o indivduo tem em mente um fim 
(interno) e, com o objectivo de o realizar, avalia racionalmente as 
circunstncias (externas) para poder seleccionar os meios mais 
apropriados para a consecuo desse fim.

Indubitavelmente, esta concepo da aco permitiu elaborar teorias 
abstractas e formalizadas, dotadas de amplo poder explicativo, 
sobretudo no campo econn-iico. Todavia, a representao do processo 
decisional, em

que se baseia, apresenta-se demasiado simplificada para poder dar 
conta da variedade das situaes em que assumem forma as aces dos 
indivduos durante a sua vida quotidiana. Por isso, muitas linhas de 
pesquisa foram empreendidas na tentativa de construir modelos 
analticos mais flexveis

208

e aptos para mostrar o carcter multiforme da racionalidade dos 
actores. Entre elas, algumas apontam - como se referiu h pouco - 
para reduzir sensivelmente (seno abolir) as distncias entre a 
suposta racionalidade ordenadora do projecto intemo do indivduo e 
o carcter contingente das circustncias ambientais.

Nesta linha, levanta-se, por exemplo, a teoria da aco situada, 
proposta por Suchman (1987) e outros autores, a qual insiste no facto 
de que um curso de aco inteligente se desenrola em estreita ligao 
com as circunstncias presentes na situao e opera uma adaptao 
contnua. Isto significa no s que o indivduo procura determinar na 
situao os instrumentos mais adequados aos seus fins - que, em 
geral, so mltiplos e nem sempre dotados de total coerncia -, 
baseando-se nas informaes de que dispe, mas tambm que est 
disposto a negociar os prprios fins com base nos estmulos 
provenientes da situao, modificando-os, precisando-os e at 
abandonando alguns e inventando novos. Ao mesmo tempo, embora 
adaptando-se  situao, os indivduos reactuam nela e depois 
transformam-na.

Esta concepo no sustenta que, ao agir, o indivduo no formule 
planos, mas afirma que esses planos so activados durante o prprio 
curso da aco e em contacto com uma situao local.

Assim, mesmo quando eles abarcam um largo arco de tempo, so dotados 
de flexibilidade a curto prazo, e  precisamente a essa flexibilidade 
que se deve muitas vezes a sua eficcia durante muito tempo. Em suma, 
para retomar uma metfora teatral, empregada frequentemente nas 
ciencias sociais (Goffman, 1959), temos de admitir que o guio com 
base no qual os actores sociais recitam os papis previstos, se 
assemelha ao tpico da conimedia delVarte dos sculos xVI e XVII - 
consiste em poucas e sumrias anotaes, que eles interpretam de modo 
improvisado,  vez, tendo em conta a sua experincia, mas tambm as 
contingncias locais e as reaces variveis do pblico (Mantovani, 
1995). Resumindo, a aco situada  uma propriedade emergente das 
interaces, momento a momento, dos actores e entre estes e os 
ambientes da interaco (Suchman, 1987, p. 179).

Na teoria agora referida, a aluso ao ambiente e  situao remete 
para uma multiplicidade de factores, que no se reduzem apenas ao 
contexto material e espacial da aco, mas que o compreendem como 
elemento significativo. Alargando o horizonte para entender os seus 
outros contributos, no  difcil encontrar ulteriores instrumentos 
conceptuais para uma interpretao da aco social em que tm um peso 
especial as variveis fsicas e espaciais, e em que prprio indivduo 
no  entendido como puro esprito dedicado  projeco da aco, mas 
 acima de tudo um corpo que se move no espao e tem conscincia de 
si prprio e do ambiente que o circunda.
209

Pode revelar-se til introduzir, a esse propsito, dois conceitos, 
elaborados no mbito da psicologia, que permitem interpretar 
analiticamente esta relao entre o corpo do indivduo e o espao, a 
qual  o pressuposto de toda a forma de aco possvel e de 
experincia situada.

1. O primeiro  o conceito de esquema corporal. Segundo Schilder 
(1950, p. 35), o esquema corporal  a imagem tridimensional que cada 
um de ns tem de si prprio. Corresponde, por outras palavras, a uma

imagem do corpo que o indivduo forma com base num conjunto de sensa-

es de vrias naturezas (visuais, tcteis, trmicas ...  com as 
quais o corpo  percebido, por assim dizer, quer do interior, quer do 
exterior. No entanto, o esquema corporal  algo que ultrapassa a soma 
das sensaes singulares -

 a percepo da unidade do corpo. A presena deste esquema da 
unidade corporal apoia-se em bases fisiolgicas e est associada a 
sensaes fundamentais de prazer e dor - nesse sentido, o esquema 
corporal interessa ao

campo de pesquisa prprio da psicanlise. Mas, sobretudo, representa 
um

quadro de referncia interna que permite definir as relaes 
recprocas entre as partes do corpo e, portanto, estabelecer 
coordenadas que permitem a orientao (como a distino entre a parte 
direita e a parte esquerda, entre  frente e atrs, entre acima e 
abaixo). Essas mesmas coordenadas, que servem para a percepo da 
espacialidade do prprio corpo, so depois projectadas para o 
exterior, nos confrontos do ambiente circundante, e representam 
critrios para se orientar a - tambm no ambiente se notam eixos de 
diferenciao direita-esquerda,  frente-atrs, acima-abaixo, 
estabelecendo uma espcie de dupla reflexo entre a imagem do corpo e 
a do espao exterior.

2. Um segundo conceito, que o primeiro pressupe,  o de orientao 
espacial. A partir do esquema corporal, a identificao de elementos 
especficos no espao circundante e a definio de pontos de 
referncia so pressupostos essenciais do comportamento - isto 
aplica-se ao homem assim como s outras espcies animais. A 
capacidade de orientao baseia-se em

pressupostos biopsicolgicos, mas  adquirida atravs de um processo 
de fan-iiliarizao progressiva com o espao, que se declara j na 
primeira infncia. Intervm duas fontes de conhecimento neste 
processo - a primeira deriva directamente da actividade do indivduo 
e a segunda das mensagens que o ambiente envia ao indivduo atravs 
da linguagem. Assim, o conhecimento directo do espao na prtica 
quotidiana da criana pequena com-

pe-se sobretudo de atitudes exploratrias e manipulaes de 
objectos.
O conhecimento indirecto do espao transmitido pelo ambiente consiste 
principalmente tanto na denominao dos objectos e dos lugares, como 
nas

ordens e nas proibies que se lhes referem (Lurat, 1976, p. 15). 
Entre os

dois aspectos ocorre uma forte interaco. Com efeito, nem todo o 
comportamento espacial detern-na um aumento da capacidade de 
orientao -

210

para que tal acontea,  necessrio que exista uma actividade 
adequada, como, por exemplo, a de se concentrar num lugar, 
identificar a os objectos, desloc-los, etc. Para a criana pequena, 
como  bvio, t, V@,,6ibilidade de executar estas actividades depende 
muito da liberdade de aco que lhe concedem. Mas, mesmo no caso dos 
adultos, intervm potencialidades e restries que dependem de 
condicionamentos ligados ao nvel de instruo, ao gnero, ao estilo 
de vida, etc. Por conseguinte, a capacidade de orientao espacial e 
as imagens do espao que derivam do uso dessas capacidades 
diversificam-se de modo no marginal nos vrios indivduos, mesmo 
quando pertencem ao mesmo universo cultural.

Com maior razo, estas diferenas tomam-se mais profundas quando se 
confronta a percepo e o uso do espao por parte de indivduos 
pertencentes a universos culturais diferentes. A esse respeito, pode 
dizer-se que pessoas de culturas diferentes habitam - em alguma 
medida - mundos sensoriais distintos, em que a sua experincia do 
espao  filtrada por grelhas culturais, capazes de seleccionar de 
maneira diferente os estmulos sensoriais provenientes do ambiente. 
Para dar um exemplo, como muitos autores observaram, a importncia 
das percepes tcteis e olfactivas na definio do ambiente mostra-
se assim menos relevante na cultura europeia e, sobretudo, na norte-
americana que noutras, como a rabe.

Em referncia a estas diferenas interculturais e, mais em geral, ao 
papel da cultura na representao do espao, em fins dos anos 60 
registou-se forte eco em mltiplos ambientes disciplinares  proposta 
terica de Hall (1966), para dar vida a uma nova linha de pesquisa 
psicoantropolgica, denominada prossmica. Com este termo, pretendia 
designar as observaes e teorias relativas ao uso do espao no 
homem, entendido como uma elaborao especfica da cultura (p. 7). 
Um aspecto muito notvel da sua anlise  o referente ao papel da 
distncia fsica na definio da natureza da interaco social junto 
das camadas mdias dos Estados Unidos. Na sua opinio, nesse contexto 
social, as interaces entre indivduos em presena comum assumem 
diferentes significados em funo da distncia fsica que os separa. 
Podem, em particular, identificar-se os seguintes casos fundamentais:

1. Distncia ntima (do contacto at 45 cm de distncia): a presena 
do outro  invasora e at muito envolvente, pela intensificao dos 
contributos sensoriais (percepo do calor corporal, sensaes 
olfactivas, etc.). Quando no implica relaes de particular 
intimidade, essa distncia pode ser percebida de forma fastidiosa, 
como uma intruso inoportuna.

2. Distncia pessoal (de 45 cm a 120 cm): pode ser representada como 
uma espcie de uma pequena esfera protectora que separa um indivduo 
dos outros numa fase em que no h contacto corporal, embora exista a 
possibilidade de o instaurar facilmente. Dois interlocutores que 
discutem argumentos de carcter pessoal tendem a colocar-se a essa 
distncia.

211

3. Distncia social (de 1,2 m a 3,6 m): o contacto fsico j no  
possvel, seno  custa de um esforo especial, e os pormenores do 
rosto do interlocutor comeam a tomar-se menos perceptveis. A 
conversa desenrola-se num tom de voz normal e aborda argumentos 
impessoais (alis, o tom da voz difere com a variao das culturas: o 
do americano mdio  mais baixo que o dos rabes e mais alto que o 
dos ingleses pertencentes a camadas superiores).

4. Distncia pblica (de 3,7 m a 7,5 m): situa-se nitidamente alm da 
esfera do desenvolvimento pessoal e  suficientemente ampla para 
permitir uma aco de fuga ou de defesa em caso de ameaa. A voz  
alta, sem atingir o mximo do volume, e a maneira de falar tende a 
tornar-se formal, ou seja, usar palavras ponderadas, frases bem 
construdas, etc. Os elementos no verbais da comunicao no so 
facilmente perceptveis, a menos

que se traduzam em atitudes ou formas de gesticulao explcitas.

6. 1. 3. O comportamento em pblico

Os conceitos atrs introduzidos servem para esclarecer de que modo o 
indivduo, agindo no mbito de situa es sempre mutveis, aprende a 
definir a sua dimenso corporal e espacial e - quase ao mesmo tempo 
adquire a competncia necessria para usar o espao exterior, 
encontrando nele os pontos de referncia significativos para a 
interaco com outros indivduos.

Podemos agora voltar a ateno para a relao entre o indivduo e os 
pontos de referncia espaciais no ambiente circundante. E, a esse 
respeito, convm realar o contributo proveniente de um autor que, 
embora tendo vivido em tempos relativamente recentes, j assumiu os 
contornos de uma figura clssica: Erving Goffman.

Grande parte do trabalho deste socilogo relaciona-se com as regras 
que regem o comportamento quotidiano dos actores sociais, em especial

nas conversas e nas interaces face a face. No estudo dessas regras, 
mergulha num trabalho de anlise aguda e pormenorizada das prticas 
repetidas e das rotinas aplicadas pelo prprio indivduo sem lhes 
prestar ateno, mas que, porm, com o seu bom funcionamento, 
concorrem para produzir aspectos importantes da organizao da vida 
quotidiana, ou seja - segundo a expresso do prprio Goffman -, da 
ordem social. Alguns trabalhos con-

centram-se particularmente no comportamento em pblico, isto , nas 
situaes em que o indivduo  exposto  presena dos outros num 
cenrio aberto e acessvel. Neste contexto,  atribudo grande relevo 
ao modo como se interpreta e utiliza o espao, por vezes com o 
objectivo, por parte do indivduo, de tutelar a sua privacidade de 
potenciais intruses e ofensas prove-

212

nientes de outros e adequar-se a normas comportamentais que se sabem 
compartilhadas e aceites universalmente e esto, portanto, aptas a 
manter a sua personalidade a coberto das opinies alheias.

No decurso dessas anlises, Goffman (197 1) elabora conceitos de 
elevada relevncia para o quadro analtico que tentamos construir.

Alguns referem-se queles que, no seu conjunto, so denominados 
territrios do si. Com esta expresso, pretende-se designar espaos - 
e objectos que fazem parte de um contexto espacial - que constituem 
outros tantos territrios do indivduo. Terrtrios  aqui 
entendido no sentido que a

etologia confere ao termo, ou seja, como mbitos em que os indivduos 
avanam reivindicaes e se abstm de manifestar direitos 
particulares. No seio dos territrios do si podem reconhecer-se sub-
mbitos e objectos especficos, em referncia aos quais as 
reivindicaes assumem conotaes especiais. Por exemplo, Goffman 
considera muito importante o reconhecimento de um espao pessoal -  
o espao que circunda um indivduo, compreendido dentro de uma 
distncia do sujeito anloga quela a que Hall chama distncia 
pessoal, No caso de esse espao ser invadido por outra pessoa, o 
indivduo em causa experimenta a sensao de ser usurpado/a e, s 
vezes, reage com uma atitude de afastamento. O espao social muda com 
as atitudes do indivduo e, ao contrrio, o lugar  um espao 
exterior bem definido (como um lugar sentado no metropolitano ou uma 
cabina telefnica livre) reivindicado temporariamente, embora no 
possa ser compartilhado com outros, pelo menos no mesmo perodo de 
tempo. O territrio de posse  constitudo por um conjunto de 
objectos que podem ser identificados com o indivduo e so dispostos 
em torno do seu corpo. Alguns

movem-se com o prprio indivduo (como por exemplo, as luvas, o 
chapu, o contedo dos bolsos), enquanto outros podem encontrar-se em 
contextos especficos e reivindicados temporariamente (como um 
cinzeiro ou um jornal encontrados numa sala de espera). Os sinais 
so, ao invs, objectos que indicam a reivindica o de um territrio 
ou delimitam os seus confins - so exemplos disso as bolsas 
utilizadas para ocupar uma poltrona num meio de transporte pblico ou 
a barra que nos supermercados separa os anigos comprados por dois 
clientes consecutivos ou ainda os graffiti que limitam os territrios 
de duas agregaes juvenis underground.

A forma e extenso dos territrios do si variam em funo das 
culturas, mas tambm da idade (por exemplo, os adultos efectuam, nos 
confrontos com as crianas, intruses que no lhes seriam permitidas 
perante outros adultos) e da classe social. Na verdade, na linha 
mxima,  mais elevado o nvel social, mais ampla a dimenso de todos 
os territrios do si e maior o controlo sobre os seus confins 
(ibidem, p. 3 1). As violaes dos espaos reivindicados por um 
indivduo dizem-se ofensas territoriais podem ocorrer no s atravs 
da intruso directa de outro indivduo mas

213

tambm indirecta, por exemplo com o uso de um tom de voz demasiado 
elevado em relao s circunstncias, com a produo de rumores, etc.

Um espao que circunda o indivduo, mas  mais amplo que o pessoal,  
denorrriado por Goffman Umwelt, ou ambiente circundante.  entendido

como uma espcie de contomo do indivduo, ou uma regio em cujo 
interior se encontram e tm origem os sinais de alarme que eles podem 
detectar, assim como as fontes de alarme. Provavelmente, para o 
indivduo, esse contorno tem um raio de poucos metros (ibidem, pp. 
166-167). Como as pessoas se movem, tambm o Umwelt se desloca, como 
uma bola que contm eventos sempre mutveis que podem envolver o 
indiv duo. O conceito agora referido diz respeito a um aspecto do 
comportamento espacial a que Goffirian atribui particular interesse - 
o controlo das fontes de perigo

e a satisfao das exigncias fundamentais de segurana, entendidas 
na sua acepo mais ampla.

O socilogo norte-americano introduz depois uma srie de conceitos 
que se referem a comportamentos astereotipados do indivduo, 
ocorridos durante as interaces em pblico e, em alguns casos, 
referidos ao uso do espao e aos movimentos do corpo, Entre eles, 
podemos citar as glosas do corpo, correspondentes a um comportamento 
ostensivo e evidente, que servem para favorecer uma interpretao 
benvola da prpria ac o, evitando equvocos ou mal-entendidos que 
poderiam constituir fonte de embarao ou de juzo negativo. So 
exemplo de glosas do corpo o gesto com que se repudia ostensivamente 
o olhar de uma pessoa que fita com demasiada insistncia (para evitar 
demonstrar um interesse excessivo e embaraoso), os gestos de 
contrio e o acto de fugir em bicos dos ps, quando se abandona uma 
reunio antes de ter terminado, ou ainda repreender, com demasiada 
rudeza, o filho pequeno que mexe em objectos pertencentes a um 
estranho.

6. 1. 4. As molduras espaciais da aco

Neste e noutros conceitos anlogos, elaborados por Goffmari para 
interpretar aspectos aparentemente banais do comportamento espacial, 
a dimenso intersubjectiva da acoj se encontra totalmente 
presente. Com efeito, eles evidenciam, como todos os actores sociais, 
as circunstncias mais correntes e habituais, so constantemente 
obrigados a operar num contexto espacial de tal modo que confere  
sua aco um significado compreensvel por parte dos outros actores, 
tentando prever as reaces e evitando gerar equvocos e 
interpretaes desfavorveis. Em resumo, no comportamento de cada 
sujeito individual, os outros esto sempre presentes - pelo menos, 
implicitamente - e considerados sujeitos, ou seja, indivduos capazes 
de compreender o significado das aces e reagir de forma coerente.

214

O que acabamos de observar implica que os indivduos - para agirem 
com eficcia numa situaco configurada no espao e no tempo - devem 
operar continuamente uma interpretao da mesma, procurando, ao mesmo 
tempo, colocar essas interpretaes em sintonia com as que se supe 
que os outros enfrentam, a partir dos indivduos efectivamente co-
presentes. Por vez@@s, i interpretao impe-se quase automaticamente 
- ela  bem clara e no provoca surpresa. Noutros casos, contm 
grandes margens de ambiguidade e a sua decifrao exige um esforo, 
esforo esse de cujos resultados depende o xito da aco. Como 
vrias vezes se salientou, a vida citadina, pela sua natureza 
varivel e imprevisvel,  particularmente rica de exemplos dessa 
ambiguidade. No  raro que a dificuldade em interpretar uma situao 
esteja na origem de consequncias indesejadas e, em alguns casos, 
dramticas. Para dar um exemplo, a vtima de uma agresso, em estado 
de choque, que procura ajuda agitando-se de forma confusa, pode ser 
confundida com um brio e receber apenas reaces de rejeio por 
parte do pblico. No entanto, mesmo em casos menos excepcionais, a 
possibilidade de equvoco ou, simplesmente, de um pluralismo na 
interpretao das situaes est sempre presente e em medida 
particularmente elevada quando - como acontece no ambiente urbano - 
os actores so muitos e heterogneos e os cenrios mudam muito 
rapidamente.

Para simplificar (mas apenas em parte), neste trabalho interpretativo 
dos indivduos intervm a presena, nas situaes, de sinais de 
vrias naturezas, que funcionam como pontos de referncia e favorecem 
a sintonizao das interpretaes. Em parte, esses sinais so 
emitidos pelos prprios indivduos, no decurso da interaco, e, em 
parte, j esto contidos no contacto espacial e temporal da aco. Em 
geral, servem para enquadrar uma situao e organizar a aco e a 
experincia que os indivduos efectuam no seu interior. Idealmente, 
isolam uma situao particular das outras e colocam  sua volta uma 
espcie de moldura, que a delimita e serve tambm para a 
caracterizar de modo distinto, tal como a moldura de um quadro marca 
a distino entre a tela pintada e o contorno espacial (por exemplo, 
a parede e a tapearia que a cobre), salientando o carcter 
especfico do quadro e fazendo compreender que a imagem que contm 
tem um sentido lgico diferente da contida noutros elementos do 
ambiente (por exemplo, nas decoraes da tapearia).

A ideia da moldura, aqui citada, corresponde a um conceito mais uma 
vez proposto por Goffman (1974), apesar de retomado da terminologia 
do filsofo americano Bateson - trata-se do conceito expresso com a 
palavra frame, que significa precisamente moldura ou bastidor. 
Umaframe pode definir-se em geral como uma moldura simblica? que 
toma nica uma determinada situao social, delimitando-a em relao 
a outras situaes. No interior desta moldura, o que os actores 
fazem? assume um sentido
215

especfico (Dal Lago, 1990, p. 62). Os exemplos de frame so 
numerosos:  particularmente significativo o das molduras que 
distinguem as situaes divertidas em que  a brincar ou  a 
srio. Neste caso, a moldura pode ser constituda por elementos 
puramente imateriais - ou seja, sinais comunicativos ou, ainda 
melhor, metacomunicativos (quando se trata de uma comunicao que 
interpreta outra comunicao) trocados pelos indivduos agentes. 
Nesse sentido, uma expresso irnica e indulgente desenhada no rosto 
de uma pessoa que repreende outra esclarece que as palavras 
pronunciadas no devem ser entendidas no seu significado habitual e 
servem apenas para despertar o riso. A resposta do interlocutor no 
mesmo

tom humorstico mostra que o sinal foi recebido e devolvido, e o 
quadro encerra-se, isolando este dilogo de uma eventual conversa 
sria.

Noutros casos, podem concorrer para definir aframe elementos 
espaciais do ambiente, assim como coordenadas temporais. Para retomar 
o exemplo da distino do fingimento da realidade, existem lugares 
que, pela sua natureza, fazem adquirir  aco o significado do jogo. 
Nesse sentido, o palco teatral e o pano de boca que o separa da 
plateia reservada aos

espectadores representam um caso em que a ideia da moldura encontra 
uma expresso material e quase lateral. A forma e a funo do espao 
tm aqui um papel deterniinante. Mas o tempo tambm  decisivo: a 
cena que se observa no palco tem o carcter da funo quando se 
representa o espectculo. Pelo contrrio, se um espectador hipottico 
a observasse noutros momentos - quando se procede  limpeza ou se 
monta a ilumina o -, seria induzido a considerar aquilo que via, 
no como uma funo, mas como uma cena da vida real.

O caso agora citado da distino entre jogo e realidade toma-se 
totalmente evidente se nos referirmos a situa es de espectculo. 
Noutras situaes, a distino no  to clara, alm de que intervm 
molduras importantes que tm a ver ainda com a qualidade expressiva 
da aco. O prprio Goffman emprega a esse respeito um ulterior par 
de conceitos que se referem aos mbitos espaciais que operam como 
moldura da interaco - o de ribalta (front region) e bastidores 
(back region). O mundo do teatro volta a ser evocado, mas apenas de 
modo metafrico. Com efeito, mais em geral, as zonas da ribalta so 
aquelas em que os indivduos interactuam segundo regras formais e em 
obedincia a cdigos que impem um uso correcto da linguagem, a 
manuteno de uma conduta decorosa, etc. As zonas dos bastidores, ao 
contrrio, so aquelas em que  permitido aos indivduos um 
comportamento informal, dando mais livre curso s sensaes. Os 
exemplos podem ser muitos: no mximo, os espaos privados (por 
exemplo, a habitao) so molduras que qualificam a interaco como 
t pica de bastidores, enquanto os espaos pblicos e os lugares de 
trabalho tm o carcter de ribalta. Contudo, tanto nuns como noutros 
podem traar-se distines

216

mais subtis. Na habitao, alguns espaos - como a saleta e o estdio 
podem ser usados para as relaes sociais com estranhos, adquirindo 
assim a funo da ribalta, enquanto outros - como o quarto ou a casa 
de banho -

fazem unicamente de bastidores. Na sede dos escritrios de uma 
empresa, h lugares que exaltam o seu significado de ribalta, como a 
sala do conselho de adn-nistrao, enquanto outros, como os 
corredores adjacentes, se situam nos bastidores, onde os conselheiros 
acodem para respirar um pouco de ar fresco, fumar um cigarro ou 
trocar impresses informais.

No seu conjunto, a cidade  um ambiente particularmente denso de 
sinais que ajudam a definir as molduras da aco: os seus espaos 
esto repletos de divises funcionais, cheios de smbolos 
arquitectnicos fortes e elementos decorativos, por vezes 
construdos com o objectivo de transmitir mensagens que encaminham 
comportamentos. Todavia, esta densidade dasframes faz com que as suas 
mensagens se amontoem e entrechoquem de forma a gerar novas 
complexidades e novas razes de ambiguidade. Alm disso, a variedade 
dos indivduos co-presentes e das culturas de que so portadores 
conduz com frequncia a discordncias e conflitos na interpretao 
das molduras - o que para alguns  o espao do gracejo, para outros 
constitui o da realidade, a rea da ribalta ocupada por alguns grupos 
sociais  interpretada por outros como bastidores. Por esse motivo, 
na cidade, o momento da ambiguidade e o da sua resoluo mesclam-se 
numa actividade interpretativa, que se renova continuamente, que 
nunca tem um incio ou um fim no sentido absoluto.

6. 2. O nvel meso: a interaco social no espao

6. 2. 1. Interaces em co-presena e  distncia

Neste ponto, a ateno volta-se para o nvel da anlise psicolgica, 
que ocupa, por assim dizer, uma posio intermdia entre o nvel 
microssociolgico, dentro do qual se situa o estudo do indivduo e da 
aco social, e o macrossocolgico, respeitante  anlise dos 
grandes agregados sociais. Trata-se, portanto, de um nvel a que 
muitos autores chamam mesossociolgico (Collins, 1988) e que v 
como objecto fundamental de interesse a interaco entre muitos 
indivduos agentes, e no apenas as relaes que se vm a definir por 
efeito dessas interaces, sobretudo da sua repetio no tempo.

Na teoria sociolgica, por interaco entende-se, em geral, urna 
relao entre dois ou mais indivduos no decurso da qual estes 
ltimos modificam reiteradamente os respectivos comportamentos, por 
forma a terem em

217

conta as respostas dos outros indivduos, quer antecipando-se, quer 
adequando-se, depois de terem sido postos efectivamente em aco. A 
interaco estabelece um contacto entre os indivduos e implica uma 
troca de mensagens que no se desenrola forosamente de modo 
totalmente consciente (por exemplo, no caso das glosas do corpo, o 
indivduo que as adopta transmite efectivamente uma mensagem 
identificvel, mas, na maior parte das vezes, f-lo agindo de uma 
maneira acentuadamente estandardizada e quase automtica). A troca de 
mensagens itiplica a en-isso e recepo de sinais, que se fazem 
corresponder aos significados, atravs de um cdigo de comunicao, o 
qual se compe de um conjunto de smbolos e regras para

a sua combinao. Para que a emisso da mensagem se possa na verdade 
consumar,  necessrio que os sinais transtritidos sejam dotados de 
um

canal, isto , de um meio ou apoio fsico da comunicao - por 
exemplo, no caso da comunicao oral, este meio  constitudo pelo 
ar, que, com as suas vibraes, permite a transmisso dos sinais 
sonoros.

Deve estabelecer-se uma distino essencial entre as interaces 
ocorridas em co-presena dos indivduos e as efectuadas  distncia. 
Esta diz respeito, acima de tudo,  natureza dos sinais e dos meios 
de comunicao utilizados - no caso da interaco em co-presena, a 
errisso de mensagens realiza-se essencialmente atravs do uso do 
corpo (com a palavra, o gesto, a postura, etc.) e a recepo implica 
a utilizao dos cinco sentidos. No caso da comunicao  distncia, 
ao invs, a transmisso de mensagens  tomada possvel pela 
interveno da tecnologia mais ou menos complexa e do trabalho de 
outros indivduos, empenhados na projeco e na gesto da 
instrumentao.

Um segundo elemento de distino intrinsecamente ligado ao primeiro 
refere-se  dimenso espcio-temporal da interaco. No caso da 
interaco em co-presena, essa dimenso acha-se forosamente 
limitada pelas carac-

tersticas biopsquicas do corpo humano - por exemplo, o volume da 
voz humana e a potencialidade do ouvido fixam os limites mximos da 
distncia na interaco verbal. Apesar disso, a esfera deste tipo de 
interaco  suficientemente ampla para poder dar origem a uma 
articulao de nume-

rosos planos espaciais: como mostram as anlises de Hall sobre o 
papel da distncia e sobre a sua codificao nas vrias culturas, 
pode passar-se de situaes em que a co-presena equivale  
intimidade e ao contacto fsico para outra em que ela permite um 
amplo anonimato. Na interaco imediata de instrumentos de 
telecomunicao, a distncia pode ser superada com

custos mais ou menos elevados e tempos de transmisso por vezes quase 
instantneos (como no caso do telefone) ou exigir intervalos mais ou 
menos longos entre a emisso e a recepo da mensagem (como no do 
correio). No entanto, esta possibilidade de superar as distncias no 
se deve confundir com a ausncia de condicionamentos espaciais. Os 
meios de

218

comunicao  distncia tomam possvel uma interaco no puramente 
local, mas nem por isso capaz de ligar qualquer ponto do espao com 
qualquer outro. A ligao potencial entre indivduos que se encontram 
em dois pontos distantes do espao depende sobretudo da estrutura das 
redes de comunicao. O efectivo depende tambm de laos de vrias 
naturezas que se impem aos vrios indivduos - por exemplo, laos 
relativos  possibilidade de suportar o custo da comunicao.

Como a anlise sociolgica salientou muitas vezes (pense-se nos 
trabalhos de McLuhan), o meio de comunicao no  neutral nos 
confrontos da natureza da interaco, mas por vezes influi 
notavelmente nas modalidades em que actua. A linha de demarcao mais 
relevante , mais uma vez, a que se situa entre a interaco em co-
presena e  distncia. As situaes de presena permitem aos autores 
o uso simultneo de mais cdigos de comunicao - por exemplo, 
pronunciar frases e, ao mesmo tempo, sublinhar e comentar com o 
recurso a sinais gestuais e posturas do corpo. A tudo isto pode ainda 
acrescentar-se o uso de sinais visveis (o trajo que se veste, a 
caracterizao) e at olfactivos (o perfume eventualmente utilizado): 
deriva da uma extrema complexidade do intercmbio comunicativo, que 
exige aos interlocutores o uso de determinados cdigos - por exemplo, 
no nos podemos servir de sinais visveis para comunicar com o 
interlocutor distante durante um telefonema. Nas teleconferncias, em 
contrapartida, ser possvel recorrer a sinais acsticos e visveis 
(embora o seu uso seja inevitavelmente modificado pela natureza do 
meio) em que sero, porm, obviamente, excludas as mensagens 
olfactivas e tcteis.

A esse respeito, alm das diferenas entre comunicao directa e  
distncia, vale a pena considerar as que dependem da especificidade 
dos diversos meios de telecomunicao. Uma linha de pesquisa 
particularmente interessante, que se abriu nestes anos,  a que se 
refere  natureza da comunicao mediata do computador e das redes 
interactivas (como a Intemet), at  que se verifica na chamada 
realidade virtual. Efectuaram-se estudos interessantes, por exemplo 
para verificar de que modo a comunicao por via electrnica influi 
nas modalidades de apresentao da sua identidade, na defesa da 
privacidade, no respeito pelas convenes sociais e at no uso da 
linguagem (Mantovani, 1995). Os resultados destes estudos fazem 
emergir aspectos relevantes e por vezes curiosos, que realam 
caracteres da interaco social relativamente imprevisveis. Viu-se, 
por exemplo, que no  raro, nas comunidades electrnicas que 
utilizem redes computadorizadas, um indivduo comunicar com outros 
ocultando-se atrs de uma identidade fictcia, e apresentando-se como 
uma pessoa de idade ou de sexo diferentes dos reais; tambm se 
observou, nas mesmas comunidades, o fenmeno doflaming, que consiste 
no uso de uma linguagem descorts e modalidades comunicativas bruscas 
e mal-educadas (Siegel et al., 1986). A explicao

219

destes fenmenos no  simples. De qualquer modo, no remete 
certamente apenas para as caractersticas tcnicas do meio de 
comunicao, mas antes para as interaces entre estas e as regras 
socioculturais que presidem  interaco entre os indivduos, nos 
mbitos socioculturais de que provm.

6. 2. 2. A coordenao das interaces

Na vida social e, sobretudo, na citadina, todos os dias se verificam 
inmeras interaces. Uma parte delas reveste-se de um carcter 
casual e contingente - tais so, por exemplo, os encontros ocasionais 
em pblico entre desconhecidos. Em grande parte, porm, as 
interaces tm um carcter repetitivo e intencional - verificam-se 
entre actores que se conhecem reciprocamente ou, pelo menos, que 
conhecem um do outro o suficiente para desempenharem papis no seio 
de subsistemas sociais especficos.

Nestes casos, so as prprias tarefas previstas pelo papel que 
motivam a interaco - por exemplo, para exercer o papel de mdico, 
tem de se

encontrar repetidamente com os seus pacientes. Em todo o caso, a 
repetio da interaco tende normalmente a estabelecer entre os 
indivduos relaes de interdependncia, principalmente 
caracterizadas por cooperao, complementaridade, competio ou 
conflito (ou mesmo por mais de um

desses aspectos simultaneamente).

Giddens (1984, p. 30) define integrao como a instaurao dessa 
trama de relaes de interdependncia e reciprocidade. Alm disso, 
retomando de uma forma inovadora uma distino j proposta por 
Lockwood (1964), distingue entre dois tipos de integrao e chama 
integrao social  reciprocidade que se estabelece entre indivduos 
em contextos de co-presena e integrao sisttnica a interligaes 
com aqueles que esto fisicamente ausentes no tempo e no espao.

Uma vez que, como vimos, a aco tem sempre um carcter situado e 
possui uma valncia espcio-temporal intrnseca, para que se possam 
empregar processos de integrao  necessrio no s que o sentido 
das aces executadas pelos indivduos interagentes seja 
reciprocamente compatvel mas tambm que intervenha aquilo a que 
podemos chamar coorde~ nao espcio-temporal das aces. Por 
conseguinte, estas devem implicar uma utilizao apropriada do espao 
e situar-se ao longo de sequncias temporais oportunas cuja lgica 
possa ser assimilada por todos os envolvidos. Os tempos e lugares 
dedicados  interaco em co-presena devem ser acordados com os 
dedicados  comunicao  distncia - as actividades complementares 
entre si sero desenvolvidas no mesmo mbito espcio-temporal (ou 
ento em mbitos comunicantes), enquanto as acti-

220

vidades entre as quais existem motivos de incompatibilidade sero 
divididas por barreiras espaciais, temporais ou de ambos os tipos.

A tarefa de executar esta coordenao espcio-temporal diz respeito 
tanto aos indivduos singulares como aos agregados sociais de vrias 
dimenses, das famlias s organizaes, at aos grandes sistemas 
societrios.

Todo o indivduo executa esta tarefa na vida quotidiana, recorrendo  
sua experincia, memria ou mesmo a simples instrumentos (por 
exemplo, a agenda em que esto inscritas notas para recordar o uso do 
tempo e do espao combinado com outros, como a data, a hora e o lugar 
dos encon- tros). Em muitos casos, porm, tudo isto  efectuado de 
forma quase auto~ mtica, sem que se torne necessrio dedicar-lhe 
ateno especial. Isto deve-se ao facto de que a actividade social 
global se compe numa medida no marginal de sequncias de aces 
pr-ordenadas, ou seja, de rotinas, que predefinem no s o contedo 
da interaco mas tambm os espaos e os tempos em que est destinada 
a verificar-se. Uma rotina  uma lista de aces, isto , uma 
sequncia fixa, predisposta de tal modo que obtm efeitos de 
coordenao espcio-temporal. A definio da rotina pode ser inten~ 
cional e dirigida a um fim: em muitas actividades lucrativas, existem 
sequncias programadas para regular minuciosamente as relaes entre 
dois ou mais operadores e optimizar a prestao. Noutras situaes, 
as rotinas esto predispostas para os usos e costumes tpicos de uma 
cultura, como as previstas pelas regras de cortesia, ou ento 
constituem o efeito de uma adaptao recproca entre os membros de um 
grupo ou comunidade (pense-se nas sequncias de aces que se seguem 
ao levantar no mbito familiar e regulam o uso da casa de banho, os 
tempos para o pequeno-almoo, etc.). De qualquer modo, para alm da 
sua aparente banalidade, as rotinas representam, no seu conjunto, um 
auxilio indispensvel para a actividade dos indivduos singulares e 
um elemento basilar para a formao de sistemas sociais globais: como 
diz Giddens (1984), todos os sistemas sociais, por grandes e 
extensos que sejam, reflectem as rotinas da vida social quotidiana em 
que se exprimem, com a contribuio das propriedades fsicas e 
sensoriais do corpo humano (pp. 37-38).

Alm da predisposio de sequncias interactivas estandardizadas, em 
todo o contexto social existem outros modos para garantir a 
coordenao espcio-temporal da interaco - por exemplo, os que 
consistem na cria o de apoios artificiais de vrias naturezas. 
Esses suportes so entendidos como urna instrumentao social que 
comporta a aplicao de mtodos codificados e o recurso a tecnologias 
que, por seu turno, pressupem conhecimentos relativaments 
sofisticados. Estes so muito importantes quando a coordenao deve 
acontecer entre numerosos actores que nem sempre operam em co-
presena e se colocam com frequncia em espaos distantes entre si 
cuja interaco abarca um amplo campo temporal. Por

221

conseguinte, tm uma funo decisiva em sociedades como a ps-
industrial, caracterizadas precisamente pela forte interdependncia e 
organizao em vasta escala de muitas actividades.

Segundo Giddens (1990), podem distinguir-se dois tipos essenciais de 
suportes.

O primeiro consiste na criao de emblemas simblicos. Com esta 
expresso, o socilogo ingls alude aos meos de intercmbio que 
podem passar de mo? sem ter em conta as caractersticas especficas 
dos indivduos e dos grupos que os utilizam (p. 32). Um exemplo 
extremamente relevante de emblema simblico  a moeda: o seu 
contributo para a coordenao espcio-temporal  decisivo, pois 
permite realizar transaces econmicas entre indivduos muito 
distantes entre si no s no espao (a moeda pode ser facilmente 
transferida de um ponto para o outro do globo) mas tambm no tempo (a 
moeda  smbolo de um crdito de que se dispe e

pode ser despendida  distncia temporal do momento em que se 
adquiriu). Graas a ela, a econon-a  desagregada, ou seja, 
mantm-se independente de um contexto espcio-temporal limitado e 
reagregada a uma escala muito mais vasta.

O segundo tipo de suporte  representado pelos sistemas peritos, isto 
, sisternas de realizao tcnica ou de competncia profissional 
que organizam amplas reas nos ambientes materiais e sociais em que 
hoje vivemos (p. 37). Garantem, atravs da presena de tecnologias, 
competncias, regras e instrumentos para as fazer respeitar, a 
coordenao de interaces complexas e de largo alcance espacial e 
temporal. Os campos dos transportes e das comunicaes oferecem 
exemplos particularmente evidentes de sistemas peritos. A circula o 
rodoviria funciona graas ao facto de os meios de transporte 
possurem caractersticas tecnolgicas particulares, as estradas 
serem projectadas por peritos por forma a permitir a circulao dos 
veculos, existirem instrumentos (como os semforos) para regular o 
trfego, regras de circulao, escolas de conduo, cdigos de 
estrada, agentes adaptados  represso das infraces, etc. Graas ao 
concurso de tudo isto, realizam-se diariamente, com xito, milhes de 
deslocaes nas cidades e entre elas, e, portanto, est garantida - 
de um modo mais ou menos eficiente - a coordenao de um nmero 
enorme de aces a uma vasta escala geogrfica.

A cidade  um lugar em que a presena de emblemas simblicos e 
sistemas peritos se concentra de uma maneira muito particular. A 
cidade,

conjunto, pode considerar-se uma especie de suporte  coordenano seu 
o da interaco - um suporte de segundo nvel, quando ela est em 
condies de coordenar entre si mltiplos instrumentos de coordenao 
de primeiro nvel. Por exemplo, sistemas peritos que operam no 
campo da actividade econmica como no campo dos transportes, da 
adminis-

222

trao pblica, etc. Alm disso, como afirma Bagnasco (1994), 
retomando o mesmo Giddens, a.cidade pode ser dispositivo de 
coordenao de interaces  distncia e de coordenao entre 
interaces em situaes de co-presena e interaco  distncia (p. 
17). Portanto, pode constituir um meio eficaz tanto para a integrao 
social como para a sstmica, ainda que, obviamente, essa eficcia 
no seja garantida a priori, pois depende do grau de funcionalidade 
das estruturas urbanas, varivel con-

soante os casos singulares.

6. 2. 3. mbitos locais e regionalizao

A actividade de coordenao espcio-temporal da interaco, com o 
apoio de sistemas peritos e emblemas simblicos, tem como efeito a 
estruturao do espao e do tempo, no seio de um sistema social. Isto 
significa que, na aparente continuidade dos espaos e dos tempos, se 
definem mbitos e pontos dotados de caractersticas e significados 
particulares. Pontos e mbitos entendem-se aqui tanto no sentido 
espacial como no temporal. No primeiro caso, correspondem a lugares 
bem definidos no espao fsico prprio de um sistema social, em que 
se combinam de modo recorrente tipos de interaco particulares, que 
se reflectem no ambiente espacial, conferindo-lhe um significado 
especfico e compartilhado. No segundo caso, trata-se de tempos 
sociais em que actuam formas peculiares de interaco. As duas 
dimenses, na sua maioria, apresentam-se cruzadas entre si e, por 
conseguinte, a correspondncia que se determina  a existente entre a 
especificidade da interaco e a de mbitos espcio-temporais bem 
definidos.

Para analisar este processo de estruturao do espao-tempo (com 
nfase sobretudo nos aspectos espaciais), Giddens elaborou, em alguns 
trabalhos dos anos 80, dois importantes conceitos, depois retomados 
por outros autores, embora talvez ainda no se tenham desenvolvido a 
fundo as potencialidades interpretativas.

O primeiro  o conceito designado em ingls pelo substantivo local, o

qual indica propriamente o lugar ou cenrio de eventos especficos. 
Ainda em ingls, o termo evoca a ideia de uma caracterizao do 
lugar, ao contrrio, por exemplo, do mais genrico place, que apenas 
d a ideia de uma posio no espao. Apesar de no ser possvel 
transmitir esta situao em italiano, uma traduo aceitvel de local 
pode ser mbito local 1.

 Parece menos adequada a traduo de local por localidade, 
adoptada na edio italiana de Giddens (1984).

223

Em Giddens (1984), o mbito local  definido como uma regio fsica 
envolvida como parte do ambiente na interaco, dotada de confins 
definidos que contribuem para concentrar de algum modo a interaco 
(p. 363). No mesmo texto, refere-se que esses mbitos so espaos 
usados para fornecer ambientes de interaco, por seu turno 
essenciais para especificar a

contextualidade da prpria interaco (p. 117, itlico do autor). Em 
resumo, portanto, a sua funo  garantir que a interaco social se 
desenrole, por parte dos indivduos envolvidos, num contexto espacial 
preciso e definido -

um contexto reconhecido como tal por todos os indivduos e, por 
conseguinte, apto para favorecer por seu lado a interaco de 
significados reciprocamente compatveis, embora no forosamente 
unvocos.

Do que Giddens diz infere-se que o conceito em causa, embora 
referindo-se a partes especficas do territrio, no alude apenas a 
caracteres fsicos e funcionais do ambiente. O mbito local no  um 
espao funcionalmente especializado. Trata-se, sobretudo, de um ponto 
de referncia num mapa mental que todos os indivduos interagentes 
utilizam de forma anloga. Assim, alm de um lugar fsico,  um lugar 
mental e simblico. Como tal,  luz do que atrs se abordou no ponto 
6. 1. 4, podemos acrescentar que o

mbito local incorpora elementos simblicos que o tornam adaptado 
para fornecer uma moldura oportuna (umaframe) para a aco dos 
indivduos singulares e sua interaco.

As exemplificaes que o prprio Giddens ou outros autores apresentam 
para ilustrar este conceito mostram-nos que no est ligado a uma 
escala espacial especfica. Um mbito local pode ser de dimenses 
limitadas, mas tambm intermdias ou grandes. No caso de mbitos de 
escala Micro, um exemplo apropriado  o da habitao. Uma casa  um 
mbito delimitado por confins fsicos, que distinguem um dentro e 
um fora, mas sobretudo um lugar cuja cultura define significados 
compartilhados e reconhecveis, como espao do privado, da 
intimidade, de relaes afectivamente envolventes, etc. A interaco 
que se desenrola na habitao tem conotaes muito peculiares - no 
s isso  facilmente percebido por quem vive habitualmente nela como 
o visitante ocasional tambm no tem dificuldade em se sintonizar 
nesse comprimento de onda. Estabelecidas as oportunas distines, 
podem reconhecer-se caracteres anlogos em mbitos locais de 
dimenses muito maiores. Podem interpretar-se neste sentido as 
cidades ou ambientes urbanos particulares (as praas, as fbricas), 
regies ou mesmo os territrios nacionais.

Podemos considerar como casos muito singulares de mbitos locais os 
espaos urbanos que Aug (1992) define como no lugares. Trata-se de 
espaos privados de identidade especfica e de alta estandardizao, 
como supermercados, estaes ou aeroportos - ao contrrio dos atrs 
citados, o que os caracteriza  uma propriedade negativa, ou seja, o 
facto de cons-

224

titurem um espao que no cria identidade singular ou relacional, 
que [... 1 no integra nada, apenas autoriza [... 1 a coexistncia de 
individualidades distintas, similares e indiferentes umas das outras 
(ibidem, p. 101). Trata-se, portanto, de mbitos em que o anonimato  
levado a consequencias extremas. Paradoxalmente, porm,  essa sua 
caracterstica que permite interpretar os no lugares como 
verdadeiros e prprios mbitos locais: so
* terreno em que - como o prprio Aug observa - o anonimato favorece
* encontro fortuito, cria pelo menos a sensao iminente de poder 
experimentar em qualquer momento o imprevisto e a aventura (Pucci, 
1996).

Os mbitos locais, como se referiu, derivam de uma estruturao do 
espao, o que implica a aplicao de processos de diferenciao. No 
entanto, apesar de cada mbito ser diferente dos outros, isso no 
impede que, no seu interior, se apresente composto e espacialmente 
articulado. O processo de diferenciao espacial (ou, melhor, 
espcio-temporal), alm de permitir a caracterizao recproca dos 
mbitos, prossegue no interior de cada um deles, contribuindo para a 
caracterizao ulterior de subconjuntos espacias. A esse processo, 
Giddens (1984) d o nome de regionalizao, termo que, por 
consequinte, designa a diferenciao espacial, temporal ou espcio-
temporal de regies, num mbito local ou entre um mbito local e 
outro (p. 363). O conceito de regionalizao , portanto, um 
conceito de alcance muito geral - designa um processo que se 
desenrola em todas as sociedades e a todos os nveis, embora os modos 
como o processo actua mudem com a variao dos contextos e dos 
nveis. Devido a este largo alcance, Giddens atribui grande peso 
terico a esse conceito - no  por acaso que afirma que  
importante para contrabalanar a assuno de que as sociedades so 
sempre sistemas homogneos e unificados (ibid.).

Ainda no caso da regionalizao, podem encontrar-se exemplos a 
diferentes escalas espaciais. A habitao divide-se em partes, nas 
quais a

interaco assume tonalidades distintas, em funo daj recordada 
articulao do espao em zonas de ribalta e bastidores. A cidade 
divide-se em bairros, mas cada um deles prope ainda uma articulao 
entre espaos pblicos e privados, entre lugares de trabalho, de 
residncia, de consumo, etc. s regies espaciais sobrep em-se, 
pois, as temporais - assim, por exemplo, a prpria praa urbana pode 
ser a sede de um mercado de bairro de manh (considerada, portanto, 
um mbito local rico de oportunidades de encontro e troca de 
impresses) e um puro n de trfego  tarde. Uma localidade balnear 
pode assumir aspectos e significados nitidamente distintos durante a 
estao estival e a invernal; um parque natural prximo da cidade 
pode apresentar diferentes aspectos durante a semana ou no fim-de-
semana. De um modo geral, os ritmos semanais, sazonais ou (talvez 
ainda mais) dirios tm grande importncia na regionalizao espcio-
temporal da cidade. A sociologia urbana, nestes ltimos anos, est a 
tomar conscin-

225

cia disso - demonstram-no, entre outras coisas, as investigaes 
sobre o

tema da noite metropolitana (Schlr, 1991; Dal Lago, 1995), que 
assinalam a relevncia de uma regio esp cio-temporal ainda muito 
inexplorada, que, todavia, pertence  cidade, define o seu 
significado social e at a qualidade esttica da regio diurna 
complementar.

6. 3. O nvel macro: redes sociais e sociedades locais

6. 3. 1. As redes sociais e o seu espao

Um contributo importante para o desenvolvimento de uma instrumentao 
terica e metodolgica, para o estudo da interaco e compreenso dos 
processos conducentes  formao de sistemas sociais dotados de 
dimenso espcio-temporal, provm hoje da perspectiva de pesquisa que 
d pelo nome de network analysis (anlise das redes sociais). Na 
realidade, esta linha analtica no representa uma novidade em 
sentido absoluto - tem s costas uma tradio que remonta aos anos 50 
e se desenrola paralelamente aos outros files tericos da 
sociologia, como os focados nas pginas precedentes. Nos anos 80, 
porm, registou-se nos estudos urbanos um rpido aumento do interesse 
por uma abordagem dos fenmenos territoriais baseada na ideia da 
ligao  rede - como j se viu (em especial, no ponto
2. 4), essa abordagem foi aplicada sobretudo a uma escala 
macroterritorial, para explicar a nova estrutura das relaes entre 
as cidades, derivadas das transformaes econmicas e tecnolgicas da 
fase ps-fordista. Um efeito indirecto desse crescimento de prestgio 
do paradigma reticular, em especial no campo dos estudos geogrficos 
e urbansticos em pases como a

Itlia ou a Frana, foi de um regresso de ateno aos prprios 
confrontos da agora consolidada abordagem sociolgica da network 
analysis, a propsito da qual comearam a entrever-se 
potencialidades, at agora ignoradas, de evoluo terica em direco 
a uma sociologia espacialista.

As bases da network analysis foram estabelecidas, inicialmente, pela 
escola antropolgica de Manchester (Mutti, 1996). Uma das primeiras 
aplicaes refere-se ao contexto assaz limitado de uma aldeia 
norueguesa (Bames,
1954). Para descrever a estrutura das relaes de conhecimento 
directo entre os habitantes, Bames serve-se do conceito de rede 
social, de que oferece uma definio intuitiva: Imagino uma srie de 
pontos, alguns dos quais unidos por linhas. Representam os indivduos 
ou, por vezes, grupos, e as linhas indicam que as pessoas agem entre 
si. Podemos certamente pensar que toda a vida social constitui uma 
rede deste tipo (ibidem, p. 43).
226

Os pontos singulares de uma rede (habitualmente chamados ns) so, 
pois, sujeitos sociais individuais ou colectivos e as linhas de unio 
(ou arcos) simbolizam a existncia de uma relao social entre esses 
sujeitos ou, pelo menos, a presena de fluxos de permuta. A este 
respeito, pode acrescentar-se que as linhas de unio podem ser 
imaginadas como flechas monodireccionais ou bidireccionais. No 
primeiro caso, a permuta efectua-se numa nica direc@o (a indicada 
pela flecha), enquanto no segundo tem o carcter da reciprocidade e, 
por conseguinte, revela a presena de uma relao social, no pleno 
sentido do termo.

Se pensarmos em toda a estrutura das relaes sociais - prprias de 
uma dada sociedade num determinado momento - como uma rede, esta 
ltima apresenta-se extremamente intrincada e longa. Decerto seria 
impens vel propor representar ou analisar pormenorizadamente uma 
rede deste tipo. Para que o conceito de rede seja til para a anlise 
social, e dotado de um valor operativo,  necessrio que haja uma 
delin-tao da rede considerada nos contextos singulares de pesquisa 
- esta delimitao destina-se a isolar, com base em critrios 
analticos dependentes dos objectivos do estudo, uma poro 
especfica de toda a rede relacional. Ora, uma operao deste tipo 
pode executar-se segundo duas modalidades fundamentais, a que se 
junta uma terceira, derivada da combinao das duas primeiras. Em 
funo da modalidade utilizada para a delimitao, podem definir-se 
trs tipos correspondentes de redes (Hannerz, 1980, p. 317).

1. A rede egocentrada define-se partindo de um ponto preciso da 
estrutura de relaes, ou seja, de um indivduo especfico (que, no 
caso em questo, funciona como ego, ou, por vezes, de dois indivduos 
ligados por uma relao (por exemplo, um casal conjugal). A rede  
reconstruda analisando em primeiro lugar as relaes que unem o ego 
aos outros indivduos e depois considerando as que unem os outros 
entre si, para em seguida prosseguir, eventualmente, examinando 
tambm quais as relaes entre estes ltimos e terceiros indivduos, 
e assim sucessivamente.

2. A rede parcial. Neste caso, o critrio de delimitao da rede  
relativo  natureza das relaes consideradas (por exemplo, na 
estrutura global das relaes prprias de uma sociedade, s se tomam 
em considerao as de natureza poltica).

3. A rede egocentrada parcial. Aqui, os dois critrios anteriormente 
citados so combinados entre si (por exemplo, constr-se uma rede 
egocentrada que s toma em conta relaes polticas).

Uma vez definida a rede, pode estudar-se a sua estrutura e as suas 
propriedades. Uma vantagem da representao da estrutura relacional 
em termos de redes reside na possibilidade de lhe aplicar mtodos 
analticos formalizados, derivados sobretudo da teoria matemtica dos 
grafos e, em parte, da teoria dos sistemas. Alm disso, a rede pode 
ser estudada tanto na sua

227

dimenso esttica como na dinn-ca. Neste ltimo caso, procura-se 
interpretar, com o recurso a representa es matemticas, os 
caracteres que a

evoluo global assume no tempo e no espao, ou seja, as 
configuraes sucessivas que a rede apresenta em momentos de tempo 
sucessivos e as

funes que explicam a passagem de uma configurao para outra.

Uma propriedade de part@cular interesse, que caracteriza uma rede num 
dado momento,  a sua densidade. Dado um conjunto de indivduos 
ligados em rede mediante um conjunto de relaes, define-se a 
densidade da rede

como a relao entre os laos efectivamente estveis ontre os 
indivduos e os que seriam teoricamente possveis, desde que cada 
indivduo estivesse ligado a todos os outros.

FIGURA 6. 1. Esquema de uma rede social

Por exemplo, no caso da figura 6. 1, a rede esquematizada compreende
5 indivduos, entre os quais se definem 6 relaes. Se todos os 
indivduos estivessem ligados a todos os outros, as relaes seriam 
10. A densidade da rede , portanto de 6110, ou seja, vale O,6.

Como  evidente, a densidade mxima situa-se em 1, atingida pelas 
redes em que todos os indivduos esto efectivamente ligados entre 
si. Nesse caso, a rede em causa assume o nome de conventculo (ou 
clique).

Uma rede pode, pois, dividir-se em subconjuntos, caracterizados por 
diferentes densidades: por exemplo, em tomo de alguns ns da rede 
podem observar-se conventculos, enquanto outras podem ter menor 
densidade.

Esta ltima  uma propriedade que depende unicamente de caracteres 
formais da rede, entre os quais a numerosidade dos indivduos e a das 
relaes que os unem. Ao invs, outras propriedades fazem aluso  
natureza das relaes, ou seja, ao contedo social da ligao que 
estabelecem. Uma

228

propriedade interessante deste tipo  constituda, por exemplo, pela 
intensidade das relaes predominantes no interior de uma rede. Nesse 
sentido, podemos distinguir entre as relaes que estabelecem 
ligaes (ou, como se costuma dizer, laos) fortes e fracos. Os 
laosfortes implicam um intenso empenho emocional dos indivduos 
envolvidos, uma partilha relativamente ampla de interesses de vrios 
tipos, uma relativa estabilidade do lao. Os laos fracos distinguem-
se por um empenho emocional mais baixo, baseados tendencialmente na 
partilha de interesses especficos, e podem ter um carcter 
temporrio.

Entre a densidade de uma rede e a intensidade das relaes nela 
prevalecentes pode definir-se algum nexo, ainda que se trate, 
obviamente, de um nexo de carcter apenas probabilstico. Numa rede 
constituda unicamente por laos fortes, a densidade tende a ser 
elevada - os indivduos unidos por laos muito intensos a um terceiro 
so induzidos a estabelecer laos da mesma natureza entre si, fazendo 
evoluir a rede para o tipo ideal do conventculo. Pelo contrrio, se 
na rede predominam os laos fracos, tende a estender-se para o 
exterior, envolvendo novos indivduos, assim como a completar, no seu 
prprio interior, o quadro das liga es potenciais entre os 
indivduos j envolvidos. Deste ponto de vista, como demonstrou um 
clebre artigo de Granovetter (1973), os laos fracos esto 
paradoxalmente dotados de uma fora peculiar, que deriva do facto 
de serem propensos a ran-iificar-se, criando ligaes que 
inicialmente poderiam parecer improvveis entre indivduos 
heterogneos e, desse modo, conferindo s redes dinmica e abertura 
(Stagni, 1990b).

Alm das propriedades formais e as relativas ao contedo social, as 
redes distinguem-se pela propriedade espcio-temporal. Isto deriva do 
facto de os indivduos se ligarem a outros, at formarem redes, 
atravs dos comportamentos interactivos, que, como se viu, implicam a 
coordenao espacial e temporal das aces. A rede assim constituda 
possui, pois, uma valncia espcio-temporal intrnseca - as 
interaces entre os indivduos sucedem-se no quadro de mbitos 
locais especficos e a sua repetio obedece a ritmos temporrios que 
so significativos para a caracterizao da rede.

Para nos limitarmos aos aspectos espaciais, podemos mais uma vez 
salientar a diferena entre redes que funcionam predominantemente por 
meio de interaces em co-presena ou  distncia. No primeiro caso, 
pode dizer-se que a rede tende a ser contida num espao geogrfico 
local dotado de contiguidade entre as partes que o constituem, de 
dimenses limitadas. No segundo, a rede pe em contacto recproco 
indivduos que operam em entidades espaciais no contguas entre si, 
situadas em pontos do territrio distantes entre si. Em ambos os 
casos, podemos afirmar que a rede tem uma forma espacial precisa, mas 
no primeiro trata-se de uma forma contnua, enquanto no segundo  
descontnua (Mela, 1992).

229

Se considerarmos de forma combinada propriedades espaciais dos 
sistemas e propriedades de outra natureza, poderemos construir 
instrumentos conceptuais para classificao das redes e para a sua 
anlise. A ttulo de exemplo, podemos cruzar duas propriedades das 
redes, j citadas atrs: a densidade e a forma espacial. No primeiro 
caso, considera-se unicamente a alternativa entre redes de alta e 
baixa densidade; no segundo, consideram-se, por um lado, as redes com 
predomnio de interaces de co-presena, de forma contnua, e, por 
outro, as redes com predomnio de interaces  distncia, de forma 
descontnua. Do cruzamento, resultam os quatros tipos indicados na 
tabela 6. 1.

TABELA 6. 1. Uma tipologia de redes

Forma contnua

Forma descontnua

Alta densidade    Redes <comunitrias>, tradicionais Redes 
comunitrias  distncia Baixa densidade   Redes societrias 
locais     Redes societrias,, supralocais

As redes de alta densidade caracterizam os campos de interaces que 
mais se aproximam do modelo que a sociologia clssica define como 
comunitrio. Em particular, o tipo de forma contnua acerca-se do 
modelo da comunidade tradicional identificada com uma rea de 
dimenses limitadas (por exemplo, uma aldeia tradicional), enquanto o 
de forma descontnua corresponde ao modelo da comunidade  
distncia (como a formada pelos cientistas que praticam uma certa 
disciplina, ou as chamadas comundades electrnicas). Ao invs, as 
redes de baixa densidade caracterizam unidades sociais do modelo 
societrio - em particular, no tipo de forma contnua trata-se de 
unidades de base local (como os contextos urbanos ou regionais), 
enquanto o de forma descontnua corresponde a estruturas sociais de 
amplo raio e liga relaes  distncia (por exemplo, redes de 
relaes econmicas ou polticas  escala internacional).

6. 3. 2. As sociedades locais

Para completar o estudo da estratgia terica espacialista, de que 
nos estamos a ocupar neste captulo, falta um aspecto essencial: 
introduzir conceitos relativos ao nvel macro da anlise 
sociolgica que permitam compreender de que modo, a partir de um 
conjunto de interaces sociais e de redes de relaes dotadas de uma 
forma espcio-temporal, venham a for-

230

mar-se sistemas sociais coerentes, dotados de uma identidade espacial 
e

capazes de se reproduzir no tempo.

Na tradio sociolgica, este nvel  representado pelo estudo dos 
grandes sistemas sociais e, em primeiro lugar, das sociedades. O 
termo sociedade costuma empregar-se para indicar uma colectividade 
humana organizada de modo suficientemente estvel e considerada na 
globalidade das relaes que lhe dizem respeito. Este conceito, de 
relevncia central para a sociologia, recebeu por vezes definies 
que prescindem da dimenso espacial e temporal ou, no melhor dos 
casos, admitem genericamente que a sociedade  urna colectividade 
situada estavelmente num lugar determinado e composta de indivduos 
e grupos cuja vida dura um certo lapso de tempo (D'Amato, Porro, 
1985). De facto, na linguagem sociolgica, as sociedades
-  falta de ulteriores precises - consideram-se quase sempre 
dotadas de uma dimenso espacial implcita, correspondente  de um 
Estado nacional. Alis, este hbito encontra reflexo na prpria 
linguagem da vida quotidiana
- se se ouve falar de uma sociedade, -se levado quase 
instintivamente a

pensar, como em exemplos possveis, em sociedades  escala nacional, 
como a italiana, a francesa ou a americana.

Apesar do que se acaba de referir, na histria da sociologia tambm 
est presente outro filo, em que figura a anlise de colectividades 
estavelmente referidas a um territrio, mas a uma escala muito mais 
reduzida. Trata-se de um filo de estudos, de carcter 
predominantemente emprico, que d pelo nome de estudos de 
comunidades 2       e compreende pesquisas clebres como aj 
recordada dos Lynd (1929; 1937) ou as de Warner (1963), Banfield 
(1958) e muitos outros. Nesses estudos, a dimenso territorial 
considerada , na maioria dos casos, a de um centro urbano de 
dimenses mdo-pequerias ou de um aglomerado rural ou de uma rea de 
nvel sub-regional - este ltimo , por exemplo, o caso de algumas 
pesquisas desenvolvidas em contextos italianos de urbanizao difusa 
(Bagnasco, Trigilia,
1985). O que qualifica estes trabalhos como anlises de 
microssociedades, ou seja, de sociedades locais,  a metodologia 
aplicada, que prev um

reconhecimento sistemtico em diversos campos em que se articula a 
vida social (economia, poltica, cultura, instruo, religio, 
emprego dos tempos livres, etc.) e, sobretudo, a inteno global da 
pesquisa, que consiste em salientar os factores de coerncia entre as 
vrias manifestaes da actividade social, em relao  
especificidade do ambiente e do territrio. A individualizao desses 
factores leva  compreenso dos processos que

1 Neste filo de pesquisa, o termo comunidade no indica forosamente 
a Gemeinscha,ft tormiesiana, mas muito simplesmente uma colectividade 
de base territorial, examinada com uma abordagem clnca (Bagnasco, 
1992b).

231

conferem a uma colectividade local uma identidade capaz de se 
reproduzir e evoluir no tempo. Simultaneamente, comporta uma 
referncia contnua aos elementos caractersticos do contexto 
espacial examinado, alm de referncia s modalidades temporais de 
manifestao da vida social.

O filo dos estudos de comunidades, portanto, pratica um tipo de 
anlise sociolgica que, mais do que outros, se aproxima da ideia de 
uma sociologia espacalista. No entanto, isso raramente produziu uma 
elaborao explicitamente voltada para a definio de conceitos teis 
para a compreenso terica do papel do espao e do tempo na 
constituio de uma sociedade local. Alm disso, tendo-se dedicado em 
primeiro lugar  investiga o sobre contextos territoriais de 
pequena escala, obteve, na maioria dos casos, resultados no aptos 
para a transposio para contextos mais amplos. A referncia a essa 
linha de pesquisa , por conseguinte, necessria, mas no se pode 
considerar suficiente.

De resto, recentemente, foram avanadas algumas propostas conceptuais 
que pretendem colmatar as lacunas tericas at agora mencionadas. 
Neste sentido, por exemplo, encontra-se a definio de sociedade 
local contida em Dickens (1990) e, no por acaso, entendida como o 
complemento necessrio do conceito de mbito local. Este  um espao 
fsico, conotado socialmente com as relaes sociais que se 
desenrolam. Contudo, segundo ele observa, h que dispor de um 
conceito mais forte para exprimir a ideia de que o ambiente em que as 
pessoas se movem [    ... ]  constitudo por sistemas socias (pp. 
20-21). Por esse motivo,  introduzido o conceito de sociedade local, 
que evidencia precisamente a dimenso sistn-fica da vida social, nas 
suas relaes com um territrio.

Assim, a sociedade local  um sistema que manifesta uma coerncia 
interna capaz de lhe conferir propriedades auto-organizativas e uma 
identidade reproduzvel no tempo, embora isto no implique de modo 
algum que esta permanea constante, nem que esteja ausente o conflito 
entre sujeitos individuais ou entre organizaes pertencentes ao 
sistema.

Como o mbito local, tambm a sociedade local no remete auto~ 
maticamente para uma dimenso espacial pr-definida - o conceito pode 
aplicar-se a sistemas de pequena dimenso (a unidade residencial), de 
escala intermdia (a cidade) ou mesmo muito grande (a sociedade 
nacional). Neste ltimo caso, porm, no se tem um regresso puro e 
simples  concepo sociolgica tradicional da sociedade. O adjectivo 
local no s distingue o nvel considerado do da omnicompreensiva 
sociedade global ( escala planetria), mas reala sobretudo o facto 
de que o sistema social de que se fala  constitudo por relaes 
significativas com espaos individuais, com mbitos locais em que 
actuam processos de regionalizao, e  inervado de redes de relaes 
sociais espacializadas, que operam atravs de uma coordenao 
espco-temporal constante dos indivduos. As sociedades locais

232

insistem num dado territrio, de cujos recursos se socorreram e 
socorrem no seu prprio desenvolvimento. Ao mesmo tempo, esse 
territrio foi modelado no tempo em funo das caractersticas que o 
sistema social assumiu nas vrias pocas. Por conseguinte, a histria 
passada e presente do sistema social e a do territrio no podem 
estar compreendidas seno na sua interaco recproca, a qual, bem 
entendido, no exclui contrastes e, em quase-limite, at roturas 
irreversveis, que determinam a desestruturao da sociedade local.

6. 3. 3. Integrao horizontal e vertical

A insistncia com que se salientou a relao entre uma sociedade 
local e um conjunto de estruturas espaciais no deve, porm, dar 
origem a um possvel equvoco (de resto, tambm, tpico de muitas 
interpretaes tradicionais do problema): a sociedade local no  
auto-suficiente, mas constitui sempre - embora em vrios graus - um 
sistema aberto nos confrontos dos outros sistemas territoriais. A sua 
relao com um espao especfico no depende de condies hipotticas 
de isolamento nos confrontos de contextos mais amplos, mas deriva, ao 
invs (como se tentou demonstrar at aqui), da natureza 
intrinsecamente espcio-temporal das interaces que a constituem.

Este esclarecimento  particularmente importante, se se pretende usar 
o conceito de sociedade local para interpretao da cidade 
contempornea. Com efeito, poderamos perguntar-nos at que ponto  
sensato atribuir o adjectivo local a entidades como as cidades da 
poca ps-industrial, caracterizadas por um elevado grau de 
interdependncia, num cenrio internacional. E, obviamente, a 
resposta no poderia deixar de ser negativa, se o termo fosse 
empregado para exprimir a ideia do isolamento e das dimenses 
limitadas. Mas, como se viu, as coisas apresentam-se de um modo muito 
diferente, pelo menos em referncia  linha terica aqui considerada.

Se estas observaes semeiam o terreno de possveis equvocos de 
ordem conceptual, afirmando a compatibilidade de princpio entre a 
natureza sstrnca da sociedade local urbana e a sua abertura ao 
exterior, permanece, porm, em aberto uma dvida muito importante, 
respeitante aos modos com que se realiza, nos contextos urbanos 
singulares, o equilbrio entre a coerencia interna e a abertura dos 
subsistemas singulares de redes de largas dimenses. Em termos 
explcitos, a questo pode formular-se assim: a ideia de que a cidade 
 uma sociedade local, dotada de coerncia sistn-ca e capaz de se 
auto-organizar, aplica-se sempre a todos os contextos urbanos? Ou no 
ser verdade que, em alguns casos, sobre a coerncia interna 
prevalecem fenmenos de ligao de elementos especficos da realidade 
urbana

233

(por exemplo, de actividades econnu"cas ou polticas particulares) a 
uma escala internacional, fazendo da cidade um conjunto de ns 
ligados entre si? Posta assim, a pergunta remete para um juzo sobre 
casos particulares e no pode, pois, ser resolvida com formulaes 
abstractas. Contudo, nesta sede, pode pelo menos propor-se um esquema 
lgico, susceptvel de ser

seguido para proceder a uma reflexo no campo problemtico que as 
interrogaes anteriormente formuladas definem.

Neste esquema, o ponto de partida  representado pela considerao 
das redes (espacializadas) de relaes observveis em qualquer 
contexto urbano e que organizam a vida social. Essas redes tm em 
primeiro lugar o carcter de parciais, ou seja, ligam os indivduos 
da base ao contedo da sua interaco ou, se se quiser, aos centros 
de interesse (Feld, 198 1) em que se focalizam. Teremos, pois, uma 
multiplicidade de redes parciais heterogneas entre si, mais ou menos 
densas e aptas para estabelecer laos de intensidades diferentes. A 
prpria dimenso espacial das redes variar em virtude da prevalncia 
de interaces em co-presena ou  distncia. Podemos certamente 
afirmar que a maior parte delas tende a prolongar-se, por meio de 
alguns dos seus ns, para alm dos confins da cidade (alis, sem-

pre imprecisos e difceis de definir), ligando as redes urbanas s 
outras homlogas de escala regional, nacional ou mundial. Assim, por 
exemplo, a rede que liga os decisrios pblicos em mbito comunal 
estar sempre unida aos outros ns do sistema poltico de mbito 
regional, nacional ou eventualmente internacional.

Ao mesmo tempo, todavia, ao nvel urbano, verifica-se tambm uma 
ligao entre redes de diversas naturezas, sempre atravs da via 
representada por ns situados em posies particularmente favorveis. 
Concretamente, o exemplo de que as redes de transaces econn-cas 
se ligam s da deciso e participao poltica, que estas ltimas se 
ligam s da actividade cultural, e cada uma delas, por meio de 
indivduos especficos, entra em ligao com mltiplas redes de 
relaes privadas (parentais, amigveis, de vizinhana), e assim 
sucessivamente.

Este complexo processo de interconexo pode, portanto, esquematizar-
se falando de um duplo processo de integrao (Bagnasco, Negri, 1994; 
Mela, Preto, 1995) que envolve as redes urbanas e compreende - embora 
com dosagens diferentes - fenmenos de integrao sistmica e social.

1. Por um lado, h a integrao que se pode denominar horizontal. 
Trata-se do processo que produz integrao de redes parciais de 
vrias naturezas no plano local, ou seja, no caso vertente,  escala 
urbana. Desse modo, as redes sobrepem-se e condensam-se 
estabelecendo canais de ligao entre indivduos heterogneos e 
definindo, no plano espacial, contactos e sinergias entre mbitos 
locais diferenciados. O desenvolvimento da integrao horizontal, at 
ao ponto de uma tenso tendencial de ligaes

234

a todas as redes parciais mais significativas  escala urbana, faz 
com que a cidade possa ser considerada uma rede das redes (Hannerz, 
1980) e confere-lhes o carcter de verdadeira sociedade local.

2. Por outro lado, h a integrao vertical. Trata-se do processo que 
produz a integrao de cada rede parcial, referida a um contexto 
urbano, com outras redes da mesma natureza num contexto espacial mais 
alargado. Desse modo, as redes locais prolongam-se para o exterior e 
estabelecem ligaes entre indivduos que operam  escala urbana e 
outros com um raio de aco mais amplo. O desenvolvimento da 
integrao vertical tende a fazer com que os mbitos locais urbanos, 
significativos para cada tipo de rede, se tornem regies 
especficas de mbitos locais de mais ampla dimenso espacial. A 
cidade configura-se cada vez mais como um contentor de ns locais 
de redes globais.

Se  verdade que, em todos os casos, a cidade est simultaneamente 
interessada em ambos os processos de integrao, no o  menos que 
estes se podem produzir com graus de intensidade e xitos muito 
diferentes. Em alguns casos, a integrao horizontal prevalece sobre 
a vertical: muitas das pequenas cidades de provncia, analisadas no 
mbito dos estudos de comunidades, revelam precisamente um fenmeno 
deste gnero. A estrutura social urbana apresenta-se compacta e 
coesa, mas o sistema urbano ocupa um papel secundrio nas redes de 
nvel nacional. Noutras situaes,  a integrao vertical que 
prevalece - pode ser o caso de cidades que so sedes de importantes 
unidades locais de empresas multinacionais, ou que albergam 
instituies internacionais. Os ns relativos  actividade dessas 
empresas, ou instituies, podem desempenhar papis decisivos em 
larga escala, mas tm escassas ligaes com os ns das outras redes 
locais (as da poltica comunal, do comrcio local, etc.).

Alm disso, como  intuitivo, os processos de integrao vertical no 
so reciprocamente independentes, mas esto ligados por fenmenos de 
retroaco que, de resto, podem produzir efeitos diversificados com a 
variao dos contextos. H casos em que o incremento da integrao 
vertical tem efeitos de retorno positivos, mesmo sobre o incremento 
da integrao horizontal. So exemplos disso algumas metrpoles de 
sucesso, em especial as pertencentes  categoria que Savitch e 
Kantor (1995) denominam de planning cities (cidades do plano), como 
Amesterdo ou Toronto -

estes centros souberam conquistar um papel de primeiro plano no 
sistema econmico mundial, mas fizeram-no com base num projecto de 
longo prazo, que mobilizou muitos operadores e redes decisrias 
locais e no exclui uma ateno para as polticas sociais urbanas. Em 
contrapartida, tambm no faltam situaes em que o aumento da 
integrao vertical para um nmero lin-tado de actividades urbanas 
tem o efeito de desarticular a sociedade local, segmentando-a em 
mbitos sociais e territoriais no comunicantes

235

e induzindo efeitos de dependncia de redes exteriores. O caso mais 
evidente  representado por muitas metrpoles do Sul do mundo, em que 
o duplo circuito da economia urbana (analisado no ponto 2. 2. 3) 
produz uma

ciso entre o segmento internacional das redes sociais e o local, 
a qual se reflecte imediatamente no plano espacial do contraste 
violento entre o

centro dos negcios denso e construdo segundo as tendncias 
estilsticas em voga e os bairros pobres, estendidos em todas as 
direces e constitudos por habitaes autoconstrudas, com material 
por vezes de refugo. Embora com efeitos menos dramticos, um efeito 
de afastamento entre a integrao vertical e a horizontal  
observvel, na fase actual, mesmo em muitos centros do Norte do 
mundo, sobretudo naqueles em que falta (por escolha ou incapacidade 
poltica) a presena de um plano estratgico ou ento de um projecto 
de desenvolvimento exposto  discusso pblica, que oriente as 
modalidades de actuao dos processos de globalizao econmica e 
cultural. Mesmo nestes casos, o efeito mais imediatamente perceptvel 
 o do dualismo urbano, da formao de bolsas de nova pobreza urbana, 
do aumento das tenses e do grau de insegurana. Estes fenmenos no 
se

devem enfatizar forosamente ao ponto de ver neles o preldio de uma

extino in-iinente (ou mesmo j ocorrida) da cidade como sociedade 
local -

na realidade, os desequiliffirios e tenses so aspectos que tm 
caracterizado a maior parte das formas historicamente conhecidas de 
cidades, ainda que com manifestaes diferentes das actuais. De 
qualquer modo, o afastamento em causa representa um factor de 
enfraquecimento da sociedade urbana -

factor esse que, com toda a probabilidade, no deixar de produzir 
efeitos negativos, a mdio prazo, na prpria eficcia da integrao 
vertical das redes parciais.

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Ritmi nascosti. Orari e calendari nella vita sociale, il Mulino, 
Bolonha, 1985).

249

NDICE REMISSIVO

aco situada 208, 209, 220 actividades debaselactividades de servio 
80 ambiente interior 192, 196,200 mbitos locais 223-225, 229, 232-
235 antropologia urbana 18, 154 reas

metropolitanas 47,48,70,78,85,87,94,

97,101,105,111,115,138,139,164,
166-168, 172, 173, 179, 187 naturais 25 arquitectura ps-modema 130, 
132, 133 arte de se expor 155 assimilao 25, 175 atitudes blas 35 
aura 149 auto-estradas informticas 84 autmatos celulares 191

barreiras arquitectnicas 202 biticolcultural 25, 194, 196

carnadasmdias 32,106,107,168,169,211 carreiramoral 110, 111 carrying 
capacity 199 centro-periferia (mundiais) 45, 52, 53 centros de 
interesse 234 cidades

da cincia 89 da informao (informational city) 152 duais, cf. 
dualismo urbano fordista 65, 71, 97, 98, 118, 138, 180 novas (new 
towns, villes nouvelles) 170 citizenry 121

city users 181-183 cluster analysis 24, 40 coligaes 114-117 
comensalismo 88, 189 comunidades-sociedades 30, 230, 231 comunidades 
de vizinhos 36 condio ps-moderna 32, 127, 128, 130,

136 continuum urbano-rural 31 contra-urbanizao 167 conventculo 
228, 229 coordenao e spcio- temporal 220-222,

232 construo social do patrimnio

simblico 147-149 co-urbao 166, 169 crescimento urbano 25, 45-47, 
50, 51, 56,

61,64,98,123,166,168,193 cultural planning 161

demografia 18 densidade (das redes) 228-230 desurbanizao 165, 166 
determinismo arquitectnico 201 deurbanizao, cf. desurbanizao 
difusolintensificao cultural 141 difuso urbana 32, 165, 167, 172 
diviso internacional do trabalho 37,49, 52,

75 domnio 25 dualismourbano 111-114,138,168,172,236

ecodesenvolvimento 54

251

ecologia factorial 24, 25, 184 humana 22-25 economia do espao 18, 
69, 80 economia-mundo (teoria da) 52 economias

de diversificao (scope economies) 77 de localizao 77 de 
urbanizao 69 ecossistemas 164, 192, 194, 195, 199, 200 edge city 
169 emblemas simblicos 222, 223 empresa motriz 70, 78, 80 enclave 
176, 185 escola

de Chicago 20-25, 163, 164, 175, 194 regulacionista 29 espacializao 
social 148 espao

dos fluxos 79, 84, 152 defensvel 202 pblico 142, 150-154, 156, 201, 
203,

204,216,225 espaos hiper-regulados/espaos sub-regu-

lados 203, 204 esquema corporal 210 estigmatizao territorial 145 
estudos de comunidades 17, 231, 232, 235 exopole, cf. edge city

fbrica integrada 76-78 fases (da inovao) 63 frame 215-217, 224

gendered space 141 gnero (diferenas de) 54, 132, 141, 142, 178 
gentrification 113, 168, 171, 172 geografia urbana e regional 18 
glosas do corpo 214, 218 growth machine 116 gueto 113, 176

hiperpluralismo 116

identidade das cidades 147, 149 identidade relativa  cidade 145, 146 
imagem da cidade 145, 147, 148, 161, 186

indicadores do desenvolvimento 53,160,161 ndice

de dissimilaridade 178, 180 de segregao 177-180 instintos 
territoriais 201 integrao

horizontal/vertical 233-236 sistmica/social 220, 223, 234 
interacesdistncia/emco-presena 211,

217-220, 223, 230, 234

laos fortes/fracos 229

macrocefalia urbana 56 mediador 125 melting pot 175 mercado do 
trabalho urbano 39,57,80,104,

105, 111 metropolitan businessman 182 milieu urbano 39, 88, 89, 115, 
161 misria 109 modelo

de crculos concntricos 25, 184, 185 de sectores 25, 185 dicotmico 
30, 32 do estatuto tnico 175 racional-compreensivo 122-124 modo de 
vida urbano 21, 32 morfologia social (in Durkheim) 23 movimentos

feministas 29, 141 gay 29,140,147

no lugares 224 narcisismo 137 neoliberalismo 98, 100 network 
analysis 226 novas pobrezas, cf. pobreza novas pobrezas urbanas, cf. 
pobreza

ondas longas da economia 60, 62, 63, 65 operrio-massa 94 orientao 
espacial 210

parques tecnolgicos 89 pendulares 25, 97, 120, 168, 169, 181-183 
percepo do espao 135, 210, 211

252

planificao 89, 93, 121-126, 143, 144,
170, 183, 188 estratgica 124, 236 planning cities 235 planos 
reguladores dos horrios 143 pobreza 39, 100, 108-111, 113, 145, 185,

236 political economy 21, 28, 111, 163 plos de desenvolvimento 70, 
80, 88 populaes urbanas 180-183, 188, 198, 200 privacidade 212, 219 
prossrnica 211 psicologia ambiental 18

qualidades da vida (urbana) 19, 115, 142,

197,198,200 quartered city 112

reciprocidade 33, 54, 220, 227 redes

econmicas 80, 81, 113, 123, 234 sociais 109,110,119,123,208,226-230,

233-236 urbanas (redes de cidades) 36, 81, 84,

152,234,235 regenerao urbana 160, 161 regime urbano 117 regimes de 
acumulao 29 regies C 87 Regional Science (cincia regional) 19, 
190 regionalizao 223, 225, 232 relaes ecolgicas 163, 188, 189 
reurbanizao 168, 170 revoluo

industrial 44, 46, 47, 60, 66, 74, 137 neoltica 44, 127 
ribalta/bastidores 216, 217, 225 rotina (sequncia de aces) 212, 
221 rurbanizao 170

sector informal (da economia) 54, 59, 60,

112 segregao 37, 39, 113, 174-180 semiperiferia (mundial) 52 
sentido cvico (civicness) 117-119

sentimentos de pertena 144, 146, 147 serendipity 153, 154 simbiose 
88, 189 sistema auto-organizado 190, 191 sistemas

abstractos 135 peritos 222 social area analysis 24, 185 sociedades

da informao 7 5, 111 locais 34,44, 53, 54, 226, 230-233, 235,

236 sociologia

do ambiente 17 do turismo 17 da habitao 17 das comunidades locais 
17 das migraes 17 espacialista 33, 205-208, 226, 232 regional 17 
rural 17 solidariedade mecnicalsolidariedade org-

nica 31 stress urbano 201 subdesenvolvimento 39, 46, 53 substrato 23 
suburbanizao 105, 168-170 sustentabilidade ambiental 37, 39, 197-
199,

200

tecnoplo 89 teletrabalho 83 territrios do si 213 texto urbano 153, 
154 tidal wave 166 tribo urbana 155, 156

Umwelt 214 underclass 107, 168. urban political economy, cf. 
political

economy urbanstica 19, 70, 121-124, 131, 142, 201,

203

weffiare state (estado do bem-estar) 55, 93,

95-101, 108, 111, 122, 159

253

Publicados:

1 - A ECONOMIA DE LUANDA E HINTERLAND NO SCULO XVIII

- UM ESTUDO DE SOCIOLOGIA 1 Jos Carlos Venncio

2 - DESIGUALDADES SOCIOECONMICAS E SEU IMPACTE

NA SADE 1 Maria do Rosrio Giraldes

3 - DIVRCIO E SEPARAO EM PORTUGAL - ANLISE SOCIAL

E DEMOGRFICA (SCULO XX) 1 Pedro Delgado

4 - SOCIOLOGIA DA FAMLIA. 1 Chiara Saraceno

5 - A COMUNICAO COMO PROCESSO SOCIAL 1 Pio Ricci Bitt

e Bruna Zani

6 - EQUIDADE E DESPESA EM SADE / Maria do Rosrio Giraldes

7 - ECONOMIA E SOCIEDADE EM ANGOLA - NA POCA

DA RAINHA JINGA (SCULO XVII) 1 Adriano Parreira

8 ~ MANUAL DE SOCIOLOGIA DA CULTURA 1 Franco Crespi

9 - INTRODUO  SOCIOLOGIA 1 Michel de Coster

10 - A SOCIOLOGIA DAS CIDADES / Alfredo Mela
